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Full text of "As aventuras do Sr. Pickwick, romance"

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Ltçboà ^ 



As Aventuras 



Sr. P 



DO 



ICKWICK 



ROMANCE 

DE 



Charles Dickens 



VF.RSAO PORTUGUEZA - 



Henrique Lopes de Mendonça 



"V^olvirne I 



LISBOA 

"ti.. — 
TypoGRAPHiA^-' Rua da Barroca, n." 73, 2.° andar 

" 1897 .^ 



DEC 2 o 1967 



^i^í-Ti' Cf ^^'':.^ 



•«5i J 



As Aventuras do Sr. Piclíwíck ' 



CAPITULO I 
Os píckwickanos 



O primeiro raio de luz que illumina as trevas, e converte 
em deslumbrante esplendor aquella obscuridade em que pa- 
receria envolver-se a primitiva historia da carreira publica do 
immortal Pickwick, provém da leitura do seguinte aponta- 
mento contido nas Actas do Club Pickmck, o qual o editor 
doestes papeis tem o extremo prazer de expor aos olhos dos 
leitores, como prova da cuidadosa attençao, de infatigável as- 
siduidade e de excellente discernimento, com que foram con- 
duzidas as suas investigações por entre os múltiplos doeu 
mentos a elle confiados, 

<'i2 de maio de 1827. Presidente: Joseph Simggers, Esq., 
V. P. P. S. C. P. ~ Tomadas por unanimidade as seguintes 
decisões : 

<-Que esta x^ssociação ouviu ler, com sentimentos da mais 
pura satisfação e de incondicional applauso, a nota communi- 
cada por Samuel Pickwick, Esq., P. G. S. C. P., ^ intitulada: 
Considerações sobre a origem das lagoas de Hampstead^ com 



' E' a seguinte a traducção completa do primitivo titulo com que foi pu- 
blicado o presente romance: 

«Os papeis posthumos do Club Pickwick, contendo um registo fiel das 
passeiatas, perigos, viagens, aventuras, e diversões dos membros correspon- 
dentes.» 

- Vice-presidente perpetuo— sócio do Club Pickwick. 

' Presidente geral— sócio do Club Pickwick. 



AS AVENTURAS 



algumas observações sobre a theoria dos gyrinos; e que esta 
Associação dirige por este motivo os mais calorosos agrade- 
cimentos ao dito Samuel Pickwick, Esq., P. G. S. C. P. 

«Que, estando os membros d'esta Associação profunda- 
mente convictos das vantagens que devem resultar para a 
causa da sçiencia, assim da producção á qual acabam de allu- 
dir, como das incansáveis pesquizas de Samuel Pickwick, 
Esq., P. G. S. C. P., em Hornsey, Highgate, Brixton e Cam- 
berwell, não podem deixar de alimentar a profunda convicção 
dos inestimáveis benefícios que inevitavelmente se seguiriam, 
caso se levassem a mais vasto campo as explorações d'aquelle 
homem de sçiencia, estendendo as suas viagens* e por conse- 
guinte alargando a sua esphera de observação, para o pro- 
gresso do saber humano, e para o desenvolvimento da ins- 
trucção. 

"Que no propósito acabado de mencionar, esta Associa- 
ção tomou na mais seria consideração a proposta, provinda 
do sobredito Samuel Pickwick, Esq., P. G. S. C. P., e de três 
outros sócios abaixo designados, afim de formar um novo 
ramo da União Pickwickana, sob o titulo de «Sociedade Cor- 
respondente do Club Pickwick.» 

"Que a dita proposta recebeu a sancção e os applausos 
doesta Associação. 

"Que a Sociedade Correspondente do Club Pickwick fica, 
portanto, por esta forma constituída; e que Samuel Pickwick, 
Esq., P. G. S. C. P., Tracy Tupman, Esq., S. C. P., Augustus 
Snodgrass, Esq, S. C. P., e Nathaniel Winkle, Esq., S. C. P., 
são por este modo nomeados e eleitos membros da dita Socie • 
dade : e que são solicitados para remetterem, de tempos a tem- 
pos, relatórios authenticos das suas jornadas e investigações; 
das suas observações sobre o caracter e os costumes ; e do 
conjuncto das suas aventuras, assim como todas as narrativas 
e documentos, a que possam dar origem a paizagem ou asso- 
ciedades locaes, ao Club Pickwick com sede em Londres. 

"Que esta Associação assente cordealmente ao principio 
de cada um dos membros da Sociedade correspondente pro- 
ver ás suas próprias despezas de viagem, e que não vê objec- 
ção de espécie alguma em que os membros da alludida so- 
ciedade prosigam as suas pesquizas, sob as mesmas condições, 
durante o praso que lhes aprouver. 



DO SR. PICKWICK 



«Que os membros da sobredita Sociedade Correspondente 
sejam, e são d'esta arte informados, que a sua proposta para 
pagar a franquia das suas cartas e o transporte das suas ba- 
gagens, foi submettida á deliberação d'este Club. Que esta Asso- 
ciação considera uma tal proposta digna dos grandes espiriíos 
dos quaes emana; e que por esta forma lhe manifesta a sua 
cabal acquiescencia.i) 

Um observador casual, accrescenta o secretario a quem 
devemos os apontamentos para o relatório que segue — um 
observador casual não poderia porventura notar cousa algu- 
ma de extraordinário na cabeça calva e nos óculos circula- 
res, que estavam attentamente voltados para o rosto d'elle 
secretario, durante a leitura das resoluções acima exaradas. 
Para aquelles que soubessem que o cérebro gigantesco de 
Pickwick estava em elaboração por detraz d'aquella fronte, 
e que os olhos radiantes de Pickwick pestanejavam por de- 
traz d'aquellas lentes, o espectáculo era deveras interessante. 
Ali se sentava o homem que traçara até ás origens as pode- 
rosas lagoas de Hampstead, e que agitara o mundo scienti- 
fico com a sua theoria dos gyrinos ; ali estava elle tão se- 
reno e impassivel como as profundas aguas de uns n'um dia 
de gelo, ou como um espécimen isolado dos outros, nos Ín- 
timos recessos de uma bilha de bano. 

E quanto mais interessante se tornou esse espectáculo, 
quando, immergindo na vida plena, na occasião em que dos 
lábios dos seus consócios rebentou uma invocação simultâ- 
nea a «Pickwick», esse illustre sábio subiu vagarosamente á 
cadeira da presidência, onde estivera a começo sentado, e 
dirigiu a palavra ao club que elle próprio fundara ! Que 
estudo proporcionaria a um artista essa importaute scena ! 
O eloquente Pickwick, com uma das mãos graciosamente 
dissimulada por dentro das abas da casaca, e a outra on- 
dulando nos ares para lhe auxiliar a scintillante declama- 
ção ; a sua posição elevada revelando os laços do sapato 
e as polainas, objectos que, caso revestissem qualquer ho- 
mem vulgar, poderiam ter passado sem observação, mas 
que, quando Pickwik os revestia — se nos é licita a expres- 
são — inspiravam um terror e um respeito involuntários; 
cercado pelos homens que espontaneamente se offereciam 
a partilhar os perigos das suas viagens, e que se destinavam 



AS AVENTURAS 



a participar das glorias das suas descobertas. A' sua mão 
direita, sentava se o sr. Tracv Tupman ; esse Tupman em 
extremo susceptível, que á prudência e á experiência dos an- 
nos varonis acrescentava o enthusiasmo e o ardor da moci- 
dade, na mais interessante e perdoável das humanas fraque- 
zas — o amor. O tempo e a coraesaina haviam alargado aquella 
outr'ora romanesca figura; o collete de seda preta havia-se 
desenvolvido cada vez mais; pollegada a pollegada, a áurea 
cadeia de relógio, que o ornava, desapparecera do campo 
visual de Tupman ; e o espaçoso mento havia^se gradualmente 
extravasado dos bordos da gravata branca; porém a alma 
de Tupman não conhecera mudança — a sua paixão domina- 
dora continuava a ser a admiração pelo bello sexo. A' es- 
querda do seu grande chefe estava sentado o poético Snod- 
grass, e ao pé d'elle o fragueiro Winkle, amador do spo7't, o 
primeiro poeticamente envolto n'uma mysteriosa casaca azul 
com gola de pelle de cão, e o ultimo communicando um bri- 
lho addicional a uma grande casaca de caça, e lenço escocez 
ao pescoço. 

O discurso do sr. Pickwick por esta occasião, assim como o 
debate a que deu logar, encontra-se nas Actas do Club. Tanto 
um como outro assemelham-se de perto ás discussões de ou- 
tras corporações celebres ; e, como quer que seja sempre in- 
teressante o determinar as analogias entre o proceder dos 
grandes homens ; para estas paginas trasladamos a respectiva 
nota: 

"O sr. Pickwick observou (diz o secretario) que a fama 
seduzia o coração de todos os homens. A fama poética sedu- 
ziu o coração do seu amigo Snodgrass ; a fama de conquista- 
dor seduziu egualmente o coração do seu amjigo Tupman; 
e o desejo de alcançar fama, nos vários sports do campo, do 
ar e da agua, era extremo no peito do seu amigo Winkle. 
Elle, orador, não negaria que era influenciado por paixões 
humanas e por sentimentos humanos, (Applausos) — porven- 
tura por fraquezas humanas — (Gritos: «Não!»J; affirmaria 
porém, que, se alguma vez o fogo da vaidade lhe rebentou 
no seio, o desejo de beneficiar a raça humana o extinguia 
efficazmicnte. O louvor de humanidade é que lhe dava o im- 
pulso ; a philantropia era o seu seguro contra incêndio. (Ve- 
hementes applausos). Sentira um certo orgulho — espontânea- 



DO SR. PICKWICK 



mente o reconhecia ; e que os seus inimigos se avantajassem 
da confissão — sentira um certo orgulho ao apresentar a sua 
theoria dos gyrinos ao mundo ; possível é que ella fosse celebre 
ou não. fUm grito de «E', é\» e gi-andes applausos). Admittiria a 
asserção do digno pickwickano cuja voz acabava de ouvir — 
a theoria seria celebre; mas se a fama d'aquelle tractado de- 
vesse estender-se até aos mais remotos confins do mundo 
conhecido, o orgulho com que elle havia de confessar-se au- 
ctor d'essa producção, nada seria comparado com o orgulho 
com que elle olhava em torno de si n'esse momento, o mais 
soberbo de sua existência. (Applausos). Elle não passava de 
uma personalidade humilde. (Não, não í) Entretanto não po- 
dia deixar de comprehender que o haviam escolhido para um 
serviço de grande honra e de algum risco. As jornadas atra- 
vessavam um periodo inquietador, e as cabeças dos cochei- 
ros andavam transtornadas. Que olhassem todos pelo mundo 
fora, e contemplassem as scenas que se estavam represen- 
tando em volta de si. Por todos os lados se viravam diligen- 
cias, os cavallos tomavam o freio nos dentes, voltavam-se os 
barcos, e arrebentavam caldeiras. [Applausos — uma vo^: 
«/55o não!). Não! (Applausos). Que esse digno pickwickano 
que gritara alto «Não!« se adiantasse e o desmentisse, se era 
capaz d'isso. (Applausos). Quem fora que gritara «Não ^» 
(Applausos enthusiasticos). Porventura algum homem pre- 
sumpçoso e despeitado — não lhe chamaria um reles capel- 
lista — que, cioso dos louvores que haviam sido — talvez im- 
merecidamente — concedidos ás investigações d'eile orador, 
e dorido pelas censuras que se tinham accumulado sobre as 
suas débeis tentativas de rivalidade, lançava agora mão d'esse 
vil e calumnioso systema de. . . 

«O sr. Blotton (de Aldgatei toma a palavra sobre a or- 
dem.) Acaso o digno pickwickano alludia a elle? (Gritos de 
('Ordem», ((A' ordem t» «Sim!» «Não l» «Continue», « Silencio! 
etc). 

«O sr. Pickwick não toleraria que lhe quizessem tapar a 
bocca com berros. Elle tinha de feito alludido ao digno ca- 
valheiro. (Grande excitação). 

«O sr. Blotton apenas diria, pois, que elle repellia a falsa 
e grosseira accusação do digno orador, com o mais profundo 
despreso. (Grande algazarra.) O digno cavalheiro o que era. 



8 AS AVENTURAS 



era um pantomimeiro. (Immensa confusão, e gritos clamoro- 
sos de «A' ordem '.») 

«O sr. Snodgrass toma a palavra sobre a ordem. Appella 
para a presidência. (Ouçam l) Desejava saber se sepermit- 
tiria a continuação d'esta lamentável contenda entre dois 
membros d'este club. (Ouçam, ouçam !J 

«O presidente estava ceriissimo que o digno pickwickano 
retiraria a expressão de que acabara de servir-se. 

«O sr. Blotton, com todo o respeito possivel pelo presi- 
dente, estava certíssimo que não. 

"O presidente sentia que era seu dever restricto o pergun- 
tar ao digno cavalheiro se acaso elle se servira da expressão 
que acabava de lhe escapar dos lábios, na sua accepção 
commum. 

«O sr. Blotton não hesitava em declarar que não — que 
elle usara d'aquelle termo na sua accepção pickwickana. 
(Ouçam, ouçam '.) Via-se forçado a reconhecer que, pessoal- 
mente, elle 'mantinha pelo digno cavalheiro a mais alta estima 
e consideração; considerara-o apenas pantomimeiro sob o 
ponto de vista essencialmente pickwickano. (Ouçam, ou- 
çam !J 

«O sr. Pickwick sentia-se extremamente satisfeito pela 
bella, cândida e plena explicação do seu digno amigo. Ro- 
gava a todos que comprehendessem, de uma vez para sem- 
pre, .que as suas próprias observações haviam tido também 
uma intenção meramente pickwickana. (Applausos).» 

Aqui terminam os apontamentos, como não duvidamos 
que o mesmo houvesse também acontecido ao debate, depois 
de ter chegado a um ponto por tal forma satisfactorio e in- 
telligivel. Não possuímos relatório official dos factos que o 
leitor achará rememorados no capitulo seguinte; esses factos, 
porém, foram cuidadosamente colligidos de cartas e outros 
documentos manuscriptos, tão inquestionavelmente authen- 
*«cos, que justificam a sua narrativa sob uma forma coorde- 
naud. 



DO SR. PICKWICK 



CAPÍTULO II 

Jornada do primeiro dia, e aventuras da primeira 
tarde, com as suas consequências 



Acabava de se erguer o sol, esse pontual servidor de to- 
dos os trabalhos, e começara a illuminar a manha de 1 3 de 
maio de 1827, quando o sr. Samuel Pickwick, qual outro sol, 
emergia do seu torpor; escancarou a janella do seu quarto, e 
olhou para fora sobre o mundo que elle dominava. 

Aos seus pés estava Goswell-street, á sua mão direita es- 
tava Goswell-street — tanto quanto a vista podia alcançar, 
Goswell-street estendia-se á sua esquerda ; e na sua frente 
estava o lado opposto de Goswell-street. «Taes são, pensou 
o sr. Pickwick, as vistas acanhadas d'aquelles philosophos 
que, satisfeitos com o exame das coisas que jazem defronte 
eVelles, não reparam nas verdades que além d'ellas se occul- 
tam. Da mesma forma poderia eu satisfazer-me em ficar toda 
a minha vida embasbacado para Goswell-street, sem um 
único esforço para penetrar n'essas regiões occultas que por 
todos os lados cercam esta rua.» E tendo soltado esta miri- 
fica reflexão, o sr. Pickwick tratou de enfiar o corpo nas suas 
roupagens, e de metter as roupagens na mala. E' raro que os 
grandes homens sejam sobremaneira escrupulosos nos ata- 
vios da toilette ; n'um instante se concluiu a operação de bar- 
bear-se, vestir-se e engulir o café ; e, passada mais uma hora, 
o sr. Pickwick, com a mala na mão, o seu óculo na algibeira 
do sobretudo, e o livrinho de lembranças no coUete, prestes 
a receber quaesquer descobertas dignas de menção, tinha 
chegado á estação de carruagens em Saint-Martin-le-Grand. 

— Um cab \ exclamou o sr. Pickwick. 

— Prompto, patrão, bradou um estranho espécimen da 
raça humana, envolto n'um casaco de serapilheira e avental 
da mesma, que, com uma chapa de cobre numerada, pendente 
do pescoço, parecia catalogado em alguma coUecção de rari- 
dades. Era o chefe da praça. «Prompto, patrão. Gira lá, pri- 



IO AS AVENTURAS 



meiro cocheiro !•> E logo que o primeiro cocheiro foi pescado 
na taberna, onde estava a fumar a primeira cachimbada, o sr. 
Pickwick mais a sua mala foram atirados para dentro do ve- 
hiculo. 

— Golden Cross, disse o sr. Pickwick. 

— Isto não passa de um ganchinho, Tommy, gritou o co- 
cheiro com mau modo, para conhecimento do chefe da praça, 
quando o cab i.e poz em marcha. 

— Que edade tem esse cavallo, meu amigo ? interrogou o 
sr. Pickwick, esfregando o nariz com o shilling que elle re-' 
servára para pagar a corrida. 

— Quarenta e dois annos, replicou o cocheiro, olhando-o 
de revez. 

— Como ! exclamou o sr. Pickwick, pondo a mão no li- 
vrinho de lembranças. 

O cocheiro repetiu a sua primeira declaração. O sr. 
Pickwick encarou fixamente o homem, mas, como as feições 
d'este ficassem impassíveis, tomou immediatamente nota do 
facto. 

— E quanto tempo se demora você com elle cá por fora ? 
perguntou o sr. Pickwick, em cata de novas informações. 

— Duas ou três semanas, redarguiu o homem. 

— Semanas ! disse o sr. Pickwick pasmado — e novamente 
sacou da carteira. 

— E' que elle mora em Pentonwill, é lá a casa d'elle, ob- 
servou o cocheiro friamente ; mas a gente quasi nunca o leva 
para casa, por andar muito fraquinho. 

— Muito fraquinho, repetiu attonito o sr. Pickwick. 

— Elle ferra comsigo no chão, apenas a gente o tira do 
cab, continuou o cocheiro, mas quando elle está aos varaes, 
então uma pessoa põe-o ali teso e direito que é um gosto, de 
forma que elle não pode estender-se, e tem a gente aqui um 
par de rodas grandes que é mesmo uma delicia ; e então, em 
elle se mexendo, ellas desatam a correr atraz d'elle, e elle 
então não tem remédio senão andar. 

O sr. Pickwick assentou todos os termos d'esta declara- 
ção no seu livrinho, com o propósito de a communicar ao 
club, como um exemplo singular da tenacidade da vida nos 
ca\'allos, em circumstancias penosas. Mal tinha completado 
a sua nota, chegavam a Golden Cross. O cocheiro saltou da 



DO SR. PICKWICK 



almofada, e o sr. Pickwick apeiou-se. Os srs, Tupman, Snod- 
i^rass e Winkle, que estavam anciosos á espera do seu illusire 
chefe, acorreram a cumprimental-o. 

— \qu[ tem pela corrida, disse o sr. Pickwick estendendo 
o shilling ao cocheiro. 

Qual foi o espanto do erudito cavalheiro, quando aquelle 
extraordinário sujeito arrojou o dinheiro para cima da cal- 
çada, e soUcitou por mimica que lhe fosse concedido o pra- 
zer de jogar á pancada com elle Pickwick, para paga do seu 
serviço ! 

— Você está doido, disse o sr. Snodgrass. 

— Ou bêbado, disse o sr. Winkle. 

— Ou ambas as cousas, disse o sr. Tupman. 

— Venha para cá, disse o cocheiro, socando no ar com 
movimentos de relojoaria. Venham para cá — todos qua- 
tro. 

— Temos pandega ! berraram meia dúzia de cocheiros de 
praça. Atira-te a elles, Sam. 

È agglomeraram-se com grande jubilo em volta do grupo. 

— Que bulha é essa, Sam ? perguntou um sujeito de man- 
gas de chita preta. 

— Que bulha é ! replicou o homem do cab, para que diabo 
queria elle saber o meu numero .'' 

— Eu quiz lá saber o seu numero ! disse com espanto o 
sr. Pickwick. 

— Então para que é que você m'o tomou ? perguntou o 
cocheiro. 

— Não tomei tal, disse o sr. Pickwick indignado. 

— Quem é que podia passar-lhe pela ideia, continuou o 
cocheiro, appellando para a multidão, que um espia havia 
de andar no cab de uma pessoa, não só para lhe assentar o 
numero, mas tudo o que a gente diz em modo de conversa? 

Relampejou uma luz no cérebro do sr. Pickwick : era o li- 
vrinho de lembranças. 

— Elle fez isso deveras ? perguntou outro cocheiro. 

— Está claro que sim, replicou o primeiro, e ainda em 
cima, depois de me provocar a ferrar-lhe uma sova, arranja 
trcs testemunhas para o defenderem. Mas deixa estar que 
m'as pagas, ainda que isso me custe seis mezes de cadêa. Ve- 
nha para cá 1 



12 AS AVENTUIL\S 



E O cocheiro ferrou com o chapéo no chão, sem a menor 
consideração pelos seus haveres, e atirou pelos ares os ócu- 
los do sr. Pickwick, e proseguiu o ataque com um murro no 
nariz do sr. Pickwick, e outro no peito do sr. Pickwick, e 
terceiro no olho do sr. Snoagrass, e quarto, para variar, no 
colleie do sr. Tupman, e depois saltou em passo de dança 
para o meio da rua, e em seguida voltou de novo para o pas- 
seio, e finalmente despejou do corpo do sr. Winkle toda a 
sua provisão temporária de fôlego ; e tudo isto em meia dúzia 
de segundos. 

— Onde está um policia? disse o sr. Snodgrass. 

— Mettam-os debaixo da bomba, suggeriu um vendedor 
de pasteis quentes. 

— Ha de custar-lhe caro, arquejou o sr. Pickwick. 

— Espiões! berrou a multidão. 

— Venham cá, andem ! gritava o cocheiro, que não ces- 
sara entretanto de esgrimir. 

A turba de circumstantes fora até então espectadora pas- 
siva da scena, mas como se espalhara entre elles a convicção 
de que os pickwickanos eram espias, começavam a discutir 
com considerável vivacidade a conveniência de dar execução 
á proposta do fogoso vendedor de pasteis : e não se pôde 
suppôr a que extremos de aggressão pessoal elles haveriam 
chegado, se a desordem não tivesse sido inesperadamente ter- 
minada pela intervenção de um novo personagem. 

— Que pagode é este? disse um mancebo alto e delgado, 
de casaca verde, emergindo repentinamente da cocheira. 

— Espipes ! berrou de novo a multidão. 

— Não somos tal, rugiu o sr. Pickwick, n'um tom que le- 
vava a convicção a qualquer desapaixonado ouvinte. 

— Não são, deveras — não são ? disse o mancebo, diri- 
gindo- se ao sr. Pickwick, e abrindo caminho atra vez da turba 
pelo infallivel processo de acotovellar as caras dos seus mem- 
bros componentes. 

Aquelle homem de sciencia explicou em poucas e pre- 
cipitadas palavras a verdadeira situação. 

— Venham cá, então, disse o da casaca verde, arrastando 
apoz si o sr. Pickwick á força, e fallando durante todo o ca- 
minho. Anda cá, n." 924, toma lá o teu dinheiro, e safa-te — 
um cavalheiro respeitável — meu conhecido — não é lá os 



JDÒ áR. PICKWICK l3 



disparates que dizem — por aqui, senhor, — onde param os 
seus amigos ? — foi tudo engano, já vejo — não se afflija — 
sempre succedem casos — as familias mais pacatas — vá lá a 
gente livrar se — de graças a Deus — o que elles precisa- 
vam ... — sucia de malandros. 

E com uma extensa enfiada de phrases análogas cortadas, 
expressas com singular volubilidade, o desconhecido foi se- 
guindo até á sala de espera dos viajantes, levando na sua piu- 
gada o sr. Pickwick e os seus discípulos. 

— Eh ! rapaz ! gritou o desconhecido, tocando a campai- 
nha com tremenda violência, copos para todos — brandy e 
agua, quente, e forte, e doce, e abundante — tem o olho pi- 
sado, o senhor ? Rapaz, uma costelleta crua para o olho d'este 
cavalheiro — nada como costelleta crua para uma contusão; 
um poste frio de candeeiro é muito bom, mas o poste é pou- 
co commodo — é uma dos diabos estar a gente no meio da 
rua, meia hora, com o olho pespegado de encontro a um 
poste — hein ! — bello — ah ! ah ! 

E o desconhecido, sem parar para tomar a respiração, 
enguliu de uma golada meio quartilho de brandy e agua a 
fumegar, e atirou-se para uma cadeira com tanta naturalidade 
como se nada de estranho houvesse occorrido. 

Emquanio os seus três companheiros se empenhavam 
com todo o zelo a expressar as suas graças ao seu novo co- 
nhecimento, o sr. Pickwick teve ensejo de lhe examinar o 
traje e o aspecto. 

Era pouco mais ou menos de mediana estatura, mas a 
magreza do corpo e o comprimento das pernas davam-lhe a 
apparencia de ser muito mais alto. A casaca verde tinha sido 
um traje de gala nos tempos das abas em rabo de andorinha, 
mas n'esses tempos servira evidentemente de atavio a um 
homem muito mais pequeno do que o desconhecido, porque 
as mangas cheias de nódoas e desbotadas, mal lhe chegavam 
aos pulsos. Estava hermeticamente abotoada até ao queixo, 
com perigo imminente de se rasgar nas costas; e ornava-lhe 
o pescoço uma gravatinha velha, sem vestígio de collarinho. 
As calças pretas, muito justas, ostentavam por vários sitios 
aquelles brilhantes remendos, que são a prova de um prolon- 
gado serviço, e estavam fortemente apertadas por cima de 
uns sapatos cheios de tombas, como para occultar as meias 



14 AS AVENTURAS 



brancas e sujas que, no emtanto, se distinguiam a primor. 

O cabello negro e comprido escapava-se em ondas negli- 
gentes por baixo de cada lado do velho chapéo amolgado ; e 
poderiam observar-se uns vislumbres do pulso nu, entre os 
extremos das luvas e os canhões da casaca. A cara era ma- 
grizella e pallida; mas um ar indiscriptivel de galante arro- 
gância e de perfeita independência espalhava-se por toda a 
sua pessoa. 

Tal era o individuo, que o sr. Pickwick contemplava atra- 
vez dos seus óculos (que por fortuna recuperara), e a quem 
elle tratou, apenas os seus amigos acabaram de desfazer-se 
em graças, de transmittir, em termos escolhidos, o seu calo- 
roso reconhecimento pelo seu recente auxilio. 

— Deixe-se d'isso, disse o rapaz, atalhando logo o dis- 
curso, basta de conversa — acabou-se ; levado da breca o co- 
cheiro — mão leve; mas se eu cá fosse o seu amigo da fa- 
tiota verde — diabos me levem — amachucava -lhe a tola — 
— tão certo ! — a rosnar — ao dos pasteis também — graça 
pesada. 

Esta coberente falia foi interrompida pela entrada do co- 
cheiro de Rochester, para annunciar que o Commodoro es- 
tava a largar. 

— Commodoro l disse o desconhecido, levantando-se n'um 
pulo, a minha diligencia — logar tomado — fora — vou pagar 
a despeza — preciso troco de cinco shillings — má moeda — 
muitas falsas — não importa — não vêem — hein ? 

E abanou a cabeça com a maior convicção. 

Ora succedia que o sr. Pickwick e os seus três compa- 
nheiros haviam resolvido fazer também em Rochester a sua 
primeira estação ; e havendo communicado ao seu novo co- 
nhecimento que elles iam jornadeiar para a mesma cidade, 
combinaram occupar o banco posterior da diligencia, onde 
se podiam sentar todos juntos. 

— Arriba! disse o desconhecido, ajudando o sr. Pickwick 
a subir para o tejadilho com tanta precipitação que prejudi- 
cou muito materialmente a gravidade da altitude d'aquelle 
cavalheiro. 

— Tem bagagem, o senhor ? interrogou o cocheiro. 

— Quem, eu ? — Este embrulho de papel pardo, mais 
nada, o resto da bagagem embarcada — caixotes, pregados — 



DO SR. PICKWICK 15 



tamanho de casas — pesados, pesados, pesados como a breca, 
replicou o desconhecido, encafuando á força na algibeira o 
que poude do embrulho pardo, que apresentava indicações 
bem suspeitas de conter uma camisa e um lenço de assoar. 

— Cabeças, cabeças, cautela com as cabeças, gritou o lo- 
quaz sujeito, ab passarem á sahida sob a baixa arcada, qiae 
n'esse tempo formava a entrada da cocheira. Passagem terrí- 
vel — obra perigosa — outro dia — cinco creanças — a mãe 

— senhora alta, a comer sandwiches — esqueceu se do arco 

— Zás 1 — uma pancada — creanças olham para todos os la- 
dos — a cabeça da mãe fora — sandwiche na mão — sem bocca 
para o metter — cabeça da familia foi-se — medonho, medo- 
nho. — A olhar para Whitehall, o senhor — lindo sitio — ja- 
nella pequena — a cabeça de outra pessoa também fora, 
n'esse sitio, hein ? — não era lá muito previsto também — 
enganaram-se ambos — hein ^ que diz ? hein ? ^ 

— Estava eu ruminando, observou o sr. Pickwick, sobre as 
extraordinárias alternativas das cousas humanas. 

— Ah! percebo — n'um dia dentro do palácio, no dia se- 
guinte pela janella fora. Philosopho, o senhor ? 

— Observador da natureza humana, disse o sr. Pickwick. 

— Ah! também eu. A mór parte da gente assim é em 
tendo pouco que fazer e menos que ganhar. Poeta, o se- 
nhor .'* 

— O meu amigo, o sr. Snodgrass tem uma copiosa veia 
poética, respondeu o sr. Pickwick. 

— E' como eu, redarguiu o desconhecido. Um poema 
épico — dez mil versos — a revolução de julho — composto 
no próprio local — Marte de dia, Apollo de noite — disparar 
canhão, dedilhar na lyra. ~ 

— Esteve presente a essa gloriosa acção ? perguntou o sr. 
Snodgrass. 

— Presente! claro que sim; tiro de arcabuz — lampejo 
de ideias — corria á taverna — escrevia — voltava outra vez 



' Allusão a Carlos I, decapitado no cadafalso armado )unto de uma 
das janellas do palácio, pela qual sahiu. 

- Anachronismo propositado ou casual do autor. 



AS AVENTURAS 



— zás ! pum — outra ideia — taverna te valha — penna e tinta 

— gyra para o campo — cutilada de tremer — rico tempo esse. 
E' sportsman, o senhor? concluiu elle virando-se abrupta- 
mente para o sr, Winkle. 

— Um poucochinho, replicou este cavalheiro. 

— Linda occupação — linda occupação. Cães? 

— Não, agora não tenho, disse o sr. Winkle. 

— Ah ! devia ter cães — bellos animaes — muito intelli- 
gentes — um cão tive eu — cão de mostra — instincto sur- 
prehendente — fui á caça um dia — salto um vallado — asso- 
bio — cão parado — torno a assobiar — Ponto — qual vae ! 
quieto como um cepo — chamo-o — Ponto, Ponto — não se 
mexia — cão extático — pasmado para uma táboa — olho 
para cima, vejo letreiro — «O couteiro tem ordem de atirar 
a todos os cães encontrados n'este recinto^.- — não passava, 
nem por mais uma — um cão admirável — precioso cão — 
preciosíssimo. 

— Singular, esse caso! disse o sr. Pickwick. Permitte-me 
que tome nota .'' 

— Com todo o gosto — centenas de anecdotas do mesmo 
animal — Linda pequena, hein? continuou elle dirigindo-se 
ao sr. Tracy Tupman, que estivera a atirar varias olhadellas 
anti-pickwickanas para uma menina que ia pelo passeio. 

— Uma belleza, disse o sr. Tupman. 

— Inglezas menos bonitas que hespanholas — soberbas 
creaturas — cabellos de azeviche — olhos pretos — formas 
adoráveis — encantadoras — formosíssimas. 

— O senhor já esteve em Hespanha ? perguntou o sr. 
Tracy Tupman. 

— Vivi lá — séculos. 

— Muitas conquistas, hein ? continuou o sr. Tupman. 

— Conquistas ? Aos milheiros. Don Bolero Fizzgig — 
grande fidalgo — única filha — Dona Christina — esplendida 

— doida por mim — pae con*' ciúmes — filha orgulhosa — in- 
glez bonito — Dona Christina desesperada — acido prussico 

— uma bomba do estômago na minha mala — operação con- 
cluída — o velho Bolero em extasi — consente no casamento 

— mãos unidas e torrentes de lagrimas — historia romanesca 

— mesmo muito. 

— Essa senhora está agora em Inglaterra ? interrogou o 



DO SR. PICKWICK 



Í7 



sr. Tupman, em quem a descripção dos seus encantos pro- 
duzira uma fortíssima impressão. 

— Morta, meu caro senhor, morta, disse o sujeito, appli- 
cando sobre o olho direito os exiguos restos de um velhís- 
simo lenço de cambraia. Nunca se restabeleceu da bomba - 
minou-lhe o organismo — succumbiu. 

— E o pae .'' perguntou o poético Snodgrass. 

— Remorso e desgraça, replicou o sujeito. Desapparição 
súbita — excitação na cidade — pesquizas por toda a parte' — 
sem resultado — chafariz da pi-aça grande cessando de re- 
pente de jorrar — passam-se semanas — outra paragem — 
operários a limpal-o — despeja-se — descobre-se sogro com 
a cabeça entalada no cano principal, com uma confissão 
plena na bota direita — tira-se para fora e a agua desata a 
repuxar como até ali. 

— Dá-me licença que eu tome nota d'esse pequeno ro- 
mance í disse o sr. Snodgrass, profundamente impressio- 
nado. 

— Pois não! com todo o gosto — mais cincoenta como 
este, é só pedir por bocca — estranha vida a minha — histo- 
ria interessante a valer — não extraordinária, mas singu- 
lar. 

N'esta torrente, com um copo de cerveja de quando em 
quando, em guisa- de parenthesis, por occasião das mudas, 
proseguiu o desconhecido, até chegarem á ponte de Roches- 
ter ; durante esse praso os livros de lembranças, tanto do sr. 
Pickwick como do sr. Snodgrass, estavam completamente re- 
pletos de trechos escolhidos das suas aventuras. 

— Magnifica ruina ! disse o sr. Augusto Snodgrass, com 
todo o fervor poético que o distinguia, quando se lhes de- 
parou o bello e antigo castello. 

— Que estudo este para um antiquário, foram as palavras 
forraaes que cahiram da bocca do sr. Pickwick, apenas appli- 
cou o óculo ao olho direito. 

— Ah ! lindo sitio, disse o sujeito, glorioso edificio — pa- 
redes carrancudas — arcos a desabar — recantos escuros — 
escadarias despedaçadas — a antiga cathedral também — 
cheiro a terra — pés dos peregrinos gastaram degraus — por- 
tinhas saxonias — confessionários parecidos com as cafuas dos 
camaroteiros— uns patuscos originaes aquelles frades. — Pa- 



iS AS AVENTURAS 



pas e thesoureiros, e toda a casta de velhotes, com caras 
muito grandes e muito encarnadas, e narizes quebrados, 
desenterrados todos os dias — gibões amarellos — chaves de 
mosquetes — S:ircophagos — lindo sitio — velhas lendas tam- 
bém — contos extraordinários : — Soberbo ! 

E o sujeito proseguiu a monologar até chegarem á Esta- 
lagem do Touro, na rua direita, onde a diligencia parou. 
^ — O senhor fica aqui ? perguntou o sr. Nathaniel Winkle. 

— Aqui — eu não — mas fiquem os senhores — é melhor 
— boa casa — hellas camas — a casa pegada, cara — caríssi- 
ma — meia coroa na conta, em olhando para o criado — car- 
regam mais quando se janta em casa de um amigo do que 
em a gente jantando á mesa do café — uns pândegos — muito 
pândegos. 

O sr. Winkle virou-se para o sr. Pickwick, e murmurou 
algumas palavras; o segredo passou do sr. Pickwick para o 
sr. Snodgrass, do sr. Snodgrass para o sr. Tupman, e troca- 
ram-se gestos de assentimento. O sr. Pickwick dirigiu-se ao 
desconhecido. 

— O senhor prestou-nos um serviço importantíssimo esta 
manhã; permitte-nos que lhe demos uma insignificante prova 
de gratidão, rogando-lhe o favor da sua companhia ao jan- 
tar. 

— Com o maior prazer — não ouso dar conselhos, mas 
uma ave assada e cogumellos — soberba cousa ! A que ho- 



ras 



— Deixe ver, replicou o sr. Pickwick, recorrendo ao reló- 
gio, são qunsi três. Se fosse ás cinco .'' 

— Está-me mesmo a calhar, disse o sujeito, cinco em 
ponto — até então — tomem cautela comsigo. 

E erguendo o chapéo amolgado a algumas pollegadas da 
cabeça e tornando a pôl-o negligentemente muito á banda, o 
desconhecido, com metade do embrulho pardo a surdir-lhe 
da algibeira, atravessou bruscamente o pateo e virou para a 
rua direita. 

— E' evidentemente um sujeito que tem viajado por mui- 
tos paizes, e um observador meticuloso dos homens e das 
coisas, disse o sr. Pickwick. 

— Gostava de vêr o poema d'elle, disse o sr. Snodgrass. 

— Eu gostava de vêr o tal cão, disse o sr. Winkle. 



DO SR. PICKWICK 19 



O sr. Tupman não disse cousa alguma ; mas pensou em 
Dona Christina, na bomba do estômago, e no chafariz; e os 
olhos arrazaram-s-e-lhe de lagrimas. 

Tendo-se tomado um gabinete particular, inspeccionado 
os quartos de cama e encommendado o jantar, os amigos sa- 
hiram a visitar a cidade e os arredores. 

Não nos pareceu, pelo exame attento das notas do sr. 
Piclnvick sobre as quatro povoações, Stroud, Rochester, 
(^hatham e Brompton, que as suas impressões isnmediatas 
diííiram em ponto algum material das de outros viajantes 
que teem percorrido a mesma região. A sua descripção geral 
resume-se facilmente. 

«Os principaes productos d'estas povoações, diz o sr. 
Pickwick, parece serem soldados, marinheiros, judeus, greda, 
camarões e empregados do arsenal. Os artigos principalmente 
expostos para a venda pelas ruas são provisões de marinha, 
bolacha de embarque, maças, peixe espalmado, e ostras. As 
ruas apresentam um aspecto vivo e animado, sobretudo re- 
sultante do convivio dos militares. E' deveras delicioso para 
um espirito philantropico o ver esses valentes cambaleando 
por ali fora, sob a influencia de um excesso de espiritos, tanto 
animaes como ardentes •, muito especialmente ao lembrarmo- 
nos que o andar atraz d'elles e troçal-os constitue uma di- 
versão barata e innocente para a população infantil. Nada 
(acrescenta o sr. Pickwick) pôde exceder o seu bom humor. 
Mesmo no dia anterior á nossa chegada, um d'elles fora gros- 
seirissimamente insultado n'uma taverna. A criada do esta- 
belecimento recQsára-se positivamente a servir-lhe mais be- 
bidas; e em troco elle tinha (simplesmente por brincadei- 
ra) puxado da baioneta e ferido a rapariga no hombro. 
E comtudo esse excellente rapaz foi o primeiro a voltar á 
taverna na manhã seguinte e expressar a sua promptidão 
a não dar importância ao caso e a esquecer o que succe- 
dera. 

«O consumo de tabaco n'estas povoações (prosegue o sr. 
Pickwick) deve ser enorme : e o aroma que enche as ruas 
deve ser em extremo delicioso para aquelles que gostam 
muito de fumar. Um viajante superficial faria porventura ob- 
jecções á porcaria que constitue o seu principal caracteris- 
tico ; para aquelles, porém, que a consideram uma indicação 



20 AS AVENTURAS 



de trafico e de prosperidade mercantil, ella é deveras agra- 
dável.» 

A's cinco horas em ponto chegou o desconhecido, e 
pci:co depois o jantar. Elle tinha-se desembaraçado do em- 
brulho de papei pardo, mas não fizera alteração no vestuá- 
rio; e estava, se possivel era, mais fallador do que nunca. 

— O que é isto? perguntou elle, quando o criado desta- 
pou um dos pratos cobertos. 

— São linguados, senhor. 

— Linguados — ah! — magnifico peixe — vêem todos de 
Londres — donos das diligencias arranjam banquetes políti- 
cos — carradas de linguados — dúzias de cestos — esperta- 
lhões. — Um copo de vinho, quer beber comigo r 

— Com muito gosto, disse o sr. Pickwick — e o sujeito 
bebeu vinho, brindando primeiro a elle, depois ao sr. Snod- 
grass, depois ao sr. Tupman, e depois ao sr. Winkle, e em 
Sv::guida a toda a sociedade, quasi com tanta rapidez como a 
faílar. 

— Demónio de azp.fama na escada, ó rapaz, disse o des- 
conhecido. Bancos a subir — carpinteiros a descer — can- 
deeiros, espelhos, harpas. Que quer dizer isto í 

— E' um baile, senhor, disse o criado. 

— Club — hein ? 

— Não, senhor, não é club. E' um baile de caridade. 

— Ha muitas mulheres bonitas aqui na terra, sabe, meu 
caro senhor ? perguntou o sr. Tupman com grande interesse. 

— Esplendidas — de primeira ordem. — Kent, meu caro. 
— Não ha ninguém que não conheça Kent — maçãs, ginjas, 
lúpulo e mulheres. Um copo de vinho, quer ? 

— Pois não 1 replicou o sr. Tupman. 
O desconhecido encheu e despejou. 

— Gostava immenso de lá ir, disse o sr. Tupman, vol- 
tando ao assumpto do baile, gostava immenso. 

— Ka bilhetes no botequim, interveiu o criado, meio gui- 
neo cada um. 

O sr. Tupman tornou a expressar um ardente desejo de 
comparecer na festa: mas não se lhe deparando resposta 
nem nos olhos assombreados do sr. Snodgrass, nem no olhar 
abstracto do sr. Pickwick, applicou-se com grande interesse 
ao vinho do Porto e á sobremeza que acabava de se servir. 



DO SR. PICKWICK 2 1 



O criado rctirou-se, c os amigos ficaram a gozar as duas ho- 
ras que se seguiam ao jantar. 

— Peço perdão, meu caro senhor, disse o desconhecido. 
A garrafa fica — passem-na cm roda — nada de safanões. 

E despejou o copo, que tinha enchido havia dois minu- 
tos ; e encheu outro com ar de um sujeito que estava costu- 
mado áquella manobra. 

O vinho andou em roda, e mandou-se vir nova provisão. 
O visitante fallou pelos cotovellos, os pickwickanos escuta- 
ram. O sr. Tupman de momento para momento se sentia 
mais disposto para o baile. O semblante do sr. Pickwick il- 
!uminava-se de uma expressão de philantropia universal ; c 
o sr. Winklc, mais o sr. Snodgrass, adormeceram d'ali a 
pouco. 

— Estão a começar lá em cima, disse o desconhecido, 
— ouça o que lá vae — rebecas a afinar — agora a harpa — 
ahi vão elles. 

Os vários sons, que abriam caminho pela escada abaixo, 
annunciavam o começo da primeira quadrilha. 

— Quem me dera lá ir! repetiu "o sr. Tupman. 

— Também eu, disse o outro — maldita bagagem — nada 
que vestir — espantoso, não é ? 

Ora, a benevolência geral era uma das feições predomi- 
nantes da theoria pickwickana, e ninguém mais notável pela 
maneira zelosa porque observava tão nobre principio do que 
o sr. Tracy Tupman. O numero de occasiões recordadas 
nas Actas da Sociedade, em que aquelle excellente homem 
mandava para casa dos outros membros pedidos de cari- 
dade, taes como: fato usado ou soccorro pecuniário, é quasi 
incrível. 

— Eu estimaria muito emprestar-lhe um feito meu para lá 
ir, disse o sr. Tracy Tupman, mas o senhor é um tanto del- 
gadito, e eu . . . 

— Um tanto gorducho — um Baccho já crescido — largou 
a hera e os pâmpanos — desmontou do tonel e vestiu-se de 
lã, hein ? — ah 1 ah ! — passe para cá o vinho. 

Se acaso o sr. Tupman ficou um pouco indignado com o 
tom peremptório com que era expresso o desejo de passar o 
vinho que o desconhecido consumia n'um instante; ou se se 
sentiu justamente escandalisado ao ver um membro influente 



AS AVENTURiVS 



do club PiclvMick comparado a um Baccho desmontado, fa- 
ctos são esses ainda não cabalmente verificados. O que é 
certo é que passou o vinho, tossiu duas vezes, e olhou du- 
rante alguns segundos para o desconhecido com fixidez se- 
vera; ao passo que o sujeito, no entretanto, parecia perfeita- 
mente tranquilio e sereno sob aquelle olhar investigador, 
elle voltava gradualmente ao estado normal e á ideia do 
baile. 

— Estava agora mesm.o a observar, disse elle, que se o 
meu fato lhe ficaria muito largo, o fato do meu amigo Win- 
kle talvez que lhe servisse m^elhor. 

O desconhecido tomou com os olhos a medida ao sr. 
Winkle ; e esses órgãos brilharam de satisfação ao passo que 
elle dizia — Exacto! é o que convinha! 

O sr, Tupman olhou em torno de si. O vinho, que exer- 
cera a sua influencia soporifera sobre os srs. Snodgrass e 
Winkle, insinuára-se nos sentidos do sr. PickAvick. Este ca- 
valheiro havia gradualmente passado pelas varias phases que 
precedem a lethargia produzida pelo jantar e pelas suas con- 
sequências. Tinha softrido as transições ordinárias desde o 
ápice da jovialidade até ás profundezas da melancolia, e desde 
as profundezas da melancolia até ao cumulo da jovialidade. 
Como um bico de gaz na rua, quando tem ar no cano, elle 
exhibira por um momento um brilhantismo fora do com- 
mum : depois abaixou a ponto de mal se distinguir : a breve 
trecho lampejara de novo para illuminar um momento, em 
seguida bruxuleara com luz incerta e tremula, e por fim ex- 
tinguira-se de todo. Tinha a cabeça pendida sobre o peito ; 
e um ronco perpetuo, como uma suffocação parcial e inter- 
mittente, eram as únicas indicações audíveis da presença do 
grande homem. 

A tentação de assistir ao baile e de formar as suas pri- 
meiras impressões sobre a belleza das damas de Kent era 
dominante no sr. Tupman. Grande egualmente era a tenta- 
ção de levar comsigo o desconhecido. Elle era completa- 
mente alheio ao sitio e aos seus habitantes ; e o desconhe- 
cido parecia possuir tantas idéas de tudo isso, como se ali 
houvesse vivido desde a infância. O sr. Winkle estava a dor- 
mir, e o sr. Tupman tivera sufficiente experiência de casos 
similhantes para saber que no momento em que elle desper- 



DO SR. PICKWICK 'lò 



tasse, rolaria pesadamente até á cama, segundo o curso ordi- 
nário e natural das cousas. Eslava perplexo. 

— Encha o seu copo, e passe-me o vinho, disse o infati- 
gável visitante. 

O sr. Tupman executou o que lhe pediam ; e o estimulo 
addiccional do ultimo copo fixou-lhe a decisão. 

— O quarto de Winkle fica para dentro do meu, disse o 
sr. Tupman ; não haveria meio de lhe fazer perceber o que 
eu desejava, se eu o acordasse agora, mas sei que elle tem 
um fato completo, n'um sacco de tapete ; e suppondo que o 
senhor o vestisse para ir ao baile e o despisse em voltando, 
eu poderia tornar a pôl-o no seu logar sem dar a elle incom- 
modo de espécie alguma. 

— Excellente, disse o sujeito, famoso plano — diabo de 
situação exquisita — quarorze casacas nos bahus, e obrigado 
a vestir as dos outros — magnifica ideia essa — magnifica. 

■::— Temos de comprar os bilhetes, disse o sr. Tupman. 

— Não vale a pena partir um guinéo ao meio, disse o des 
conhecido, joguemos quem ha de pagar por ambos — eu 
digo ; o senhor cale-se — um — mulher — feiticeira mulher. 

E o soberano cahiu na mesa, com o dragão (chamado 
mulher por cortezia) virado para cima. 

O sr. Tupman tocou a campainha, comprou os bilhetes, e 
pediu castiçaes. D'ali a um quarto de hora, o sujeito estava 
totalmente 'revestido de um fato completo do sr. Nathaniel 
Winkle. 

— E' uma casaca nova, disse o sr. Tupman, emquanto 
o desconhecido se revia com grande complacência n'um es- 
pelho. A primeira que se fez com o botão do nosso club. 

E chamou a attenção do companheiro para o enorme bo- 
tão dourado, onde se ostentava um busto do sr. Pickwick no 
centro, com as letras C. P. de cada lado. 

— G. P., disse o sujeito. — Exquisito enfeite — a facha do 
velhote e G. P. — Que quer dizer G. P. — Gasaca pandega, 
não é ? 

O sr. Tupman, com crescente indignação e grande im- 
portância, expHcou a mystica divisa. 

— Um pouco curta de cintura, não está? disse o desco- 
nhecido, estorcendo-se todo, para dar no espelho uma vista 
de olhos aos botões da cintura que lhe ficavam a meio das 



24 AS AVENTURAS 



costas. Parece uma casaca de carteiro — patuscas essas ca- 
sacas — feitas por arrematação — sem medidas — mysterio- 
sas distribuições da Providencia — todos os homens baixos 
apanham casacas compridas — todos os homens altos ficam 
com as curtas. 

Discreteando por esta forma, o novo companheiro do sr. 
Tupman compoz o seu fato ou antes o fato do sr. Winkle ; 
e, acompanhado pelo sr. Tupman, subiu a escada que condu- 
zia á saía de baile. 

— Os seus nomes, meus senhores? disse o porteiro. 

O sr. Tupman ia adiantar-se para annunciar os seus títu- 
los, quando o desconhecido se lhe antecipou. 

— Não ha nomes nenhuns; e em seguida segredou para o 
sr. Tupman. Os nomes não servem de nada — desconheci- 
dos — bellos nomes no seu meio, mas sem grandeza — nomes 
excellentes para um salsifré particular, mas que não fazem 
impressão em assembléas publicas — incógnitos, é o que nos 
serve. — Cavalheiros de Londres — forasteiros distinctos — 
qualquer coisa. 

Abriu-se a porta ; e o sr. Tracy Tupman, mais o seu com- 
panheiro entraram na sala de baiíe. 

Era uma sala comprida, com bancos forrados de carme- 
zim, e velas de cera em lustres de vidro. Os músicos esta- 
vam seguramente encerrados n'uma jaula elevada e dois ou 
três grupos de dançadores esbrugavam systematicamente 
quadrilhas. Duas mezas de jogo estavam armadas n'uma sa- 
leta contigua, e dois pares de damas idosas e um numero 
correspondente de corpulentos cavalheiros estavam lá a des- 
fiar o whist. 

Concluída a quadrilha, os pares passearam pela sala, e o 
sr. Tupman e o seu companheiro metíeram-se a um canto 
para examinar a sociedade. 

— Lindas mulheres ! disse o sr. Tupman. 

— Espere um instante, disse o desconhecido, isto vae ser 
umarisota — um sitio patusco — gente mais elevada do Arsenal 
não conhece a gente mais baixa do Arsenal — a gente m^ais 
baixa do Arsenal não conhece a classe média — a classe mé- 
dia não conhece a gente de negocio — o Commissario não 
conhece ninguém. 

— Quem é aquelle rapazito de cabello claro e de olhos 



DO SR. PICKWICK 25 



piscos, com fato de phantasia ? perguntou o sr. Tupman. 

— Caluda ! — olhos piscos — fato de phantasia — rapazito 

— disparates — alferes do 19 — Honourable Wilmot-Snipe — 
familia illustre — os Snipes —muito illustres. ^ 

— Sir Thomas Clubber, Lady Clubber, e as Miss Glubbe'-s, 
gritou o porteiro com voz de Stentor. 

Espalhou-se pela sala uma grande sensação, á entrada de 
um cavalheiro alto, de casaca azul e botões luzentes, uma 
dama gorda vestida de setim azul, e duas meninas muito pa 
recidas, com vestidos á moda da mesma côr. 

— Gommissario — director do Arsenal — grande homem 

— notavelmente grande, segredou o sujeito ao ouvido do sr. 
Tupman, emquanto a commissão de caridade acompanhava 
Sir Thomas Clubber e sua familia ao extremo da sala. 

O honourable Wilmot Snipe, e outros illustres cavalheiros 
agglomeraram-se para apresentar as suas homenagens ás 
Miss Clubbers : e Sir Thomas Clubber ficou direito como 
um fuso, olhando magestosamente para a sociedade por cima 
da gravata preta. 

— O sr. Smithie, Mrs. Smithie e as Misses Smithie, foi o 
annuncio seguinte. 

— Quem vem a ser este sr. Smithie ? perguntou o sr. Tracy 
Tupman. 

— Qualquer cousa no Arsenal, respondeu o desconhecido. 
O sr. Smithie curvou-se com deferência diante de Sir 

Thomas Clubber; e Sir Thomas Clubber correspondeu ao 
cumprimento com uma condescendência cônscia de si. Lady 
Clubber concedeu uma olhadella a Mrs. Smithie e sua familia 
atravez da sua luneta, e Mrs. Smithie encarou por seu turno 
Mrs. Sicrana, cujo mando não pertencia ao Arsenal. 

— O coronel Bulder, xMrs. Bulder e Miss Bulder, foram 
estes os que chegaram em seguida. 

— Commanda a guarnição, disse o desconhecido, em res- 
posta ao olhar interrogativo do sr. Tupman. 

Miss Bulder foi acolhida com fervor pelas Misses Club- 
bers ; os cumprimentos entre Mrs. Bulder e Lady Clubber 



Snipe significa pateta. 



26 AS avenYuras 



foram da máxima cordialidade ; o coronel Bulder e Sir Tho- 
mas Clubber offereceram pitadas um ao outro, e assimilha- 
vam-se a um par de Alexandres Selkirks : «Monarchas de 
quanto viam». 

Ao passo que a aristocracia do sitio — os Bulders e 
Clubbers e Snipes — assim estavam guardando a sua digni- 
dade no extremo superior da sala, as outras classes da socie- 
dade tratavam de lhes seguir o exemplo n'outras partes d'ella. 
Os officiaes menos aristocráticos do 97 dedicavam-se ás fa- 
mílias dos funccionarios m.enos importantes do Arsenal. As 
mulheres de solicitadores, mais a mulher do negociante de 
vinhos, assumiam a direcção de outro circulo (a mulher do 
cervejeiro, essa era visita dos Bulders) ; e Mrs. Tomlison, a 
directora do correio, parecia por consenso mutuo haver sido 
escolhida como chefe do grupo mercantil. • 

Um dos personagens mais populares no seu circulo, o 
qual estava presente, era um homem baixo e gordo, com uma 
grinalda de cabellos pretos espetados á roda da cabeça e uma 
extensa planície escalvada no cimo d'ella. 

Era o dr. Slammer, cirurgião do 97. 

O doutor pitadeava-se com toda a gente, cavaqueava com 
toda a gente, ria, dançava, dizia facécias, jogava o whist, fa- 
zia tudo e estava em toda a parte, 

A esias occupaçóes, múltiplas, como eram, o doutor ajun- 
tava outra mais importante amda — era infatigável em fazer 
a mais perseverante corte a uma viuva baixa e idosa, cujo 
rico vestuário e profusão de adornos a recommendavam como 
um bem appetecivel accrescimo a um parco rendimento. 

Sobre o doutor e a viuva haviam-se fixado por alguns 
momentos os olhos do sr. Tupman e do seu companheiro, 
quando este rompeu o silencio. 

— Milho em barda — solteirona — doutor pomposo — não 
é má ideia — bella partida ; foram estas as phrases intelligi- 
veis que surdiram dos seus lábios. 

O sr. Tupman encarou-o interrogativamente. 

— Vou dançar com a viuva, disse o sujeito. 

— Quem é élla ? perguntou o sr. Tupman. 

— Sei lá — nunca a vi mais gorda — tramar o doutor — 
lá vae. 

E o desconhecido atravessou immediatamente a sala; e. 



DO SR. PICKWICK 



encostando-se a iim fogão, começou a embevecer-se com 
uns ares de admiração respeitosa e melancólica no semblante 
nédio da pequena viuva. 

O sr. Tupman olhava para elle, com surpreza muda, 

O sujeito progredia a olhos vistos ; o doutor dançava com 
outra dama — a viuva deixou cahir o leque; o desconhecido 
apanhou-o e apresentou-lh'o — um sorriso — uma reverencia 
— uma cortezia — dois dedos de dialogo. O desconhecido 
afastou-se audazmente e voltou com o mestre de ceremo- 
nias ; uma breve pantomima de apresentação ; e o desconhe- 
cido com Mrs. Budger tomaram logar na quadrilha. 

O espanto do sr. Tupman a este procedimento summa- 
rio, embora grande, foi colossalmente excedido pelo assom- 
bro do doutor. 

O desconhecido era um rapaz novo, e a viuva estava li- 
songeada. 

A corte do doutor era desdenhada pela viuva; e a indi- 
gnação do doutor era completamente perdida sobre o seu 
imperturbável rival. O dr. Slammer estava paralysado. Elle, 
o dr. Slammer, do 97, ser annullado n'um momento, por um 
homem que ninguém tinha visto até ali e a quem ninguém 
mesmo conhecia então ! 

O dr. Slammer — o dr. Slammer, do 97, despresado ! Im- 
possível! Não podia ser! Pois era assim mesmo; lá estavam 
elles. O que ! Então agora apresentava o seu amigo ! Daria 
credito aos seus olhos ! Observou de novo, e viu-se na dura 
contingência de admittir a pureza da sua visão ; Mrs. Budger 
estava a dançar com o sr. Tupman, não havia engano pos- 
sível. Lá estava a viuva deante d'elle, pulando a valer, de 
quando em quando, com vigor desacostumado ; e o sr. 
Tracy Tupman aos saltos á roda d'ella, com uma cara ex- 
pressiva da mais intensa solemnidade, dançando (á laia de 
muita gente) como se a quadrilha não fosse cousa de brin- 
cadeira, mas uma árdua prova de sentimentos que exige uma 
decisão inflexível para a supportar. 

Em silencio e com paciência soffreu tudo isto o doutor, 
e mais todos os ofFerecimentos de refrescos, e o esperar pe- 
los copos servidos, e o ataque dos bolos, e o coquetear, que 
se seguiram ; mas, poucos segundos depois de ter desappa- 
recído o seu rival para acompanhar Mrs. Budger até á car- 



28 AS AVENTURAS 



ruagem, elle precipitou-se surrateiramento para fora da sala 
com todas as partículas da sua até então engarrafada indi- 
gestão, eífervescendo de todas as partes do seu rosto, n'uma 
apaixonada transpiração. 

O desconhecido voltava, e o sr. Tupman vinha á ilharga 
delle. fallava baixo, e ria-se. 

O doutor sentiu sede d'aquella vida, Elle exultava. Elle 
havia triumphado. 

— Senhor, disse o doutor com voz terrível, apresentando 
o seu bilhete de visita e afastando-se para um recanto do 
corredor, o meu nome é Slammer, o dr. Slammer, senhor — 
regimento 97 — Chatham Barracks — o meu bilhete, senhor, 
aqui tem o meu bilhete. 

Tinha vontade de acrescentar mais, mas a indignação 
sufifocava-o. 

— Ah ! replicou o desconhecido friamente, Slammer — 
obrigadissimo — uma attenção delicada — por agora estou 
de saúde, Slammer — mas quando adoecer — lá lhe bato á 
porta. 

— O senhor, o senhor é um intrujão, arquejou o doutor 
furioso, um poltrão — um cobarde — um mentiroso — um — 
um — nada o pôde resolver a dar-me o seu bilhete ^ 

— Oh: já percebo, disse o sujeito, meio aparte, bebidas 
fortes demais aqui — hospedeiro generoso — grande asneira 

— grande — limonada muito preferível — muito calor nas sa- 
las — já entrado em annos — amanhã lhe sentirá os eíFeitos 

— triste — triste. 

E afastou se um ou dois passos. 

— O senhor está hospedado n'esta casa, disse o homem- 
sinho fulo, agora está embriagado ; amanhã de manhã terá 
noticias minhas. Eu darei comsigo. 

— Dê, quando quizer, meu caro senhor, replicou o impas- 
sível desconhecido. 

O sr. Slammer manifestou uma inexprimível ferocidade, 
ao firmar o chapéo na cabeça com uma pancada furiosa : e 
o sr. Tupman e o seu companheiro subiram para o quarto 
do primeiro, afim de restituir a emprestada plumagem ao in- 
consciente Wínkle. 

Este cavalheiro dormia a somno solto ; n'um instante se 
concluiu a restituição. 



DO SR. PICKWICK ICf 



O desconhecido estava em extremo jocoso ; e o sr. Tracy 
Tupman, como se achava de todo desorientado á força de 
vinho e de bebidas, de luzes e de damas, julgou que tudo 
aquillo não passava de uma brincadeira original. O seu novo 
amigo despediu-se; e, depois de experimentar uma ligeira 
difficuldade em acertar com o orifício do barrete de dormir, 
originalmente destinado á recepção da sua cabeça, e de ter 
afinal deitado ao chão o castiçal nos seus esforços para o 
pousar na mesa, o sr. Tracy Tupman conseguiu metter-se 
na cama, por uma serie de evoluções comphcadas, e a breve 
trecho mergulhava n'um doce torpor. 

Acabavam apenas de soar sete horas, na manhã seguinte, 
quando o vivo espirito do sr. Pick\vick foi despertado de um 
estado de inconsciência, em que o somno o havia immer- 
gido, por umas violentas pancadas á porta do seu quarto. 

— Quem está ahi ? perguntou o sr. Pickwick, dando um 
pulo na cama. 

— E' o criado. 

— Que quer? 

— O senhor faz obsequio de me dizer qual dos senhores 
é que usa uma casaca azul clara, com botões dourados e as 
letras G. P. .^ 

— Deram-lh'a para escovar, pensou o sr. Pickwick, e o 
homem já não se lembra a quem pertence. — E' o sr. Winkle, 
bradou elle, o segundo quarto á direita, depois d'este. 

— Muito obrigado, disse o criado e foi-se embora. 

— O que é isto ? gritou o sr. Tupman, apenas umas pan- 
cadas violentas na sua porta o arrancaram ao seu ineífavel 
repouso. 

— Posso fallar ao sr. Winkle ? replicou o criado, do ex- 
terior. 

— Winkle — Winkle, bradou o sr. Tupman, chamando 
para a alcova interior. 

— O que é ? redarguiu uma débil voz vinda debaixo dos 
lençoes. 

— Andam á sua procura — alguém que está á porta. 

E tendo feito um grande esforço para articular tanto como 
isto, o sr. Tupman virou-se para o outro lado e tornou a 
adormecer. 

-— A' minha procura ! disse o sr. Winkle, saltando preci- 



ÔO AS AVENTURAS 



pitadamente para fóra da cama, e procedendo a um vestuá- 
rio summario, á minha procura ! a esta distancia da cidade 
— quem diabo é que pôde querer alguma cousa de mim ? 

— Um sujeito que está no café, replicou o criado, quando 
o sr. Winkle abriu a porta e o defrontou; o sujeito diz que 
não o demora um minuto, mas que não pôde aceitar uma 
recusa. 

— E' extraordinário ! disse o sr. Winkle ; bem ! desço, 
não tarda nada. 

Enrolou-se á pressa n'uma manta de viagem e n'um robe- 
de-chambre, e correu escada abaixo. Uma velha e dois cria- 
dos estavam a limpar a sala do café, e um official á paisana 
estava á janella. Voltou-se, mal entrou o sr. Winkle, e teve 
uma rigida inclinação de cabeça. Tendo ordenado aos cria- 
dos que se retirassem e fechado cuidadosamente a porta, ex- 
clamou : 

— O sr. Winkle, creio eu ? 

— E' esse o meu nome. 

— Não deve licar surprehendido, quando eu o informar 
que venho agora procural-o em nome do meu amigo, o dr. 
Slammer, do regimento 97. 

— O dr. Slammer 1 disse o sr. Winkle. 

— O dr. Slamm.er. Pediu-me elle que expressasse a sua 
opinião sobre o comportamento do sr. W^inkle na noite pas- 
sada. E' elle de um caracter que nenhum gentleman poderia 
tolerar. E, acrescentou elle, que nem um único gentleman 
teria usado para com outro. 

O espanto do sr. Winkle era em demasia real e evidente 
para escapar á observação do amigo do dr. Slammer : por 
isso proseguiu : 

— O meu amigo dr. Slammer pediu-me para acrescentar 
a sua firme persuasão de que o sr. Winkle esteve embriagado 
durante parte da noite, e provavelmente, inconsciente da 
gravidade do insulto de que se tornou culpado. Deu-me com- 
missão para dizer que, caso isto seja allegado como desculpa 
para o seu comportamento, elle consente em aceitar uma 
satisfação escripta por mão do sr. Winkle e ditada por 
mim. 

— Uma satisfação 1 repetiu o sr. Winkle, no tom mais em- 
phatico de assombro que é possível dar-se. 



DO SR. PICKWICK 



— E' escusado enunciar a alternativa, replicou friamente 
o visitante. 

— Foi a mim mesmo, ao meu nome, que lhe confiai-am 
essa mensagem r perguntou o sr. Winkle, cujo intellecto es- 
tava desesperadamente confundido com esta extraordinária 
conversação. 

— Eu não estava presente á questão, redarguiu o official, 
e cm consequência da teimosa recusa do sr. Winkle quando 
o doutor lhe pediu o seu bilhete, o meu amigo rogou-me que 
descobrisse o cavalheiro que usa uma casaca pouco commum 
— azul clara, com botões dourados, tendo n'estes um busto 
e as letras C. P. 

O sr. Winkle ia desmaiando de pasmo, ao ouvir o seu 
fato tão minuciosamente descripto. O amigo do dr. SIammer 
continuou : 

— Das investigações que fiz agora mesmo ao balcão, con- 
clui que o dono da casaca em questão chegara hontem aqui, 
com mais três cavalheiros. Mandei immediatamente consul- 
tar o cavalheiro que parecia ser o director do grupo, e elle 
indicou-me logo o sr. Winkle. 

Se a torre principal do castello de Rochester houvesse 
subitamente desamparado os seus alicerces e caminhado até 
defronte das salas do café, insignificante teria sido a sua sur- 
preza comparada ao profundo pasmo com que elle ouvira as 
palavras do seu interlocutor. A sua primeira impressão foi 
que lhe tinham roubado a casaca. 

— Permitte-me que o deixe por um momento? disse elle. 

— Pois não I replicou o importuno visitante. 

O sr. Winkle desatou a correr pela escada acima, e abriu 
a mala com mão tremula. Lá estava a casaca no seu logar 
habitual, mas exhibindo, a uma rápida inspecção, evidentes 
signaes de ter sido vestida na noite anterior. 

— Deve ser isto, disse o sr. Winkle, deixando cahir a ca- 
saca das mãos. Bebi vinho de mais depois de jantar, e tenho 
uma recordação muito vaga de ter passeiado pelas ruas e fu- 
mado depois' um charuto. O que é facto é que eu estava 
muito bêbado ; — provavelmente mudei de casaca — fui a 
qualquer parte — e insultei qualquer pessoa — não ha du- 
vida ; e esta mensagem é a terrivel consequência. 

Dizendo isto, o sr. Winkle retrocedeu em direcção á sala 



32 AS AVENTURAS 



do café, com a sinistra e tremenda resolução de aceitar o 
desalio do bellicoso dr. Slammer, e de se resignar ás peio- 
res consequências que d'ahi podessem provir. 

O sr. Winkle era levado a esta determinação por uma se- 
rie de considerações; a primeira das quaes eVa a sua reputa- 
ção perante o ciub. 

Elle sempre fora olhado como auctoridade eminente em 
todas as questões de recreio e de dextreza, quer offensivas, 
defensivas ou inoíTensivas ; e se acaso logo na primeira occa- 
sião em que era posto a prova, elle succumbisse sob os olhos 
do seu chefe, o seu nome e a sua posição ficavam perdidos 
para sempre. 

Além d'isso, elle recordava-se de ter ouvido segredar fre- 
quentemente aos profanos na matéria, que por uma combi- 
nação implicita entre os padrinhos, as pistolas raras vezes eram 
carregadas com bala ; e também reflectiu que, dirigindo- 
se ao sr, Snodgrass para lhe servir de padrinho e pintando- 
Ihe o perigo em termos tenebrosos, este seu amigo commu- 
nicaria provavelmente a noticia ao sr. Pickwick, o qual de- 
certo não perderia tempo em transmittil-a ás auctoridades 
locaes, e a evitar assim a morte ou a mutilação do seu se- 
quaz. 

Taes eram os seus pensamentos ao voltar para o café, 
e ao expressar a sua intenção de aceitar o desafio do dou- 
tor. 

— Deseja indicar-me um amigo, com quem combine a 
hora e o local do encontro ? perguntou o official 

— E' escusado, replicou o sr. Winkle ; designe-os o se- 
nhor, e eu depois tratarei de arranjar um amigo que me 
acompanhe. 

— Convem-lhe hoje ao sol posto ? interrogou negligente- 
mente o othcial. 

— Muito bem, redarguiu o sr. Winkle, pensando de si 
para si que era muito mau. 

— Conhece o forte Pitt ? 

— Conheço ; vi-o hontem. 

— Se quizer dar-se ao incommodo de voltar para o campo 
que confina com a trincheira, de tomar o atalho á esquerda, 
logo que chegue a um angulo da fortificação, e de seguir em 
frente até que me veja, eu o guiarei a um sitio isolado, onde se 



DO SR. pickwick: 33 



pôde levar a cabo este negocio sem receio de interrupção, 

— Receio de interrupção I pensou o sr. Winkle. 

— Não ha nada mais a tratar, cuido eu, disse o official. 

— Não me lembra mais nada, replicou o sr. Winkle. 

— Muito bons dias. 

— Muito bons dias. 

E o official afastou se a passo militar, assobiando uma 
canção alegre. 

N'aquelía manhã correu soturno o almoço. O sr. Tupman 
não estava erfi disposições de se excitar depois das desacos- 
tumadas extravagâncias da noite precedente ; o sr. Snodgrass 
parecia oppresso sob uma depressão poética de espirito; e 
até o sr. Pickwick manifestava uma desusada tendência para 
o silencio e para a soda-water. O sr. Winkle espreitava com 
avidez o ensejo de fallar. Não tardou muito. O sr. Snodgrass 
propoz uma visita ao castello, e como o sr. Winkle era o 
único companheiro disposto a passeiar, sahiram os dois jun- 
tos. 

— Snodgrass, disse o sr. Winkle, apenas se acharam na 
rua, Snodgrass, meu caro amigo, posso confiar na sua discri- 
ção ? 

Dizendo isto, elle tinha a mais devotada e sofFrega espe- 
rança de não confiar. 

— Pode, replicou o sr. Snodgrass. Se quer que eu jure. . . 

— Não, não, interrompeu Winkle atterrado com a ideia 
de que o seu companheiro se compromettesse inconsciente- 
mente a não divulgar o segredo; escusa de jurar, é perfeita- 
mente inútil. 

O sr, Snodgrass deixou cahir a mão que, segundo a forma 
poética^ elle elevara para as nuvens, quando fizera a ^ua in- 
vocação, e assumiu uma attitude attenta. 

— Preciso do seu concurso, meu caro, para uma pendên- 
cia de honra, disse o sr. Winkle. 

— Estou ás suas ordens, replicou o sr. Snodgrass, agar- 
rando na mão do amigo. 

— Com- um doutor — um tal doutor Slammer, do 97, disse 
o sr. Winkle, desejando dar ao assumpto as mais solemnes 
apparencias possivel, uma pendência com um official, sendo 
testemunha outro official, n'um campo isolado para lá do 
forte Pitt. 

D 



34 AS AVENTURAS 



— Serei a sua testemunha, disse o sr. Snodgrass. 
Estava pasmado, mas por fórma alguma desanimado. 

E' extraordinária a frieza que n'estes casos mostram to- 
das as partes, a não ser a principal interessada. O sr. Winkle 
tinha-se esquecido d'isto. Regular á pelos seus os sentimentos 
do amigo. 

— As consequências podem ser terríveis, disse elle. 

— Espero que não, disse o sr. Snodgrass. 

— O doutor supponho que é hom atirador. 

— Como a maior parte dos militares, observou o sr. 
Snodgrass serenamente, mas você também é, não é ver- 
dade ? 

O sr. Winkle respondeu affirmativamente ; e percebendo 
que não tinha assustado bastante o amigo, mudou de tá- 
ctica. 

— Snodgrass, disse elle em voz tremula de emoção, se eu 
succumbir, achará n'um embrulho que lhe deporei nas mãos 
um bilhete para meu. . . para meu pae. 

Este ataque falhou também. 

O sr. Snodgrass ficou impressionado, mas encarregou-se 
da entrega do bilhete com tanta promptidão, como se fosse 
um simples carteiro. 

— Se eu succumbir, disse o sr. Winkle, ou se o doutor 
succumbir, você, meu caro amigo, será julgado nos tribu- 
naes como testemunha. Deverei eu sujeitar um amigo meu a 
deportação — talvez por toda a vida ? 

O sr. Snodgrass sobresaliou-se um pouco, mas o seu he- 
roísmo foi invencível. 

— Pela causa da amisade, exclamou elle com fervor, af- 
frontarei todos os perigos. 

Ccmo o sr. Winkle amaldiçoou intimamente a dedicada 
amisade do companheiro, em quanto iam caminhando silen- 
ciosamente, ao lado um do outro, durante alguns minutos, 
cada um d'elles mergulhado nas suas próprias meditações I 
A manhã ia passando; elle chegou ao cumulo do deses- 
pero. 

— Snodgrass, disse elle, parando de repente, veja lá, não 
me ponha estorvos — não faça denuncia ás auctoridades locaes 
— não reclame a assistência da policia, para obter a minha 
detenção ou a do dr. Slammer, do regimento 97, actualmente 



DO SR. PICKWICK 



35 



aquartellado em Chatham Barracks, e evitar assim este 
duello ; — veja lá, não faça nada d'isto. 

O sr. Snodgrass agarrou com calor a mão do amigo, e re- 
plicou com enihusiasmo : 

— Descance, por cousa alguma d'este mundo o farei ! 
Pelo corpo do sr. Winkle passou um calafrio, quando 

o empolgou a convicção de que nada tinha a esperar dos te 
mores do seu amigo e de que estava destinado a transfor- 
mar-se n'um alvo animado. 

Explicado minuciosamente o caso ao sr. Snodgrass, alu- 
gada a um fabricante de Rochester uma caixa de pistolas de 
dois canos, com os devidos petrechos, pólvora, balas, etc, 
os dois amigos voltaram á estalagem: o sr. Winkle para ru- 
minar sobre o combate imminente ; e o sr. Snodgrass para 
preparar as armas de guerra e pôl-as em estado de uso im- 
mediato. 

Estava uma tarde sombria e pesada, quando elles torna- 
ram a sahir para o seu desagradável intento. 

O sr. Winkle ia embrulhado n'uma enorme capa para se 
subtrahir á observação ; e o sr. Snodgrass levava debaixo da 
sua os instrumentos de destruição. 

— Traz tudo? disse o sr. Winkle, com voz agitada. 

— Tudo, respondeu Snodgrass; petrechos á farta, caso 
os tiros não surtam eífeito. Vem na caixa uma quarta de 
pólvora, e trago dois jornaes na algibeira para buxas. 

Eram provas de amisade, pelas quaes qualquer homem 
deveria com razão sentir-se gratissimo. E' presumivel que a 
gratidão do sr. Wmkle era demasiado intensa para achar ex- 
pressões condignas, visto que se calou e continuou a andar 
— com pouca pressa. 

— Temos tempo, disse o sr. Snodgrass, quando os dois 
trepavam a primeira trincheira ; o sol está agora mesmo a ir 
para baixo. 

O sr. Winkle olhou para cima, para o globo que decli- 
nava, e pensou lamentosamente na possibilidade de elle tam- 
bém «ir para baixo» dentro em pouco. 

— Lá está o official, exclamou o sr. Winkle, depois dq 
andar alguns minutos. 

— Onde ? perguntou o sr. Snodgrass. 

— Além; — aquelle sujeito de capote azul. 



OO AS AVENTURAS 



O sr. Snodgrass olhou na direcção apontada pelo index 
do amigo, e observou uma figura embrulhada, conforme a 
descripção. 

O oííicial patenteou o ter dado pela presença d'elles por 
um leve aceno de mão ; e os dois amigos seguiram, a curta 
distancia, o caminho que elle tomou. 

A tarde escurecia cada vez mais, e um vento melancólico 
resoava pelos campos desertos, como um gigante longinquo 
a assobiar ao seu cão. A tristeza da scena espargia uma tinta 
sombria sobre os sen:imentos do sr. Winkle. Estremeceu ao 
passar o angulo da trincheira — assimilhava-se a um tumulo 
collossal. 

O official sahiu de repente do atalho ; e depois de trepar 
uma estacada e de escalar uma sebe, entrou n'um campo 
apartado. Ali estavam á espera dois individuos : um d'elles 
era um homemsinho gordo, de cabellos pretos; o outro — 
um sujeito de aspecto imponente e de casaca d'alamares 
— estava sentado com a mais completa serenidade n'um ban- 
quinho de campanha. 

— O seu adversário mais um cirurgião, supponho eu 
disse osr. Snodgrass; tome lá uma pinga de aguardente. 

O sr. Winkle agarrou-se á garrafa envolta em vime, que 
o amigo lhe estendia, e tomou um prolongado gole. do liquido 
exhilariante. 

— O meu amigo sr. Snodgrass, disse o sr. Winkle, quando 
o official se aproximou. 

O amigo do dr. Slammer inclinou-se e ostentou uma caixa 
idêntica á trazida pelo sr. Snodgrass. 

— Nada mais temos a dizer, supponho eu, notou elle fria- 
mejite, abrindo a caixa ; recusou-se terminantemente uma 
justificação. 

— Nada mais, disse o sr. Snodgrass, que começava tam- 
bém a sentir se desagradavelmente impressionado. 

— Quer dar-se ao incommodo de avançar? perguntou ao 
official. 

— Pois não, replicou Snodgrass. 

Mediu-se o terreno, e combinaram-se os preliminares. 

— Ha de achar estas melhor do que as suas, disse a teste- 
munha da parte opposta, apresentando as suas pistolas. Viu- 
me carregal-as. Tem duvida em servir-se d'ellas ? 



no SR. PICKWICK J7 



— Por forma alguma, repricou o sr. Snodgrass. 

Esta otTerta alliviou-o de um embaraço enorme ; porque 
as suas noções anteriores sobre o carregar de uma pistola 
eram um tanto vagas e indefinidas. 

— N'esse caso, parece-me que podemos collocar os nos- 
sos homens, observou o oíficial, com tanta indifferença como 
se os duellistas fossem trebelhos de xadrez e os padrinhos 
jogadores. 

— Julgo que podemos, redarguiu o sr. Snodgrass, o qual 
teria concordado com qualquer proposta, por não saber nada 
do assumpto. 

O official atravessou em direcção do dr. Slammer, e o sr. 
Snodgrass approximou~se do sr. Winkle. 

— Prompto, disse elle, otTerecendo a pistola. Dè ca a sua 
carga. 

— ^Você tem o embrulho em seu poder, meu caro amigo, 
disse o pobre Winkle. 

— Tudo em ordem, disse o sr. Snodgrass. Tenha firmeza 
e trate de o desazar. 

Occorreu ao sr. Winkle que esta advertência era muito 
parecida com a que os circumstantes dão invariavelmente ao 
garoto mais petiz nas desavenças da rua : «Anda, a elle, 
meite o debaixo de ti!» — Um conselho admirável, o caso é 
saber pòl o em pratica! Comtudo,- despiu a capa em silen- 
cio — levava sempre muito tempo a desabotoar essa capa — 
e recebeu a pistola. 

Ospadrinhosafastaram-se, osuj«ito que estava no banqui- 
nho fez o mesmo, e os belligerantes adiantaram-se um para 
o outro. 

O sr. Winkle sempre fora notável pela sua extrema hu- 
manidade. E' de suppòr que a sua repugnância em damnifi- 
car intencionalmente o próximo foi a causa que o obrigou a 
fechar os olhos, ao chegar ao sitio fatal, e que a circumstan- 
cia de ter os olhos fechados é que obstou a que observasse 
os extraordinários e inexplicáveis movimentos do dr. Slam- 
mer. 

Este cavavalheiro estremeceu, abriu muito os olhos, re- 
cuou, esfregou as pálpebras, tornou a abrir os olhos ; e afinal 
desatou a berrar : «Parem ! Parem \» 

— Que quer dizer isto? perguntou elle, quando o seu 



38 AS AVENTURAS 



amigo e o sr. Snodgrass se aproximaram a correr. Não é 
este o homem ! 

— Não c o homem! disse a testemunha do dr, Slam- 
mer. 

— Não é o homem ! disse o sr. Snodgrass. 

— Não é o homem ! disse o sujeito com o banquinho na 
mão. 

— Está claro que não, repHcou o doutorsinho. Não é este 
o individuo que me insuhou a noite passada. 

— E' extraordinário! exclamou o official. 

— Muito extraordinário, disse o sujeito do banquinho. A 
questão única é se este cavalheiro, visto achar-se no campo, 
não deve ser considerado, em matéria de forma, como o in- 
dividuo que insultou o nosso amigo dr. Slammer, hontem á 
noite, quer elle seja realmente esse individuo, quer não. 

E tendo suggerido esta ideia, com um aspecto mysterioso 
e sapientissimo, o homem do banquinho tomou .uma grande 
pitada de rapé, e olhou profundamente em volta de si, com 
ares de auctoridade em taes matérias. 

Ora o sr. Winkle abriu os olhos, e também os ouvidos, 
ao ouvir o seu adversário reclamar uma suspensão de hos- 
tilidades ; e percebendo pelo que elle dissera em seguida 
que, sem a menor duvida, havia algum equivoco, elle previu 
n'um abrir e fechar d'olhos, o accrescimo de reputação que 
inevitavelmente adquiriria, reservando o motivo real da sua 
vinda ali : por isso avançou audaciosamente e disse : 

— Não sou eu o individuo. Já o sabia. 

— N'esse caso, disse o homem do banquinho, é isso uma 
affronta para o dr. Slammer e uma razão sufficiente para 
proceder sem delongas. 

— Faça favor de estar calado, Pavne, disse o padrinho do 
doutor. Porque é que o senhor não me communicou esta ma- 
nhã esse facto ? 

— Diz muito bem, diz muito bem, acudiu o homem do 
banquinho com indignação. 

— Rogo-lhe que se cale, Payne, disse o outro. E' preciso 
que eu repita a pergunta, senhor? <, 

— A razão é esta, replicou o sr. Winkle, que tivera tempo 
de dehberar sobre a resposta ; o senhor descreveu uma pes- 
soa embriagada e mal educada que vestia a casaca que eu 



no SR. IMCKWICK .-»() 



lenho a honra não só de usar, mas lambem de haver inven- 
tado — o uniforme proposto do Club Pickwick de Londres. 
Ora eu julgo-me obritíado a manter a honra d'esse uniforme, 
e por isso," sem mais investigações, aceitei o repto que o se- 
nhor me lançou. 

- — Meu caro senhor, disse o jovial doutor, adiantando-se 
com a mão estendida, presto homenagem ao seu cavalhei- 
rismo. Permitta-me que lhe diga, senhor, que admiro alta- 
mente o seu procedimento, e sinto deveras o ter causado 
este inconveniente encontro sem resultado. 

— Não falle mais em tal, disse Winkle. 

— Terei um grande orgulho em o conhecer, disse o dou- 
torsinho. 

— Dar-me-ha o máximo prazer o conhecel-o, replicou o 
sr. Winkle. 

Ditas estas palavras, o doutor e o sr. Winkle apertaram-se 
as mãos, e depois o sr. Winkle, mais o tenente Tappleton, 
testemunha do doutor, e depois o sr. Winkle mais o homem 
do banquinho, e finalmente o sr. Winkle mais o sr. Snod- 
grass, o qual estava possuído de uma excessiva admiração 
pelo galhardo proceder do seu heróico amigo. 

— Julgo que devemos dar por findo o encontro, disse o 
tenente Tappleton. 

— Certamente, ajuntou o doutor. 

— A não ser, atalhou o homem do banquinho, que o sr. 
Winkle se sinta oflendido pelo desafio : n'esse caso, concordo 
que tem direito a uma satisfação. 

O sr. Winkle, com a máxima abnegação, manifestou- se 
plenamente satisfeito. 

— Ou talvez, disse o homem do banquinho, que a teste- 
munha d'este cavalheiro se sinta escandalisada com alguma 
observação que me escapasse no começo do encontro : sendo 
assim, eu terei muito gosto em lhe dar satisfação immediata. 

O sr, Snodgrass declarou se promptamente agradecidís- 
simo á delicada oíTerta do sujeito que acabara de fallar, of- 
ferta que elle julgava do seu dever declinar, pela cabal adhe- 
são a tudo o que se passara. 

Os dois padrinhos arrumaram as caixas, e o grupo sahiu 
do campo por forma mais jovial do que aquella com que lá 
entrara. 



40 AS AVENTURAS 



— Demora-se aqui muito tempo? perguntou o dr. Slam- 
mer ao sr. Winkle, quando clles iam andando muito amiga- 
velmente. 

— Cuido que devemos partir depois de amanhã, foi a res- 
posta. 

— Espero que terei o prazer de o ver, e mais o seu amigo, 
nos meus aposentos, e de passar uma noite agradável com- 
sigo, depois d'este importuno equivoco, disse o doutorsinho. 
Não está compromettido esta noite? 

— Estamos aqui com outros amigos, replicou o sr. Win- 
kle, e eu não gostaria de os deixar esta noite. Talvez que o 
doutor e os seus amigos não tenham duvida em ir ter com- 
nosco á hospedaria do Touro. 

— Com o maior prazer, disse o doutor. Não será tarde 
ás dez horas, para lhes fazermos uma visita de meia hora ? 

— De modo algum, disse o sr. Winkle. Estimarei im- 
menso apresental-o aos meus amigos, os srs. Pickwick e Tu- 
pman. 

— Terei n'isso o maior gosto, com certeza, replicou o 
dr, Slammer, mal suspeitando quem fosse o sr. Tupman. 

— Podemos contar comsigo ? perguntou o sr. Snodgrass. 

— Oh ! decerto I 

Entrementes tinham chegado ú estrada. 

Trocaram-se cordiaes despedidas, e o grupo separou-se. 

O dr. Slammer e os seus amigos dirigiram-se para o quar- 
tel, e o sr. Winkle acompanhado pelo seu amigo sr. Snod- 
grass, voltou p^ra a hospedaria. 



CAPITULO III 

Um novo conhecimento. — A historia do actor 
ambulante — Uma interrupção desagradável, e 
um encontro importuno. 

O sr. Pickwick sentia algumas apprehensões em conse- 
quência da desacostumada ausência dos seus dois amigos, 
apprehensões que o seu mysterioso comportamento durante 
a manhã inteira não tendera nada a diminuir. 



DO SR. PICKWICK 41 



Foi pois com prazer, mais do que usual, que elle os sau- 
dou á entrada ; e com interesse tora do vulgar que elle inqui- 
riu qjnes as occorrencias que os haviam apartado da sua 
companhia. 

Em resposta ás suas perguntas a tal respeito, o sr. Snod- 
grass ia abrir a bocca para apresentar uma narrativa histó- 
rica das circumstancias que acabamos de pormenorisar, 
quando subitamente se conteve, por ver que estavam presen- 
tes, não só o sr. Tupman e o seu companheiro de diligencia 
da véspera, mas cutro desconhecido de apparencia egual- 
mente singular. 

Era um homem de aspecto abatido, cujo rosto descorado 
e olhos profundamente cavados ainda se tornaram mais fri- 
santes do que a natureza os fizera, pelos cabellos pretos e li- 
sos que lhe cabiam em desalinho até meio da cara. 

Tinha os olhos extraordinariamente brilhantes e perspi- 
cazes ; os ossos das faces altos e proeminentes; e os queixos 
tão compridos e descarnados que pareceria a um observador 
o estar elle a repuxar para dentro a carne das faces, por uma 
contracção momentânea dos músculos, se acaso a bocca 
semi-aberta e a expressão impassível não annunciasse que 
era este o seu aspecto habitual. 

Tinha um chalé verde á roda do pescoço, com as grandes 
pontas cabidas sobre o peito e apparecendo de quando em 
quando por baixo dcs casas gastas do velho coUete. 

Trazia por cima um comprido sobretudo preto; e abaixo 
d'elle umas calças largas de lã ordinária e grandes botas a 
pique de se desfazerem. 

Foi n'este estranho personagem que se cravou o olhar do 
sr. Winkle, e para elle é que o sr. Pickwick estendeu a mão, 
dizendo : 

— Um amigo d'este nosso amigo aqui. Descobrimos esta 
manhã que o nosso amigo tem ligações com o theatro da 
terra, comquanto elle não deseje que isso conste, e este ca- 
valheiro é membro da mesma profissão. Ia agora mesmo mi- 
mosear-nos com uma anecdotasita a propósito, quando os 
amigos entraram. 

— Sucia de anecdotas, disse o desconhecido da casaca 
verde, adiantando-se para o sr. Winkle e fallando em voz 
tniixa e confidencial. Patusco original — encarrega se das 



4- AS AVENTliP.A_s 



massadas — não é actor — homem extraordinário — toda a 
espécie de misérias. Lá na companhia pozemos-lhe a alcunha 
de Jemmy o Fúnebre. 

Os t,r>. Winkle e Snodgrass cumprimentaram com toda 
a delicadeza o cavallreiro que respondia a tão elegante alcu- 
nha ; e pedindo aguardente e agua, á similhança dos outros 
circumstantes, sentaram-se á mesa. 

— Agora, senhor, disse o sr. Pickwick, quer ter a bondade 
de começar o que ia contar-nos ? 

O individuo fúnebre sacou da algibeira um rolo de papel 
enxovalhado, e virando-se para o sr. Snodgrass, que acabava 
de tomar o seu livro de notas, disse em voz cava, perfeita- 
mente adequada ao seu exterior. 

— O senhor é poeta ? 

— Eu. . . eu trabalho um pouco no género, explicou o sr. 
Snodgrass, um tanto perturbado peio brusco da interpella- 
ção. 

— Ah ! a poesia faz da vida o mesmo que as luzes e a mu- 
sica fazem do palco. Eliminem este dos falsos adornos e 
aquelle das illusóes, e o que ha de real em qualquer das duas 
coisas, que valha o nosso interesse ? 

— Tem muita razão, redarguiu o sr. Snodgrass. 

— Estar diante da ribalta, continuou o homem fúnebre, 
é como estar sentado n'uma reunião da corte, a admirar os 
vestidos de seda da multidão faustosa — estar por detraz 
d'ella o mesmo é que ser a gente que fabrica essas pompas, 
turba desconhecida e despresada e que se deixa afundar ou 
nadar á superfície, morrer de fome ou viver, conforme os 
vaiveus da fortuna. 

— Certamente, disse o sr. Snodgrass, porque os olhos en- 
covados do homem fúnebre estavam cravados n'elle e lhe 
impunham a necessidade de dizer qualquer coisa. 

— Ande lá, Jemmy, disse o viajante das Hespanhas, ani- 
me-se — deixe-se de coaxar — falle para ahi — seja amá- 
vel. 

— Quer preparar outro copo antes de começar ? pergun- 
tou o sr. Pickwick. 

O homem fúnebre accedeu ao convite. Arranjou um copo 
de aguardente e agua, enguliu vagarosamente metade do con- 
teúdo, abriu o rolo de papel, e principiou, ora a ler, ora a 



DO SR. PICKWICK 43 



relatar o caso seguinte, que encontramos registado nas actas 
do Club, sob o titulo : A Historia do actor ambulante. 

— Nada ha de maravilhoso no que passo a relaiar-lhes : 
nada ha mesmo de raro. A miséria e a doença são demasiado 
vulgares em muitas situações da vida, para merecerem uma 
menção maior do que a que se concede de ordinário ás mais 
banaes vicissitudes da vida. Golligi estes apontamentos, por- 
que durante muitos annos tive relações intimas com o proto- 
gonista. Tracei passo a passo a sua queda, até ter afinal at- 
tingido aquelle excesso de ignominia do qual nunca mais se 
ergueu. 

<<0 homem de quem fallo era um Ínfimo actor de panto- 
mimas; e como um grande numero de individuos da sua 
classe, era bêbado por habito. - 

«Nos seus melhores tempos, antes de se ter enfraquecido 
na crápula e de ter emmagrecido peia doença, ganhava elle 
um bom salário, que, se elle fosse cuidadoso e prudente, po- 
deria ter continuado a receber durante alguns annos — não 
muitos : porque homens d'estes ou morrem cedo, ou perdem 
prematuramente pelo abuso as forças physicas que lhes po- 
dem sõ proporcionar os meios de subsistência. 

((O vicio habitual apoderou-se d'elle tão rapidamente, que 
se tornou impossivel empregai-o nos papeis em que elle era 
realmente útil ao iheatro. À taverna exercia sobre elle uma 
fascinação a que não podia resistir. A moléstia desamparada 
e a pobreza sem esperança eram para elle um quinhão tão 
seguro como a própria morte, se acaso perseverasse no mes- 
mo modo de vida; e no emtanto perseverou, e póde-se con- 
jecturar o resultado. Não pôde conseguir uma escriptura, e 
faltou-lhe o pão. 

«Sabem todos os que conhecem um pouco o meio thea- 
tral o exercito de miseráveis pobretões que andam depen- 
dentes de um estabelecimento d'este género — actores sem 
escriptura regular, que não passam de bailarinos, comparsas, 
figurantes, etc, os quaes são contractados para a exploração 
de uma pantomima ou de uma magica, e são em seguida des- 
pedidos, ate que a representação de outra peça de espectá- 
culo torne de novo necessários os seus serviços. 

«Foi a este modo de vida que o homem se viu forçado a 
'^' : er ; e representando todas as noites em qualquer sala 



44 AS AVENTURAS 



ordinária de espectáculo, conseguiu arranjar logo alguns 
shillings por semana, que o habilitaram a satisfazer a antiga 
propensão. 

«Mesmo este recurso a breve trecho lhe falhou ; as suas 
extravagâncias nem lhe permittiram que continuasse a mere- 
cer a magra pitança que elle assim poderia ganhar. 

'<Ficou por fim reduzido a um estado próximo da fome 
absoluta, arranjando apenas de quando em quando umas 
mealhas emprestadas por algum velho collega, ou conseguindo 
empregar-se uma ou outra noite n'algum dos mais Ínfimos 
theatros. E o pouco que assim ganhava, ia gastal-o no vicio 
costumado. 

«Por este tempo, e quando havia mais de um anno cjue 
elle assmi vivia sem ninguém saber como, fui eu contractado 
por pouco tempo para um dos theatros da margem sul do 
Tamisa. 

«Ahi tornei a encontrar esse homem, a quem perdera de 
vista havia tempos, porque eu tinha andado a viajar pela pro- 
víncia, emquanto elle andava a vadiar pelos beccos e viel- 
las de Londres. 

«Acabava eu de me vestir e de atravessar o palco para 
sahir, quando elle me bateu no hombro. 

«Nunca me esquecerei da figura repulsiva que se me apre- 
sentou aos olhos quando me voltei. Elle ^stava vestido para 
a pantomima com o traje grotesco de palhaço. 

«Os personagens espectraes da dança macabra, as figuras 
mais horrorosas que o mais hábil dos pintores houvesse 
creado, nem de longe apresentariam um aspecto mais sepul- 
chral. 

«O corpo opado e as pernas esqueléticas — cuja deformi- 
dade era centuplicada pelo phantastico do vestuário — os 
olhos envidraçados, contrastando medonhamente com a es 
pessa camada branca que lhe cobria o rosto ; a cabeça gro- 
tescamente enfeitada, tremula de paralysia, e as mãos com- 
pridas e ossudas esfregadas com alvaiade — tudo lhe impri- 
mia um aspecto hediondo e fora do natural, de que nenhuma 
descripção pôde dar ideia e de que a simples lembrança ainda 
me produz calafrios. 

«A voz d'elle era cava e tremula, quando me chamou de 
parte e me desfiou em palavras entrecortadas um longo ca- 



no SR. PICKWICK 43 



lalogo de doenças e privações, terminando, conforme o cos- 
tume, por sLipplicantes instancias para que lhe emprestasse 
uma quantia insignificante. 

"Depuz-llie nas mãos uns shillings, e, quando eu sahia, 
ainda ouvi o trovão de gargalhadas que acolheu a, sua pri- 
meira cambalhota no palco. 

«Algumas noites mais tarde, um rapazito veiu entregar-me 
um pedaço de papel sujo, em que estavam garatujadas umas 
palavras a lápis, pariicipando-me que o homem estava peri- 
gosamente doente, e pedindo-me que depois do espectáculo 
o fosse ver a casa d'elie, em qualquer rua, cujo nome me es- 
quece agora, mas que não ficava longe do theatro. 

«Pix)metti lá ir, apenas sahisse ; e logo que o panno cahiu 
tratei de executar a triste promessa. 

«Era tarde, porque eu tinha entradona ultima peça; e, 
como era recita de beneficio, tinha durado mais do que o 
costume. 

«Estava uma noite fria e escura, com uma ventania gelada 
e húmida, que atirava com a chuva de encontro ás janellas e 
ás frontarias. 

«Tinham-se formado largas poças de agua nas ruas es- 
treitas c poíuco frequentadas ; e como um grande numero dos 
raros candieiros haviam sido derribados pela violência do 
vento, o meu caminho era, sobre pouco agradável, muito in- 
certo. Por fortuna, não me tinha porém enganado, e depois de 
alguma difficuldade consegui dar com a casa que me tinham 
indicado — um deposito de carvão, com um andar por cima, 
nas trazeiras do qual residia o desgraçado. 

«Uma mulher de aspecto miserável, mulher d'elle, veiu ter 
comigo á escada, e, dizendo-me que elle acabava de cahir 
n'uma espécie de torp©r, guiou-me para dentro de casa e of- 
fereceu-me uma cadeira junto do leito. 

«O doente estava deitado com a cara voltada para a pa- 
rede ; como não desse pela minha presença, tive ensejo de 
analysar o aposento em que me achava. 

«A cama era de levante e velhíssima. Em volta da cabe- 
ceira estavam pendurados uns farrapos de uma cortina de 
riscado, para abrigar do vento que, apesar d'isso, se escoava 
para o mesquinho quarto pelas numerosas frinchas da porta, 
e agitava a cada instante o improvisado abrigo. 



40 AS AVENTURAS 



«N'uma grelha ferrugenta e escangalhada ardia um débil 
fogo de pó de carvão. Diante d'elle, em cima de uma mesa 
triangular, velha e sórdida, estavam uns poucos de frascos 
com remédios, um espelho quebrado e alguns outros obje- 
ctos de uso domestico. 

"Uma creancinha estava a dormir n'um.a cama que se im- 
provisara no chão, e a mulher sentava-se ao lado d'elle. 

«Havia umas duas prateleiras, com um pequeno numero 
de pratos, de chicaras e de pires; e por baixo estavam pen- 
durados uns dois floretes e um par de sapatos de iheatro. A' 
excepção de algumas pilhas de trapos atirados negligente- 
mente para os cantos, nada mais havia no aposento. 

"Eu tinha tido tempo para observar estes pormenores e 
para notar a respiração oppressa e os sobresaltos febris do 
doente, antes que elle desse pela minha presença 

"Nas tentativas constantes que fazia para encontrar uma 
posição de repouso para a cabeça, a mão d'elle, descahindo 
para fora da cama, encontrou a minha. Teve um sobresalto 
e olhou-m.e com ar espantado. 

« — E' o sr. Hutlev, John, disse a mulher. O sr. Hutley, que 
tu mandaste chamar esta noite, lembras-te ? 

« — Ah ! disse o invalido passando a mão pela testa, Hu- 
tley — Hutley — deixa cá ver. 

«Durante' alguns segundos pareceu tratar de colligir as 
suas recordações; em seguida, agarrando-me o pulso com 
força, exclamou : 

" — Não me desampares — não me desampares — meu ve- 
lho. Ella quer matar-me. Bem sei que ella quer. 

" — Ha muito tempo que elle está assim ? perguntei eu á 
mulher, lavada em lagrimas. 

« — Desde hontem á noite, respondeu ella. John, John, não 
me conheces .'' 

« — Não a deixes aproximar, disse o homem n'um^arrepio 
de pavor, quando ella se curvava para elle. Leva-a d'aqui para 
fora; não posso supportal-a ao pé de mim. 

"Encarou-a torvamente, com um olhar cheio de terror 
mortal, e depois disse-me em segredo : 

" — Eu bati-lhe, Jem ; bati-lhe hontem, e muita vez antes 
d'isso. Tenho-a matado á fome, e. ao pequeno também ; e 
agora ar.^ eu estou fraco e desamparado, Jem ella quer dar 



DO SR. PICKWíCK 47 



cabo de mim para se vingar; estou certo d'isso. Se a tivesses 
ouvido gritar, como eu, também te convencerias. Tira-m'a 
da vista. 

"Largou-me a mão, e cahiu exhausto sobre o travesseiro. 

«Eu estava farto de saber o que signilicava tudo isto. Se 
me íbsse possivel conservar alguma duvida, por um momen- 
to, um relancear de olhos para o semblante pallido e para o 
corpo franzino da mulher ter-me-hiá bastado para explicar a 
verdadeira situação. 

<< — E' melhor que se afaste, disse eu á pobre creatura. A 
sua presença não lhe pode fazer bem. Talvez que elle soce- 
gue em a não vendo. 

•'Ella atastou-se para fora da nossa vista. Elle abriu os 
olhos, passados instantes, e olhou sotfregamen-te em volta 
de si. 

« — Ella foi-se embora? perguntou elle com anciedade. 

« — Foi, foi, disse eu, descança, que não te faz mal. 

« — Eu te explico, Jem, disse o desditoso em voz baixa, 
ella faz-me muito mal. Ha nos seus olhos o quer que é que 
me traz ao coração um pavor enorme que me endoidece. A 
noite passada esteve ella sempre com os olhos pasmados e o 
rosto pallido ao pé de mim : para onde quer que eu voltava 
os olhos, voltava ella os seus : e em eu acordando em sobre- 
salto, via-a sempre á cabeceira a olhar para mim. 

"Puxou por mim para me aproximar mais e disse-me n'um 
cicio profundo e apavorado : 

« — Jem, ella não é senão um espirito mau — um demó- 
nio ! Caluda! E' o que ella é. Se ella fosse mulher ha muito 
que tinha morrido. Não ha mulher que supportasse o que 
ella tem supportado. 

«Tive calafrios ao pensar na longa serie de crueldades e 
de desprezos que deveriam ter produzido um impressão tal 
em tal homem. 

«Nada me occorreu replicar : pois quem poderia dar es- 
peranças -ou confortos ao ente abjecto que estava diante de 
mim ? 

«Ali estive sentado mais de duas horas, durante as quaes 
elle não socegou um instante, murmurando exclamações de 
dor ou de impaciência, bracejando para um e para outro lado, 
voltando-se constantemente de uma banda para a outra. 



4^ AS AVENTURAS 



«A final cahiu n'aqueUe estado de inconsciência parcial, 
em que o espirito vagueia inq^uieto de scena para scena, 
de logar para logar, fora do domínio da razão, mas sem 
comtudo se poder desprender da presente sensação de sof- 
frimento indefinido. 

"Gomo julgasse pelos desvarios incoherentes que a febre 
não se aggravaria immediatamente, deixei-o, promettendo á 
desventurada mulher que repetiria a minha visita na noite se- 
guinte, e que, se fosse preciso, velaria o doente durante a 
noite. Cumpri a promessa. 

"Nas • ultimas vinte e quatro h^ras tinha-se pronunciado 
uma alteração medonha. 

"Os olhos, apesar de profundamente encovados, tinham 
um brilho -que causava pavor. Os lábios estavam queimados 
e gretados em muitos pontos ; a carne secca e áspera parece 
que ardia ; e espalhava-se pelo rosto do doente uma expres- 
são de anciedade feroz, quasi sobrenatural, accusando ainda 
com mais intensidade os estragos da moléstia. A febre eslava 
no cumulo. 

"Sentei-me na mesma cadeira da véspera, e ali estive ho- 
ras e horas, á escuta dos sons que profundamente devem im- 
pressionar o menos piedoso dos entes humanos — os desvarios 
tremendos de um moribundo. 

"Pelo que eu ouvira ao medico, nenhuma esperança res- 
tava já: era junto ao seu leito de morte que eu me achava. 

"Vi os membros macilentos que, poucas horas havia, se 
tinham deslocado para divertir um publico tumultuoso, a es- 
torcerem-se nas torturas de uma febre ardente. 

"Ouvi o gargalhar estridulo do palhaço de mistura com 
os débeis murmúrios do agonisante. 

"E' commovedor o ouvir o espirito a voltar-se para as 
occupaçóes ordinárias, para os actos do homem válido, 
quando o corpo jaz diante de nós sem força e sem energia. 
Mas muito mais poderosa é essa impressão, quando essas 
occupaçóes teem um caracter absolutamente contradictorio 
de quaesquer ideias sepulchraes ou solemnes. 

"Os principaes themas dos desvarios do desventurado 
eram o theatro e a taberna. 

«Imaginava que. ia representar um papel n'aquella noite ; 
era já tarde e tinha de sahir de casa sem demora. 



1)0 SR. 1>ICKWICK 49 



«Para que c que o agarravam? para que o impediam de 
ir? Queriam obrigal-o a perder dinheiro? Tinha que ir por 
força. Não ! não queriam deixai o. 

«Escondia o rosto nas mãos ardentes, e lamentava-se de- 
bilmente da fraqueza própria e da crueldade com que o per- 
seguiam. Depois de uma curta pausa desatava a declamar 
uns péssimos versos — os últimos que elle havia aprendido. 

"Levantou-se na cama, estendeu os membros descarnados 
c revolveu se em posições extravagantes; suppunha estar no 
theatro a representar. 

«Passado um minuto de silencio, murmurou o estribilho 
de uma canção burlesca. Tinha a hnal chegado á sua velha 
casa; que quentinho que estava lá dentro! Estivera doente, 
muito doente, mas agora estava são e feliz. Que lhe enches- 
sem o copo 1 Quem é que lh'o despedaçava de encontro aos 
lábios ? Era o mesmo perseguidor que o apoquentara já. 

«Deixou se cahir sobre o travesseiro e gemeu em voz alta. 
Apoz um breve iniervallo de esquecimento, viu-se a vaguear 
n'um atiiictivo labyriniho de aposentos, com tectos de abo- 
bada muito baixos — tão baixos, ás vezes, que elle tinha de 
andar de gatas ; tudo tenebroso e suffocante, e a cada volta 
que dava, encontrava um obstáculo que lhe tolhia o cami- 
nho. 

«Havia por ali também insectos, bichos hediondos que se 
rojavam com os olhos abertos para elle, a encherem de hor- 
riveis scentelhas as trevas densas. 

«A's paredes e ao tecto pareciam dar vida os reptis — as 
abobadas alargaram se medonhameHte — figuras horriveis es- 
voaçavam por todos os lados — e por entre ellas surgiam 
physionomias conhecidas, deformadas por contorsóes e esga- 
res. 

«Via-os a cauterisal-o com ferros em braza, a apertarem- 
Ihe a cabeça com cordas até lhe rebentar o sangue ; e estre- 
buxava como um doido para defender a vida. 

"Ao terminar um d'estes paroxismos, conseguira eu com 
grande difficuldade segural-o na cama, quando elle recahiu 
n'uma espécie de torpor. 

«Vencido pela fadiga e pelo somno, eu cerrara por ins- 
tantes os olhos, quando senti no hombro um violento empu- 
xão. 



DO AS AVENTURAS 



"Acordei de repente. 

<'0 infeliz erguera-se ate se sentar na cama. Operára-se- 
Ihe no rosto uma m.edonha transformação, mas voltára-lhe a 
consciência, pois que mostrava claramente reconhecer-me. 

<'A creança que durante tanto tempo tinha sido incommo- 
dada com o delirio d'elle, levantou-se da camiia, e correu 
para o pae a gritar de pavor. 

<'A mãe pegou lhe precipitadamedte ao collo, não lhe fi- 
zesse elle mal nos transes violentos da loucura ; mas atter- 
rada com a alteração das suas feições, ficou immovel junto 
do leito. 

«Elle apertou me convulsivamente o hombro, e, batendo 
no peito com a outra mão, fez esforços desesperados para 
articular. 

'-Debalde ! 

"Estendeu o braço para os dois e fez outro violento es- 
forço. Seguiu-se um rumor estertoroso — um rebrilhar de 
olhos — um gemido curto e suffocado — e o desgraçado ca- 
hiu para traz — morto \» 

Dar-nos-hia o maior prazer o podermos formular a opi- 
nião do sr. Pickwick acerca da anecdota que acabamos de 
transcrever. Não duvidamos que nos seria possivel apresen- 
tal-a aos leitores, se não fosse uma occorrencia bem desagra^- 
davel. 

Acabava o sr. Pickwick de repor sobre a mesa o copo 
que, durante as ultimas phrases da narrativa, elle conser- 
vara na mão, e dispunha-se a fallar — valemo-nos da aucto- 
ridade do sr. Snodgrass, cujas notas affirmam que elle che- 
gara a abrir a bocca — quandr o criado entrou no aposento 
e disse : 

— Estão ahi uns sujeitos qi;.; procuram o senhor. 

Conjecturou-se que o sr. Picivwick estava a ponto de ex- 
pressar algumas considerações que teriam illuminado o mun- 
do, ou pelo menos a Inglaterra, quando assim foi interrom- 
pido : porque encarou com severidade o criado, e em seguida 
relanceou a vista pelos seus companheiros, como se preten- 
desse informar-se sobre os indivíduos que o procuravam. 

— Ah ! disse o sr. Winkie levantando-se, são uns amigos 
meus — mande-os entrar. Gen muito agradável, acrescen- 
tou elle depoií de sahir o criaao, officiaes do regimento 97, 



DO SR. PICKWICK Dl 



com quem hoje de manhã travei conhecimento de uma ma- 
neira um pouco exquisita. Hão de gostar muito d'elles. 

O sr. Pickwick recobrou a serenidade habitual. O criado 
voltou e introduziu três cavalheiros na sala. 

— O tenente Tappleton, disse o sr. Winklc, o tenente 
Tappleton, o sr. Pickwick — o dr. Payne, o sr. Pickwick — o 
sr. Snodgrass que já conhecem : o meu amigo o sr. Tupman, 
o dr. Payne — o dr. Slammer, o sr, Pickwick — u sr. Tupman, 
o dr. Slam ... 

N'este ponto, o sr. Winkle deteve-se de súbito, ao perce- 
ber a violenta commoção manifestada nas physionomias do 
sr. Tupman e do doutor. 

— Eu já encontrei este cavalheiro, exclamou o doutor 
com grande energia. 

— Deveras ? disse o sr. Winkle. 

— E — e aquelle sujeito também, se não mo engano, pro- 
seguiu o doutor, fitando com attençao o desconhecido da 
casaca verde. Quer-me parecer que fiz a noite passada a este 
sujeito um convite instante, que elie julgou conveniente de- 
clinar. 

Dizendo isto, o doutor deitou sobre o desconhecido um 
olhar cheio de solemne rigor, e segredou ao seu amigo o te- 
nente Tappleton. 

— Isso pode lá ser ! disse este ultimo, depois de ouvir a 
confidencia. 

— Pois é como lhe digo, replicou o dr. Slammer. 

— Então e dar-lhe aqui mesmo uma sova, e isso já, já, 
murmurou o dono do banquinho, com grande importância. 

— Gale a bocca, Payne, atalhou o tenente. Permitte-me 
que lhe dirija uma pergunta ? continuou elle, dirigindo-se ao 
sr. Pickwick, que estava extraordinariamente intrigado com 
a grosseria dos segredos. Permitte-me que lhe pergunte se 
este sujeito pertence ao seu ,grupo 'í 

— Nada, não, senhor, replicou o sr. Pickwick. E' simples- 
mente nossa visita. 

— E' sócio do seu club, se não me engano ? 

— Não é, com certeza. 

— E nunca usa dos botões do club .'* 

— Não — nunca! lespondeu o sr. l^ickwick nuulo pas- 
mado. 



52 AS AVENTURAS- 



O tenente Tappleton virou-se para o seu amigo dr. Slam- 
mer, encolhendo levemente os hombros, como indicando al- 
guma duvida sobre a nitidez das suas reminiscências. 

O doutorsinho pareceu irritado, mas confundido ; e o sr. 
Payne cravou o olhar feroz na physionomia illuminada do 
inriocente Pick\viclv. 

— Senhor, disse o doutor, dirigindo-se de repente ao sr. 
Tupman, n'um tom que produziu um estremeção a este ca- 
valheiro, como se lhe houvessem surrateiramente enterrado 
um alfinete na barriga da perna, não esteve hontem á noite 
no baile que houve aqui ? 

O sr. Tupman suspirou uma affirmativa débil, encarando 
fixamente o sr. PickAvick. 

— Este sujeito ia na sua companhia, acrescentou o doutor 
apontando para o desconhecido, sempre impassível. 

O sr. Tupman assentiu. 

— Em vista d'isso, proseguiu o doutor para o desconhe- 
cido, mais uma vez lhe pergunto, em presença d'estes senho- 
res, se prefere dar-me o seu bilhete e ser tratado como um 
gentleman, ou se me colloca na alternativa de lhe dar aqui 
mesmo uma correcção severa. 

— Espere, senhor, atalhou o sr. Pickwick. Realmente, não 
posso consentir que este negocio tenha andamento sem al- 
guma explicação. Tupman, conte o caso por meudos. 

O sr. Tupman, assim solemnemente invocado, narrou 
o facto em poucas palavras : referiu-se apenas de relance 
ao empréstimo da casaca ; insistiu largamente na circum- 
stancia de se ter isso passado «depois de jantar^) ; con- 
cluiu por exprimir ao de leve o seu arrependimento ; e 
deixou o desconhecido desembaraçar-se da meada conforme 
podesse. 

Este dispunha-se naturalmente a isso, quando o tenente 
Tappleton, que o estivera observando com grande curiosida- 
de, disse com um grande desdém : 

— Creio que já o vi no theatro. 

— De certo que sim, respondeu o desconhecido com a 
maior desfaçatez. 

— E' um cómico ambulante, disse o tenente desdenhosa- 
mente, voltando-se para o dr. Slammer. Representa n'uma 
peça que os officiaes do 52 levam amanhã no theatro de Ro- 



DO SR. PICKWICK d3 



chester. O negocio não pôde ter andamento, Siammer, é im- 
possível. 

— Impossível de todo! disse o pomposo Payne. 

— Sinto muito havel-o collocado n'esta desagradável si- 
tuação, disse o tenente Tappleton ao sr. Pickwick. Permitta- 
me Vecordar-lhe que a melhor maneira de evitar para o fu- 
turo a repetição de scenas como esta, é ser mais escrupuloso 
na escolha dos seus companheiros. Muito boa noite. 

E o tenente precipitou-se para tora da sala. 

— E permitta-me que lhe dií^a, meu caro senhor, disse o 
irascivel dr. Payne, que se eu estivesse no caso de Tappleton 
ou no de Siammer, ter-lhe-hia ido ás ventas, meu caro se- 
nhor, e ás ventas de todos os presentes. E' como lhe digo — 
a todos os presentes. O meu nome é Payne, lique sabendo — 
dr. Payne, do 43. Muito boas noites. 

Tendo concluído este discurso e pronunciado as três ul- 
timas palavras em voz mais alta, marchou magestosamente 
na piugada do amigo, seguido logo pelo dr. Siammer, que não 
abriu bico, mas que se contentou em fulminar os assistentes 
com um olhar de cólera. 

Durante as provocações acima expressas, uma raiva cres- 
cente e um espanto extremo haviam entumecido o nobre seio 
do sr. Pickwick até quasi ao ponto de lhe estalar o collete. 

Ficou petrificado e immovel com um vago olhar de pasmo. 
O fechar da porta fel-o voltar a si. Arrojou-se para a frente, 
com o rosto acceso em ira e o olhar Hammejante. A sua mão 
já estava na aldraba da porta; mais um momento, e estaria 
nas guelas do dr. Payne, do 43, se o sr. Snodgrass não ti- 
vesse agarrado o seu venerando chefe pelas abas da casaca e 
não o tivesse puxado para traz. 

— Aguentem-no, bradou o sr. Snodgrass, — Winkle, Tup- 
man — elle não deve arriscar por uma causa tão insignificante 
a sua preciosa vida. 

— Deixem-me, clamava o sr. Pickwick. 

— Segurem-no bem, berrou o sr. Snodgrass. 

E pelos esforços unidos de todos, o sr. Pickwick foi sen- 
tado á força n'uma cadeira de braços. 

— Deix'em-no sósinho, disse o* homem da casaca verde, 

— aguardente com agua — velhote valente — levado da breca 

— engula isso — assim ! — rica mistela, hein ! 



AS AVENTURAS 



Tendo previamente provado as virtudes de um copasio, 
preparado pelo homem fúnebre, o desconhecido appHcou o 
copo á bocca do sr. Pickwick ; e n'um instante desappareceu 
o resto do conteúdo. 

— Houve uma curta pausa ; o grog produzira o seu eífei- 
to ; a physionomia amável do sr. Pickwick ia recuperando 
depressa a sua expressão habitual. 

— Eiles não merecem a sua attenção, disse o homem fú- 
nebre 

— Tem rasão, replicou o sr. Pickwick, não merecem, não: 
até tenho vergonha por me ter deixado arrastar pelo ardor 
dos meus sentimentos. Chegue a sua cadeira para a mesa, se- 
nhor. 

O homem fúnebre obedeceu sem demora : formou-se novo 
circulo em volta da mesa, e a harmonia restabeleceu-se. 

Uns restos de irritação concentrada pareciam achar ainda 
abrigo no peito do sr. Winkle, provavelmente occasionados 
pela subtracção temporária da sua casaca — com quanto mal 
consinta a razão o suppòr-se que tão ligeira circumstancia 
possa haver excitado rhesmo um passageiro sentimento de 
rancor n'um animo pickwickano. 

Salvo esta excepção, o bom humor tinha-lhes voltado de 
todo : e a noite terminou com a mesma jovialidade com que 
começara. 

CAPITULO n^ 

Um dia n'um acampamento — Mais amigos novos; 
e um convite para o campo 

Ma muiios auctores que se deixam possuir por uma relu- 
ctancia, sobre insensata, até deshonesta, em declarar as fon- 
tes das quaes beberam valiosas informações. Nós não parti 
Ihamos de tal sentimento. Estamos simplesmente tentando 
desempenhar-nos por maneira digna das responsabilidades 
que nos impõem as nossas funcções de editor; e por maior 
que seja a nossa smbição de, n'outras circumstancias, recla- 
marmos a paternidadi d 'estas aventuras, o respeito da ver- 
dade prohibe nos que reivindiquemos mais do que a gloria 



hO SR. PICKWICK 55 



de uma compilação judiciosa e de uma narrativa impar- 
cial. 

Os documentos do Club Pickwick são a fonte preciosa de 
que nos valemos. Os trabalhos alheios constituem para nós 
o repositório inmienso de factos importantes. Nós limitamo- 
nos a dar-lhes forma, e a communical-os com a máxima cla- 
reza e limpidez ao mundo sedento pela sciencia Pickwickana. 

Procedendo por esta norma e determinados sempre a con- 
fessar o nosso reconhecimento ás auctoridades que consul- 
tamos, declaramos francamente que á carteira de notas do 
sr. Snodgrass é que devemos os pormenores referidos n'este 
e no seguinte capitulo — pormenores que, depois de assim 
havermos descarregado a consciência, passaremos a relatar 
sem mais commentario. 

Toda a população de Rochester e dos logares circumvisi- 
nhos se ergueu no dia seguinte muito cedo n'um estado de 
indiscriptivel alvoroço e excitação. 

Devia effectuar-sê uma grandiosa revista nas linhas de de- 
feza. 

As manobras de meia dúzia de regimentos deviam ser in- 
speccionadas pelo olhar d'aguia do commandante era chefe ; 
haviam-se levantado fortificações temporárias, a cidadella ti- 
nha de ser atacada e tomada, e devia rebentar uma mina. 

Como os nossos leitores deverão ter concluído do ligeiro 
extracto que demos da descripção de Chatham, feita pelo sr. 
Pickwick, era este um admirador enthusiastico do exer- 
cito. 

Nada poderia ser mais deleitoso para elle — nada poderia 
estar em tão completa harmonia com o sentir particular de 
cada um dos seus companheiros — como aquelle espectáculo. 
Por isso estavam a pé de manhã cedinho, a caminhar em di- 
recção das fortificações, para onde jorravam de todos os la- 
dos mangas enormes de povo. 

Tudo ali denotava que a ceremonia próxima devia ter a 
maior importância e magnificência. 

Estavam postadas sentinellas a guardar o terreno para as 
evoluções da tropa, e criados nas baterias a guardar os loga- 
res para as senhoras. 

Corriam de um lado para o outro sargento?, com livros 
encadernados em pergaminh.) debaixo dos braços. Lá andava 



56 AS AVENTURAS 



O coronel Bulder, de grande uniforme, a cavallo, a galopar 
ora para uma banda ora para outra, fazendo recuar o cavallo 
por entre o povo, curveteando, cabriolando, berrando por 
uma forma assustadora, a ponto de enrouquecer e de ficar 
esfogueteado, sem ninguém perceber para quê. 

Andavam officiaes a correr para a frente e para a recta- 
guarda, primeiro conferenciando com o coronel Bulder, dando 
em seguida ordens aos sargentos e sumindo-se a final de 
todo : e até os soldados razos olhavam por cima das golas 
lustrosas com um ar de solemnidade mysteriosa que assaz 
indicava a natureza especial da conjunctura. 

O sr. Pickwick e os seus três companheiros collocaram-se 
na primeira fila dos espectadores, e aguardaram com toda a 
paciência o começo das manobras. 

A multidão crescia de momento para momento; e os es- 
forços que elles eram obrigados a sustentar para se aguen- 
tarem na posição que tinham conquistado bastaram para 
lhes occupar aattenção durante as duas horas que se segui- 
ram. 

De uma vez, houve detraz um impulso repentino; e o 
sr. Pickwick foi arrojado algumas jardas para a frente, com 
uma rapidez e uma elasticidade em extremo incompatíveis 
com a gravidade habitual do seu porte. 

N'outra occasião, ouviu-se na frente a voz de «para a re- 
ctaguarda!» e logo a coronha de uma espingarda cahiu n'um 
pé do sr. Pickwick, afim de lhe fazer perceber a ordem, ou 
lhe amachucou o peito para lhe impor obediência. 

De outra vez, algum sujeito dado a facécias, á esquerda, 
depois de apertar para o lado com toda a força, a ponto de 
espremer o sr. Snodgrass até ás extremidades da tortura hu- 
mana, perguntou com todo o descaro «p^ra que estava elle 
a fazer azeite ?■> 

E quando o sr. Winkle dava largas á sua excessiva indi- 
gnação por aquelle ataque gratuito, houve alguém por de- 
traz que lhe enfiou o chapéo até aos olhos, rogando-lhe o 
obsequio de metter a cabeça na algibeira. 

Estas e outras graças, juntas á inexplicável ausência do 
sr. Tupman (que desapparecera de repente, sem haver meio 
de lhe pôr a vista em cima), tornaram a situação dos três 
mais incommoda, em summa, do que agradável ou appetecivel. 



DO SR. PICKWICK D 7 



A final, correu pela turba aquelle susurro de muitas vo- 
zes que annuncia em geral a chegada de qualquçir coisa de 
que se está á espera. 

Voltaram-se todos os olhos para os lados da poterna. 

Passados uns momentos de ávida anciedade, viram-se 
bandeiras a liuctuar alegremente nos ares, armas a relampe- 
jar ao sol : uns após outros, os batalhões jorraram para o 
campo. As tropas hzeram alto e formaram. As vozes de com- 
mando retiniram pela linha i"óra, ouviu-se o choque unisono 
das armas apresentadas, e o commandante em chefe, acom- 
panhado pelo coronel Bulder e por numerosos oífici.aes, di- 
rigiu-se a meio galope para a frente das tropas. As bandas 
militares romperam simultaneamente ; os cavallos empina- 
ram-se, recuaram, e sacudiram as caudas em todas as direc- 
ções; os cães desataram a ladrar, a turba a gritar; as tropas 
ficaram firmes; e nada mais se pôde ver, para um e outro 
lado, até onde a vista alcançasse, senão uma longa perspe- 
ctiva de casacas encarnadas e de calças brancas, im mo- 
veis. ..> 

O sr. Pickwick estivera tão absorto nas suas diligencias 
para se pôr a seguro e se desenvencilhar por milagre d'entre 
as patas dos cavallos, que nem tinha logrado ensejo de ob- 
servar o espectáculo, até que elle assumiu a apparencia que 
acabamos de descrever. 

Quando por fim lhe foi dado firmar-se nas pernas, o seu 
regosijo e a sua satisfação não tiveram, limites. 

— Ha lá nada mais bello, nem mais deslumbrante ? excla- 
mou elle para o sr. Winkle. 

— Nada, replicou este cavalheiro, que tinha durante um 
quarto dehora aguentado um homemsinho em cima década 
um dos pés, alternadamente. 

— E' um espectáculo deveras nobre e brilhante, disse o 
sr. Snodgrass em cujo seio rebentava rapidamente uma cham- 
ma poética, o ver os galhardos defensores da pátria, forma- 
dos em phalanges soberbas diante dos seus pacificos compa- 
triotas e tendo a radiar-lhes no semblante não a ferocidade 
bellica, porém a doçura da civilisação ; a lampejar-lhes nos 
olhos não a labareda destruidora da rapina e da vingança, 
mas a luz suave da humanidade e da intelligencia. 

O sr. Pickwick deixava-se penetrar pelo espirito d'esta 



58 AS AVENTURAS 



apologia, mas não podia reeditar-lhe exactamente os termos, 
visto como a luz suave da intelligencia ardia um pouco de- 
bilmente nos olhos dos guerreiros, no instante em que se 
deu a voz «olhar frente!» O que cada espectador viu diante 
de si foi uns poucos de milhares de pupillas, olhando fixa- 
mente para defronte, absolutamente destituídas de uma ex- 
pressão qualquer. 

— Agora é que nós apanhámos uma posição magnifica, 
disse o sr. Pickwick olhando em deredor. 

A multidão tinha gradualmente dispersado das proximi- 
dades, e elles estavam quasi completamente sós. 

— Magnifica ! echoaram os srs. Snodgrass e Winkle. 

— O que estão elles agora a fazer r interrogou o sr. Pick- 
wick ajustando os óculos. 

— Eu. . eu. . . quer-me parecer, disse o sr. Winkle mu- 
dando de côr, quer me parecer que vão fazer fogo. 

— Que disparate ! disse apressadamente o sr. Pickwick. 

— A mim . . . também me parece . . . que é verdade, obser- 
vou o sr. Snodgrass, um pouco assustado. 

— Isso é lá possivel ! disse o sr. Pickwick. 

Mal tinha acabado de soltar esta phrase, quando a meia 
dúzia de regimentos levantou n'um movimento uniforme as 
armas, como se tivessem apenas um alvo commum, e esse 
alvo fosse os pickwickanos, e disparou a mais horripilante e 
tremenda descarga que tenha jamais abalado a terra até ao 
seu centro ou feito perder o centro de gravidade a um gen- 
tleman já entrado em annos. 

Foi n"esta situação critica, exposto a um fogo imperti- 
nente de cartuchos desembalados, e atrapalhado pelas evo- 
luções da tropa, accrescida por um corpo fresco que tinha 
chegado do lado opposto, que o sr. Pickwick desenvolveu 
aquella perfeita serenidade, aquelle notável sangue-frio, que 
são attributos indispensáveis de um espirito superior. Agar- 
rou no sr. Winkle pelo braço, e collocando-se entre esse ca- 
valheiro e o sr. Snodgrass, encommendou-lhes com instancia 
o lembrarem-se que, a não ser o risco de ensurdecerem com 
a bulha, não havia a temer um perigo immediato d'este tiro- 
teio. 

— Mas — mas supponha que algum soldado tenha cartu- 
chos embalados, por engano, observou o sr. Winkle, pallido 



DO SR. PICKWICK 5() 



com a hypothese que elle próprio suggeriu. Eu cá ouvi ha 
um instante o quer que era assobiar pelos ares — um assobio 
muito agudo, mesmo nos meus ouvidos. 

— Não seria melhor deitarmo-nos de barriga para baixo ? 
lembrou o sr. Snodgrass. 

— Não, não — já se acabou tudo, disse o sr. Pickwick. 

Possivel é que os lábios lhe tremessem, que as faces per- 
dessem a côr, mas nem uma expressão de susto ou de in- 
quietação se escapou dos lábios d'esse homem immortal. 

O sr. Pickwick tinha razão; o fogo cessara; mas ainda 
mal tivera tempo de se felicitar pela justeza da sua previsão, 
quando se observou por toda a linha um movimento rápido. 
As vozes rouquenhas de commando correram por toda ella, 
e antes que qualquer dos do grupo podesse formular uma hy- 
pothese sobre a significação d'esta nova manobra, os seis re- 
gimentos avançaram á bayoneta calada, a passo de carga 
mesmo para o sitio onde se achavam o sr. Pickwick e os 
seus amigos. 

O homem não passa de um débil mortal ; e um ponto 
existe além do qual não é dado á coragem humana o alon- 
gar-se. 

O sr. Pickwick, por um instante, attentou atravez dos ócu- 
los n'aquella massa que avançava ; e então voltou-lhe reso- 
lutamente as costas e. . . não diremos que fugiu: em pri- 
meiro logar, porque o termo é ignóbil, e em segundo logar, 
porque a figura do sr. Pickwick não era de forma alguma 
compativel com esse modo de retirada. 

Desatou a corricar tão depressa quanto lh'o f)ermittiam 
as pernas ; e tão depressa em verdade, que só muito tarde é 
que elle percebeu o desastroso da sua situação. 

As tropas do lado opposto, cuja apparição tinha embara- 
do momentos antes o sr. Pickwick, tinham-se desenvolvido 
em linha para repellir o ataque simulado dos fingidos sitian- 
tes da cidadella ; e a consequência foi que o sr. Pickwick, 
mais os seus dois companheiros viram-se de repente embru- 
lhados entre duas linhas de grande extensão : uma avançando 
a passo de carga, outra aguardando com firmeza o tremendo 
choque. 

— Eh ! lá ! gritaram os officiaes da columna que avan- 
çou. 



(3o AS AVENTURAS 



— ^Safa d'ahi para fora! bradavam os officiaes da força 
estacionaria. 

— Para onde nos havemos de safar ? gemiam os pickwi- 
ckanos atrapalhadissimos. 

— Eh lá ! Eh lá ! Eh lá ! era a resposta unica. 

Houve um momento de confusão geral, um rumor de 
passos pesados, um choque violento, uma gargalhada abafa- 
da : os seis' regimentos já estavam a quinhentas jardas de 
distancia ; e as solas das botas do sr. Pickwick estavam le- 
vantadas para o ar. 

Os srs. Snodgrass e Winkle haviam executado com agili- 
dade notável uma cambalhota forçada, quando o primeiro 
objecto que se deparou aos olhos' d'este ultimo, apenas se 
sentou no chão a estancar com um lenço de seda amarella a 
torrente de vida que lhe jorrava do nariz, foi o seu vene- 
rando chefe, a alguma distancia, correndo atraz do seu cha- 
péo, o qual ia a pular muito contente pelo campo fora. 

Poucos momentos ha na existência do homem, em que. 
elle experimente uma afflicção mais ridícula ou desperte uma 
commiseração tão pouco caridosa, como quando vae em per- 
seguição do próprio chapéo. 

Exigem se para agarrar um chapéo uma somma impor- 
tante de sangue-frio e um grau especial de discernimento. 

Não se deve ser precipitado, aliás passa-se a correr por 
cima do chapéo : também não se deve cahir no extremo op- 
posto, aliás corre-se o risco de o perder de todo. 

O melhor expediente é ir-se cozendo cuidadosamente 
com o objecto da caça, ser circumspecto e cautelloso, estar 
á espreita do ensejo propicio, ganhar-lhe pouco a pouco a 
dianteira, e então dar um como mergulho rápido, agarral-o 
pela copa, e enfial-o com firmeza na cabeça, sorrindo du- 
rante estas evoluções com o máximo bom humor, como se 
se partilhasse dos sentimentos de alacridade que o caso ex- 
cita em toda a gente. 

Corria um ventinho fresco, e o chapéo do sr. Pickwick 
rebolava diante d'elle, em ar de quem se diverte. 

O vento soprava e o sr. Pickwick também, e o chapéo 
continuava a rebolar, a rebolar, tão satisfeito como uma toni- 
nha cheia de vida no meio das ondas serenas ; e assim rebo- 
laria eternamente para fora do alcance do sr. Pickwick, se 



DO SR. PICKWICK <)l 



um obstáculo providencial o não detivesse, exactamente 
quando este cavalheiro estava a ponto de o abandonar ao 
seu destino. « 

O sr. Pickwick estava pois completamente exhausto e em 
termos de pôr termo á caça, quando o chapéo foi impellido 
com certa violência de encontro ás rodas de uma carruagem, 
a qual estava formada em linha com meia dúzia de outros 
vehiculos, no sitio para o qual elle havia dirigido os pas- 
sos. 

O sr. Pickwick, percebendo a vantagem que lhe propor- 
cionava o acaso, prcipitou-se bruscamente, deitou a mão á 
sua propriedade, enterrou-a na cabeça, e estacou para tomar 
alento. 

Mas não estivera um minuto parado, quando ouviu o seu 
nome anciosamente pronunciado por uma voz, que elle logo 
reconhecera ser a do sr. Tupman, e como erguesse a vista, 
deparou-se-lhe um espectáculo que o encheu de surpresa e 
de alegria. 

N'um caleche descoberto, ao qual haviam tirado os ca- 
vallos, para o accommodar melhor no meio da turba-multa, 
viam-se de pé um sujeito velho e encorpado, de casaca azul 
com botões luzidios, calções de veludilho e botas de canhão, 
duas meninas com fitas e pennas, uma senhora de idade in- 
certa, provavelmente tia das supra-mencionadas, e o sr. Tup- 
man, tão sereno e desceremonioso como se pertencesse á 
familia desde os primeiros tempos da infância. 

Amarrada atraz do caleche estava uma canastra de di- 
mensões collossaes — uma d'aquellas canastras que desper- 
tam sempre n'um espirito contemplativo ideias associadas 
com aves frias, lingua fumada e garrafas de vinho — e na al- 
mofada sentava-se n\im estado de somnolencia um rapaz 
gordo e rubicundo, ao qual nenhum observador especulativo 
teria contemplado um instante sem o reputar o dispensa- 
dor official do conteúdo da canastra, quando chegasse o mo- 
mento adequado para a sua consumpção. 

O sr. Pickwick mal tinha lançado um rápido olhar sobre 
estes interessantes objectos, quando foi novamente saudado 
pelo seu fiel discipulo. 

— Pickwick! Pickwick, exclamou o sr. Tupman, suba cá 
para cima ! Ande ! avie-se I 



62 AS AVENTURAS 



— Venha cá, senhor, venha cá, disse o sujeito corpulento. 
Joe ! — Diabos levem o rapaz ! está outra vez a dormir ! Joe ! 
deita abaiy) os degraus ! 

O rapaz gordo rebolou vagarosamente para baixo da al- 
mofada, abaixou os degraus, e abriu amavelmente a porti- 
nhola. O sr. Snodgrass e o sr. Winkle chegavam n'aquelle 
instante. 

— Ha logar para todos os cavalheiros, disse o velho. Dois 
dentro, e um na almofada. Joe, dá logar a um d'estes senho- 
res na almofada. Ande, suba. 

E o sujeito estendeu o braço, e puxou para dentro do 
trem á viva força primeiro o sr. Pickwick, depois o sr. Snod- 
grass. 

O sr. Winkle trepou para a almofada ; o rapazote gordu- 
cho encarrapitou-se no mesmo poleiro e pegou immediata- 
mente no somno. 

— Pois é verdade, meus senhores, disse o velhote, estimo 
immenso vêl-os. Conheço-os perfeitamente a todos, com- 
quanto os senhores rão se lembrem de mim. Passei algumas 
noites no seu club, o inverno passado. Esta manhã agarrei 
aqui o meu amigo sr. Tupman, e fiquei contentíssimo por o 
ver. Então como vae isso, meu caro senhor ? Tem um aspe- 
cto magnifico, lá isso tem. 

O sr. Pickwick correspondeu ao cumprimento, e deu 
um cordial aperto de mãos ao cavalheiro das botas de ca- 
nhão. 

— Então, como vae isso, meu caro senhor? disse este di- 
rigindo-se ao sr. Snodgrass com anciedade p>aternal. Sober- 
bo, hein ? Bello, isso é que se quer ! E o amigo, como vae ? 
proseguiu elle para o sr. Winkle. De saúde, estimo ouvir-lhe 
dizer que vae de saúde, estimo deveras. As minhas filhas, 
meus senhores — -aqui estão as minhas pequenas; e esta c 
minha irmã, Miss Rachel Wardle. E' ainda solteira — menina, 
sem ser menina. Hein ? que diz o senhor a isto ? 

E o velhote inseriu jovialmente o cotovello entre as cos- 
tellas do sr. sr. Pickwicíc, e desatou a rir com gosto. 

— Então, mano ! disse Miss Wardle, com um sorriso de 
supplica. 

— E isto que eu digo, continuou o velhote, negue-o al- 
guém, se é capaz. Meus senhores, peço licença para lhes 



DO SR. PICKWICK 63 



apresentar o meu amigo o sr. Trundle. E agora que se co- 
nhecem todos, ponhamo-nos á vontade, alegremente, e va- 
mos a ver o que se passa. E' este o meu parecer. 

E o sujeito poz os óculos, e o sr. Pickwick sacou do seu 
óculo, e pozeram-se todos em pé na carruagem, a observar 
as evoluções militares por cima dos hombros dos circum- 
stantes. 

Pasmosas eram essas evoluções. Uma fila fazia fo^o por 
cima das cabeças da outra fila, e depois batia em retirada; 
e depois outra fila fazia fogo por cima das cabeças de outra 
fila e retirava por seu turno. Em seguida formavam quadra- 
dos, com os officiaes no centro ; e depois escalavam a trin- 
cheira por um lado e desciam pelo outro com as mesmas es- 
cadas ; e derribavam barricadas de cestos e tudo isto com a 
maior coragem possível. 

Depois attestavam-se as peças enormes da bateria por 
meio de instrumentos parecidos com esfregões colossaes, e 
taes preparativos havia antes de as disparar e tão medonho 
estampido quando faziam fogo, que os ares resoavam com os 
gritos de terror das damas. 

As juvenis Miss Wardles estavam tão assustadas, que o 
sr. Trundle se viu obrigado a sustentar uma d'ellas em pé na 
carruagem, emquanto o sr. Snodgrass aguentava a outra ; e 
a irmã do sr. W^rdle sentia-se n'um tão horrivel estado de 
pavor nervoso, que o sr. Tupman julgou indispensável pas- 
sar-lhe o braço á roda da cintura para a suster em pé. 

'1 "oda a gente estava excitada, a não ser o rapaz gorducho 
que dormia tão descançado como se o rugir do canhão fosse 
a cantiga com que costumassem embalal-o. 

— .loe ! Joe ! disse o velhote, apenas se tomou a cidadella 
e sitiantes e sitiados se sentaram a jantar. Ora o excommun- 
gado 1 não está outra vez a dormir ? O' senhor, faz-me obse- 
quio, dá-lhe um beliscão na perna — tenha paciência; não 
ha outra forma de o acordar — muito obrigado. Joe abre a 
canastra. 

O gorducho, que fora eífectivamente despertado pela 
compressão de um pedaço da sua perna, entre o pollegar e 
Índex do sr. Winkle, rebolou outra vez da almofada abaixo, 
e tratou de desatar a canastra, com mais desembaraço do 
do que seria de esperar da sua anterior inactividade. 



AS AVENTURAS 



— Ora agora temos de nos apertar um pouco para nos 
sentarmos, disse o velhote. 

Depois de um grande numero de facécias por se amarro- 
tarem as mangas das damas e de muita somma de rubor cau- 
sado por varias propostas jocosas, para que as damas ficas- 
sem ao collo dos cavalheiros, todos se accommodaram no 
caleche ; e o velhote foi recebendo as coisas que o gorducho 
lhe estendia deiraz da carruagem, para onde trepou. 

— Agora, Joe, as facas e os garfos. 

Recebidos os garfos e as facas, as damas e cavalheiros 
dentro da carruagem e o sr. Winkle na almofada foram res- 
pectivamente providos d'esses utensihos indispensáveis. 

— Pratos, Joe, dá cá os pratos. 

Da mesma forma se procedeu na distribuição da louça. 

— Ora agora, Joe, as aves. O raio do rapaz I lá adormeceu 
elle outra vez. Joe ! Joe I 

Vários carolos administrados com uma bengala arranca- 
ram com certa difficuldade o gorducho da sua lethargia. 

— Anda, passa para cá os comestíveis. 

Alguma coisa havia no som da ultima palavra que des- 
pertou de todo o dorminhoco. Deu um pulo; e os olhos de 
chumbo, que piscavam por detraz de umas faces montanho- 
sas, cravaram-se avidamente na comida que elle ia descarre- 
gando do cesto. 

— Anda, avia-te, disse o sr. Winkle, vendo o gorducho 
amorosamente agarrado a um capão que elle parecia incapaz 
de largar. 

O rapaz suspirou profundamente, e, lançando um olhar 
de cobiça sobre o nédio capão, entregou-o de má vontade ao 
amo. 

— Assim mesmo I Ve se espertas, homem ! Passa agora 
para cá a lingua — e agora o pastellão de pombo. Toma cau- 
tella com a Vitella e com o presunto — repara nas lagostas 
— tira a salada do guardanapo — dá cá os temperos. 

Taes eram as ordens precipitadas que sabiam da bocca 
do sr. Wardle," ao passo que tomava conta dos ditferentes 
objectos mencionados, e collocava pratos nas mãos e nos 
joelhos de todos, em numero interminável. 

— Então, não está magnifico? inquiriu este jovial perso- 
nagem, quando começou a obra de destruição. 



DO SR. PICKWICK 65 



— Magnifico! respondeu o sr. Winkle que estava n trin- 
char uma ave na almofada. 

— Um copo de vinho ? 

— Com o maior prazer. 

— Kra melhor ficar lá cm cima com uma garrafa para o 
nhor, pois nfio era ? 

— Que bondade a sua ! 

— Joe ! 

— Prompto, senhor ! 

D'esta vez nao eslava a dorinir, porque acabara de con- 
.L^uir a posse de uma empada de vitella. 

— Uma garrafa de vinho para esse senhor que está na al- 
mofada. Estimei immenso vêl-o. 

— Muito agradecido, disse o sr. Winkle despejando o 
jpo e collocando a garrafa ao seu lado. 

— Dá-me licença que o cumprimente ? disse o sr. Trun- 
dle ao sr. Winkle. 

— Com muito gosto, replicou este ultimo ; e os dois be- 
beram vinho juntos, e em seguida todos, inclusive as damas, 
os imitaram. 

— A nossa querida Emily, como namora aquelle sujeito I 
segredou a tia solteirona ao irmão, com toda a inveja insepa- 
rável de uma tia solteirona. 

— Ah! sim! pôde ser, disse o jovial velhote, é naturalis- 
simo, parece-me — não tem nada de extraordinário. Sr. Pick- 
wick, uma gota de vinho .'' 

O sr. Pickwick, que estivera a explorar com o máximo 
disvelo o interior do pastelão, aceitou promptamente. 

— Emily, minha querida, disse a tia velha, com um ar 
maternal, lião estejas a fallar tão alto, meu amor. 

— Ora, tia 1 

— A tia e aquelle sujeito velho, baixinho, parece me que 
querem tudo para si e nada para os outros, segredou Miss 
Isabella Wardle a sua irmã Emily. 

As duas meninas desataram ás gargalhadas, e a velhota 
procurou fazer-se amável, sem o conseguir. 

— As raparigas são tão alegres ! disse Miss Wardle ao sr. 
lupman, com um ar de meiga commiseração, como se a ale- 
gria fosse contrabando, e a sua posse, sem licença prévia, 
uma nefanda malfeitoria. 



hh AS AVENTURAS 



— Lá isso são, replicou o sr. Tupman, sem dar a res- 
posta exacta que d'elle esperavam. E' de encantar a gente 1 

— Hum! murmurou Miss Wardle com certa duvida. 

— Dá-me licença;' disse o sr. Tupman, com a sua voz 
mais agradável, tocando com uma mão no pulso da encanta- 
dora Rachel e elevando delicadamente a garrafa na outra. 
Dá-me licença ? 

— Pois não I 

O sr. Tupman assumiu o seu ar mais insinuante ; e Ra- 
chel expressou o receio de que houvesse mais tiros de arti- 
Iheria, porque então teria decerto que pedir outra vez am- 
paro. 

— Acha bonitas as minhas queridas sobrinhas ? segredou 
a terna tia ao sr. Tupman. 

— Achava, se não estivesse presente a tia, replicou viva- 
mente o pickwickano com um olhar apaixonado. 

— Oh! mausão ! Mas realmente, se ellas tivessem a tez 
um pouco melhor, não lhe parece que não seriam de todo 
feias. . . á luz de um candieiro ? 

— Sim, parece-me, disse o sr. Tupman, com ar indiffe- 
rente. 

— Ah ! está a mangar ! eu bem sei o que o senhor ia dizer. 

— O que era .- perguntou o sr. Tupman, que não linha 
uma intenção precisa de dizer fosse o que fosse. 

— Ia a dizer que Isabella é corcovada — ora se ia ! Os ho- 
mens são tão observadores I Pois é verdade, é ; não se pôde 
negar; e o certo é que, se alguma coisa faz parecer feia uma 
rapariga, é o ser corcovada. Eu não me canso de lhe repe- 
tir : em ella sendo um pouco mais velha, fica de metter me- 
do. O senhor sempre se sahiu um trocista ! 

O sr. Tupman não sentiu inconveniente em ganhar a re- 
putação por tão pouco preço : por isso assumiu um ar de fi- 
nura e sorriu mysteriosamente. 

— Que sorriso sarcástico I disse a admirativa Rachel. De- 
claro que estou com.immenso medo do senhor. 

— Com medo de mim ? 

— Ora ! o senhor pôde lá disfarçar os seus pensamentos ! 
Estou farto de saber o que significa esse sorriso. 

— Então o que é ? perguntou o sr. Tupman, sem que lhe 
passasse coisa nenhuma pela ideia. 



DO SR. PICKWICK 67 



— O que o senhor quer dizer, disse a amável tia baixando 
ainda mais a voz, é que a corcova de Isabella não lhe faz tão 
mau etleito como as audácias de Eniily. Pois é verdade, ella 
é muilo atrevida I Não imagina o desgosto que isso me faz 
ás vezes. Creia que por causa d'isso tenho choradg horas e 
horas a tio. O mano é tão boa pessoa, tem tão boa fé, que 
não dá por cousa alguma. Se elle percebesse, estou certa que 
teria um desgoste- medonho. Ao menos, o que eu queria 
era persuadir-me que não passava de apparencia — isso c 
que eu desejava immenso ! 

A afíectuosa parente soltou um profundo suspiro, e sacu- 
diu a cabeça com desespero. 

— Estou certa que a tia está a fallar de nós, murmurou 
iMiss Emily ao ouvido da irmã — ora ! com certeza ! está com 
um ar tão maldoso. 

— Ah ! sim ? replicou Isabella. O' tia ! querida tia ! 

— O que é, meu querido amor? 

— Tenho tanto receio que se constipei Ponha um lenço 
de seda na sua velha e amada cabeça ! E' preciso tomar cui- 
dado comsigo — na sua idade I 

Por merecida que fosse a desforra, não era fácil encon- 
tral-a mais pungente. 

Não se pôde prever sob que fói ma de resposta teria des- 
iihafado a indignação da tia, se o sr. Wardle não tivesse in- 
conscientemente mudado de assumpto, chamando por Joc 
em altos brados. 

— Diabos levem o moço ! disse o velhote, lá está elle outra 
vez a dormir. 

— E' um rapaz extraordinarissimo, disse o sr. Pickwick. 
Então elle está sempre assim a dormir ? 

— Ora essa ! replicou o sr. Wardle, não faz senão dor- 
mir. Vae fazer recados a cahir com somno, e resona quando 
serve á mesa. 

— E' realmente exquisito ! disse o sr. Pickwick. 

— Ora, se é ! retorquiu o velhote ; eu tenho orgulho n'este 
rapaz — não me separava .d'elle por cousa nenhuma d'este 
mundo — é um phenomeuo raro ! Ouve, Joe ! — Joe I — tira 
d'aqui estas cousas, e abre outra garrafa. Ouviste ? 

O gorducho levantou-se, abriu os olhos, enguliu o pedaço 
enorme de pastel que estava a mastigar quando pegou no 



68 AS AVENTURAS 



somno, e obedeceu lentamente ás ordens do patrão — devo- 
rando com olhos languidos os restos do festim, ao tirar os 
pratos e ao deposital-os na canastra. 

N'um instante se abriu e se despejou a nova garraf\i; 
amarroi*-se a canastra no seu antigo pouso ; o gorducho tor- 
nou a trepar para a almofada; assestaram-se de novo ócu- 
los de todas as espécies ; e as evoluções militares recomeça- 
ram. 

Repetiram-se os trovões da artilheria e os estremeções das 
damas ; depois rebentou uma mina, com satisfação geral ; e 
em seguida, tropas e espectadores foram-se embora. 

— Então não se esqueçam, disse o sr. Wardle, apertando 
a mão do sr. PickAvick ao findar uma conversação que se 
desenrolara por intermittencias com o findar das evoluções, 
amanhã havemos de os ver a todos. 

— Está dito, replicou o sr. Pickwick. 

— Tem o endereço. 

— Manor Farm, Dingley Dell, disse o sr. Pickwick, con- 
sultando a carteira. 

— Exacto, disse o velhote. Lembrem-se que os não largo 
antes de uma semana, pelo menos. Empenho-me em que ve- 
jam tudo digno de se ver. Se vieram na ideia de expernnen- 
tar a vida do campo, venham ter comigo, q':e hei de dar-lh'a 
á farta. Joe — diabos levem o moço I lá está elle outra vez a 
dormir — Joe, ajuda Tom a atrelar os cavallos. 

Atrelaram-se os cavallos; o cocheiro subiu para a almo- 
fada ; o gorducho trepou para o lado d'elle. Trocaram se as 
despedidas, e a carruagem rodou. Quando os pickwickanos se 
voltaram para a verem pela ultima vez, o sol poente derra- 
mava um rico esplendor sobre os rostos dos seus amphy- 
triÕes e realçava no vulto do gorducho. E!ste tinha a cabeça 
descabida sobre o peito, e estava outra vez a dormitar. 



hO SR. PICKWICK 69 



CAPITULO V 

Que é curto — mostrando entre outras cousas, co- 
mo o sr. PIckwick se metteu a guiar um trem 
e o sr. Winkle a andar a cavallo; e como ambos 
se sahiram da empresa. 



lo, c admirável a apparencia de todos os objectos quando o 
sr. Pickwick se encostou á balaustrada da ponte de Roches- 
ter, contemplando a natureza e esperando pelo almoço. 

A scena era deveras própria para seduzir um espirito 
muito menos reHexivo ainda, do que aquelle a quem se pro- 
porcionava então. 

A' esquerda do espectador estendia-se a muralha em rui- 
nas, desmoronada em muitos sitios, e dominando n'outros a 
estreita praia com a sua massa tosca e pesada. 

Ramos de algas estavam agarrados ás rochas dentadas e 
ponteagudas, estremecendo á menor aragem ; e a hera ver- 
dejante abraçava melancolicamente as negras e arruinadas 
ameias. Por detraz erguia-se o velho castello, com as torres 
destelhadas, e com as paredes macissas a derrocarem-se, mas 
fallando-nos orgulhosamente do seu antigo poderio, como 
quando, ha setecentos annos, elle retumbava com o estrépito 
das armas ou com o estrondear dos festins e das orgias. 

De ambos os lados, estendiam-se a perder de vista as 
margens do Medway, cobertas de searas e de pastagem, se- 
meadas aqui e além de moinhos de vento, ostentando uma 
paisagem opulenta e variada, ainda mais embellesada pelas 
sombras cambiantes que a atravessavam docemente, á pro- 
porção que as nuvens ténues e informes fluctuavam na luz 
do sol matinal. 

O rio, reflectindo o azul brilhante do céo, scintillava e 
lampejava n'uma corrente silenciosa; e os remos dos pesca- 
dores mergulhavam na agua com um som claro e liquido, 
quando os seus botes pesados, mas pittorescos, resvalavam 
pelo rio abaixo. 

O sr. Pickwick foi despertado do agradável enlevo, a que 



70 AS AVENTURAS 



O tinha transportado o bello espectáculo, por um profundo 
suspiro e por uma percussão no hombro. Voltou-se, e viu ao 
seu lado o homem fúnebre. 

— Estava a contemplar a scena ? perguntou elle. 

— Estava, respondeu o sr. PickAvick 

— E a felicitar-se por estar a pé tão cedo ? 

O sr. Pickwick fez um gesto de assentimento. 

— Ah ! toda a gente se deve levantar cedo para ver o sol 
em lodo o seu esplendor, porque o seu brilho é raro durar 
todo o dia. A manhã do dia e a manhã da vida são parecidas 
a mais não poder ser. 

— Diz o senhor muito bem. 

— Quantas vezes se diz, proseguiu o homem fúnebre; «-a 
manhã está linda, isto não pôde durar.» Como isto se ap- 
plica bem á nossa existência I O' meu Deus ! quanto daria 
eu para voltar aos dias da infância, ou para poder esque- 
cel-os para sempre ! 

— O senhor teve muitos desgostos? perguntou compas- 
sivamente o sr. Pickwick. 

— Se tive ! acudiu vivamente o hom.em fúnebre, se tive I 
Mais do que pôde suppôr quem hoje me vê. 

Calou-se um instante, e depois disse abruptamente : 

— Nunca reflectiu, n'uma manhã como a de hoje, como 
seria delicioso e encantador afogar-se a gente ? 

— Nunca, Deus me acuda! replicou o sr. Pickwick, afas- 
tando-se um pouco da balaustrada, por lhe ter occorrido de 
repente a possibilidade de que o homem fúnebre o atirasse 
d'ali abaixo para fazer a experiência. 

— Pois eu tenho pensado n'isso centos de vezes, disse o 
outro, sem dar pelo movimento. A lympha serena e gélida 
parece murmurar-me um convite para o repouso e para o 
■olvido. Um salto, um espadanar de agua, uma luta de mo- 
mentos ; um redemoinho instantâneo que se vae alterando 
até uma leve etfervescencia ; as aguas cerraram-se sobre a 
cabeça do mesquinho e o. mundo cerrou-se-lhe para sempre 
sobre as misérias e os infortúnios. 

O olhar cavo do homem fúnebre teve um lampejo vivido 
ao pronunciar estas palavras, mas rápido se extinguiu essa 
excitação momentânea, e elle voltou-se para o lado e prose- 
guiu com serenidade : 



DO SK. IMCKWICK 



— Bem — não liillemos mais n'isso ! Eu desejava fallar-lhe 
n'outro assumpto. O senhor ante-hontem convidou- me para 
ler aquelle papel, e escutou-me com grande atienção. 

— Por certo, replicou o sr. Pickwick, e pensava eu. . . 

— Não lhe pergunto a sua opinião, interrompeu o homem 
funehre, nem preciso d'ella para nada. O senhor anda em 
viagem de recreio e de instrucção. Ora supponha que eu lhe 
proporciono um manuscripto curioso — note bem, curioso 
não lá por ser disparatado ou inverosimil, mas curioso como 
uma pagina romântica de vida real. Communical-a-hia ao 
club de que o senhor falia tantas vezes? 

— Com certeza, retorquiu o sr. Pickwick, se assim o de- 
sejar; e licaria inserto nas actas. 

— Pois eu lh'o farei chegar ás mãos, replicou o homem. 
( ) seu endereço ? 

O homem fúnebre tomou nota das informações d. idas pelo 
sr. Pickwick sobre o seu itinerário provável, e, resistindo ao 
convite instante para almoçar que lhe dirigia este cavalheiro, 
deixou-o na hospedaria, e afastou-se lentamente. 

O sr. Pickwick encontrou já a pé os seus três companhei- 
ros, á espera da sua chegada para começarem o almoço, que 
estava já na mesa a tental-os. 

Sentaram-se para essa refeição ; e o presunto grelhado, 
os ovos, o chá, o café e outros manjares, começaram a des- 
apparecer com uma rapidez que bem claro testemunhava 
tanto das excellencias da comida, como do appetite dos hos- 
pedes. 

— Ora agora, a propósito de Manor-Farm, disse o sr. 
Pickwikck. Como havemos de ir para lá ? 

— O melhor é talvez consultar o criado, disse o sr. Tup- 
man. 

Assim se fez. 

— Dingley Dell, meus senhores — são quinze milhas — 
por atalhos -^ Quer uma sege de posta ^ 

— Uma sege de posta não leva mais de duas pessoas, disse 
o sr. Pickwick. 

— Tem o senhor rasão, desculpe. Temos uma rica sege 
de quatro rodas — dois logares no assento de traz — um na 
frente para quem guiar. . . Ah ! peço perdão, senhor; não ha 
logar senão para três. 



AS AVENTURAS 



— Então como ha de ser ? interrogou o sr. Snodgrass. 

— Talvez que um dos senhores goste de andar a cavallo, 
suggeriu o criado olhando para o sr. Winkle ; ha hellos ca- 
vaílos de sella — qualquer dos criados do sr. Wardle, em 
vindo a Rochester, pôde trazei- os. 

— Isso mesmo é que é, disse o sr. Pick^vick. Winkle, vocc 
quer ir a cavallo? 

Ora o sr. Winkle alimentava nos recessos mais Íntimos 
do seu coração terriveis apprehensões com respeito á sua 
sciencia de equitação ; todavia, não querendo nem por som- 
bras que d'ellas suspeitassem, respondeu de prompto com o 
maior arrojo : 

— Está claro que sim,' não ha nada que me dè mais pra- 
zer. 

O sr. \N'inkIe precipitc'ra-se no seu destino ; não havia re- 
médio. 

— Então, em sendo onze horas, esteja tudo á porta, disse 
o sr. Pickwick. 

— Está dito, senhor, replicou o criado, sahindo em se- 
guida. 

Acabado o almoço, subiram os viajantes aos quartos res- 
pectivos, para apromptarem a roupa que deviam levar na 
próxima expedição. 

O sr. Pickwick terminou os seus arranjos preliminares, e 
estava á janella do café observando os transeuntes, quando 
o criado veiu annunciar que a sege estava prompta — annun- 
cio confirmado logo pela apparição do dito vehiculo em frente 
das mencionadas janellas. 

Era uma curiosa caixinha verde, com quatro rodas, com 
um assento baixo e estreito para duas pessoas, além de um 
poleiro elevado na frente para outras, tudo puxado*por um 
enorme cavallo castanho, patenteando a symetria do systema 
ósseo. 

Ao lado estava um moço de estrebaria segurando pelas 
rédeas outro cavallão enorme — provavelmente parente pró- 
ximo do cavallo da sege — convenientemente sellado para o 
o sr. Winkle. 

— Valha-me Deus I exclamou o sr. Pickwick, emquanto 
estavam mettendo a bagagem dentro da sege. Valha-me 
Deus! quem ha de guiar? D'essa^não me lembrei eu. 



DO SR. PICKWICK 



— Ora essa ! Vocc, está bom de vèr, disse o sr. Tupman. 

— Kstá bem de ver, repetiu o sr. Snodgrass. 

— Eu ! exclamou o sr. Pickwick. 

— Não ha que ter medo, senhor, atalhou o moço. E' 
mansíssimo, afianço ; uma creança de collo era capaz de o 
f;uiar. 

— Nunca se espanta, não? perguntou o sr. Pickwick. 

— Qual espanta ! Nem que encontrasse uma carregação 
Je macacos, com os rabos a arder. 

A ultima recommendação era indiscutivel. 

Os srs. Tupman e Snodgrass encafudram-se na caixa; o sr. 
rickwick trepou para o poleiro e pousou os pés n'uma táboa 
-.oberta de oleado, ali disposta para esse fim. 

— Anda, William luzidio, disse o moço da estrebaria ao 
seu adjuncto, entrega as rédeas a esse senhor. 

William luzidio — assim chamado provavelmente por causa 
da cabelleira muito lisa e de aspecto oleoso — depoz as ré- 
deas na mão esquerda do sr. Pickwick, e o outro metteu-lhe 
na mão direita o cabo de um chicote. 

— Eh ! . . . gritou o sr. Pickwick, ao ver que o agigantado 
quadrúpede manifestava uma decidida propensão para entrar 
ás recuas pela janella do caíé dentro. 

— Eh 1 . . . eh ! . . echoaram os srs. Tupman e Snodgrass, 
do interior do caixote. 

— E' só por brincadeira, patrões, disse o primeiro moço 
da estrebaria, em tom de animação. Segura lá, William. . . 

O outro aguentou a impetuosidade do animal, e o estri- 
beiro em chefe correu a ajudar o sr. Winkle a montar. 

— E' pelo outro lado, patrão, com perdão do senhor. 

— Raios me partam, se o sujeito não ia montar ás aves- 
-is ! resmungou um postilhão trocista para o criado que es- 
lava a olhar muito contente. 

Assim instruído, o sr. Winkle trepou para cima da sella, 
quasí com tamanha difticuldade como teria a marinhar pelo 
costado de uma nau de três pontes. 

— Vae tudo bem ? perguntou o sr. Pickwick, com um 
presentimento intimo de que tudo ia mal. 

— Tudo vae bem, replicou debílmente o sr. Winkle. 

— Roda ! gritou o meço de estrebaria. Segure-o bem, pa- 
trão ! 



AS AVh.MUKAS 



E "lá foi rodando a sege e trotando o cavallo de sella. com 
o sr. Pickwick na almofada da primeira, e o sr. Winkle es- 
carranchado no segundo, com grande gáudio e satisfação de 
toda a criadagem. 

— Porque é que elle vae a andar para o lado ? disse o sr. 
Snodgrass de dentro da sege para o sr. Winkle em cima da 
sella. 

— Eu percebo lá 1 replicou o sr. Winkle. 

O cavallo ia com efleito pela rua fora de uma maneira de- 
veras estravagante. 

Ia de lado, com a cabeça para uma das margens da rua, 
e a cauda para outra. 

O sr. Pickwick não teve ensejo de observar este ou qual- 
quer outro pormenor; visto que o conjuncto das suas facul- 
dades estava concentrado na direcção do animal atrelado á 
sege, o qual ia patenteando varias singularidades, altamente 
interessantes para quem o visse de tora, mas por forma al- 
gumíi divertidas para quem fosse sentado atraz d'elle. 

Além de estar constantemente a sacudir a cabeça por 
uma maneira muito desagradável e incommoda, e a puxar 
pelas rédeas por forma que tornava extremamente difficil ao 
sr. Pickwick o aguental-as, tinha uma propensão singular de 
se atirar de quando em quando subitamente para um dos la- 
dos da estrada. 

Então estacava, e depois desatava a trotar durante alguns 
minutos, com uma velocidade que era de todo impossível 
reprimir, 

— Que diabo quer o cavallo ? disse o sr. Snodgrass, á vi- 
gésima vez que o cavallo executou esta manobra. 

— Sei lá I replicou o sr. Tupman. Parece que está espan 
lado, pois não parece ? 

Estava o sr. Snodgrass a ponto de replicar, quando foi 
interrompido por um grito do sr. Pickwick. 

— Eh 1 dizia elle, lá me cahiu o chicote. 

— Winkle, gritou o sr. Snodgrass ao cavalheiro, que vi- 
nha a trotar no enorme cavallo, com o chapéo enterrado até 
ás orelhas, e sacudido com tanta força que ameaçava despe- 
daçai-©. Apanhe o chicote, seja boa pessoa. 

O sr. Winkle puxou pela arreata do cavallão, até ficar 
preto com o esforço ; e tendo a final conseguido fazel-o pa- 



DO SR. PICKWICK 73 

rar, desmontou, estendeu o chicote ao sr. Pickwick, e, agar- 
rando nas rédeas, aprestou se para montar de novo. 

Não nos é fácil concluir definida e nitidamente se o ca- 
vallo, brincalhão como era por natureza, desejou divertir-se 
innocentemente com o sr. Winkle, ou se acaso lhe occorreu 
a ideia de que lhe seria mais agradável proseguir a jornada 
sem cavalleiro. Fossem quaes fossem os motivos que o ins- 
piravam, o que é certo c que, mal o sr. Winkle tocara nas 
rédeas, o animal deixou-as escorregar pela cabeça abaixo e 
recuou até as estender de todo. 

— Coitado! disse o sr. Winkle em tom adulador. Coita- 
do ! Meu bom cavallinho ! 

O <-bom cavallinho» estava á prova da lisonja. Quanto 
mais o sr. Winkle tentava aproximar-se d'elle, mais elle se 
afastava ; e, apesar de toda a espécie de caricias e de persua- 
sões, o sr. W^inkle e o cavallo andaram á roda um do outro 
durante dez minutos ; e findo esse tempo estavam tão longe 
um do outro como a principio. 

Isto era realmente desagradável em qualquer circumstan- 
cia mas sobretudo n'uma estrada solitária, onde não era pos- 
sível encontrar auxilio. 

— O que hei de eu fazer í' bradou o sr. Winkle, depois de 
ter passado que tempos n'esta dança. O que hei de eu fazer? 
Como é que hei de montar? 

— O melhor é ir puxando por elle até chegarmos a uma 
barreira, replicou da sege o sr. Pickwick. 

— Mas se elle não quer andar, rugiu o sr. Winkle. Faça 
favor, venha cá segural-o. 

O sr. Pick\vick era a verdadeira personificação da affabi- 
lidade e da humanidade : atirou com as rédeas para o dorso 
do cavallo, e tendo descido da almofada, conduziu com todo 
o cuidado a sege para o lado da estrada para a não obstruir, 
e veiu soccorrer o seu angustiado companheiro, deixando os 
srs. Tupman e Snodgrass no vehiculo. 

Apenas o cavallo viu o sr. Pickwick a avançar para elle, 
de chicote na mão, trocou o movimento rotatório em que 
até então se tinha comprazido por um movimento retrogrado 
de caracter tão decisivo, que arrastou logo o sr. Winkle, 
ainda a segurar a rédea, em passo de marche-marche na di- 
recção d'onde haviam partido. 



76 AS AVENTURAS 



O sr. Pickwick correu em seu auxilio ; mas quanto mais 
depressa elle corria para diante, mais depressa o cavallo cor- 
ria para traz. 

As patas batiam no chão, levantando uma poeirada densa. 
Por fim, o sr. Winkle, já com os braços quasi deslocados da 
clavicula, largou as rédeas. 

O cavallo estacou, encarou-o com fixidez, sacudiu a ca- 
beça, rodou para a rectaguarda, e desatou a trotar socegada- 
mente a caminho da casa em Rochester, deixando o sr. Win- 
kle e o sr. Pickwick attonitos a olhar um para o outro com 
ar de pasmo. 

Um rumor surdo a pouca distancia attrahiu-lhes a atten- 
► ção. Olharam na direcção d'elle. 

— Valha-me Deus ! exclamou o sr. Pickwick muito aftli- 
cto ; lá se safa agora o outro cavallo I 

Não havia nada mais certo. 

O animal assustára-se com o barulho ; como tinha as ré- 
deas soltas, pode conjecturar-se o resultado. Desatou a cor- 
rer com a sege atraz de si, e os srs. Tupman e Snodgrass 
dentro da sege. Mas a carreira foi curta. 

O sr. Tupman atirou se para a sebe que orlava o cami- 
nho, o sr. Snodgrass seguiu-lhe o exemplo, o cavallo arre- 
messou a sege de encontro a uma ponte de pau, separou as 
rodas da caixa, e a ciiixa da almofada, e finalmente estacou 
para contemplar os destroços que havia feito. 

O primeiro cuidado dos dois amigos immunes foi desen- 
vencilhar os seus desgraçados companheiros do seu leito de 
silvas; processo que lhes deu a ineffavel satisfação de desco- 
brir que elles não tinham soffrido damno, a não ser uns ras- 
gões no fato e varias arranhaduras dos espinhos. 

O que havia a fazer era desatrelar o cavallo. Finda esta 
complicada operação, o grupo foi seguindo adiante, de va- 
gar, levando o cavallo no meio d'elles, e abandonando a sege 
ao seu destino. 

Uma hora de caminho conduziu os viajantes a uma ta- 
bernoria á beira da estrada, tendo na frente dois olmeiros, 
uma grande pia e uma taboleta, na parte posterior uma ou 
duas pilhas de feno deformadas, ao lado uma horta, e á roda, 
dispostos em extrema confusão, alpendres a cahir de podres 
e telheiros meio arruinados. 



DO SR. PICKWICK 



Estava a trabalhar na horta um homem de cabellos rui- 
vos; e o sr. Pickwick bradou-lhe com vehemencia : 

— Eh ! lá ! homem ! 

O homem ruivo levantou o corpo, abrigou os olhos com 
.1 mão, e examinou detida e friamente o sr. Pickwick, mais 



os seus companheiros. • 

— Eh! lá! homem! repetiu o sr. Pickwick. 

— Eh ! lá ! foi a resposta do homem ruivo. 

— A que distancia tica Dingley-Dell r 

— Umas boas sete milhas. 

— E o caminho é bom ? 

— Não presta. 

Tendo soltado esta lacónica resposta, e ficando apparen- 
temente satisfeito com um novo exame, o ruivo tornou ao 
seu trabalho. 

— Precisamos recolher aqui este cavallo, disse o sr. Piei: ■ 
Avick. Podemos fazel-o, hein ? 

— Ah 1 precisam recolher aqui esse cavallo, não é isso ? 
repetiu o homem ruivo apoiando-se na enxada. 

— Exacto ! replicou o sr. Pickwick que entrementes se 
adiantara, com o cavallo á mão, até á cancella da horta. 

— Patroa ! rugiu o homem da cabeça ruiva, sahindo da 
horta e olhando fixamente para o cavallo. Patroa ! 

Uma mulher alta e ossuda, muito empertigada, com uma 
saia grossa azul e a cintura uma ou duas pollegadas abaixo 
dos sovacos, respondeu á chamada. 

— Podemos recolher aqui este cavallo, boa mulher? disse 
o sr. Tupman adiantando-se e fallando com a sua maneira 
mais insinuante., 

A mulher olhou com muita fixidez para todo o grupo ; e 
o homem ruivo segrcdou-lhe qualquer coisa aos ouvidos, 

— Nada! replicou a mulher apoz um momento de refle- 
xão. Tenho medo. 

— Medo ! ora essa ! exclamou o sr. Pickwick, de que é 
que a mulhersinha tem medo ? 

— Uma cousa assim metteu-nos em trabalhos da outra 
vez, disse a mulher voltando para dentro de casa, não me 
quero metter n'outra. 

— E' o caso mais extraordinário que eu tenho visto em 
minha" vida, disse o sr'. Pickwick attoniio. 



78 



AS AVENTURAS 



— Ku Cíi... eu cá... o que supponho, segredou o sr. 
Winkle aos amigos agrupados em torno d'elle, é que esta 
gente julga que nós apanhamos o cavallo de alguma maneira 

pouco limpa. 

— Como.-' exclamou o sr Pickwick n'uma explosão de 
cólera. 

O sr. Winkle repetiu modestamente a suà opinião. 

— Olé, amigo! disse o sr. Pickwick irritadíssimo, você 
julga que nós roubámos este cavallo? 

— Tenho a certeza, replicou o homem ruivo, com uma 
casquinada que lhe agitou a cara toda de uma orelha á ou- 
tra. 

E dito isto, metteu-se em casa, cerrando a porta com es- 
trondo. 

— Parece um sonho 1 exclamou o sr. Pickwick, um pesa- 
delo horrível ! Que perspectiva esta ! Andar um homem um 
dia inteiro agarrado a um cavallo medonho, sem se poder 
vèr livre d'elle ! 

Os pickwíckanos abatidos proseguiram tristemente o seu 
caminho, com o colossal quadrúpede, pelo qual elles toJos 
sentiam o mais invencível asco, a seguir-lhes lentamente a 
piugada. 

A tarde declinava, quando os quatro amigos, mais o pa- 
chvderme seu companheiro, chegaram ao atalho que condu- 
zia a Manor Farm : e mesmo tão próximos do seu destino, o 
prazer que elles n'outras circumstancias teriam experimen- 
tado, era deveras annuviado quando reliectíam na singulari- 
dade do seu aspecío e no absurdo da sua situação. 

Fatos rasgados, caras arranhadas, sapatos empoeirados, 
olhares amortecidos, e, por cima de tudo, o cavallo. Oh I 
como o sr. Pickwick amaldiçoava aquelle cavallo ! De mo- 
mento a momento lançava sobre o nobre animal olhares pre- 
nhes de ódio e de vingança ; mais de uma vez calculara 
quanto lhe poderia custar o degolal-o ; e n'esse instante oc- 
correu-lhe decuplicada ao espirito a tentação de dar cabo 
d'elle ou desamparai o por esse mundo. 

Despertou de sua tremenda meditação ao ver subitamente 
duas figuras na volta do atalho. 

Eram o sr. Wardle e o seu fiel servo, o rapaz gordu- 
cho. 



DO SR. PICKWICK 79 



— Ora esta I Então por onde andaram ? disse o hospita- 
leiro velhote. Estive todo o dia á sua espera. K' boa! pare- 
cem estafados. O que é isso ? arranhaduras ! Não é coisa de 
cuidado, espero — hein ? Estimo saber isso — estimo im- 
inenso. Então voltou-se-lhes a carruagem, hein r Não quer 
dizer nada. E' um accidente vulgar aqui nos sitios. .loe — 
diabo do moço I está outra vez a dormir — Joe, agarra no 
^avalio e leva-o para a cavallariça. 

O rapaz gorducho foi-se arrastando atraz d'elles com o 
animal ; o velho ia lamentando singelamente os hospedes so- 
bre a parte das suas aventuras do dia que elles julgaram con- 
veniente communicar-lhes ; e assim os foi conduzindo até á 
cosinha. 

— Vamos tratar de os pôr em ordem, disse elle, e depois 
eu os apresentarei á gente que esiá na sala. Emma, traze a 
aguardente de ginjas ; tu, Jane, vae buscar agulha e linha ; 
toalhas e agua, Mary. Andem, raparigas, aviem -se. 

Três ou quatro criadas rechonchudas dispersaram apres- 
sadamente em cata dos ditlerentes objectos requisitados, ao 
passo que dois machacazes de cabeças grandes e caras re- 
dondas se levantaram dos bancos postados ao pé da lareira. 
i/*orque, apesar de ser uma noite de maio, a sua ternura pelo 
lume não parecia menos ardente do que se estivessem no 
Natal. 

Sumiram-se por cantos obscuros, d'onde em bre\e emer- 
giram, trazendo um frasco de graxa e coisa de meia dúzia de 
escovas. 

— Mecham-sel repetiu o velhote. 

Mas a advertência era de todo inútil, porque uma das ra- 
parigas foi distribuindo a ginjinha, outra trouxe as toalhas, c 
um dos machacazes agarrou-se á perna do sr. Pickwick, com 
risco imminente de lhe fazer perder o equilíbrio e escovou 
lhe as botas até lhe pôr os callos em braza. 

Entretanto, outro criado ia esfregando o sr. Winkle com 
uma pesada escova de fato, deleitando-se durante a operação 
a produzir a espécie de assobio habitual aos moços de estre- 
baria quando limpam os cavallos. 

O sr. Snodgrass, tendo concluido as suas abluções, voltou 
as costas para o fogão, e saboreando com grande prazer a 
aguardente de ginjas, entreteve-se a examinar o aposento. 



8o AS AVENTURAS 



Segundo o que elle descreve, era uma vasta casa, com o 
chão de tijolo e uma enorme chaminé ; o teclo estava guar- 
necido de presuntos, mantas de toucinho e resteas de cebo- 
las. 

As paredes estavam decoradas com vários chicotes, dois 
ou três freios, uma sella, e um velho bacamarte enferrujado 
com um lettreiro por baixo que o accusava de «CarregadO') 
— e ha meio século pelo menos que, a dar credito ao nosso 
informador, assim devia estar. 

Um velho relógio com oito dias de corda, de um aspecto 
sereno e solemne, traquinava compassadamente a um canto ; 
e um relógio de algibeira, de prata, de egual antiguidade, 
pendia de uma das innumeras escapulas que ornavam o apa- 
rador. 

— Estão promptos? perguntou o velhote, quando viu os 
hospedes lavados, cozidos, escovados e quentes por den- 
tro. 

— Promptos ! respondeu o sr. Pickwick. 

— Então, venham comigo. 

Atravessaram alguns corredores ás escuras. Mas o sr. Tup- 
man íicou atraz para dar um beijo a Emma que o recompen- 
sou devidamente com vários safanões e arranhaduras. Por 
fim chegaram todos juntos á porta da sala. 

— Bemvindos sejam I disse o hospitaleiro velhote, abrin- 
do-a de par em par e precedendo- os para os annunciar. Bem- 
vindos sejam, a Manor Farm ! 



CAPITULO VI 

Uma partida n'outros tempos. — Os versos do clé- 
rigo. —Urra historia: a volta do degredado. 

As visitas, que estavam reunidas na velha sala, ergueram- 
se para cumprimentar o sr. Pickwick e os seus amigos ; e 
durante a ceremonia de apresentação, realisada com todas 
as formalidades, teve o sr. Pickwick tempo para examinar o 
aspecto e fazer conjecturas sobre os caracteres e as occupa- 
ções das pessoas que o cercavam — divertimento a que se 



DO SR. IMCKWICK 



cinreL;a\a habitualmente, á siniilhança de muitos outros 
grandes homens. 

A' direita do fogão, occupava o posto de honra uma se- 
nhora muito velha, com uma touca monumental e um \ estido 
de seda desbotada : era nada mais nada menos do que a mãe 
do sr. Wardle. 

Varias certidões de que em moça fora educada no devido 
rumo e de que depois de velha se não afastara d'elle, orna- 
mentavam as paredes, sob a forma de modelos de collegio 
de velha data, paisagens bordadas a lá de egual antiguidade, 
e coberturas para asas de bule, de seda carmezim, de um 
periodo mais recente. 

Agrupavam-se em volta da sua poltrona, competindo em 
aitençóes incessantes e desveladas á veneranda dama, a tia, 
as duas meninas e o sr. Wardle ; uma segurava-lhe a corneta 
acústica, outra uma laranja, a terceira um frasco de perfu- 
mes, ao passo que o ultimo se entregava zelosamente á faina 
de afofar as almofadas a que ella se encostava. 

Do lado opposto, sentava se um sujeito de idade, calvo, 
com uma cara de bom hum.or e de aíTabilidade : era o vigá- 
rio de Dingley-Dell. 

Ao pé d'este sentava-se sua mulher, uma senhora idosa e 
robusta, que tinha a apparencii de ser habilidosa, não só na 
mysteriosa arte de manufacturar excellentes bebidas casei- 
ras para satisfação alheia, mas de as provar quando se offe- 
recia a occasião, para satisfação própria. 

Um homem baixinho, de cabeça ossuda e cara de maçã 
remeta, estava a um canto a conversar com um sujeito gordo 
e idoso. 

Mais dois ou três velhotes, e mais duas ou três velhotas, 
estavam rígidos e immoveis nas suas cadeiras, pasmados para 
o sr. Pickwick e para os seus companheiros de viagem. 

— E' o sr. Pickwick, minha mãe, disse o sr. Wardle, com 
toda a força dos seus pulmões. 

— Ah ! disse a velha, sacudindo a cabeça, não ouço nada. 

— O sr. Pickwick, chiaram ambas as meninas em uni- 
sono. 

— Ah! exclamou a velha dama. Bem I isso não faz nada 
ao caso. Elle importa-se lá com uma velha como eu I 

— Asseguro-lhe, minha senhora, exclamou o sr, Pick- 

ó 



82 AS AVENTURAS 



wick agarrando na mão da velha e fallando tão alto que che- 
gou a ter a benévola physionomia esfogueteada com o es- 
forço, asseguro lhe, minha senhora, que nada me encanta 
mais do que uma dama da sua idade á testa de uma fami- 
lia tão digna, e com essa bella apparencia de saúde e de vi- 
gor. 

— 'Ah ! disse a velha depois de uma curta pausa, isso tudo 
é muito bonito, creio ; mas eu é que não ouço patavina. 

— A avósinha está agora um tanto indisposta, disse Miss 
Isabella Wardle em voz baixa ; d'aqui a pouco lhe falia. 

O sr. Pickwick manifestou por um gesto que se prompti- 
ficava a sujeitar-se ás enfermidades da velhice, e entrou na 
conversação geral. 

— Lindissimo sitio este! disse o sr. Pickwick. 

— Lindissimo ! echoaram os três companheiros. 

— Pois é, lá isso creio, disse o sr. Wardle. 

— Não ha melhor pedaço de terra em todo o condado de 
Kent, meu caro senhor, acudiu o homem da cara de maçã 
reineta. Isso é que não ha — tenho a certeza que não ha. 

E o homemsinho olhou em roda de si, com ar de trium- 
pho, como se houvesse sido muito contradictado por alguém, 
mas tivesse afinal levado a melhor. 

— Não ha melhor pedaço de terra em todo o condado, 
repetiu elle passado um instante de silencio. 

— A não ser os prados de Mulhns, observou com solem- 
nidade o homem gordo. 

— Os prados de MuUins I exclamou o outro com profundo 
desdém. 

— Ah! os prados de Mullins ! repetiu o homem gjrdo. 

— São bem boa terra, são, atalhou outro homem gordo. 

— Pois são, com certeza, disse um terceiro gordo. 

— Isso toda a gente sabe, disse o corpulento dono da 
casa. 

O homem da cara de maçã reineta olhou com hesitação 
em torno de si, mas, vendo-se em minoria, assumiu um ar de 
compaixão, e não disse mais palavra. 

— De que é que elles estão a fallar .'' perguntou a velhi- 
nha a uma das netas em voz muito audível ; porque, como a 
maior parte dos surdos, nunca parecia calcular a possibili- 
dade de os outros ouvirem o que ella dizia. 



DO SR. PICKWICK 83 



— Kstão a fallar a respeito das terras, avósinhii. 

— O que é que ha a respeito das terras? Ha cdguma no- 
vidade ^ 

— Não, não. Era o sr. Miller que estava dizendo que as 
nossas terras são melhores do que os prados de Mullins. 

— Elle sabe lá nada d'isso ! exclamou com indignação a 
velha. Miller é um pateta, um presumido, e podes repetir-lhe 
o que eu digo. 

Dizendo isto, a velha senhora, inconsciente de que fallára 
em alta voz, endireitou-se e cravou olhares cortantes como 
facas sobre o delinquente da cara de maçã reineta. 

— E' verdade ! disse o irrequieto sr. Wardie, com a an- 
ciedade natural de mudar de conversação. Que diz a uma 
partida de whist, sr. Pickwick ? 

— Pélo-me por isso, replicou este cavalheiro, mas rogo- 
Ihe que a não organise por minha causa. 

— Oral certifico-lhe que minha mãe gosta immenso do 
\vhist, disse o sr. Wardie ; não é assim, minha mãe ? 

A velha, que era muito menos surda n'este assumpto do 
que n'outro qualquer, respondeu affirmativamente. 

— Joe, Joe ! bradou o dono da casa ; Joe I — Diabos le- 
vem. . . Ah ! cá está elle ; arranja as mesas de j®go. 

O lethargico rapazote decidiu-se sem mais excitantes a 
arranjar duas mesas de jogo ; uma para jogar a papisa Joan- 
na ^ ; outra para o whist. 

Os parceiros do whist eram o sr. Pickwick com a velhi 
nha, o sr. Miller com o sujeito gordo. O outro jogo compre- 
hendia o resto da sociedade. 

O whist foi conduzido com toda a gravidade e circum- 
specção que exige a occupação assini denominada, acto so- 
lemne ao qual nos parece se dá por irreverência e ignominia 
o titulo de jogo. 

Pelo contrario, na outra mesa reinava uma alegria tão 
ruidosa, que prejudicava gravemente as lucubracões do sr. 
Miller. 

Este, não estando tão absorto como lhe cumpria, perpe- 



' Jogo de cartas usado em Inglaterra. Calculo que ^ja uma espécie de 
nosso diabrete. 



84 AS AVENTURAS 



irava a cada passo medonhos crimes e tremendos delictos, 
que excitavam até ao ápice as iras do sujeito gordo e des- 
pertavam na mesma proporção o bom humor da velha 
dama. 

— Aqui está ! disse triumphantemente o sr. Miller, ao 
apanhar a uhima vasa no fim de uma mão, não havia meio 
de jogar melhor, gabo-me d'essa. Era impossivel fazer mais 
uma vasa. 

— Miller devia ter cortado os oiros, pois não devia r per- 
guntou a velha. 

O sr. Pickwick fez um gesto afifirmativo. 

— Acha que devia cortar? disse o desditoso, com um 
appello hesitante ao seu parceiro. 

— Está claro que devia, respondeu o sujeito gordo com 
voz tremebunda. 

— Então desculpe, disse o sr. Miller de crista cabida. 

— A boas horas! resmungou o sujeito gordo. 

— Dois de figuras — marcamos oito, disse o sr. Pickwick. 
Passou-se a outra mão. 

— Pôde marcar um? perguntou a velha. 

— Posso, respondeu o sr. Pickwick. Duplo, singelo, e o 
resto. 

— Nunca vi sorte assim, disse o sr. Miller. 

— Nunca vi cartas d'estas, disse ò sujeito gordo. 

Fez-se um silencio solemne. O sr. Pickwick estava jo- 
vial, a velha séria, o sujeito gordo mal humorado, e o sr. 
Miller timido. 

— Outro duplo, disse a. velha, marcando triumphalmente 
o facto peia collocação de uma moeda de seis pence e outra 
amolgada de meio penny debaixo do castiçal. 

— Outro duplo, vê? disse o sr. Pickwick. 

— Já tinha percebido, replicou acerbamente o sujeito 
gordo. 

Outro jogo se seguiu com o mesmo resultado. E como o 
desventurado Miller tivesse commettido uma renuncia, o su- 
jeito gordo rompeu n'um excesso de irritação que lhe durou 
até ao fim do jogo, retirando-se então para um canto e fi- 
cando perfeitamente mudo durante uma hora e vinte e sete 
minutos. 

Findo este tempo, emergiu do seu canto e otíereceu uma 



DO SR. PICKVVICK S3 



pitada de rapé ao sr. Pickwick, com a atliludc de um homem 
que se tinha resolvido a perdoar christãmente as injurias sof- 
íridas. 

O ouvido da velha melhorava decididamente, c o desdi- 
toso Miller sentia-se tão tora do seu elemento como um gol- 
phinho encafuado n'uma guarita. 

Entretanto, o outro jogo ia proseguindo no meio da maior 
alegria. 

Isabella Wardle e o sr. Trundle tinham feito uma vaqui- 
nha, assim como Emily Wardle, mais o sr. Snodgrass ; e até 
o sr. Tupman e a tia solteirona haviam formado uma socie- 
dade de tentos e de galanteios. 

O velho sr. Wardle estava no cumulo da jovialidade. Era 
tão divertido a dirigir o jogo, e as senhoras idosas eram tão 
softVegas do que ganhavam, que em volta da mesa havia um 
temporal constante de gargalhadas. 

Havia uma dama velha que tinha sempre uma meia dúzia 
de cartas a pagar, o que fazia rir immenso a cada turno do 
jogo; e quando a dita senhora se mostrava 2angada por ter 
de pagar, riam todos ainda mais : então o rosto d'ella ia-se 
gradualmente desannuveando, até que a final desatava a rir 
mais do que os outros. 

Depois, em a tia solteirona fazendo algum casamento, lá 
rompiam as meninas outra vez ás risadas, e a lia parecia vae 
não vae prestes a desconfiar; até que, sentindo o sr. Tup- 
man a apertar-lhe a mão por baixo da mesa, elia ficava ra- 
diante, como se quizesse mostrar que o casamento não era 
uma coisa tão fora de villa e termo como algumas pessoas 
suppunham : e então todos tornavam a rir, e especialmente 
o velho sr. Wardle que dava tanto apreço a uma brincadeira 
como os mais novos. 

Quanto ao sr. Snodgrass, esse não fazia outra coisa senão 
segredar sentimentalidades poéticas ao ouvido da sua par- 
ceira, o que occasionava as piadas maliciosas de um sujei' o 
idoso a propósito das parcerias ao jogo e das parcerias na 
vida. 

Sobre este thema bordava o tal sujeito varias considera- 
ções, acompanhadas de olhadellas e sorrisos malignos, que 
divertiam muitíssimo a sociedade, especialmente a esposa do 
sobredito sujeito. 



«S6 AS AVENTURAS 



K o sr. Winkle sahia-se com pilhérias muito conhecidas 
na cidade, mas absolutamente desconhecidas na província ; 
e quando todos riam a bom rir, achando-as excellentes, o sr. 
Winide ficava impando de honra e de orgulho. 

E o benévolo ecclesiastico olhava para tudo isto com 
complacência ; porque se sentia feliz em ver todos felizes em 
volta de si ; e apesar de a alegria ser um tanto estrondosa, 
era do coração que provinha e não dos lábios ; e é essa a 
verdadeira e genuina alegria, a final de contas. 

Decorreu com rapidez a noite, no meio d'estas jubilosas 
distracções ; e depois que se deu conta da ceia substancial, 
embora comezinha, a sociedade formou em circulo em torno 
do lumre. 

O sr. Pickwick julgou então que nunca se sentira tão fe- 
liz na sua vida, e nunca tão disposto a gosar, tanto quanto 
podesse, dos momentos transitórios. 

— Ora, é d'isto mesmo, disse o hospitaleiro amphytrião, 
ceremoniosamente sentado junto á cadeira de braços occu- 
pada por sua velha mãe, e com a mão d'ella apertada entre 
as suas, é d'isto exactamente que eu gosto. Os momentos 
mais ditosos da. minha vida, tenho-os passado ao pé d'esta 
velha lareira : e tanto amor lhe tenho que todas as noites 
accendo um lume chammejante até chegar a ser tão intenso 
que não se possa supportar. Que querem? já a minha pobre 
e velha mãe costumava sentar-se diante d'esta lareira, n'a- 
quelle banquinho, era ella ainda bem nova — não é verdade, 
minha mãe ; 

Pelas faces da velha, que acenou com a cabeça sorrindo 
melancolicamente, escorregou aquella lagrima que se des- 
prende voluntariamente dos olhos ao recordar os velhos tem- 
pos e a ventura de um passado longinquo. 

— Desculpe-me fallar-lhe d'este velho local, sr. Pickwick, 
proseguiu o sr. Wardle, depois de um breve silencio ; é que 
lhe tenho um grande amor, e nenhum outro conheço. As ca- 
sas antigas e os campos velhos parecem-me amigos com vi- 
da. Tal me parece a nossa velha egreja coberta de hera. E a 
propósito, aqui está o nosso excellente amigo que a esse res- 
peito compoz uma canção quando aqui chegou. Sr. Snod- 
grass, tem o copo vasio ? 

— Ainda não, obrigado, replicou este cavalheiro, cuja cu- 



DO SR. PICKWICK 87 



riosidade poeiica tora vivamente excitada pelas ultimas ob- 
servações do dono da casa. Peço perdão, mas estava fallando 
de uma canção sobre a hera. 

— Pergunte novas d'ella a este nosso amigo, disse com 
malicia o sr. Wardle, indicando o ecclesiastico com um aceno 
de cabeça. 

— Permitte-me que lhe manifeste o meu desejo de a ou- 
vir ? perguntou o sr. Snodgrass. 

— Ora essa ! replicou o ecclesiastico, realmente é uma 
coisa tão insignificante ! A minha única desculpa por ter 
perpetrado similhante crime é que ainda era rapaz n'esse 
tempo. Em todo o caso, se assim o deseja, vae ouvil-a. 

A resposta foi, está claro, um sussurro de curiosidade ; e 
o velho começou a recitar, servindo lhe a esposa uma que 
outra vez de ponto, os versos em questão. 

— Chamam-se elles, disse o vigário, 



A MEKvV 



Ah ! como ás ruinas trepa 
Esta planta singular ! 
Na poeira e na carepa 
O alimento vae buscar ! 
Com mais anciã se apodera 
Do que mais vetusto está : 
Com que vigor cresce a hera 
Aonde vida não ha ! 



Sobe, sobe, sem ter azas, 
Ergue-se altiva ao cariz, 
No cimo das velhas casas 
E dos troncos senhoris. 
Busca nas campas, qual fera, 
O manjar que a morte dá ; 
Com que vigor cresce a hera 
Aonde vida não ha ! 



88 AS AVENTURAS 



Séculos fogem, deixando 
Os escombros das nações ; 
•Mas sobre elles vão lavrando 
Os viridentes Horões. 
Do pretérito, severa. 
Sempre se alimentará : 
(]om que vigor cresce a hera 
Aonde vida não ha I 



Emquanto o velho recitava estes versos pela segunda 
vez para que o sr. Snodgrass podesse tomar nota d'elles, o 
sr. Pickwick examinava-lhe com grande interesse as fei- 
ções. 

Concluida que foi a recitação e guardada a carteira no 
bolso do sr. Snodgrass, o sr. Pickwick disse ao vigário : 

— Ha de perdoar-me, se logo á primeira vez que o co- 
nheço lhe dirijo esta pergunta : mas um cavalheiro nas suas 
circumstancias e na sua situação de ministro do Evangelho, 
é impossivel que não tenha assistido a muitas scenas e inci- 
dentes dignos de relatar-se. 

— Decerto que alguns tenho presenciado, respondeu o 
velho, mas os incidentes e os caracteres teem sido de um gé- 
nero bem comesinho e vulgar, por ser muito limitada a mi- 
nha csphera de acção. 

— Parece-me que o meu amigo tomou alguns apontamen- 
tos acerca de John Edmunds, não é assim ? interrogou o sr, 
Wardle. que parecia muito desejoso de evidenciar o amigo, 
para edificação das suas novas visitas. 

O velho acenou ligeiramente com a cabeça em signal de 
assentimento, e dispunha-se a mudar de assumpto, quando o 
»r. Pickwick lhe disse : 

— Perdão, senhor; mas permitte-me que lhe pergunte 
quem vinha a ser esse John Edmunds ? 

— Era justamente o que eu ia perguntar, acrescentou o 
sr. Snodgrass com vivacidade. 

— Não podem bater a melhor porta, disse o jovial dono 
da casa. O meu amigo tem que satisfazer, mais cedo ou mais 
tarde, a curiosidade doestes senhores: e então o melhore 
aproveitar o ensejo, e fazei- o desde já. 



DO SR. PICKWICK 80 



O velho sorriu com bonhomia, puxando para diante a 
^ua cadeira. 

Os outros aperlaram-se mais, sobretudo o sr. Tupman e 
a lia solteirona, que talvez tivessem o ouvido um pouco 
duro. 

Dispoz-se com todo o cuidado a corneta acústica da ve- 
Ihita. K o sr. Miller, que adormecera durante a recitação, foi 
despertado por um beliscão admonitório, ministrado por 
baixo da mesa pelo seu ex-parceiro, o gordo solemne. 

Então o vigário, sem mais prefacio, encetou a seguinte nar- 
rativa, á qual tomámos a liberdade de antepor o titulo de 



j\. voL^^^r.^ i>o r>i^::<^Rii:r>Ai>o 

"Quando eu me estabeleci aqui na terra, faz agora justa- 
mente vinte e cinco annos, a pessoa mais digna de nota en- 
tre os meus parochianos era um tal Edmunds, que era ren- 
deiro de uma pequena herdade por estes contornos. 

"Era um homem de maus instinctos, intratável e feroz 
por temperamento, preguiçoso e dissoluto por habito. A não 
ser uns vadios ralaços com quem elle vagueava por esses 
campos ou se embriagava na taverna, não tinha um único 
amigo ou conhecido ; ninguém se sentia disposto a fallar 
com um homem a quem muitos temiam e iodos receiavam. 
Por isso toda a gente fugia d'elle. 

"Tinha este homem mulher e um filho, o qual teria uns 
doze annos quando eu aqui cheguei. Nirtguem pôde formar 
uma ideia apropriada dos softrimentos d'essa pobre mulher, 
da sua resignação a supportal-os, e da angustiosa solicitude 
com que ia educando o pequeno. 

"Deus me perdoe a suspeita, se é pouco caridosa ; mas 
creio, em consciência, que o homem procurou systematica- 
mente, durante muitos annos, despedaçar-lhe o coração. 

"Ella tudo soífreu por amor do filho, e, por estranho que 
isto pareça a muita gente, também por amor do pae. 

"Embora bruto e cruel para ella, a pobre mulher tinha-o 
amado ouir'ora; e a recordação do que elle fora para ella 
despertava-Jhe no peito sentimentos de indulgência e de ter_ 



QO AS AVENTURAS 



nura, aos quaes são alheias todas as creaturas de Deus, ex- 
cepto as mulheres. 

«Er?m pobres — nem outra coisa era possivel dado o pro- 
cedimento do marido ; mas o trabalho incessante e infatigá- 
vel da mulher, a toda a hora do dia e da noite, punha os ao 
abrigo da miséria. 

"Esse trabalho era porém mal recompensado. 

"A gente que passava de noite pela casa d'elles — ás ve- 
zes alta noite — contava que ouvia soluços e gemidos da in- 
feliz e o ruido das pancadas que ella recebia. 

<<E mais de uma vez, depois da meia noite, o pequeno vi- 
nha bater de vagar á porta de algum vià-inho para fugir á em- 
briaguez furiosa do malvado pae. 

'-Durante este tempo todo, e quando a pobre creatura ti- 
nha no corpo vestigios de maus tratamentos e violências que 
não podia occultar completamente, frequentava ainda assim 
a nossa pequena egreja com assiduidade. 

"Todos os domingos regularmente, de manha e á tarde, 
ella occupava o mesmo banco com o pequeno ao seu lado ; 
e apesar de estarem ambos pobremente vestidos — muito 
mais do que um grande numero de visinhcs que estavam em 
peiores circumstancias — andavam sempre aceiados e decen- 
tes. Toda a gente tinha um gesto amigável e uma palavra 
benévola para «a pobre Mistress Edmunds» ; e algumas vezes, 
quando ella parava a trocar meia dúzia de palavras com al- 
gum visinho, ao concluirem os ofíicios divinos, na pequena 
alameda de olmeiros que leva ao portal da egreja, ou demo- 
rava o passo para, contemplar com orgulho e amor de mãe 
para o pequeno cheio de saúde, que brincava diante d'ella 
com alguns companheiros, illuminava-se-lhe o rosto consu- 
mido com uma expressão de gratidão cordial ; e parecia nes- 
ses momentos, senão alegre e feliz, pelo menos tranquilla e 
satisfeita. Decorreram cinco ou seis annos. A creança tor- 
nára-se um rapagão robusto e bem constituído. 

"O tempo, que lhe fortalecera o corpo delicado e lhe re- 
vigorara os membros débeis até lhe dar força viril, tinha cur- 
vado a estatura da mãe e tinha-lhe enfraquecido os passos; 
mas o braço que deveria tel-a amparado já não apertava o 
seu, nem o rosto que devia tel-a rejubilado já se ficiava no 
d'eíla. 



DO SR. PICKWICK 



"Ella continuava a occupar o seu antigo pouso na egreja, 
mas havia ao pé d'ella um logar vasio. 

«A Biblia era guardada com tanto desvelo como d'antes, 
•stavam marcadas com o antigo cuidado as passagens para 
.1 leitura; mas não havia quem a lesse com ella, e as lagri- 
mas cabiam frequentes e cerradas sobre as paginas e ennu- 
blavam-lhe as palavras. 

"Os visinhos eram tão aíTaveis como outr'ora ; ella porém 
evitava as suas saudações e desviava a cabeça. 

«Já não se demorava debaixo dos velhos olmeiros, e ti- 
nha se-lhe esgotado o thesouro de esperanças fagueiras. A 
mesquinha tapava os olhos com o chapéo, e afastava-se pre- 
cipitadamente. 

"Escusado é explicar-lhes o succedido. Esse rapaz que, 
desde os primeiros tempos da sua infância, não deveria ter 
senão a recordação de uma longa serie de privações volun- 
tárias soffridas pela mãe por amor d'elle, acompanhadas de 
maus tratos, insultos e violências ; esse rapaz, não se im- 
portando com despedaçar-lhe cruelmente o coração, e es- 
quecendo voluntariamente tudo quanto lhe devia ; havia se 
ligado a homens depravados e malditos e mettera-se n'uma 
carreira temerária que devia ter no cabo a morte para elle, 
;i vergonha para ella. 

"Ah ! pobre natureza humana ! Ha muito que o tinham 
adivinhado por certo. 

"A medida dos infortúnios da mísera estava a ponto de se 
colmar. 

"Haviam-se commettido numerosos delictos n'estas cer- 
canias; os malfeitores não se tinham descoberto, e por isso 
crescia a sua audácia. 

«Um roubo mais atrevido e cheio de circumstancias ag- 
gravantes motivou uma vigilância e uma segurança de pes- 
quisas, com que elles não tinham contado. 

«Suspeitou-se do joven Edmunds e de mais três compa- 
nheiros. Foi preso, encarcerado, julgado e condemnado — á 
morte. 

«Ainda agora me retine nos ouvidos o grito penetrante e 
medonho de uma voz feminina, que resoou no tribunal ao 
pronunciar-se a sentença solemne. 

«Esse grito encheu de terror o coração do criminoso, ao 



()2 AS AVENTURAS 



qual o julgamento, a condemnação, mesmo a approximação 
da morte não tinham conseguido despertar. 

«Os lábios, até então comprimidos por uma pertinácia fe- 
roz, tremeram e apartaram-se involuntariamente ; o rosto 
tornou-se-lhe livido e cobriu-se de suores frios ; houve um 
tremor n'aquelles membros vigorosos, e o scelerado camba- 
leou. 

«Nos primeiros transportes de angustia, a desgraçada mãe 
ajoelhou-se-me aos pés, e orou com fervor ao Omnipotente 
que até então a amparara em todos os transes, para que a 
libertasse de um mundo de miséria e poupasse a vida do seu 
único filho. 

«Seguiu-se um accesso de pranto e uma lucta violenta, 
como eu espero em Deus nunca mais presenciar, 

«Eu bem sabia que d'aquella hora em diante o coração 
d'ella se fazia em pedaços ; mas nem uma vez ouvi sahir d'a- 
quelles lábios uma lastima ou um murmúrio. 

«Dilacerante espectáculo era ver aquella mulher no pateo 
da prisão, todos os dias, tentando com anciã e fervor, com 
carinhos e supplicas, amollecer o duro coração do filho. Tu- 
do debalde. EUe permanecia enraivecido, obstinado e impas- 
sivel. 

«Nem mesmo a inesperada commutação da sentença em 
quatorze annos de degredo abrandou por instantes a sua 
sombria pertinácia. 

«Mas o espirito de resignação, que durante tanto tempo a 
amparara, não podia resistir á fraqueza e á enfermidade phy- 
sica. Cahiu doente. Ainda se arrastou a cambalear para fora 
da cama a fim de o ver mais uma vez, mas as forças trahi- 
ram-na, e a misera deu comsigo em terra. 

«Então é que se poz deveras á prova a frieza e a indiffe- 
rença do criminoso ; e a punição que o fulminou quasi que 
deu com elle em doido. 

«Passou um dia sem que a mãe viesse visi'al-o; outro de- 
correu, e a mesma ausência ; chegou a terceira noite, sem 
que elle ainda a visse ; e d'ali a vinte e quatro horas devia 
separar se d'el'a — talvez para sempre ! Oh I como lhe acu- 
diam á mente as recordações ha muito apagadas da sua in- 
fância, emquanto elle percorria irrequieto o estreito pateo, 
como se a fúria do passeio lhe trouxesse mais depressa no- 



no SR. PICKWICK 



ticias. (^om que amarj^ura sentiu de subiío o seu desamparo e 
a sua miséria, quando lhe contaram a verdade ! 

"Sua mãe, a única creatura que lhe tivera amor, jazia en- 
lerma — talvez moribunda, a meia milha de distancia; se elle 
estivesse livre, em poucos minutos estaria ao lado d'ella. 

<'Precipitou-se para a grade, e sacudiu os varões de ferro 
com a energia do desespero ; depois atirou-se contra a es- 
pessa muralha, como se pretendesse abrir passagem atravez 
da pedra. 

'Mas o solido edifício zombou dos seus débeis esforços, 
e elle enclavinhou as mãos e desatou a chorar como uma 
creança. 

"Levei ao cárcere o perdão e a benção da mãe para o li- 
Iho ; e trouxe comigo ao leito da doente a solemne promessa 
de arrependimento e uma fervorosa supplica de perdão. 

«Ouvi, cheio de piedade, o criminoso contricto formular 
mil projectos para dar á mãe consolo e amparo, quando vol- 
tasse ; mas eu bem sabia que, muitos mezes antes de elle che- 
gar ao seu destino, a mãe deixaria de existir. 

«Foi de noite que o levaram Poucas semanas depois a 
pobre mulher deu a alma a Deus ; creio firmemente que lhe 
foi reservada a bemaventurança eterna. 

«Fui eu que desempenhei os officios fúnebres sobre os 
seus restos mortaes. Jaz no nosso pequeno cemitério. Nem 
uma lousa existe sobre a sua sepultura. Os seus desgostos 
eram conhecidos dos homens ; as suas virtudes de Deus. 

"Combinára-se antes da partida do degredado que elle 
escrevesse á mãe apenas obtivesse licença, e que dirigisse a 
carta para mim. 

«O pae tinha-se formalmente recusado a ver o filho desde 
o momento da prisão d'este ; e pouco se lhe dava que elle 
fosse vivo ou morto. 

"Muitos annos passaram sem noticias d'elle ; e quando 
decorreu mais de metade do praso do degredo sem que eu 
recebesse carta, conclui que elle morrera, e, verdade, ver- 
dade, quasi estimei que assim succedesse. 

"Entretanto, Edmunds fora mandado para uma distancia 
considerável, pela terrçi dentro, logo que chegara á colónia 
penitenciaria; e a esta circumstancia se deve porventura at- 
tribuir o facto de não me chegar á mão caria alguma das 



94 AS AVENTURAS 



que me fossem remettidas. Elle permaneceu no mesmo sitio 
durante todos os quatorze annos. 

"Ao expirar o praso, firme sempre na sua antiga intenção 
c no cumprimento da promessa feita a sua mãe, voltou a In- 
glaterra no meio das maiores difficuMades, e encaminhou-se 
a pé para a sua terra natal. 

<'P'oi n'uma bella tarde de um domingo de agosto que 
John Edmunds chegou á aldeia que elle com opprobrio dei- 
xara dezesete annos antes. 

"O caminho mais próximo passava pelo cemitério. Ao 
transpor a velha cancella, sentiu o coração entumecido. Os 
velhos e colossaes olmeiros, atravez de cuja folhagem o sol 
a declinar lançava n'um e n'outro ponto os brilhantes raios 
sobre a sombria alameda, evocaram-lhe recordações da in- 
fância. 

«Via-se como era então, agarrado á mão materna, e diri- 
gindo-se serenamente á egreja. Lembrava-se como costumava 
fitar o pallido rosto d'ella, e como os olhos da mãe ficavam 
ás vezes rasos de lagrimas ao fital-o — lagrimas que lhe quei- 
mavam a fronte quando ella se inclinava para o beijar, e o 
faziam chorar também sem mesmo perceber a amargura que 
se continha n'aquellas lagrimas. 

"Pensava quantas vezes elle correra alegremente por 
aquella alameda fora com algum infantil companheiro de 
brinquedos, olhando de quando em quando para traz, afim 
de surprehender o sorriso da mãe ou escutar-lhe a meiga 
voz. 

"E então rasgava-se-lhe o véo da memoria : palavras de 
amor mal compensado, conselhos despresados, promessas, 
quebradas, tudo lhe acudia de repente ao espirito, até que 
se sentia desfallecer de insupportavel dôr. 

"Entrou na egreja. 

"Haviam terminado os officios da tarde e os assistentes 
tinham dispersado, mas a porta ainda estava aberta. 

"Os passos d'elle echoavam surdamente pela abobada 
baixa, e a quietação e o silencio quasi lhe davam pavor de 
estar só. 

«Não havia mudança alguma. 

«A egreja parecia-lhe mais pequena do que d'antes ; mas 
lá estavam os antigos monumentos que elle mil vezes havia 



DO SR. picKwicK gS 



contemplado com pavor infantil; o pequeno púlpito com a 
sua almofada desbotada; a mesa de communháo ante a qual 
elle tanta vez repetira os mandamentos que em creança ve- 
nerara, que esquecera depois de homem. 

«Aproximou-se do antigo banco; pareceu-lhe frio e deso- 
lado. 

«■Haviam-lhe tirado a almofada, e a Biblia não estava lá. 
Talvez que a mãe agora occupasse uma bancada mais hu- 
milde, ou que houvesse enfermado a ponto de não poder 
chegar por seu pé até á egreja. 

«Não se atrevia a formular o pensamento do que receiava. 
Apossou-se d'elle uma sensação de gélido terror, e tremeu 
violentamente ao afastar-se. 

"Quando chegava ao portal, ia entrando um velho. 

"Edmunds teve um sobresalto e recuou, porque bem o ti- 
nha reconhecido ; quantas vezes o vira a abrir covas no ce- 
mitério ! 

«Que iria elle dizer ao ex-degredado ? 

<'0 velho ergueu os olhos para aquelle rosto estranho, 
deu as boas noites, e seguiu vagarosamente. Esquecera-se 
d'elle. 

"Edmunds desceu pela collina abaixo e atravessou a al- 
deia. O tempo estava quente; toda a população estava ás 
portas ou a passear pelos exiguos jardins gosando a sereni- 
dade da tarde e as tréguas do trabalho diurno. 

«Muitos olhares se voltaram para elle, e muitas vezes elle 
olhava para um e outro lado afim de ver se alguém o reco- 
nhecia e o evitava. 

«Em quasi todas as casas viu caras novas; em algumas 
d'ollas reconheceu as feições de um antigo condiscipulo, que 
elle deixara rapazote e que via agora rodeado por uma turba 
alegre de creanças ; á porta de outras choupanas viu elle, 
sentado n'uma poltrona, um velho fraco e enfermiço, que se 
lembrava haver deixado robusto e vigoroso. 

«Todos, porém, se tinham esquecido d'elle; nem um o re- 
conheceu ao passar. 

"Os derradeiros e suaves raios do sol haviam lançado um 
vivo esplendor ás messes douradas do trigo e alongado as 
sombras das arvores do pomar, quando elle se deteve de- 
fronte da sua velha casa — o seu lar infantil, pelo qual tão 



Qb AS AVENTURAS 



intensas e indiscripliveis saudades curtira durante aquelles 
longos annos de laborioso e triste captiveiro. 

"A pallissada era baixa, com quanto elle bem se recor- 
dasse do tempo em que ella se lhe affigurava um muro al- 
tissimo; e por cima d'ella lançou os olhos para o jardim. 
Havia lá mais hervas e iiòres mais vistosas do que outr'ora, 
mas lá estavam ainda as antigas arvores, 

"Lá estava a mesma arvore, sob a qual se linha deitado 
mil vezes, cansado de brincar ao sol, e se sentira docemente 
envolvido pelo somno feliz da infância. 

"No interior da casa ouviram-se vozes. Edmunds escu- 
tou-as, sem as conhecer. Eram cheias de alegria, essas vo- 
zes ; e elle bem sabia que sua velha e desditosa mãe não po- 
deria estar alegre, estando elle ausente. 

"Abriu-se a porta, e irrompeu para fora um bando de 
creanças, gritando e pulando. 

"O pae assomou á porta com um pequenito nos braços, e 
todos se agruparam em torno d'elle, dando palmas e puxan- 
do-© para fora, para vir brincar com elles. 

"O degredado lembrou-se de que vezes sem conto elle se 
sumira das vistas da pae, n'aquelle mesmo sitio. Recordou-se 
dos centos de occasiões em que escondera debaixo dos len- 
çoes a cabecita tremula, ouvindo as injurias e as violências 
do pae e os prantos lamentosos da mãe. 

"Afastou-se d'ali a soluçar, mas com o punho convulsi- 
vamente fechado e os dentes cerrados, n'um accesso de raiva 
mortal. 

"E tal era o regresso porque anciára durante o penar de 
tantos annos e pelo qual supportára tantos soffrimentos ! 
Nem uma physionomia amigável, nem um olhar de perdão, 
nem uma casa que o acolhesse, nem uma só mão que o am- 
parasse ! e tudo isto na sua aldeia natal ! Comparado a este 
desamparo, quão pouco era o que soffrera por essas flores- 
tas densas -e bravias, onde nem um ente humano surgia 
nunca ! 

"Percebeu então que na longínqua região do captivciro e 
da infâmia, elle imaginara a terra natal como quando a tinha 
deixado, e não como a encontraria á volta. A fria realidade 
pungiu-lhe acerbamente o coração e tirou-lhe o animo. Fal- 
lou-lhe a coragem de fazer pesquizas ou de se apresentar á 



DO SR. PICKWICK 97 

única pessoa que poderia naturalmente recehel-o com aíTa- 
bilidade e compaixão. 

"Afastou-se de vagar; fugindo da estrada como um cri- 
minoso, penetrou n'um prado de que se lembrava ainda; e 
cobrindo o rosto com as mãos, atirou-se para cima da 
relva. 

«Não tinha dado por um homem que estava sentado no 
chão ao lado d'elle, e que se voltou para elle apenas o sen- 
tiu. 

«O roçar do lato fez com que Edmunds levantasse a ca- 
beça. 

«O corpo d'esse homem estava curvado, e o rosto enru- 
gado e amarello. O vestuário assignalava-o como o de um 
internado na workhouse '. Parecia velhíssimo, mas mais pelo 
etfeito da devassidão ou da doença, do que pelo peso dos 
annos. 

"Fitou no recemvindo um olhar pesado e baço, mas a 
breve irecho os olhos foram adquirindo um brilho anormal 
e uma expressão de terror, até parecerem sahir lhe das orbi 
tas. Edmunds ergueu-se pouco a pouco sobre os joelhos e fi- 
tou cada vez mais anciosamente o rosto do velho. Ambos 
se encararam persistentemente em silencio. 

«O velho estava livido como um cadáver. Ergueu-se a 
cambalear. 

«Edmunds ergueu-se também e adiantou-se, ao passo que 
o velho recuava um ou dois passos. 

« — Deixe-me ouvir-lhe a voz! disse o degredado em voz 
entrecortada. 

« — Afasta-te ! bradou o velho com uma praga terrí- 
vel. 

«O degredado aproximou-se mais. 

« — Afasta-te! rugiu o velho. 

"Ergueu o cajado e, na fúria do pavor, bateu violenta- 
mente no rosto de Edmunds. 

" — Meu pae ! . . Demónio! murmurou o degredado, por 
entre os dentes cerrados. 



' Albergue. 



()8 AS AVENTURAS 



"Arrojou-se ferozmente para o velho e apertou-lhe com 
raiva as guelas; mas recordou-se que era seu pae, e o braço 
pendeu-lhe inerte. 

«O velho sohou um urro medonho que echoou pelos cam- 
pos solitários como o bramir de um espirito damninho. 

«Ennegreceu-se-lhe o rosto : da bocca e do nariz jorrou- 
Ihe o sangue que tingiu a relva de rubro escuro. 

«Vaciilou e cahiu. 

«Tinha-se-lhe rompido um vaso sanguíneo; e antes que o 
filho o levantasse d'aquella poça lúgubre, estava morto. 



"N'um recanto do cemitério, concluiu o ecclesiastico apoz 
um silencio de momentos, está sepultado um homem que 
esteve a meu serviço durante os três annos seguidos ao caso 
que acabo de relatar. 

"Se ha homem deveras arrependido, contricto e humi- 
lhado, era esse. 

"Ninguém, a não ser eu, soube jamais durante a vida 
d'elie quem era e d'onde vinha : era Edmunds, o ex-degre- 
dado. 



CAPITULO VII 

De como o sr. Winkle, em vez de atirar ao pombo 
e matar a gralha, atirou á gralha e acertou no 
pombo. - De como o club de cricket de Dmgley 
Dell jogou contra o de IWuggIeton e de como 
Muggieton jantou á custa de Dingiey Dell. — 
Com outr«as matérias interessantes e ínstru- 
ctivas. 



As fatigantes aventuras d\iquelle dia, ou a 'influencia so- 
porifera da historia do vigário, tão poderosamente operaram 
sobre as propensões somnolentas do sr. Pickwick, que me- 
nos de cinco minutos depois de o introduzirem no seu con- 
fortável quarto, cahiu n'um somno tranquillo e sem sonhos. 



DO SR. PICKWICK 00 



Só o despertou o sol matutino, invadindo o aposento com 
os seus brilhantes raios, que pareciam censurar-lhe a pre- 

Ora o sr. Pickwick não era preguiçoso ; á similhança de 
um valoroso guerreiro, saltou para fora da tenda, que era a 
armação do leito. 

— Que lindos, que lindos sitiosi suspirou elle enthusias- 
mado, ao abrir as persianas. Quem é que pôde viver a olhar 
constantemente para telhas e ardósias, depois de ter expe- 
rimentado uma vez a inlíuencia de um panorama d'estes ^ 
Quem pôde teimar em existir n'um sitio onde não ha vac- 
cas, senão mortas nos talhos, nem plantas a não ser o arroz 
dos telhados, nem cousa que lembre Pan a não ser as panei- 
las ? ^ Quem é que pôde arrastar a vida n'um sitio assim? 
Sempre queria que me dissessem, quem pôde aturar simi- 
Ihante massada ? 

E tendo prolixamente interpellado a solidão, á imitação 
de gloriosos precedentes, o sr. Pickwick deitou a cabeça fora 
da janella e olhou em volta de si. 

Entrava-lhe pelo quarto dentro o aroma suave e pene- 
trante do feno. Os mil perfumes do jardim embalsamavam o 
ambiente. 

Os prados verde-escuros brilhavam com o orvalho da ma- 
nhã, o qual scintillava em cada folhinha agitada pela ara- 
gem ; e os pássaros cantavam como se cada uma das gotas 
tremeluzentes fosse para elles uma fonte de inspiração. 

O sr. Pickwick abstrahiu-se n'um enleio suave e deli- 
cioso. 

— Eh I lá ! taes foram os sons que o despertaram da abs- 
tracção. 

Olhou para a direita, e não viu ninguém ; lançou a vista 
para a esquerda, interrogando o espaço ; fitou os olhos no 
céo, mas ninguém o chamava de lá ; e finalmente fez aquillo 
que um espirito vulgar teria feito logo de começo — olhou 
para o jardim, e descobriu lá o sr. Wardle. 

— Então como vae isso ? interrogou o jovial velhote, ante- 



ímitação libérrima do texto, cheio de trocadilhos intraduziveis, 



lOO AS AVENTURAS 



cipadamenie alvoraçado com os prazeres que o esperavam. 
Que bella manhã, hein ? Estimo vel-o a pé tão cedo. Avie- 
se, desça cá abaixo, para sahir. Eu aqui o espero. 

Não foi preciso segundo convite. Dez minutos bastaram 
para que o sr. PickAvick completasse a sua toilette, e ao ex- 
pirar este praso estava elle ao lado do dono da casa. 

— Olé ! disse o sr. Pickwirk vendo o companheiro ar- 
mado de uma espingarda e outra prestes em cima da relva. 
Que novidade é esta? 

— Ora essa 1 é o seu amigo e mais eu que vamos á caça 
das gralhas antes do almoço. Elle é um bello atirador, 
não é ? 

— Eu cá tenho-lhe ouvido dizer que é de primeira ordem, 
replicou o sr. Pickwick, mas eu ainda não o vi apontar fosse 
para o que fosse. 

— Bem ! disse o sr. Wardle, o que eu queria era que elle 
não se demorasse. Joe — Joe ! 

O rapazote gordo emergiu da casa. Sob a influencia exci- 
tante da manhã, pouco mais estaria adormecido do que três 
quartos e t.^^nto. 

— Sobe lá acima, e chama esse senhor, e dize-lhe que nos 
venha encontrar a nós dois no bosque. Ensina-lhe o caminho 
até lá, ouviste ? 

O rapazote foi cumprir a ordem; e o sr. Wardle, carre- 
gado com as duas espingardas como um Robinson Crusoe, 
guiou o sr. Pickwick na sabida do jardim. 

— E' este o sitio, disse o velhote parando depois de al- 
guns minutos de caminho, n'uma avenida de arvores. 

Era escusado o aviso; porque o grasnido continuo das 
innocentes gralhas lhes indicava de sobra o paradeiro. 

O sr. Wardle pousou no chão uma das espingardas e car- 
regou a outra. 

— Ahi vêem eiles ! disse o sr. Pickwick, apenas surgiram 
a distancia os vultos dos srs. Tupman, Snodgrass e Winkle, 
visto que o gordo Joe, não sabendo ao certo qual dos cava- 
lheiros deveria chamar, tinha-se valido da sua sagacidade 
habitual e, para evitar enganos, tinha-os chamado a todos 
três. 

— Venha depressa! bradou o velhote, dirigindo-se ao sr. 
Winkle ; um atirador de mão cheia como o meu amigo ha 



DO SR. PICKWICK lOI 



muito que deveria estar a postos, mesmo para um exercício 
insignificante como este. 

O sr. Winkle respondeu por um sorriso forçado e levan- 
tou a espingarda que lhe fora destinada, com a expressão 
physionomica que, por hypothese, assumiria uma gralha me- 
taphysica, presentindo a imminencia de morte violenta. 

l^ode ser que isto fosse alvoroço, mas parecia-se prodigio- 
samente com angustia. 

O velhote fez"um signal ; e dois garotos esfarrapados, que 
estavam ali postados sob a direcção de um outro pequeno, 
começaram logo a trepar a duas das arvores. 

— Para que são precisos os garotos ^ perguntou o sr. Pick- 
wick. 

Estava um pouco assustado; porque lhe occorreu, em 
vista da muito fallada miséria agricola, que os pequenos se 
vissem obrigados a ganhar uma subsistência arriscada e pre- 
cária, oíferencendo-se para alvos dos caçadores inexperien- 
tes. 

— E' só para espantar a caça, replicou rindo o sr. War- 
dle. 

— Para quê ? perguntou rindo o sr. Pickwick. 

— Para sacudir d'ali as gralhas. 

— Ah ! isso sim ! 

— Está descançado ? 

— Completamente. 

— Bello ! Posso começar ? 

— Faz favor, disse o sr. Winkle, alluviado com a demora. 

— Então afaste-se para o lado. Agora, vamos a isto ! 

O garoto gritou, sacudindo um ramo onde havia um ni- 
nho. 

Meia dúzia de gralhitas, empenhadas em acceso dialogo, 
soltaram o vòo para saber de que se tratava. 

O velhote fez fogo, em guisa de replica. Cahiu uma das 
aves, e as outras safaram-se. 

— Vae apanhal-a, Joe, disse o sr. Wardle. 

O rapazote gordo adiantou-se, com um sorriso a illumi- 
nar-lhe o rosto. 

Pela sua imaginação fluctuavam indistinctas visões de 
pastelões de gralhas. Desatou a rir quando apanhou a ave, 
porque a achou nédia a valer. 



102 AS AVENTURAS 



— Agora é o amigo Winkle, disse o dono da casa, tor- 
nando a carregar a sua arma. Vá ! fogo ! 

O sr. Winkle adianiou-se, e assestou a espingarda. O sr, 
Plckwick e os seus amigos recuaram instinctivamente, a fim 
de evitar o damno causado pela chuva cerrada de gralhas 
que elles estavam certos devia occasionar o chumbo devas- 
tador do amigo. 

Houve uma pausa solemne — um grito — um bater de azas 
— um débil tinido. 

— Que é isso ^ disse o velhote. 

— Não quer fazer fogo ? perguntou o sr. Pickwick. 

— Falhou, disse o sr. Winkle, que estava muito pallido, 
provavelmente de desapontamento. 

— E' exquisito, disse o velho agarrando na arma. Nunca 
tal succedeu a nenhuma d'ellas. Espere, eu não vejo os res- 
tos da capsula. 

— Oi;a, valha-me Deus ! disse o sr. Winkle, confesso que 
me esqueci da capsula. 

Remediou-se a le^^e omissão. O sr. Pickwick agachou-se 
outra vez. O sr. Winkle deu uns passos em frente com ar de- 
terminado e resoluto ; e o sr. Tupman ficou a espreitar por 
traz de uma arvore. 

O garoto deu um grito; — desprenderam o voo quatro 
aves. o sr. W^inkle disparou. 

Õuviu-se um berro de angustia soltado por um ente vivo, 
que não era uma gralha. 

O sr. Tupman salvara as vidas de innumeras aves inoífen- 
sivas, recebendo no braço esquerdo uma parte da carga. 

Impossível fora descrever a confusão que se seguiu. Di- 
zer como o sr. Pickwick nos primeiros arrancos da sua com- 
moção chamou «Miserável!» ao sr. Winkle ; como o sr. Tup- 
man jazia prostrado na terra; e como o sr. Winkle ajoelhou 
ao lado d'elle, horrorisado ; como o sr. Tupman, tresvariado, 
pronunciou vários nomes femininos, e em seguida abriu pri- 
meiro um dos olhos, e depois o outro, e depois cahiu para 
traz e fechou ambos ; tudo isto seria tão difficil de descrever 
por miúdos, como o seria pintar o restabelecimento gradual 
do infeliz, o ligar do braço com lenços, o transportal-o para 
casa, muito de vagar, pelo braço dos seus anciosos amigos. 

Quando se aproximaram de casa, estavam as senhoras á 



DO SR. PICKWICK I03 



porta do jardim, á. espera da chegada d'elles e do almoço, A 
tia solteirona lá estava, a sorrir e a recommendar-lhes que 
viessem mais depressa. 

Era evidente que nada sabia do desastre. 

Coitada I Occasióes ha em que a ignorância é deveras a 
beatitude ! 

Cada vez estavam mais próximos. 

— Ora esta! o que é que aconteceu ao sujeito idoso I 
disse Isabella Wardle. 

A tia solteirona não deu attenção ao reparo; suppôl-o 
applicado ao sr. Pickwick. 

Aos olhos d'ella, Tracy Tupman era um rapaz : obser- 
vava-lhe os annos atravez de um óculo de diminuir. 

— Não se assustem, bradou o dono da casa ás filhas. 

O pequeno grupo havia- se agglomerado de tal maneira em 
volta do sr. Tupman, que ellas não podiam ainda perceber 
claramente a natureza do successo. 

— Não se assustem, repetiu o sr. Wardle. 

— Mas o que foi? gritaram as senhoras. 

— Foi um accidente insignificante que succedeu ao sr. 
Tupman ; mais nada. 

A tia solteirona soltou um grito estridente, desatou ás ri- 
sadas hystericas, e cahiu para traz nos braços das sobri- 
nhas. 

— Deitem-lhe agua fria para cima, disse o sr. Wardle. 

— Não, não! murmurou a tia, já estou melhor. Bella, 
Emily — um medico ! Elle está ferido ? — Está morto ? — 
Está — ah ! ah ! ah ! 

E a solteirona recahiu no ataque numero dois, de riso 
hysterico entrecortado com guinchos. 

— Socegue, disse o sr. Tupman, commovido quasi até ás 
lagrimas por esta expressão de svmpathia pplos seus soffri- 
mentos. Minha querida senhora, tranquillise-se. 

— E' a voz d'elle ! exclamou a solteirona, com manifesta- 
ções symptomaticas do ataque numero três. 

— Não se afflija, supplico-lhe, minha presada senhora, 
disse meigamente o sr. Tupman, A ferida é insignificante, 
certifico-lhe eu. 

— Então não está morto ? ejaculou a hvsterica dnma. Oh ! 
diga-me que não está morto ! 



04 AS AVENTURAS 



— Não estejas com maluquices, Rachel! atalhou o sr. 
Wardle, um pouco mais asperamente do que parecia ade- 
quado ao caracter poético da scena. Que diabo de precisão 
tem elle de dizer que não está morto ! 

— Não estou, não! disse o sr. Tupman. Não requisito ou- 
tros soccorros, a não serem os seus, minha senhora. Per- 
mitia-me que me apoie no seu braço. 

E acrescentou em voz ciciante : 

— Oh ! miss Rachel ! 

A sensivel dama adiantou-se e offereceu-lhe o braço. 
Entraram na sala. O sr. Tracy Tupman comprimiu doce- 
mente a mão d'ella de encontro aos lábios, e deixou-se cahir 
no sophá. 

— Sente -se mal ? perguntou a anciosa Rachel. 

— Não I Isto não vaie de nada. D'aqui a pouco estarei 
Aielhor, disse o sr. Tupman fechando os olhos. 

— Está a dormir, murmurou a solteirona, passados uns 
vinte segundos depois que elle cerrara os órgãos da visão. 
Querido — querido sr. Tupman. 

O sr. Tupman poz-se em pé n'um pulo. 

— Ah ! Repita essas palavras ! exclamou elle. 
A dama teve um sobresalto. 

— Com certeza que as não ouviu, disse ella pudicamente. 

— Oh I se ouvi ! replicou o sr. Tupman. Repita. Se me 
quer vèr bom de todo, repita. 

— Silencio I disse ella. Olhe o meu irmão I 

O sr. Tracy Tupman voltou á posição primitiva ; e o sr. 
Wardle entrou no aposenio, ^companhado por um cirur- 

Examinou-se o braço, pensou-se a íerida, declarou-se a 
insignificância d'ella ; e, satisfeitos por esta forma os espíri- 
tos dos assistentes, estes trataram de satisfazer também os 
appetites, com semblantes que reassumiam a expressão de 
contentamento. 

Só o sr. Pickwick permanecia silencioso e reservado. Ne 
seu rosto manifestavam-se a duvida e a suspeita. A sua con- 
fiança no sr. Winkle fora abalada — consideravelmente aba- 
lada — pelos successos d'aquella manhã. 

— O amigo é jogador de cricket ? perguntou o sr. Wardle 
ao atirador. 



DO SR. PICKWICK lOD 



Em qualquer outra conjunctura, o sr. Winkle teria res- 
pondido affirmativamente. Mas sentiu a delicadeza da sua 
posição, e respondeu com modéstia que não. 

— E o senhor? perguntou o sr. Snodgrnss. 

— Eu já fui jogador, replicou o dono da casa, mas agora 
deixei-me d'isso. Sou sócio do club, mas não jogo. 

— Hoje é que se joga a grande partida, supponho eu, 
disse o sr. Pickwick. 

— E' hoje, retorquiu o sr. Wardle. Os amigos com cer- 
teza hão de gostar de assistir a ella. 

— Pela minha parte, respondeu o sr. Pickwick, encanta- 
me o presencear exercícios que se podem emprehender com 
segurança e nos quaes a intervenção dos desastrados não 
ponha em risco a vida humana. 

O sr. Pickwick calou -se, e olhou fixamente para o sr. 
Winkle, o qual se sentiu abatido sob o olhar penetrante do 
seu chefe. 

O grande homem desviou a vista depois de alguns mi- 
nutos, e acrescentou : 

— Não faremos bem se deixarmos o nosso amigo ferido 
ao cuidado das senhoras í 

— Não podem deixar-me em melhores mãos, disse o sr. 
Tupman. 

— Seria impossivel, acrescentou o sr. Snodgrass. 
Combinou-se portanto que o sr. Tupman ficasse em casa 

entregue ás senhoras ; e que os restantes hospedes, sob a di- 
recção do sr. Wardle, se encaminhassem para o sitio onde 
se devia realisar aquelle certamen de destreza, que arrancara 
Muggleton inteiro do seu torpor e inoculara em Dingley Dell 
uma febre de enthusiasmo. 

A distancia não era superior a duas milhas, por azinhagas 
cheias de sombra e atalhos apartados. 

E como a conversação girava sobre o delicioso panorama 
que os cercava por todos os lados, o sr. Pickwick quasi que 
estava já com pena de que fosse aquelle o seu destino, quando 
se achou na rua principal de Muggleton. 

Toda a gente, cujo engenho possue uma propensão para 
a topographia, sabe muitissimo bem que Muggleton é mu 



00 AS AVENTURAS 



município *, com um ?}iaire -^ burguezes e eleitores 3 ; e 
quem quer que haja consultado as mensagens do maire aos 
eleitores ou dos eleitores ao maire, ou de uns e outros á mu- 
nicipalidade, ou das três entidades ao Parlamento, n'ellas 
aprenderá o que devera já saber, isto é, que Muggleton é um 
antigo e leal burgo, combinando a zelosa defeza dos princí- 
pios christcãos com uma firme dedicação aos direitos do com- 
mercio. 

E para prova, o maire, a municipalidade e outros habi- 
tantes teem por vezes apresentado não menos de mil e qua- 
trocentas e vinte petições, contra a continuação da escrava- 
tura Jiegra lá fora, e outras tantas contra qualquer interferên- 
cia no systema mercantil dentro do paiz ; sessenta e oito para 
que se permitia a venda de benefícios ecclesiasticos, e oitenta 
e seis para abolir o trafico nas ruas ao domingo. 

O sr. Pickwick, quando se viu na rua principal d'este il- 
lustre burgo, examinou todos os objectos em volta de si, com 
uma curiosidade não isenta de interesse. 

A praça do mercado era quadrangular e aberta ; no cen- 
tro d'ella, uma grande estalagem com uma taboleta na fron- 
laria, ostentando um objecto muito commum na arte, mas 
raras vezes encontrado na natureza, isto é, um leão azul com 
três pernas tortas no ar, balouçando-se sobre a ponta da 
garra central da quarta pata. 

Ao alcance da vista percebiam se uma agencia de leilões 
e de seguros contra incêndio, um celleiro, um mercador, um 
albardeiro, um distillador, um confeiteiro e um sapateiro, 
sendo esta ultima loja também apropriada para a diífusao de 
chapéus, bonnets, fatos, guard^-chuvas de algodão e conhe- 
cimentos úteis. 

Havia uma casa de tijolo vermelho, com um pequeno pa- 
teo empedrado na frente, a qual toda a gente perceberia per- 
tencer ao delegado régio ''' ; e havia além d'isso uma outra 
casa de tijolo vermelho, com taboinhas á veneziana, e uma 



Corporaíe towii. 
Mayor. 
Freemen. 
Atíoniey. 



no SR. picKWicK 107 



enorme chapa de cobre na porta, annunciando de forma bem 
legível que a casa pertencia ao cirurgião. 

Encaminhavam-se alguns rapazes para o campo do cri- 
cket; e dois ou três legistas, de pé ás respectivas portas, es- 
tavam com cara de quem desejaria tomar o mesmo caminho, 
o que, segundo todas as apparencias, poderiam fazer sem per- 
derem por isso uma grande freguezia. 

O sr. Pickwick parara para fazer estas observações, afim 
de tomar nota d'ellas quando conviesse; apressou-se a reu- 
nir-se aos seus amigos, os quaes tinham sahido da rua prin- 
cipal, e já estavam á vista do campo de batalha. 

Estavam collocadas nos seus logares as estacadas parao jogo 
assim como umas duas barracas para descanço e refresco dos 
partidos contendores. 

Ainda não começara o jogo. 

Dois ou três jogadores de Dingley-Dell e de Muggleton 
divertiam-se com ar magestoso a atirar negligentemente a 
bola de mão a mão ; e vários outros cavalheiros vestidos co- 
mo elles, de chapéos de palha, jaquetas de íianella e calças 
brancas — o que lhes dava uma certa apparencia de pedrei- 
ros amadores — estavam disseminados á roda das tendas, para 
uma das quaes o sr. Wardle conduziu o seu grupo. 

Algumas dúzias de «Como passou ?« acolheram a chegada 
do velhote ; e um levantar geral dos chapéos de palha e uma 
inclinação uniforme das jaquetas de tlanella seguiu a apre- 
sentação dos seus hospedes, como cavalheiros londrinos, ex- 
tremamente cubiçosos de presenciar as diversões do dia, que 
sem duvida alguma lhes dariam extraordinário prazer. 

— E' melhor vir para dentro da barraca, disse um sujeito 
muito corpulento, cujos corpo e pernas se assimilhavam a 
metade de uma peça gigantesca de flanella, 'pousada em cima 
de um par de travesseiros inchados. 

— Fica lá muito melhor, acudiu outro sujeito corpulento, 
que parecia mesmo a outra metade da peça de flanella su- 
pracitada. 

— Que bondade a sua ! disse o sr. Pickwick. 

— Por aqui, disse o primeiro sujeito, aqui é que se faz 
marcação, é o melhor sitio de todo o campo. 

E o jogador de cricket guiou-os para a tenda, esfogueteadó 
e ottegante. 



I08 AS AVENTURAS 



— Soberbo jogo — vivificante diversão — bello exercício 
— bellissimo! 

Taes foram as palavras que cahiram nos ouvidos do sr. 
Pickwick apenas elle penetrou na tenda; e o primeiro obje- 
cto que se deparou a seus olhos foi o seu amigo da casaca 
verde, da diligencia de Rochester, arengando para deleite e 
edificação de um circulo selecto de jogadoies eleitos de Mug- 
gleton/ 

O seu vestuário estava ligeiramente melhorado. Tinha bo- 
tas novas, mas não havia meio de o não reconhecer desde 

O sujeito reconheceu immediatamente os seus amigos; e, 
atirando-se para a frente e agarrando a mão do sr. Pickwick, 
ferrou com elle em cima de um banco, com a sua impetuo- 
sidade habitual, fallando sempre pelos cotovellos, como se 
todos os arranjos estivessem sob o seu patrocinio e a sua di- 
recção especial. 

— Por aqui — por aqui — bello pagode — uma data de 
cerveja — barris á ufa ; carne de vacca a rodo ; mostarda — 
carregações d'ella; dia magnifico — sente-se — faça de conta 
que está na sua casa — estimo vêl-o — estimo immenso. 

O sr. Pickwick sentou-se conforme lhe ordenavam, e os 
srs. Winkle e Snodgrass accederam também ás indicações do 
seu mysterioso amigo. O sr. Wardle examinava-o com silen- 
cioso espanto. 

— O sr. Wardle — um amigo meu, disse o sr. Pickwick. 

— Seu amigo ! — Meu caro senhor, como vae isso .'' — 
Amigo do meu amigo. . . — Dê cá a sua mão. 

E o sujeito agarrou na mão do sr. Wardle com todo o 
fervor de uma intimidade de muitos annos ; depois recuou um 
ou dois passos co'mo para lhe exammar bem a cara e a figura, 
e depois apertou-lhe outra vez a mão com mais fervor, se é 
possivcl, do que da primeira vez. 

— Então, como veiu aqui parar? disse o sr. Pickwick 
com um sorriso em que a benevolência lutou com a sur- 
preza. 

— Parar? replicou o sujeito, — alojado na Coroa — esta- 
lagem em Muggleton — Encontro um rancho — jaquetas de 
flanella — calças brancas — sandwiches de enxovas — rins 
grelhados — uns patuscos de mão çhçia — magnifico, 



DO SR. prcKWiciv 109 



o sr. Pick\vick estava suíTicientemente versado no systema 
stenographico do sujeito para inferir d'esta rápida e descon- 
nexa communicação que, fosse como fosse, elle conirahira 
relações com a gente de Muggleton, as quaes elle transfor- 
mará, por um processo que lhe era peculiar, numa estreita 
camaradagem que facilmente explica um convite geral. 

Satisfeita assim a sua curiosidade, o sr. Pickwick poz os 
óculos e aprestou-se para observar o espectáculo que estava 
a começar. 

O primeiro lanço pertencia aos de Muggleton ; e o inte- 
resse recresceu quando os srs. Dumkins e Podder, dois dos 
mais conspicuos membros d'aquelle distinctissimo club, se 
dirigiram, com as maças na mão, para as suas respectivas es- 
tacas. 

O sr. Luffey, o mais alto ornamento de Dingley-Dell, era 
o indicado para atirar a bola contra o temível Dumkins, e o 
sr. Struggles era o eleito para desempenhar o mesmo affa- 
vel serviço contra o até então invicto Podder. 

Vários jogadores estavam postados como olheiros em dif- 
ferentes partes do campo, e cada um d'elles estava firme na 
attitude conveniente, com uma mão sobre cada um dos joe- 
lhos, e todo curvado para a frente, como se estivesse oftere 
cendo o dorso a algum saltador do eixo principiante. Todos 
os jogadores clássicos assim fazem ; é que se suppóe geral- 
mente que é de todo impossível vigiar as bolas em qualquer 
outra posição. 

Os árbitros estavam collocados atraz das estacadas ; os 
marcadores prepararam-se para contar os pontos ; fez-se um 
silencio profundíssimo. 

O sr. Luffey retirou-se alguns passos para traz da estacada 
do impassível Podder, e durante alguns segundos applicou a 
bola ao olho direito. Dumkins aguardava confiadamente a 
bola, com os olhos fixos nos movmientos de Luffey. 

— Attenção, bradou de repente o jogador. 

E a bola escapou-se-lhe da mão, rápida e certeira para o 
poste central da estacada. 

O circumspecto Dumkins estava alerta ; recebeu a bola 
na ponta da sua vara e atirou com ella para longe por cima 
das cabeças dos olheiros, que estavam bastante curvados para 
a deixar passar. 



AS AVENTURAS 



— Corram 1 corram ! — outra. — Agora, vá, atire-a — força 
com ella — tope ahi — outra — não — sim — não — atire-a, 
atire-a. 

Taes eram os clamores que seguiram o lanço ; e, findo 
este, Muggletton tinha ganho dois pontos. Mas Podder não 
se atrasava em ganhar lauréis para se enfeitar a si e a Mug- 
gleton. 

Sustinha as bolas duvidosas, deixava passar as más, apa- 
nhava as boas e fazia-as voar para todos os lados do campo. 
Os olheiros estavam afogueados e fatigadíssimos ; os jogado- 
res foram rendidos e atiraram bolas até os braços lhes doe- 
rem "; mas Dumkins e Podder permaneceram inveuciveis. Se 
por acaso um cavalheiro idoso procurava deter a bola na sua 
carreira, ella rebolava-lhe por entre os pés ou escorregava- 
Ihe entre os dedos. 

Se um cavalheiro magrizella tentava apanhal-a, ella batia- 
Ihe nas ventas e ia por ali fora a saltar alegremente com dupli- 
cada violência, em quanto os olhos do cavalheiro magrizella 
se arrasavam de agua e o corpo se lhe estorcia com dores. 
Quando a bola ia direita á estacada, Dumkins já tinha lá che- 
gado antes d'ella. 

Em summa, feitas as contas, Muggleton marcara uns cin- 
coenta e quatro pontos, ao passo que o registo dos de Din- 
gley Dell estava tão branco como as caras d'elles. A vanta- 
gem era grande de mais para ser compensada. 

Debalde o impetuoso Lutfey, mais o enthusiastico Strug- 
gles, pozeram em pratica todos os recursos da destreza e da 
experiência, para reconquistar o terreno que Dingley Dell 
perdera no certamen ; foi tudo inútil; e Dingley Dell viu-se 
obrigado a cedt^r e a confessar a superioridade de Muggle- 
ton. 

Entrementes, o homem da casaca verde entretivera-se a 
comer, a beber e a tagarellar, sem descanço. 

A cada lanço bem jogado, elle exprimia a sua satisfação 
e applauso de uma forma condescendente e protectora, que 
não podia deixar de ser altamente grata ao jogador interes- 
sado. 

Mas também, de cada vez que falhava uma bola, elle 
explodia o seu descontentamento pessoal contra o desastra- 
do, em exclamações como estas : — « Ah ! ah ! estúpido ! •> — ^^ 



DO SR. PICKWICK 1 I I 



«Safa! dedos de manteiga!» — «Ceboloriol» — «-Peixote!» 
e assim por diante. 

Estas exclamações pareciam eleval-o aos olhos dos cir- 
cumstantes, como um juiz excellente e infallivel em todos os 
artifícios e mysterios do nobre jogo do cricket. 

— Magnifica partida- bem jogada — alguns lanços admi- 
ráveis, disse elle no fim do jogo, quando os dois partidos se 
agglomeravam na barraca. 

— Tem jogado muito, o senhor? perguntou o sr. War- 
dle, que se tinha divertido muito com a sua loquacidade. 

— Jogado ! se tenho — milhares de vezes — não aqui — 
nas índias Occidentaes — jogo excitante — quente — quente 
deveras. 

— Sim ! deve ser um bocadinho quente n'um clima d'es- 
ses, observou o sr. Pickwick. 

— Quente? — de escaldar — de tisnar — de queimar. Jo- 
guei uma vez uma partida — uma estacada só — meu amigo o 
coronel — Sir Thomas Blazo — quem faria mais pontos. — 
Tirou se á sorte quem abriria o jogo — ganhei eu — sete ho- 
ras da manhã — seis indígenas para apanhar as bolas — co- 
meço — calor de rachar — todos os indígenas desmaiados — 
levam-os — vem outra meia dúzia — desmaiam também — 
Blazo a joga»*, aguentado por dois indígenas — não tirava 
partido comigo — desmaia também — levam o em braços — • 
eu continuo — Um servo fiel — Quanko-Samba — único que 
ficou — Um sol de tremer, a vara encheu-se de bolhas, a bola 
escaldava — quinhentos e setenta pomos — um tudo nada fa- 
tigado — Quanko invoca os últimos restos de força — apa- 
nha-me a estacada em cheio — eu fui tomar banho, e depois 
jantar. 

— E o que foi feito d'esse senhor não sei quê? perguntou 
um velhote. 

— Blazo ? 

— Nada — o outro cavalheiro ? 

— Quanko Samba ? 

— Exacto ! 

— Pobre Quanko! — nunca se restabeleceu — perdeu o 
jogo, por minha culpa — perdeu a vida por culpa d'elle — es- 
ticou, meu caro senhor. 

Aqui o sujeito emergiu a cara n'uma caneca de cerveja, 



112 AS AVENTURAS 



não se sabe bem se para occuhar a commoção, se para lhe 
engulir o conteúdo. 

Apenas nos consta que elle se deteve de súbito, soltou um 
suspiro prolongado o profundo, e fitou um olhar curioso so- 
bre dois dos principaes membros do club de Dingley Dell, 
que se aproximavam do sr. Pickwick, dizendo-lhe : 

— Vamos todos agora jantar modestamente ao Leão A^ul. 
Espero que o senhor mais os seus amigos nos farão com- 
panhia. 

— E' claro, disse o sr. Wardle, que entre os nossos ami- 
gos nós incluímos o senhor. . . 

E virou-se para o desconhecido. 

— Jingle, disse o versátil sujeito, pegando na deixa sem 
demora, Jingle — Alfred Jingle, Esq., do Castello de Vento, 
em Nenhures. 

— Aceito com o maior prazer, disse o sr. Pickwick. 

— Também eu, disse o sr. Alfred Jingle, enfiando um braço 
no do sr. Pickwick e outro no do sr. Wardle, e segredando 
confidencialmente ao ouvido do primeiro d'estes cavalhei- 
ros : 

— Um jantar de estalo — frio, mas soberbo — espreitei 
estd manhã para dentro da sala — aves, e pasteis, e o mais 
quese segue —grandes patuscos, estes — e muito bem educa- 
dos — mesmo muito. 

Como não houvesse mais preliminares a arranjar, a socie- 
dade atravessou a povoação em pequenos grupos de dois e 
de três ; e dentro de um quarto de hora estavam todas aban- 
cados na grande sala da estalagem do Leão A^ul, em Mug- 
gleton, desempenhando o sr. Dumkins as funcções de presi- 
dente e officiando o sr. Lufifey como vice-presidente. 

Grande rumor de conversações, tinir de facas e garfos e 
pratos : grandes corridas de três criados de cabeças enormes, 
e rápida desapparição das victualhas substanciaes que esta- 
vamna mesa ; e a cadauma d'estas causas de confusão acres- 
centava o faceto sr. Jingle a contribuição proporcional a meia 
dúzia de homens ordinários, pelo menos. 

Quando todos comeram quanto poderam, tirou-se a toa- 
lha, c collocaram-se na mesa garrafas, copos e a sobremesa ; 
e os criados retiraram para limpar tudo, ou por outras pala- 
vras, para se appropriarem, como de emolumentos próprios, 



1)0 SR. PlCKWíCK * 1 l3 



de loJo o remanescente de comesiiveis e bebíveis de que po- 
diam lançar mão. 

Entre o sussurro geral de conversação alegre que se se- 
guiu, conservava-se muito socegado um homemsinho com 
cara de poucos amigos, o qual de quando em quando olhava 
em roda apenas a conversação afrouxava, como se tencio- 
nasse dizer alguma cousa bem grave, e uma vez por outra 
irrompia numa tossesinha de inexprimível dignidade. Afinal, 
durante um momento de silencio relativo, o homemsi- 
nho bradou em voz alta e solemne : 

— Sr. Lufiey ! 

Todos se calaram e o individuo interpellado replicou: 

— Senhor ? 

— Desejo dirigir-lhe algumas palavras, se tiver a bondade 
de convidar estes cavalheiros a encher os copos. 

O sr. Jingle exclamou em tom protector: «Ouçam! ou- 
çam \» palavras que foram repetidas pelo resto dos assisten- 
tes : e, tendo-se enchido os copos, o vice-presidente assumiu 
um ar de profunda e sabia attenção, e disse : 

— Sr. Staple. 

— Senhor, disse o homemsinho, erguendo se, eu desejo di- 
rigir o que tenho a dizer ao sr. Luffey e não ao nosso digno 
presidente, porque o nosso digno presidente é até certo ponto 
— posso dizer em grande parte — o assumpto do que tenho 
a dizer, ou antes dizer a. . . a. . . 

— A asseverar, suggeriu o sr. Jingle. 

— Exacto, a asseverar, disse o homemsinho. Agradeço ao 
meu illustre amigo, se é que elle me permitte dar-lhe este 
nome — (quatro «Ouçam!» um dos quaes por certo do sr. 
Jingle) — a sua suggestao. Senhor, eu cá sou de Dell — sou, 
de Dingley Dell. (Applausos) Não me é dado reclamar a honra 
de constituir uma unidade na população deMuggleton; nem 
com franqueza o confesso, ambiciono tal honra. E dir-Ihe- 
hei porque. (Ouçam!) Concedo sem hesitação a Muggleton 
todas aquellas honras e distmcçóes, as quaes tem jus de re- 
clamar — bem numerosas são eilas e bem conhecidas para 
necessitarem recapitulação minha. Mas, senhor, ao passo que 
eu relembro ter Muggleton dado nascimento a um Dumkins 
e um Podder, não olvidemos também que Dingley Dell pôde 
orgulhar-se de um Luffev e de um Struggies. (Applausos rui- 

8 



14 AS AVENTURAS 



dosos) Que ningueni me attribua desejos de detrahir os mé- 
ritos d'aquelles primeiros cavalheiros. Eu,sr. vice-presidente, 
invejo a exhuberancia dos seus sentimentos na presente con- 
junctura. (Applausos) Todos os cavalheiros que me escutam, 
conhecem provavelmentea replica feita por um individuo que 
— para me servir de uma expressão vulgar — se anichava 
n'um tonel, ao imperador Alexandre : - «Se eu não fora Dió- 
genes», disse elle, «quizera ser Alexandre»». E'-me licito pre- 
sumir que esses cavalheiros dirão: "Se eu não fora Dum- 
kins, eu quizera ser Luffey ; se eu não fora Podder, eu qui- 
zera ser Struggles.» (Enthusiasmo) Porém, cavalheiros de 
Muggleton, porventura é apenas no cricket que se revela a 
supremacia dos vossos compatricios .'' Pois nunca ouvistes 
fallar de Dumkins e da sua perseverança? Nunca vos ensina- 
ram a associar Podder com a propriedade ? (Grandes applau- 
sos) Ao lutardes pelos vossos direitos, pelas vossas liberda- 
des, pelos vosses privilégios, nunca vos vistes reduzidos, um 
instante ao menos, á desconfiança e ao desespero? E n'esses 
momentos de desanimo, o nome de Dumkins não vos reac- 
cendeu no seio o lume que se apagara? Uma palavra só 
d'esse homem não lhe deu luz ainda mais intensa, do que se 
elle nunca se houvera extinguido ? (Grandes acdamações) 
Meus senhores, rogo-vos que cerqueis de uma aureola de en- 
thusiasticos applausos os nomes unidos de Dumkins e de 
Podder ! 

Calou-se o homemsinho, e logo a sociedade começou 
n'um tumultuar de vozes e ás pancadas na mesa, que dura- 
ram com poucas intermiitencias até ao fim da tarde. 

Ergueram-se outros brindes. O sr. Luffey mais o sr. Strug- 
gles, o sr. Pickwick mais o sr. Jingle, foram, cada um por sua 
vez, objecto de elogios sem reserva; e cada um d'elles a seu 
turno se desfez em agradecimentos por essa honra. 

Enthusiasticos como somos pela nobre causa a que nos 
havemos dedicado, teriamos experimentado uma sensação de 
ineffavel orgulho e a convicção de que algo havíamos feito 
para merecer a immortalidade de que hoje somos privados, 
se acaso tivéssemos conseguido expor aos nossos ardentes 
leitores o mais singelo bosquejo d'esses discursos. 

O sr. Snodgrass tomou, conforme o seu costume, uma 
grande quantidade de notas, as quaes sem duvida teriam pro- 



1)0 SR. PICKWICK I IO 



porcionando importantes informações, se a impetuosa elo- 
quência das phrases ou a influencia febril do vinho não hou- 
vesse produzido tamanho tremor na mão d'esse cavalheiro 
que lhe tornou quasi inintelligivcl a letra e de todo inintelli- 
givel o estylo. 

A' força de paciente investigação, lográmos decifrar alguns 
caracteres, tendo uma vaga similhança com os nomes dos 
oradores. 

E podemos também distinguir o esboço de uma canção 
que se suppõe ter sido cantada pelo sr. Jingle, na qual se 
repetem a curtos intervallos as palavras taças, scintillantey 
rubi, brilhante e vinho. 

Ainda imaginamos poder lobrigar, mesmo no fim das no- 
tas, uma indistincta referencia a ossos queimados, e em se- 
guida apparecem as palavras /no, /dn7. 

Mas, como qualquer hypothese que houvéssemos de for- 
mular a tal respeito se fundariam em simples conjecturas, 
não estamos dispostos a deixarmo-nos levar por qualquer das 
supposições suggeridas. 

Voltaremos por isso ao sr. Tupman, acrescentando ape- 
nas que poucos minutos antes da meia noite se ouviram os 
dignitários reunidos de Dingley Dell e de Muggleton entoar 
com grande sentimento e emphase o bello e pathetico canto 
nacional : 

Nenhum de nós vae p'r'a cama, 
Nenhum de nós vae pVa cama, 
Nenhum de nós vae pVa cama. 
Antes que rompa a manhã. 



CAPITULO VIII 

No qual se prova que o verdadeiro amor 
nem sempre anda sobre carris 

A tranquilla solidão de Dingley Dell, a presença de tantas 
representantes do bello sexo, c a solicitude e a anciedade 
que ellas evidenciavam pelo sr. Tupman^ tudo favorecia a 



1 lO AS AVENTURAS 



producção e o desenvolvimento dos ternos sentimentos que 
a natureza implantf^ra profundamente no seio d'este cava- 
lheiro, e que pareciam agora destinados a concentrar se n'um 
amável objecto. 

As meninas eram gentis, insinuantes nos modos, incom 
paráveis de caracter ; mas impossível lhes era ter pretenções 
á dignidade de porte, á nobreza do andar, á magestade do 
olhar, que distinguiam a tia solteirona de todas as mulheres 
observadas até então pelo sr. Tupman. 

Havia um certo parentesco nos seus caracteres, algo de 
congénito nas suas almas, de mysteriosa sympaihia nos seus 
sentimentos, isso era evidente. 

O nome d'ella íoi o prinieiro que subiu aos lábios do sr. 
Tupman, quando elle jazia ferido em cima da relva ; foi o 
hysterico riso d'ella o primeiro som que lhe impressionou os 
ouvidos, quando o trouxeram em braços para casa. 

Mas uma tal agitação tivera acaso origem n'uma sensuali- 
dade delicada e feminina que em qualquer outro caso se ex- 
pandiria ': ou fora o resultado de um sentimento mais ardente 
e apaixonado que só elle, entre todos os viventes, poderá ha- 
ver despertado r 

Taes eram as duvidas que lhe torturavam o cérebro, em- 
quanto elle jazia estendido no sophá : taes as duvidas que 
élle estava decidido a resolver desde logo e uma vez por to- 
das. 

Era de tarde. 

Isabella e Emily andavam a passear com o sr. Trundie ; 
a velha surda adormecera na sua poltrona; o resonar do ra- 
paz gorducho chegava n'uni som grave e monótono da cosi- 
nha distante : as rechonchudas criadas recreavam-se á porta 
gosando as doçuras do anoitecer e as delicias de um derriço, 
á maneira primitiva, com certos brutamontes em serviço na 
herdade ; e na sala estava sentado o interessante par, deslei- 
xado por todos, não se importando com pessoa alguma, ab- 
sortos os dois em sonhos de si próprios : estavam ambos sen 
tados, como um par de luvas de camurça cuidadosamente 
dobradas — mettidas uma na outra 

— Esqueci-me das minhas flores, disse a solteirona. 

— Vá regal-as agora, disse o sr. Tupman com maneiras 
. persuasivas. 



DO SR. PICKWICK I 17 



— Pôde constipar-se com o ar da noite, acudiu a dama 
com ternura. 

— Não, não, disse o sr. Tupman erguendo-se ; ha de fa 
zer-me bem. Permitta-me que a acompanhe. 

Miss Rachel deteve-se a arranjar a ligadura do braço es- 
querdo do mancebo, e, tomando lhe o braço direito, côndu- 
ziu-o ao jardim. 

Havia no extremo um caramanchão com madresilvas, jas- 
mins e trepadeiras — um d'esses doces retiros que os homens 
caridosos arranjam para accommodar as aranhas. 

A tia solteirona pegou n'um grande regador que estava a 
um canto, e dispoz-se a sahir do caramanchão. O sr. Tup- 
man deteve-a, e fel-a assentar a seu lado. 

— Miss Wardle ! disse elle. 

A dama poz-se a tremer com tanta força, que alguns ca- 
lhaus, casualmente cabidos dentro do regador, começaram a 
cascalhar, com um ruido similhante ao de uma cega-rega. 

— Miss Wardle, disse o sr. Tupman, é um anjo. 

— Sr. Tupman! exclamou Rachel, corando até ficar da 
côr do regador. 

— E', é, affirmou o eloquente pickwickano, demais o sei. 

— Todas as mulheres são anjos, ao que dizem, murmurou 
a dama em tom jocoso. 

— Então o que pôde ser Miss Rachel ? ou a que posso eu 
comparal-a sem exagero ■ replicou o sr. Tupman. Onde se 
viu nunca uma mulher que se parecesse com Miss Rachel ? 
Em que outro logar poderia deparar-se-me uma tão rara 
combinação da bondade e da belleza? Onde poderia eu pro- 
curar. . 'Ohl 

Aqui o sr. Tupman calou-se, e apertou a mão que segu- 
rava a aza do feliz regador. 

A dama voltou a cabeça para o lado. 

— São tão enganadores os homens ! segredou-lhe ella sua- 
vemente. 

— Pois são, são, exclamou o sr. Tupman, mas nem todos. 
Um ente vive pelo menos que nunca hade mudar — um ente 
que ficaria radiante se podesse devotar toda a existência á 
sua felici4ade — que vive apenas nos seus olhos — que só 
respira nos seus sorrisos — que supporta apenas por sua causa 
o fardo pesado da existência ! 



I l8 AS AVIÍNTURAS 



— Poderia encontrar-se um individuo assim? disse ella. 

— Pôde, pôde, atalhou o ardente Tupman. Encontrou-se. 
Aqui o tem, Miss Wardle I 

E antes que a dama lhe percebesse a intenção, o sr. Tup- 
man cahira-lhe de joelhos aos pés. 

— Levante-se, sr. Tupman 1 exclamou Rachel. 

— Isso nunca I foi a corajosa replica. Oh ! f^achel 1 
Agarrou-lhe na mão passiva, e o regador cahiu ao chão 

quando elle a apertou de encontro aos lábios. 

— Oh I Rachel I diga que me ama ! 

— Sr. Tupman, disse a donzellona, virando pudicamente 
a cabeça, custa-me deveras a pronunciar estas palavras ; mas 
— mas — confesso que não me é de todo indifferente. 

Mal que o sr. Tupman ouviu esta confissão, tratou de le- 
var a eífeito o que lhe inspiravam as suas enthusiasticas emo- 
ções, e o que, segundo nos consta (porque estamos pouco ao 
facto d'esses assumptos) toda a gente costuma fazer em idên- 
ticas circumstancias. 

Levantou-se de repente, e lançando o braço em volda do 
pescoço da donzellona, imprimiu-lhe nos lábios beijos sem 
conto, os quaes, apôs uma exhibição conveniente de resistên- 
cia, ella recebeu tão passivamente que não se pôde calcular 
quantos mais lhe teria dado o sr. Tupman, se ella não hou- 
vesse tido um sobresalio a valer e não tivesse exclamado em 
tom de susto, 

— Sr. Tupman! estão-nos a ver I estamos descobertos! 

O sr. Tupman olhou em volta de si. Deu com o rapaz 
gorducho perfeitamente immovel, com os grandes olhos re- 
dondos pasmados para o caramanchão, mas sem a minima 
expressão no rosto que o mais hábil physionomista podesse 
haver attribuido ao espanto, á curiosidade, ou a qualquer ou- 
tra das conhecidas paixões, que agitam o coração humano. O 
sr. Tupman fitou o rapazote, e o rapazote fiiou-o a elle ; e 
quanto mais o sr. Tupman observava a absoluta serenidade 
d'aquella physionomia, mais convencido ficava que o rapaz 
ou não sabia, ou não percebia, cousa alguma do que se pas- 
sara. 

Foi sob esta impressão que elle disse com grande fir- 
meza : 

— Que vem você cá fazer ? 



DO SU. PlCKWiCK 1 1 Q 



— Está prompla a ceia, replicou Joe promptamente. 

— Você chegou agora mesmo? perguntou o sr. Tupman 
com um olhar penetrante. 

— Agora mesmo, respondeu o outro. 

O sr. Tupman tornou a encarai o fixamente ; mas não lhe 
viu nem um só estremeção nos olhos, nem mesmo uma ruga 
no rosto. 

O sr. Tupman deu o braço a donzellona, e dirigiu-se para 
casa, seguido pelo rapaz gorducho. 

— Elle não sabe nada do que succedeu, murmurou elle. 

— Nada, disse ella. . 

Ouviu se detraz d'elles um ruido, similhante ao de uma 
casquinada reprimida. 

O sr. Tupman voltou-se vivamente. 

Não ; não poderia ter sido o rapazoie ; não se via um raio 
de alegria, apenas a gordura se divisava n'aquelle rosto. 

— Provavelmente estava a dormir, segredou o sr. Tup- 
man. 

— Não pôde haver a menor duvida, replicou a dama. 
E ambos desataram a rir cordealmente. 

O sr, Tupman enganára-se.. Cesta vez o rapazote não dor- 
mira. Estava acordado — e bem acordado — e não lhe tinha 
escapado nada. 

Passou- se a ceia sem tentativas de conversação geral. A 
avó velha tora deitar-se ; Isabella Wardle dedicava-se exclu- 
sivamente ao sr. Trundle; as attenções da tia solteirona es- 
tavam reservadas para o sr. Tupman; e os pensamentos de 
Emily pareciam concentrar-se n'algum objecto distante — 
porventura no ausente Snodgrass. 

Deram onze — meia noite — uma hora — e os homens sem 
chegarem. 

Em todos os rostos se pintava a anciedade. 

Teriam sido assaltados e roubados? Seria conveniente 
mandar gente com lanternas em todas as direcções que se 
suppozesse elles terem tomado para recolher? ou seria me- 
lhor. . . Escutem ! ahi vêem elles ! O que é que os demora- 
raria até tão tarde ? Ouvia-se uma voz estranha, também ! A 
quem pertenceria ella ? Precipitaram-se para a cosinha onde 
aquelles vadios haviam entrado, e n'um relance tiveram pleno 
conhecimento da verdadeira situação. 



20 AS AVENTURAS 



O sr. Pickwick, com as mãos nas algibeiras e o chapéo 
todo descabido para cima do olho esquerdo, estava encostado 
ao aparador, abanando a cabeça de um para outro lado, e 
prod':zindo uma successão constante dos mais ternos e bene- 
volentes sorrisos, sem qualquer causa ou motivo apparente. 

O velho Wardle, com a physionomia esbrazeada, estava 
a apertar a mão de um cavalheiro desconhecido, resmoneando 
protestos de eterna amisade. 

O sr. Winkle, apoiado ao alto relógio, invocava debil- 
mente todas as pragas sobre a cabeça de qualquer membro 
da familia que suggerisse a conveniência de elle se metter na 
cama. 

E o sr. Snodgrass deixára-se cahir n'uma cadeira, com a 
expressão da mais abjecta e desesperada miséria que o espi- 
rito humano pôde imaginar, desenhada em cada uma das suas 
expressivas feições. 

— Succedeu alguma cousa? perguntaram as três senho- 
ras. 

— Qual succedeu, nem meio succedeu! respondeu o sr. 
Pickwick. Nós cá — nós estamos — magnificos. — Não é ver- 
dade, Wardle, que nós estamos magnificos ? Hein ? 

— Eu creio que sim, replicou o faceto dono da casa. — 
Minhas queridas — aqui teem o meu amigo o sr. Jingle — 
amigo do sr. Pickwick, Jingle — veiu — fazer uma visiti- 
nha. 

— Sucedeu alguma cousa ao sr. Snodgrass ? perguntou 
Emily com grande alvoroço. 

-^ Não succedeu nada. minha senhora, redarguiu o desco- 
nhecido. Jantar depois do jogo — gente de uma cana — can- 
ções lindissimas — Porto velhp — clarete — bom — muito 
bom — vinho, minha senhora — vinho. 

— Não foi o vinho, murmurou o sr. Snodgrass em voz 
quebrada. Foi o salmão. (Em casos d'estes, não é nunca o 
vinho). 

— ^Não era melhor elles irem para a cama^, minha senho- 
ra? perguntou Emma Dois dos criados podem levar os se- 
nhores lá para cima. 

— Eu cá não quero ir para a cama, disse com firmeza o 
sr. Winkle. 

— Não ha ente vivo que seja capaz de me levar, disse in- 



DO SR. PICKWICK 



trepidamente o sr. Pickwick, continuando a sorrir como até 
então. 

— Hurrah ! balbuciou debilmente o sr. Winkle ! 

— Hurrah ! repetiu o sr. Pickwick, tirando o chapéo ç ar- 
remessando ao chão, e atirando á doida com os óculos para 
o meio da cosinha. 

E em seguida sl esta facécia, desatou a rir ás bandeiras 
despregadas. 

— Tragam cá — outra — garrafa, gritou o sr. Winkle, co- 
meçando em voz de Stentor e acabando em débeis murmú- 
rios. 

Descahiu-lhe a cabeça sobre o peito ; e, resmungando a 
a sua invencível resolução de não se metter na cama, e um 
sanguinário pesar por não ter aquella manhã dado cabo do 
velho Tupman, adormeceu profundamente. 

N'esta condição foi transportado para o seu quarto por 
dois jovens gigantes, sob a superintendência pessoal do gor- 
ducho Joe, a cujos desvelos pouco depois o sr. Snodgrass 
confiou a sua pessoa. 

O sr. Pickwick acceitou o braço que lhe offereceu o sr. 
Tupman e desappareceu tranquillamente, sorrindo mais de 
que nunca. 

E o sr. Wardle. depois de se despedir da familia com tanta 
ternura, como se fosse d'alli para o cadafalso, concedeu ao 
sr. Trundle a honra de o levar pela escada acima, com bal- 
dados esforços para se mostrar digno e solemne. 

— Que repugnante scena I disse a tia solteirona. 

— Nojenta! exclamaram as duas meninas. 

— Medonha! — medonha! disse Jingle com modos muito 
graves. (Elle levava garrafa e meia de vantagem a qualquer 
dos companheiros). Horrível espectáculo! — horrível deve- 
ras ! 

— Que sujeito tão amável ! segredou a donzellona ao sr. 
Tupman. 

— E muito bem parecido ! segredou Emily Wardle. 

— Se é ! observou a tia. 

O sr. Tupman lembrou-se da viuva de Rochester ; e o seu 
espirito ficou perturbado. 

A meia hora de dialogo que se seguiu não foi azada para 
o tranquillísar. 



122 AS AVENTURAS 



O novo visitante era muito fallador, e o numero das suas 
anecdotas era apenas excedido pela extensão da sua polidez. 

O sr. Tupman, á proporção que crescia a popularidade 
de Jingle, sentia a sua mergulhar na sombra. 

O seu riso era forçado — a sua alegria ficticia ; e quando 
afinal repousou no travesseiro a fronte dorida, pensou com 
delicias horríveis na satisfação que lhe daria o ter n'aque.lle 
momento a cabeça de Jingle entre o colchão de pennas e o 
enxergão. 

O infatigável Jingle levantou-se cedo na manhã seguinte, 
e, emquanto os companheiros ficavam na cama subjugados 
pelas extravagâncias da noite precedente, empregou proficuos 
esforços em promover a hilaridade á mesa do almoço. Até a 
velha surda insistiu em que lhe contassem pela corneta acús- 
tica uma ou duas das suas melhores facécias ; e até levou a 
sua condescendência ao ponto de observar á tia solteirona 
que «elle (Jingle) era um estróina com graça» — opinião ab- 
solutamente perfilhada por todos os membros presentes da 
familia. 

A velha tinha por costume, nas bonitas manhãs de verão, 
ir até ao caramanchão em que o sr. Tupman já se tinha no- 
tabilisado. 

Passava-se assim o caso : o rapaz gorducho despendurava 
de um cabide, situado atraz da porta do quarto d'aquella 
dama, um chapéo de setim preto, um chalé grosso de algo- 
dão e uma bengala grossa com um enorme castão; a velha 
senhora punha com todo o descanço o chapéo e o chalé, en- 
costava uma das mãos á bengala e outra ao hombro do gor- 
ducho, e dirigia- se compassadamente para o caramanchão, 
onde o rapazote a deixava gosar do ar fresco durante meia 
hora; expirado este praso elle voltava e tornava aconduzil-a 
até casa. 

A velha dama era muito regular e muito pontual ; e como 
havia três verões successivos que se observava esta mesma 
ceremonia sem o minimo desvio das formas habituaes, não 
ficou pouco espantada n'essa manhã, por ver o rapaz gordu- 
cho, em vez de sahir do caramanchão, dar alguns pa^sos 
para fora d'elle, olhar cuidadosamente em volta de si em to- 
das as direcções, e voltar para o pé d'ella surrateiramente e 
com ar do mais profundo mysterio. 



no SR. PICKWICK 12.^ 



A velha senhora era timida — como ahás são a maioria 
das velhas — e a sua primeira impressão foi que o rechon- 
chudo garoto estava vae não vae para lhe produzir qualquer 
grave damno physico com o intento de deitar as unhas aos 
trocos miúdos que ella ali tivesse. 

Não lhe faltou vontade de gritar por soccorro, m.as a idade 
e a doença ha muito que a tinham privado do poder de se 
exprimir aos berros; portanto, foi vigiando os movimentos 
d'elle com intenso pavor, que nem por sombras se aitenuou 
quando elle se chegou mesmo junto d'ella, e lhe gritou aos 
ouvidos n'uma voz agitada e que a ella se affigurou ameaça- 
dora : 

— Patroa ! 

Ora aconteceu que o sr. Jingle andava a passear n"aquelle 
momento pelo jardim, mesmo junto do caramanchão. Ouviu 
também gritar: «Patroa I') e parou para cftivir o resto. 

Três razões havia para que assim procedesse. 

Em primeiro logar, não tinha que fazer e era curioso ; em 
segundo logar, não era nada escrupuloso ; finalmente, estava 
escondido por uns arbustos íiorescentes. Portanto deixou-se 
ali ficar á escruta. 

— Patroa ! gritou o rapaz gorducho. 

— Então, Joe ! disse a tremer a velha, estou certa que te- 
nho sido para vossê uma boa ama, Joe. Tem sido mvariavel- 
mente tratado com affecto. Nunca teve muito que fazer; e 
sempre tem tido bastante que comer. 

As ultimas palavras eram um appello aos sentimentos 
mais ternos do gorducho. Pareceu commovido ao replicar 
com expansão : 

— Isso sei eu. 

— Então o que é que vossc quer fuzer agora ? disse a ve- 
lha cobrando animo. 

— O que eu quero é fazer-lhe arripiar as carnes, replicou 
o rapazote. 

Pareceu sanguinária a valer esta forma de provar a grati- 
dão ; e como a velha não percebeu nitidamente o processo 
pelo qual se deveria obter aquelle resultado, voltaram-lhe to- 
dos os primeiros pavores. 

— O que é que a senhora imagina que eu vi a noite pas- 
sada, aqui mesmo n'este caramanchão ? perguntou Joe. 



124 -^S AVENTURAS 



— Valha-nos Deus! O que foi ? exclamou a velha, assus- 
tadíssima pela attitude solemne do corpulento rapaz. 

— Aqueile sujeito — aquelle do braço doente — aos abra- 
ços e aos beijos. . . 

— A quem, Joe, a quem ? A nenhuma das criadas, es- 
pero ? 

— Peior do que isso, rugiu o gorducho, ao ouvido da ve- 
lha. 

— Não era nenhuma das minhas netas ^ 

— Peior ainda. 

— Peior ainda, Joe I disse a velha, que tinha supposto este 
o extremo limite da atrocidade humana. Então quem era, 
Joe? Quero saber por força. 

O gorducho olhou cautelosamente em volta de si, e tendo 
concluído a sua in^oecçáo, berrou ao ouvido da velha dama : 

— Míss Rachel. 

— Como ! disse a velha em voz sibilante. Falle mais alto. 

— Míss Rachel 1 rugiu o rapaz. 

— Minha filha ! 

A serie de gestos affirmativos de Joe communicou-lhe ás 
faces rechonchudas um movimento similhante ao do manjar 
branco. 

— E ella tolerou-o ! exclamou a velha. 

Um sorriso sarcástico arreganhou as feições de Joe, que 
respondeu : 

— Se eu também a vi a ella ás beijocas a elle I 

Se o sr. Jingle, do seu esconderijo, podesse ter visto a ex- 
pressão que esta noticia trouxe ao rosto da velha, é provável 
que uma gargalhada repentina tivesse trahido a sua visi- 
nhança. 

Elle escutava com attenção, e chegavam-lhe aos ouvidos 
farrapos de phrases de cólera taes como : 

— Sem minha licença ! — N'aquella idade ! Que infeliz ve- 
lha que eu sou. — Era melhor esperar até a minha morte ! 

Depois ouviu o cascalho a estalar sob os tacões do gor- 
ducho, e percebeu que a velha ficava sósinha. 

Era talvez uma coincidência notável, mas era facto, que 
o sr. Jingle, logo cinco minutos depois de chegar a Manor 
Farm, na noite precedente, deliberara no seu intimo pór 
cerco, sem demora, ao coração da solteirona. 



DO SR. PICKWICK 



125 



Não lhe faltava observação para perceber que as suas ma- 
neiras desabusadas não eram nada desagradáveis ao lindo 
objecto dos seus ataques; e elle tinha mais do que uma íbrie 
suspeita de ella possuir o mais desejável de todos os requisi- 
tos, uma fortunasinha independente. 

A necessidade imperativa de deitar á margem o seu rival, 
por qualquer maneira que fosse, relampejou-lhe de súbito 
no cérebro, e elle resolveu immediatamente adoptar certas 
medidas tendentes a esse fim. 

Diz-nos Fielding que o homem é fogo, a mulher estopa, 
e que o príncipe das trevas gosta de assoprar o lume. 

O sr. Jingle sabia que os mancebos são para as tias sol- 
teironas como o gaz iníiammado para a pólvora, e decidiu- 
se a experimentar sem perda de tempo os eíTeitos de uma 
explosão. 

Cheio de reflexões sobre esta importante decisão, sahiu 
surrateiramenie do esconderijo, e, ao abrigo dos arbustos já 
mencionados, aproximou-se da casa. 

A fortuna parecia determinada a favorecer-lhe os desí- 
gnios. 

O sr. Tupman e os outros cavalheiros sabiam do jardim 
pelo portão lateral, exactamente quando elle chegava á vista 
d'este ; e as meninas sabia elle que tinham ido passear sósí- 
nhas logo depois do almoço. O caminho estave, pois, desem- 
pachado. 

A sala de jantar estava entreaberta. Elle espreitou para 
dentro. A solteirona estava a fazer meia. Elle tossiu ; ella 
ergueu os olhos e sorriu-se. A hesitação não fazia parte do 
caracter do sr. Alfredo Jungle. Poz mysteriosamente o dedo 
sobre os lábios, entrou, e fechou a porta. 

— Miss Wardle, disse o sr. Jungle com calor affectado, 
perdòe-me a ousadia — conhecimento recente — não ha tempo 
para ceremonias — tudo descoberto. 

— Senhor ! disse a solteirona, um pouco surpreza pela 
inesperada apparição e um tanto suspeitosa de que o sr. 
Jungle não estivesse no seu juizo. 

— Schiu ! disse este, n'um cochichar de theatro, rapaz 
gordo — cara de lua cheia — olhos redondos — patife! 

Aqui sacudiu a cabeça expressivamente, e a solteirona co- 
meçou a tremer com susto. 



2b AS A^'ENTURAS 



— Supponho que se refere a Joe? disse ella, esforçando-se 
por parecer serena. 

— Sim, minha senhora — raios partam o tal Joe! — perro 
traidor, o tal Joe — disse á senhora velha — a senhora velha 
furiosa — damnada — fula — caramanchão — Tupman — abra- 
ços e beijos — tDda essa historia — percebe, minha senhora ? 
hein ? 

— Sr. Jingle, disse Misse Rachel, se o senhor vem aqui 
para me insultar. . . 

— Quall - Deixe-se d'isso : replicou o imperturbável Jin- 
gle. Ouvi toda a historia — vim prevenil-a do perigo em que 
está — otierecer os meus serviços — evitar o escândalo. Não 
importa — pensa que é insulto — ponho-me ao fresco. 

E voltou-se como para pôr a ameaça em execução. 

— Que hei de eu fazer ? disse a pobre solteirona, desatando 
a chorar. O mano vae ficar furioso I 

— Está claro que vae, acudiu o sr. Jingle reflectindo, ficar 
como uma bicha. 

— Oh 1 sr. Jingle! que hei de dizer .^ exclamou. ella com 
outra inundação de desespero. 

— Diga que foi sonho, replicou friamente o sr. Jingle. 
Um raio de conforto vislumbrou no espirito da solteirona 

a esta suggesião. O sr. Jingle percebeu isso e aproveitou-se 
da vantagem. 

— Ora! ora, adeus! — nada mais fácil — garoto patife — 
dama amável — uns açoutes no rapaz gordo — Miss Rachel 
acreditada — ponto na historia — tudo arranjado. 

Não sabemos se as probabilidades de evitar as consequên- 
cias da nialavinda delação foi deliciosa para os sentimentos 
da donzellona, ou se o ouvir-se descripta com.o "dama amá- 
vel" abrandou a aspereza do seu pezar. O que é certo é que 
ella corou levemente e lançou um olhar de reconhecimento 
ao sr. Jingle. Este insinuante cavalheiro suspirou profunda- 
mente, fixou os olhos durante uns dois minutos no semblante 
da solteirona, teve um sobresalto melodramático, e desviou 
subitamsnte o olhar. 

— Parece desgostoso, sr. Jingle, disse a dama com voz la- 
mentosa. Permitte-me que lhe prove a minha gratidão pela 
sua amável interferência, perguntando-lhe pela causa dos seus 
desgostos, no intento de lhes dar allivio, sendo possível ? 



DO SR. PICKWICK 127 



— Ah! exclamou o sr. Jingle com outro sobresalto — al- 
livio — alliviar a minha desventura, e o seu amor concedido 
a um homem que é insensivel a tamanha bemaventurança — 
que n'este mesmo instante mantém pretensões ao affecto da 
sobrinha da creatura que... Mas não! elle é meu amigo; 
não denunciarei os seus vicios. Miss Wardie — adeus ! 

Ao concluir esta tirada, a mais consequente de quantas 
constara ter elle pronunciado, o sr. jfngle applicou aos olhos 
os restos do lenço que já mencionamos, e dirigiu-se para a 
porta. 

— Fique, sr. Jingle! disse energicamente a solteirona. O 
senhor acaba de fazer uma allusao ao sr. Tupman — expli- 
que-se. 

— Nunca! exclamou Jingle, com ar profissional (isto é, 
theatral). Nunca ! 

E com o fim de mostrar que não tinha o minimo desejo 
de continuar a ser interrogado, aproximou uma cadeira da de 
Miss Rachel, e sentou-se. 

— Sr. Jingle, disse ella, rogo-lhe, supplico-lhe, se algum 
terrível mysterio existe com respeito ao sr. Tupman, reve- 
le-o. 

— Eu posso lá, disse o sr. Jingle fitando os olhos no rosto 
da donzellona, eu posso lá ver — encantadora creatura — sa- 
crificada no altar — ^ descaroavel avareza! 

Pareceu durante alguns segundos lutar contra variadas e 
contradictorias commoções, e em seguida disse em voz baixa 
e profunda : 

— Tupman o que quer, é só o seu dinheiro. 

— Miserável ! exclamou Rachel, com indignação vehe- 
mente. 

As duvidas do sr. Jingle estavam resolvidas; ella tinha di- 
nheiro. 

— Ainda mais! proseguiu Jingle — elle ama outra. 

— Outra ! ejaculou a solteirona. Quem é ! 

— Menina baixinha — olhos pretos — sobrinha Emily. 
Houve uma pausa. 

Ora se uma creatura havia no mundo inteiro por quem a 
tia donzellona alimentasse mortaes e arreigados ciúmes, era 
essa exactamente por aquella sobrinha. Subiu-lhe a côr ao 
rosto e ao collo, e elle sacudiu silenciosamente a cabeça 



28 AS AVENTURAS 



com ar de ineffavel desdém. Por fim, mordendo os lábios 
delgados e levantando a cabeça, disse : 

— Isso não pôde ser. Não quero crer tal, 

— Pois observe os, disse Jin^le. 

— E' o que hei de fazer, disse a solteirona. 

— Observe os seus olhares. 

— Pois sim. 

— Os segredinhos. 

— Pois sim. 

— Elle ha de sentar-se á mesa ao lado d'ella. 

— Deixal-o ! 

— Ha de enchel-a de altençóes. 

— Deixal-o. 

— E ha de tramal-a á senhora. 

— Tramar-me ! vociferou a donzellona, a tremer de raiva 
e de desespero. Tramar-me a mim ! — elle ! 

— Quer convencer-se ? disse Jingle. 

— Quero. 

— Terá coragem ? 

— Tenho. 

— Nunca mais lhe dá trela? 

— Nunca mais. 

— E dá cavaco a qualquer outro ? 

— Dou. 

— Então faça isso. 

O sr. jingle cahiu de joelhos, e assim permaneceu durante 
cinco minutos. 

Quando se ergueu, era o namorado aceito da tia solteirona 
— sob a condição de que o perjúrio de Tupman se fizesse 
claro e manifesto. 

As provas estavam a cargo do sr. Alfred Jingle ; e elle 
fel as patentes n"aquelle mesmo dia ao jantar. 

Miss Rachel a custo acreditava no que os seus olhos viam. 

O sr. Tracv Tupman estava amezendado á beira de Emi- 
ly, catrapiscando, cochichando e sorrindo, mesmo em frente 
do sr. Snodgrass. 

Nem uma palavra, nem um olhar, nem um relance, elle 
concedia á que na véspera fora a escolhida do seu coração. 

— Diabos levem o garoto I pensou o velho sr. Wardle com 
os seus botões, referindo-se á historia que a mãe lhe tinha 



no SR. PICKWICK 120 



contado. Diabos o levem ! 
tudo imaginação. 

— Pérfido! pensava a tia solteirona. Aquella jóia do sr. 
Jingle nõo me enganava. Oh ! como eu odeio o miserá- 
vel. 

A conversação seguinte pôde servir aos nossos leitores de 
explicação para a apparentemente inexplicável mudança de 
procedimento da parte do sr. Tracy Tupman. 

Foi n'aquella tarde, e a scena passou-se no jardim. Anda- 
vam dois vultos a passeiar n'um atalho afastado ; um d'el- 
les um pouco baixo e corpulento, o outro um pouco alto e 
delgado. 

Eram o sr. Tupman e o sr. Jingle. O vulto corpulento co- 
meçou o dialogo. 

— Que tal andei eu ? perguntou elle. 

— Admirável — soberbo — eu não podia representar me- 
lhor — deve repetir o seu papel amanhã — todas as tardes 
até nova ordem. 

— Rachel ainda deseja isso ? 

— Está claro — gostar não gosta — mas tem de se fazer 
— evitar suspeitas — medo do mano — diz que não ha remé- 
dio — mais uns diasinhos só — os velhotes engazupados — 
coroar a sua ventura. 

— Não tem mais nenhum recado r 

— Amor — amor apaixonado — muita ternura — aíFecto 
inalterável. Quer que lhe diga alguma cousa da sua parte ? 

— Meu caro amigo, respondeu o innocente Tupman, aper- 
tando calorosamente a mão do amigo — leve-lhe muitas e 
ternas saudades — diga-lhe quanto me custa o dissimular — 
diga-lhe qualquer cousa de amável : mas acrescente como eu 
estou convencido da necessidade do fingimento que ella esta 
manhã me suggeriu, por intermédio do meu amigo. Diga que 
eu applaudo a sua prudência e que lhe admiro a discri- 
ção. 

— Dil-o-hei. Quer mais alguma cousa? 

— Nada mais; acrescente apenas que eu fico a suspirar 
pelo momento em que lhe possa chamar minha, e em que se 
torne desnecessária toda a dissimulação. 

— Por certo, por certo. Mais alguma cousa? 

— Oh ! meu amigo ! disse o pobre Tupman, apertando 

O 



i:>0 AS AVENTURAS 



outra vez a mão do companheiro, receba os meus fervorosos 
agradecimentos pela sua desinteressada amabilidade ; e per- 
dòe-me se eu alguma vez, mesmo por pensamentos, lhe fiz a 
injustiça de suppôr que me servia de obstáculo. Meu querido 
amigo.poderei alguma vez pagar-lhe o obsequio? 

— Não falle n'isso, replicou o sr. Jingle. 

Calou-se de súbito, como se lhe occorresse alguma ideia, 
e proseguiu : 

— A propósito, o amigo poderia dispor de dez libras, 
poder — Caso urgente — pago d'aqui a três dias. 

— Creio que posso, replicou o sr. Tupman com a maior 
effusão. Três dias, diz o amigo ? 

— Três dias só — tudo fica arranjado — acabam as diffi- 
culdades. 

O sr. Tupman contou o dinheiro nas mãos do sr. Jingle, 
o qual o deixou cahir, moeda por moeda, dentro da algibeira, 
emquanto os dois se encaminhavam para casa. 

— Tome cautela, disse o sr. Jingle — nem um olhar. 

— Nem um gesto, acudiu o sr. Tupman. 

— Nem uma syllaba. 

— Nem um murmúrio. 

— Todas as suas attençÕes para a sobrinha — antes áspero 
do que outra cousa para' a tia — único meio de intrujar os 
velhotes. 

— Terei cautela, disse o sr. Tupman alto. 

— E eu também, disse com os seus botões o sr. Jingle. 
E entrararii na casa. 

A scena da tarde repetiu-se de noite, e nas três tardes e 
noites que se seguiram. No quarto dia, o dono da casa estava 
contentíssimo, por se ter persuadido de que não havia fun- 
damento para as accusações contra o sr. Tupman. 

Na mesma estava o sr. Tupman, porque o &r. Jingle lhe 
dissera que o seu negocio não tardaria a entrar em crise. Na 
mesma o sr. PickAvick, porque era raro estar de differente 
humor. Na mesma não estava o sr. Snodgrass, porque andava 
com ciúmes do sr. Tupman. Mas na mesma estava a velha 
dama, porque tinha ganho ao whist. E na mesma estavam o 
sr. Jingle mais Miss Wardle, por motivos de sufficiente im- 
portância n'esta aventurosa historia para merecerem ser nar- 
rados n'outro capitulo. 



130 SR. PICKWICK 



l3l 



CAPITULO IX 

Urra descoberta e uma perseguição 

Estava a ceia na mesa, as cadeiras dispostas em volta 
d ella, garrafas, canecas e copos em cima do aparador, e tudo 
revelava a approximação do momento mais sociável das vinte 
e quatro horas. 

— Onde está Rachel ? perguntou o sr. Wardle. 

— E' verdade, e Jingle ? acrescentou o sr. Pickwick. 

— Ora esta ! disse o dono da casa, estranho não termos 
dado ha mais tempo pela falta d'elle. E' boa ! parece-me que 
ha duas horas, pelo menos, que não lhe ouço a voz. Emily, 
minha querida, toca a campainha. 

Tocou-se a campainha, e appareceu o rapaz gorducho. 

— Onde está Miss Rachel ? 
O rapazote não sabia. 

• — Onde está então o sr, Jingle ? 

Resposta idêntica. Toda a gente pareceu surprehendida. 
Era tarde — « mais de onze horas. O sr. Tupman ria á sucapá. 
Estavam mettidos para qualquer canto, a fallar d'elle. Boa 
partida — tinha graça ás pilhas ! 

— Não quer dizer nada, disse Wardle depois de uma curta 
pausa. Não tardam ahi. Eu á ceia nunca espero por nin- 
guém. 

— Excellente regra essa, disse o sr. Pickwick, admirável ! 

— Façam favor de se sentar, exclamou o dono da casa. 

— Diz muito bem, disse o sr. Pickwick. 
E sentaram-se. 

Na mesa levantava-se uma peça colossal de vacca fria, da 
qual o sr. Pickwick foi provido* com um copioso quinhão. 
Acabava elle de erguer o garfo para a bocca e estava mesmo 
a abril a para a recepção de um bocado de carne, quando se 
ergueu de súbito na cozinha o sussurro de muitas vozes. De- 
teve-se e pousou em baixo o garfo Outro tanto fez o sr. 
Wardle, largando insensivelmente da mão © trinchante que 
ficou enterrado na carne. Olhou para o sr. Pickwick. O sr. 
Pickwick olhou para elle. 

Ouviram-se passos pesados no corredor. A porta da casa 



i:>l AS AVENTURAS 



de jantar escancarou-se de repente ; e o homem que engra- 
xara as botas do sr, Pickwick á chegada d'este, precipiíou-se 
pelo aposento, seguido pelo rapaz gorducho e por toda a cria- 
dagem. 

— Que diabo quer dizer isto? exclamou o dono da casa. 

— Pegou fogo á chaminé, querem ver, Emily ? perguntou 
a avó. 

— Qual, avósinha I Não é isso ! guincharam ambas as me- 
ninas. 

— Que novidade é esta? rugiu o sr. Wardle. 

O homem, esbaforido, pronunciou com voz débil: 

— Pozeram-se a andar, patrão! — deram ás de Villa Dio- 
go, senhor! 

N'este momento, viu-se o sr. Tupman largar o garfo e a 
faca e tornar-se muito pallido. 

— Quem é que se poz a andar? disse ferozmente o sr. 
Wardle. 

— O sr. Jingle mais Miss Rachel, n'uma sege de posta, do 
Leão Ajid de Muggleton. Eu estava lá ; mas não pude pôr- 
Ihes estorvo; por isso corri para o avisar. 

— Eu é que lhe paguei a despeza ! clamou o Sr. Tupman, 
dando um pulo de fúria. Apanhou-me dez libras ! — agar- 
rem-no ! — F'errou-me calote! — Esta é que eu não tole- 
ro 1 — Quero que façam justiça, Pickwick ! — Ha de pagar- 
m'as. 

E com varias exclamações incoherentes d'este jaez, o mí- 
sero gentleman andava ás voltas pelo aposento, n'um trans- 
porte de furor. 

— Nosso Senhor nos defenda! exclamou o sr. Pickwick, 
observando a extraordinária gesticulação do amigo com sur- 
presa apavorada. Elle endoideceu ! Que havemos de fazer ? 

— Que havemos de fazer? disse o vigoroso amphytrião, 
que anenas attentou nas ultimas palavras. Ponham o cavallo 
ao cabriolet ! Vou arranjar uma sege ao Leão, e perseguil-os 
sem demora. Aonde, bradou elle apenas o criado sahiu para 
executar a ordem, aonde pára esse maroto de Joe ? 

— Aqui estou ; mas não sou maroto, replicou a voz do 
gorducho. 

— Deixe-me deitar-lhe as unhas, Pickwick ! gritou Wardle, 
precipitando-se para o malfadado garoto. Foi subornado por 



J 



no SR. PJCKWICK i.-io 



aquelle malandro de Jingle para me metter n'uma pista er- 
rada, mettendo-me na cabeça patranhas a respeito de minha 
irmã e do seu amigo Tupman. (N'isto o sr. Tupman deixou- 
sc cahir n'uma cadeira). Deixe-me agarral-o ! 

— Não deixe! chiavam as mulheres todas, por cima de 
cujas exclamações se ouvia distinctamente a choradeira do 
gorducho. 

— Não me agarrem ! gritava o velho. Sr. Winkle, tire 
d'aqui as mãos! Sr. Pickwick, largue-me, ande ! 

N'este momento de barafunda e de confusão, era um bello 
espectáculo ver a expressão plácida e philosophica das feições 
do sr. Pickwick, embora um pouco intlammadas pelo esforço 
que olle fazia para abrandar a íuria impetuosa de Wardle, 
estreitando vigorosamente com ambos os braços a enorme 
cmtura d'este. Eentretanto o rapazote era arranhado impel- 
lido, puxado para fora da sala por todo o mulherio ali reunido. 

Mal o sr. Pickwick largara a presa, entrou o criado para 
annunciar que o cabriolet estava prompto. 

— Não o deixem só! guincharam as mulheres, é capaz de 
matar alguém ! 

— Eu vou com elle, disse o sr. Pickwick. 

— Vossê é um amigo, Pickwick, disse o dono da casa, 
apertando-lhe a mão. Emma, de uma manta ao sr. Pickwick 
para enrolar á roda do pescoço — avie-se. Tomem conta na 
avó, pequenas; ella está desmaiada. Vamos, está prompto ? 

Envoltas rapidamente n'uma grande manta a bocca e o 
queixo do sr. Pickwick, mettido o chapéo na cabeça do grande 
homem, e lançado no braço d'elle o seu enorme sobretudo, 
elle respondeu affirmativamente. Saltaram para o cabriolet. 

— Larga-lhe a rédea, Tom, bradou o sr. Wardle. 

E lá foram rodando pelas viellas fora, aos solavancos pelos 
carreiros, aos encontrões ás sebes de uma e de outra banda, 
como se a cada momento ameaçassem escavacar-se. 

— Que dianteira nos levam elles ? gritou Wardle, ao che- 
garem á porta do Leão A^iil, em volta da qual, comquanto 
fosse já tarde, se agglomerava um pequeno grupo. 

— Três quartos de hora quando muito, foi a resposta de 
todos. 

— Uma sege e quatro cavallos, depressa ! Rápido ! Depois 
recolherão o cabriolet I 



:>4 AS AVENTURAS 



— Andem, rapazes ! gritou o estalajadeiro — sege e quatro 
cavallos na rua — aviem se — espertem ! 

Súmiram-se a correr criados e moços de cavallariça. Scin- 
tillaram lanternas, emquanto os homens corriam de um para 
outro lado ; as ferraduras dos cavallos retiniram no pavimento 
irregular do pateo ; trovejou a sege, puxada para fora da co- 
cheira ; e tudo era barulho e alvoroto. 

— Então ? essa sege vem ou não .vem esta noite ? gritou 
Wardle. 

— Vem agora mesmo pelo pateo abaixo, replicou o moço 
da cavallariça. 

Sahiu a sege — atrelaram-se os cavallos — saltaram para 
cima os postilhões — e para dentro os viajantes. 

— Tome sentido, gritou Wardle, as sete milhas até á muda 
em menos de meia hora. 

— Roda! ^ . . 

Os postilhões applicaram o chicote e a espora, os criados 
gritaram, os moços berraram, e lá se foram os viajantes por 
ares e ventos. 

— Linda situação ! pensou o sr. Pickwick, quando teve um 
momento para reflectir. Linda situação para o Presidente Ge- 
ral do Club Pickwick. Sege encharcada — cavallos levados da 
breca — quinze milhas por hora — e isto á meia noite 1 

Durante as primeiras três ou quatro milhas, nem uma pa- 
lavra foi proferida por qualquer dos dois, tão immersos am- 
bos estavam nas suas reflexões. 

Mas vencida essa distancia e animados os cavallos aponto 
de se desempenharem a valer do seu mister, o sr. Pickwick 
sentiu-se tão excitado pela rapidez da corrida que não lhe 
soffreu o animo continuar na mesma, mudez. 

— Com certeza que os apanhamos, parece-me, disse elle. 

— Assim espero, replicou o companheiro. 

— Que bella noite ! disse o sr. Pickwick levantando os 
olhos para a lua que brilhava esplendidamente. 

— Tanto peior, retorquiu Wardle; porque elles tiveram a 
vantagem do luar para nos tomarem a dianteira, e nós vamos 
perdel-o. D'aqui a uma hora vae-se a lua embora. 

— Não ha de ser lá muito agradável ir n'esta carreira ás 
escuras, não acha ? interrogou o sr. Pickwick. 

— Também me parece, respondeu friamente o amigo. 



DO SK. IMCKVVICK l35 



A excitação temporária do sr. Pickwick começou a esmo- 
recer um pouco, quando èlle reflectiu nos perigos e nas in- 
conveniências da expedição em que tão levianamente se met- 
tera. 

Despertou-o o alarido do postilhão que ia adiante. 

— lò — iô — iô— iô — iô... ô! gritou o primeiro posti- 
lhão. 

— Iô — iô — iô — iô . . . ô ! bradou o segundo postilhão. 

— Iô — iô — iô — ÍÔ...Ô! echoou em voz de Stentor o 
próprio Wardle, deitando a cabeça e metade do corpo para 
tora da portinhola. 

— Iô — iô — iô — iô . . . ô ! clamou o sr. Pickwick, pegando 
no estribilho do grito, apesar de não ter a mais leve noção 
do seu significado ou do seu intento. 

E no meio da gritaria dos quatro, a sege parou. 

— Que ha de novo ? perguntou o sr. Pickwick. 

— Aqui ha uma barreira, respondeu o velho Wardle, pôde 
ser que nos dê alguma noticia dos fugitivos. 

Depois de um lapso de cinco minutos, consumidos a ba- 
ter á porta e a gritar sem intervallo, emergiu de casa do turn- 
pike, um homem em mangas de camisa, que abriu a bar- 
reira *, 

— Ha quanto tempo passou por aqui uma sege de posta? 
perguntou o sr. Wardle. 

— Ha quanto tempo ? 

— Sim, homem ! 

— A fallar a verdade, não sei bem. Ha muito não foi, mas 
também não foi ha pouco. Ahi talvez entre estas duas cou- 
sas. 

— Mas passou uma sege, com certeza? 

— Ah ! lá isso passou, passou uma sege. 

— Ha quanto tempo, meu amigo ? interveiu o sr. Pick- 
wick, ha uma hora ? 

— Sim, ha de andar por isso, respondeu o homem. 

— Ou ha duas horas ? perguntou o primeiro postilhão. 



' Nas estradas de Inglaterra existem barreiras, onde se paga a porta- 
gem. O tiirnpike é o molinete que pá passagem aos viajantes, um a um. 



JÚ AS AVENTURAS 



— Sim, não me espantava que fosse ha duas horas, retor- 
quiu o velho com ar de duvida. 

— Roda, rapazes I gritou o irascivel Wardle, não percam 
mais tempo com esse velho idiota. 

— Idiota! exclamou o velho com um risinho sarcástico, 
parado no meio da estrada, com a barreira entreaberta, ob- 
servando a sege que diminuía rapidamente com a distancia. 
Não tanto como tu julgas; perdeste aqui dez minutos, e a fi- 
nal ficaste sabendo tanto como antes. Se todos os guarda- 
barreiras ganharem o seu guinéo com metade da consciência 
com que eu ganhei o meu, não apanhas tu a outra sege antes 
do S. Miguel, meu velho barrigudo. 

E com outra casquinada prolongada, o velho fechou a 
barreira, entrou em casa e aferrolhou a porta. 

Entrementes a sege ia seguindo, sem diminuir a andadura, 
em direcção à muda. 

A lua, como Wardle predissera, declinava rapidamente ; 
grandes enfiadas de nuvens pesadas e escuras, que durante 
algum tempo se tinham gradualmente espalhado pelo céo, 
formavam agora uma massa negra e densa ; e grossos pingos 
de chuva, batendo de vez em quando nas vidraças da sege, 
pareciam avisar os viajantes da rápida aproximação de uma 
noite tempestuosa. 

O vento também, soprando-lhes mesmo de rosto, enfur- 
nava-se em rajadas furiosas pela estrada estreita, e uivava lu- 
gubremente na ramaria das arvores que a orlavam. 

O sr. Pickwick conchegou mais o sobretudo, encolheu-se 
mais commodamente no canto da sege, e cahiu n'um somno 
profundo, do qual apenas acordou á paragem do vehiculo, 
ao som da sineta da estalagem, e ao grito de : 

— Cavallos, já, já I 

Mas outra demora houve aqui. 

Os moços estavam a dormir com um somno tão mysterio- 
samente pesado, que cada um d'elles levou cinco minutos a 
acordar. 

O encarregado da cavallariça desencaminhára-se-lhe a 
chave, e, encontrada ella, dois ajudantes estremunhados tro- 
caram os apparelhos dos cavallos, e tiveram de voltar ao 
principio do trabalho. 

Se o sr. Pickwick estivesse só, estas multíplices contrarie- 



l»0 SK. PICKW ICK 1^7 



dades leriam logo posto lim a perseguição, mas o velho War- 
dle não era homem que se atrapalhasse por tão pouco ; me- 
xia-se com tão boa vontade, aos empurrões a um, aos safa- 
nões a outro, apertando aqui uma hvela, prendendo além 
uma corrente, que a sege estava prestes em muito menos 
tempo do que se poderia rasoavelmente esperar, no meio de 
tantas difficuldades. 

Continuaram a jornada; e com certeza que não era nada 
animadora a perspectiva que tinham diante de si. 

O percurso até á próxima muda era de quinze milhas, o 
vento era violento, e a chuva cahia ás bátegas. 

Era impossível andar muito contra tantos obstáculos re- 
unidos : passava já da uma hora, e eram precisas cerca de 
duas para chegar á muda. 

Comtudo, aqui deparou-se-lhes um objecto que lhes alen- 
tou as esperanças e lhes reanimou o espirito abatido. 

— Quando e que chegou esta sege ? gritou o velho War- 
dle, saltando para fora do seu vehiculo, e apontando para 
uma sege coberta de lama encharcada, que estava no pateo. 

— Ainda não ha um quarto de hora, senhor, replicou o 
homem da cavallariça, a quem era dirigida a pergunta. 

— Uma senhora com um sujeito .'' perguntou Wardle, quasi 
otfegante de impaciência. 

— Sim, senhor. 

— Um sujeito alto — de casaca — pernas compridas — 
corpo esguio ? 

— Sim, senhor. 

— Uma senhora já de idade — cara chupada — magrizeila 
— hein ? 

— Sim, senhor. 

— Por Deus ! são elles, Pickwicic I exclamou o velho. 

— Podiam ter chegado aqui mais cedo, continuou o ho- 
mem, se não fosse ter-se-lhes partido um dos tirantes. 

— São elles, disse Wardle. São elles, co'a breca 1 Sege e 
quatro cavallos, sem demora. Ainda podemos apanhal-os, 
antes de chegarem á outra muda. Um guinéo a cada um de 
vossês, rapazes — vivo, vivo — despachem-se — sejam boas 
pessoas. 

E com exhortações d'este jaez, o velho gentleman corria 
de um lado para o outro, e atarefava-se n'um estado de ex- 



l38 AS AVENTURAS 



citação que se communicou também ao sr. Pickwick, o qual, 
sob esta influencia, se emmaranhou nos tirantes, embaraçou- 
se no meio dos cavallos e das rodas de uma maneira espan- 
tosa, acreditando íirmemente que estava assim adiantando os 
preparativos materiaes para a continuação da jornada. 

— Salte para dentro — salte, homem ! gritou o velho War- 
dle trepando para a sege, levantando os degraus, e batendo 
violentamente com a portinhola. Venha d"ahi I avie-se ! 

E antes que o sr. Pickwick percebesse nitidamente o que 
ia fazer, sentiu-se mettido pela outra portinhola, com um em- 
purrão do velho e um empurrão do moço da cavallariça. E 
lá seguiram o seu caminho. 

— Ah I isto agora é que é andar ! disse Wardle exultante. 
E com effeito iam andando nas horas de estalar, como o 

attestavam sufficientemente ao sr. Pickwick as pancadas con- 
stantes que elle dava de encontro ao duro taboado do carro 
ou ao corpo do companheiro. 

— Aguente-se! disse o corpulento velho, sentindo o sr. 
Pickwick dar uma valente cabeçada no seu immenso collete, 

— Nimca na minha vida senti solavancos assim, disse o 
sr. Pickwick 

— Não quer dizer nada, replicou o companheiro. Não tarda 
que acabe. Segure-se, segure-se. 

O sr. Pickwick encafuou-se para o seu cantinho, o mais 
seguro que pôde : e a sege foi rodando mais depressa do que 
nunca. 

Tinham d'esta maneira percorrido umas três milhas, 
quando o sr. Wardle, que ha dois ou três minutos estava 
olhando para fora da portinhola, recolheu de repente a ca- 
beça, coberta de lama, e exclamou offegante de alvoroço : 

' — Ahi estão elles I 

O sr. Pickwick deitou a cabeça fora da portinhola. Exacto : 
lá se divisava uma sege e quatro cavallos, a pequena distancia 
adiante d'elles, voando a todo o galope. 

— Segue ! segue ! vociferou o velho. Dois guinéos a cada 
um, rapazes — não os deixem ganhar terreno — apanhem-os 
— apanhem-os I 

Os cavallos da primeira sege largaram por ali fora a toda 
a força; e os do sr. Wardle galopavam furiosamente atraz 
d'elles. 



no SR. piCKwiCK i39 



— F^stou-lhe a vêr a cabeça, exclamou o colérico velho. 
Com mil raios ! estou-lhe a vêr a cabeça ! 

— Também eu, disse o sr. Pickwick. E' elle. 

O sr. Pickwick não se enganava. A physionomia do sr. 
Jingle, completamente coberta pela lama atirada pelas rodas, 
percebia-se distinctamente á portinhola; e o movimento do 
braço, que elle accionava violentamente para os postilhões, 
denotava que elle os estava animando a augmeniarem de ve- 
locidade. 

Intenso era o interesse. 

Campos, arvores e sebes pareciam fugir d'elles com a ve- 
locidade do furacão, tão rápida era a andadura dos seus ca- 
vallos. 

Estavam mesmo ao lado da primeira sege. 

Podia-se ouvir claramente a voz de Jingle, mesmo acima 
do barulho das rodas, a dar pressa á sua gente.. 

Wardle espumava de raiva e de excitação. 

Rogava pragas e vomitava injurias ás dúzias, mostrava o 
punho cerrado ao objecto da sua indignação; mas o sr. Jin- 
gle apenas respondia com um sorriso desdenhoso, e respon- 
dia ás ameaças com um grito de triumpho, quando os seus 
cavallos, obedecendo ás crescentes applicações de chicote e 
de espora, galoparam com mais rapidez, deixando atraz os 
perseguidores. 

Acabava o sr. Pickwick de metter a cabeça para dentro, 
e o mesmo fizera o sr. Wardle, cançado de berrar, quando 
um tremendo solavanco atirou com elles de encontro á frente 
do carro. 

Ouviu-se um estrondo súbito — um estalo violento — des- 
pegou-se uma roda, e a sege virou-se. 

Passados uns poucos de segundos de espanto e de confu- 
são, durante os quaes não se pôde perceber senão o escou- 
cear dos cavallos e o partir dos vidros, o sr. Pickwick sentiu- 
se violentamente puxado para fora dos escombros da sege, 
e apenas se poz em pé e desembaraçou a cabeça das abas do 
seu immenso sobretudo que lhe impediu de todo o servir-se 
dos óculos, o desastre appareceu-lhe em toda a sua plenitude. 

O velho Wardle estava ao lado d'elle, sem chapéo, com o 
fato rasgado em muitos sitios, e aos pés de ambos estavam 
dispersos os cavacos da sege. 



140 .;S AVENTURAS 



Os postilhões que haviam conseguido cortar os tirantes, 
estavam junto ás cabeças dos cavallos, desfigurados com a 
lama e esbaforidos com a rapidez da carreira. 

A cerca de cem jardas adiante, via-se a outra sege, que 
estacara ao ouvir o estrondo. 

Os postilhões, com a cara torcida por um riso escarninho, 
observavam de cima das sellas o grupo adverso, e o sr. Jingle 
estava á portinhola, a contemplar os estragos com evidente 
satisfação. 

Rompia a manhã, cajá luz acinzentada tornava a scena 
perfeitamente visivel. 

— Eh lá ! gritou o descarado Jingle. Ficou alguém ferido ? 

— Cavalheiros de idade madura — pesaditos — perigoso — 
muito perigoso. 

— Vossê é um desavergonhado 1 rugiu Wardle. 

— Ah ! ah ! replicou Jingle ; e em seguida acrescentou 
pestanejando maliciosamente e apontando com o poUegar 
para o interior da sege — Olhe lá ! — ella vae bem — manda- 
Ihe muitos cumprimentos — pede-lhe que não se incommode 

— saudades a Tuppy — Quer subir para a trazeira ■ — Roda, 
rapazes I 

Os postilhões retomaram a sua attitude profissional, e a 
sege rodou, emquanto o sr. Jingle acenava zombeteiramente 
da portinhola com um lenço branco. 

Nada, n'esta aventura, nem mesmo o trambulhao, pertur- 
bara a serenidade habitual do sr. Pickwick. Mas o que elle 
não pôde levar á paciência foi aquella patifaria de apanhar 
dinheiro ao seu fiel sequaz e depois abreviar-lhe o nome 
para o de Tuppy. 

Ofiegou fortemente, fez-se vermelho até aos aros dos ócu- 
los, e disse com íentidáo e energia : 

— Se eu torno a encontrar aquelle homem, hei de. . . 

— Sim, sim, interrompeu Wardle, tudo isso é muito bom, 
mas emquanto nós ficamos aqui a dar á língua, elles obtém a 
licença, e casam em Londres. 

O sr. Pickwick calou se e reservou no seu intimo os pro- 
jectos de vindicta. 

— Que distancia ha d'aqui á primeira muda ? perguntou o 
sr. Wardle a um dos moços. 

— Seis milhas, não é isso. Tom ? 



1)Ô SR. PICKWI» m 



— Passa de seis. 

— Passa de seis milhas, senhor. 

— Não ha remédio, disse Wardle, temos de ir até lá a pé, 
Pickwick. 

— Não ha remédio^ repetiu esse homem deveras illus- 
tre. 

Mandaram adiante um dos moços a cavallo para arranjar 
outra sege e cavallos, e deixaram atraz o outro para tomar 
conta da sege despedaçada. 

Os srs. Pickwick e Wardle metterara-se resolutamente a 
caminho, tendo primeiro o cuidado de enrolar as mantas á 
roda do pescoço e de enterrar os chapéos pela cabeça abaixo 
para evitar quanto possivel a chuva que, depois de uma curta 
aberta, recomeçava a cahir a cântaros. 



CAPITULO X 

Que dissipa todas as duvidas (se algumas existis- 
sem ainda) com respeito ao desinteresse do sr. 
Jíugle. 

Ha em Londres diversas estalagens velhas, que eram d'an- 
tes quartéis generaes de diligencias celebres no tempo em que 
as diligencias faziam as suas jornadas de um modo mais grave 
e solemne do que hoje em dia, mas que degeneraram agora 
em pouco mais do que em logares de abrigo e guarda para 
carroças de tora da terra. 

Debalde o leitor proc-Liraria qualquer d'essas antigas hos- 
pedarias, entre as Cruzes de ouro, os Touros de ouro, e as 
Boccas de ouro, que alçam as pomposas frontarias nas ruas 
melhoradas da metrópole. 

Se elle quizer 9peiar-se n'uma d'essas velhas pousadas, 
terá de encaminhar os passos aos bairros mais obscuros da 
cidade ; ahi, n'algum recesso afastado, é que encontrará al- 
gumas d'ellas, ainda, erectas, com uma espécie de teimosia 
melancólica, entre as modernas innovaçÕes que as cercam. 



14^ AS AVENTURAS 



Especialmente no Boroiigh ', ainda resta uma meia dúzia 
de estalagens velhas, que teem conservado inalteráveis os ca- 
racteres externos, e que teem escapado tanto á fúria de me- 
lhoramentos públicos, como á avidez da exploração particu- 
lar. 

São edifícios cheios de galerias, corredores e escadas, bas- 
tante vastos, estranhos e antiquados para fornecer subsídios 
a cem historias de almas do outro mundo, caso alguma vez 
nos víssemos reduzidos á lamentável necessidade de inventar 
algumas, e o mundo durasse tanto, que esgotasse as innume- 
raveis e verídicas lendas relacionadas com a velha ponte de 
Londres e as suas circumvisinhanças da margem esquerda do 
rio. 

No pateo de uma d'essas estalagens — nada menos do que 
o celebre Veado branco — estava um homem occupado a lim- 
par de lama um par de botas, na manhãsinha que succedeu 
aos acontecimentos narrados no capitulo antecedente. 

Trajava um collete de panno ordinário, ás riscas, com 
mangas de panninho preto e botões de vidro azul, calções de 
lá e polainas. 

A' roda do pescoço tinha enrolado negligentemente um 
lenço de um vermelho assanhado, e um velho chapéo branco 
desmazeladamente posto a uma banda na cabeça. 

Diante d'elle estavam duas fileiras de botas, umas já lim- 
pas, e outras sujas, e a cada addicção que elle fazia á fileira 
das limpas, o homem repousava do trabalho, e contemplava 
o resultado com satisfação evidente. 

O pateo não offerecia nada d'aquelle reboliço e d'aquella 
acti^údade que de ordinário caracterisam uma pousada onde 
param as diligencias. 

Estavam arrumadas para ali três ou quatro carroças, car- 
regadas com um montão de mercadorias que attingiam pro- 
ximamente a altura de um segundo andar ordinário, por baixo 
de um elevado telheiro que se estendia a um dos lados do 
pateo; e outra carroça, que ia provavelmente encetar a jor- 
nada n'aquella manhã, estava cá fora a céo descoberto. 

Guarneciam os dois lados do quadrilátero uma renque du- 



Bairro suburbano de Londres, ao sul do Tamisa. 



DO SR. HCKWICK 1^3 



pia de galerias, com velhas balaustradas rústicas, sobre as 
quaes se abriam quartos de cama, e sobre a porta que dava 
para a casa de venda e o café pendia uma dupla tila de cam- 
painhas, abrigadas do tempo por um pequeno alpendre incli- 
nado. 

Dois ou três cabriolets e seges estavam guardadas sob di- 
versos telheiros ; e de quando em quando o escarvar das pa- 
ias de um cavallo ou o retinir de uma corrente de ferro no 
extremo do pateo annunciavam a quem n'isso tinha interesse 
que para aquelles lados ficava a cavallariça. 

Se acrescentarmos que uns poucos de rapazes de blusa 
estavam a dormir em cmia de trouxas, fardos de lã e outras 
mercadorias espalhadas sobre molhos de palha, teremos des- 
cripto quanto basta a apparencia geral da estalagem do 
Veado branco, na rua principal do Borough, na manhã de 
que se trata. 

Ao tinir de uma das campainhas, seguiu-se aappariçãode 
uma criadinha franzina na galeria superior, a qual, depois de 
bater a uma das portas e de receber de dentro um recado, 
chamou de cima da varanda : 

— Sam ! 

— Prompto ! replicou o homem do chapéo branco. 

— O numero vinte e dois precisa das botas. 

— Pergunte ao numero vinte e dois se as quer agora ou 
quer esperar que elias lá vão ter. 

— Adeus, não diga tolices, Sam, disse a rapariga com voz 
adocicada; o sujeito quer as bolas immediatamente. 

— Você o que tem, é -graça a valer, disse o engraxador. 
Ora veja-me lá estas botas — onze pares de botas, e mais um 
sapato que pertence ao numero seis, que tem uma perna de 
pau. As botas teem de estar promptas ás oito e meia, e o sa- 
pato ás nove. Quem vem a ser o numero vinte e dois para 
passar adiante de lodos os outros ? Nada, nada, cada um por 
sua vez, como dizia John Ketch quando estava a enforcar uns 
sujeitos. Tenho muita pena que espere, patrão, mas d aqui a 
pouco o sirvo. 

Dizendo isto, o homem do chapéo branco poz-se a traba- 
lhar n'uma bota de canhão com assiduidade crescente. 

Ouviu-se outra campainhada; e appareceu na galeria fron- 
teira a activa e velha estalajadeira do Veado braiico. 



144 -'^5 AVENTURAS 



— Sam, gritou ella, onde está esse madraço, esse man- 
drião — Ah! lá estás, Sam; porque é que não respondes? 

— Não me parecia muito bonito responder antes da se- 
nhora acabar de fallar, replicou Sam com aspereza. 

— Olha, limpa já estes sapatos para o numero dezesete e 
leva-os ao gabinete reservado, numero cinco, primeiro an- 
dar. 

A estalajadeira atirou com uns sapatos de senhora para o 
pateo e desappareceu de corrida. 

— Numero 5, disse Sam, apanhando os sapatos; e tirando 
da algibeira um pedaço de giz, poz-Ihes nas solas a marca do 
seu destino. Sapatos de senhora e gabinete reservado I Com 
certeza que esta não veiu de carroça. 

— Chegou esta manhã cedo, bradou a rapariga, que estava 
ainda debruçada no parapeito da galeria, mais um sujeito, 
n'uma carruagem, e elle é que precisa das botas, e melhor 
fora que vossê lh'as aviasse : ora aqui tem a historia timtim 
por timtim. 

— Porque é que vosse não disse isso ha mais tempo ? excla- 
mou Sam com grande indignação, escolhendo as botas em 
questão d'entre as que tinha em frente. Eu cá imaginava que 
era para um dos freguezes de três pence. Gabinete particular! 
e dama, demais a mais ! Se é cavalheiro que se preze, vale 
ahi um shilling por dia, afora os recados. 

Estimulado por esta alentadora reflexão, o sr. Samuel foi 
escovando com tanta dihgencia, que dentro de poucos mo- 
mentos haviam chegado á porta do numero 5 as botas e os 
sapatos, com um polimento capaz de fazer rebentar de inveja 
a alma do amável sr. Warren, por isso que no Veado branco 
usava-se de graxa de Dav e Martin. 

— Entre, disse uma voz viril, respondendo ao bater de 
Sam. 

Sam fez o seu cumprimento mais respeitoso, e appareceu 
diante de uma senhora e de um sujeito que estavam a almo- 
çar. Tendo officiosamente collocado as botas direita e es- 
querda junto dos respectivos pés, e tendo feito o mesmo aos 
sapatos da dama, recuou para a porta. 

— Moço I 

— Senhor, disse Sam, fechando a porta e deixando ficar a 
mão no botão da fechadura. 



no SR. pickwicic 143 

— Vossé conhece — que nome é ? — Doctors' Commons. 

— Sim, senhor. 

— Onde íica isso ? 

— PauVs chwch-yardy senhor ; arcada baixa, um livreiro 
de um lado, uma hospedaria do ourro, e dois porteiros no 
meio para arranjarem as Hcenças de casamento. 

— Licenças de casamento ! repetiu o sujeito. 

— Licenças de casamento ! trephcou Sam. Dois patuscos 
de avental branco — levam a mão aos chapéos quando al- 
guém passa — "Licença, senhor, precisa uma licença?» Uns 
pândegos de estalo, elles mais os patrões d'elles — são os pro- 
e-uradores — não ha que errar. 

— Que fazem elles? perguntou o sujeito. 

— O que fazem ? E' boa ! Mettem na cabeça dos velhos 
caram.inholas com que elles nunca sonharam. O' meu pae, se- 
nhor, era cocheiro.- Era viuvo, e gordo que não se podia me- 
xer — era gordissimo, lá iso era. Morre-lhe a patroa e deixa- 
Ihe quatrocentas libras. Vae elle, vae aos Commons, ter com 
o homem da lei para embolsar a chelpa — ia todo janota — 
botas de canhão — raminho ao peito — quico de abas largas 
— manta verde — mesmo um fidalgo. Vae pela arcada fora, a 
pensar como havia de empregar a maquia — eis senão quando 
apparece o porteiro, de mão no chapéo : 

— «Licença, senhor, deseja uma licença ?« 

— "Que vem a ser isso ?» diz o meu velho. 

— "Licença, senhor», diz elle. 

— "Qual licença ?» diz o velhote. 

— "Licença p'ra casar», diz o porteiro. 

— «Oh! c'os diabos!» diz o meu pae, «essa nunca me 
passou pela cabeça.» 

— «Eu cá parece-me que o senhor deseja uma licença,» 
diz o porteiro. 

«Meu pae pára, e pensa um bocadinho. 

— «Nada, diz elle, c'os demónios ! já estou velho, e além 
d'isso sou gordo de mais-), diz elle. 

— «Qual 1 deixe-se d'isso !» diz o porteiro. 

— "Não lhe parece ?» diz o meu pae. 

— «Nem por sombras^-, diz elle, «ainda na segunda feira 
passada a gente casou um sujeito que tmha duas vezes o seu 
volume». 

10 



I4<) AS AVENTURAS 



— "Serio?" diz o meu pae. 

— "Palavra, que sim l» diz o porteiro, "O senhor é um in- 
dez ao pé d'elle — por aqui, senhor — venha por aqui !» 

"E lá se põe o meu velho a andar atraz d'elle, nem que 
fosse um macaco domesticado atraz de um realejo, para um 
escriptoriosinho lá ao fundo, onde estava um ratão sentado 
no meio de papelada suja e de caixas de folha, a fingir que 
tinha muito que fazer. 

— "Faz obsequio de se sentar, emquanto eu escrevo a de- 
claração», diz o homem da lei. 

— "Muito agradecido, senhor,» diz o meu pae, e vae sen- 
tou-se, com a bocca aberta, pasmado para os nomes que es- 
tavam nas caixas. 

— "O seu nome r» diz o homem da lei. 

— "Tonv Weller», diz o meu pae. 

— «Freguezia ?» diz o homem. 

— "A Linda Selvagem,» diz o meu pae. 

«Era a estalagem onde elle costumava apeiar-se quando 
estava no ofificio, e a respeito de freguezias não sabia pata- 
vina. 

— "E como é o nome da senhora ?*> diz o homemsi- 
nho. 

"O meu pae ficou embatucado. 

— "Diabos me levem se eu sei ! « diz elle. 

— "Não sabe I« diz o outro. 

— "Sei tanto como o senhor,» diz o velho, «isso não se 
pode pôr depois ?-. 

— "Impossivel I» diz o homem. 

— "Então bem I» diz o meu pae, depois de parafusar um 
bocado, " ponha lá Mistress Clarke.» 

— «Clarke, que?» diz o homemsinho, mettendo a penna 
no tinteiro. 

— "Suzanna Clarke, na estalagem áo Marque:^ de Granby, 
em Dorkin», diz o meu pae ; estou em crer que me aceita, 
se eu cá a pedir — eu cá nunca lhe disse uma palavra ; m.as 
estou certo que me aceita. 

«Assim se passou a licença, e o caso é que ella aceitou-o, 
e o que é peior é que ainda hoje o tem fisgado, e eu cá nunca vi 
nem a côr das quatrocentas libras, vejam que enguiço o meu! 
Com perdão do senhor, concluiu Sam, mas em eu começando 



no SR. picKwicK 14- 



a badalar n"csie meu desgosto, corro que nem um carrinho 
novo com a roda encebada. 

Dito isto, e tendo esperado um instante para verse preci- 
savam mais alguma cousa d'elle, Sam sahiu do quarto. 

— Nove e meia — hora própria — vou já la! disse o su- 
jeito, que escusamos de apresentar como o sr. Jingle. 

— Hora própria, para que ? disse a solteirona com gar- 
ridice. 

— A licença, ó meu anjo adorado — ^ aviar na egreja — 
chamal-a minha, amanha — disse o sr. Jingle espremendo a 
mão da donzellona. 

— A licença I disse Rachel corando. 

— A licença, repetiu o sr. Jingle. 

A correr vou, á cata da licença, 

A correr, tum ! tum ! tum ! não tardo nada ' 

— Como o senhor anda depressa! disse Rachel. 

— Depressa! — isto não é nada ao pé das horas, dias, se- 
manas, mezes, annos, quando nós estivermos unidos — de- 
pressa — a voar — nem um raio — um corisco — o vapor — 
força de mil cavallos — nem isso me ganha ! 

— Não poderiamos — não poderiamos casar antes de ama- 
nha de manhã? perguntou Rachel. 

— Impossivel — pode lá ser! — aviso na egreja — deixar 
lá hoje a licença — a ceremonia amanhã. 

— Tenho tanto medo que o mano dê comnosco ! disse 
Rachel. 

— Isso sim ! disparate — atrapalhado com o trambulhão — 
depois — por cautela — largou a sege — veiu a pé — alugou 
carruagem — chegou ao Borough — o único sitio do mundo 
cm que ellc nos procura. — Ah I ah I — boa partida — hein ? 

— Não se demore, disse ternamente a solteirona, ao vero 
sr. Jingle enterrar o chapéo amolgado pela cabeça abaixo. 

— Longe de si ? — meu cruel feitiço ^ 

E o sr. Jingle foi a pular alegremente para Rachel, impri- 
miu-lhe nos lábios um casto beijo, e sahiu do gabinete a 
dançar. 

— Querido I disse a solteirona, quando a porta se fechou 
sobre elle. 



148 



AS AVENTURAS 



— Pespego da veiha I disse o sr. Jingle indo pele corredor 
fora. 

E' penoso reflectir na perfldia da nossa espécie ; e por 
isso não seguiremos o flo das meditações do sr. Jingle durante 
o seu caminho para os Doctors Commons. 

Bastará ao nosso intento relatar que, fugindo ás armadi- 
lhas dos dragões de avental branco que guardam aquella en- 
cantada região, chegou são e salvo ao escriptorio do vigário 
geral; e que, havendo arranjado uma lisonjeira epistola do 
arcebispo de Canterbury aos seus «deães e bem-amados Al- 
fredo Jingle e Rachel Wardle, salve», elle metteu cuidadosa- 
mente na algibeira o mystico documento, e voltou trium- 
phante ao Borough. 

Ainda elle ia a caminho do Veado branco, quando dois 
sujeitos roliços e um magrizella entraram no pateo, e olha- 
ram em volta, á procura de pessoa auctorisada a quem po- 
dessem dirigir certas perguntas. 

Aconteceu que o sr. Sam Weller estava n'essa occasiao 
occupado a brunir um par de botas de canhão, pertencentes 
a um lavrador que restaurava, com um ligeiro lanche de dois 
ou três arráteis de carne e uma caneca ou duas de cerveja, as 
forças gastas no mercado do Borough. 

Ao engraxador se dirigiu immediatamente o sujeito ma- 
gro: ^ "^ 

--Meu amigo I disse elle. 

— E"s dos taes que querem informações de borla, pensou 
comsigo Sam, senão não me tratavas logo com essa ternura. 

Mas só disse em voz alta : 

— Que deseja o senhor t 

— Meu amigo, disse o sujeito magro com uma interjei- 
ção conciliadora. Tem por cá muitos hospedes agora ? Muito 
que fazer, hein ? 

Sam olhou de revez para o interrogador. 

Era um homem baixinho e secco, de cara comprida e tri- 
gueira, e olhos pequenos e irrequietos, sempre a piscar e a 
luzir de cada lado de um nariz delgado e inquisitivo, como 
se estivessem constantemente a jogar a cabra cega com este 
órgão. Estava todo vestido de preto, com botas tão reluzentes 
como os olhos, uma manta de pescoço estreita e branca, e 
uma camisa muito aceiada com bofes. 



1)0 SR. I4CKVV1CK I 49 



Pendia-lhe do bolso do collete uma corrente de ouro com 
berloques. 

Trazia umas luvas de camurça pretas mettidas nas mãos 
e não as mãos mettidas n'ellas ; e ao fallar, atirava 
os pulsos para debaixo das abas da casaca, com o ar de um 
homem que estava no habito de fazer interrogatórios. 

— Muito que fazer, hein ? repetiu elle. 

— Vamos andando, replicou Sam. Se não fazemos fortuna, 
também não quebramos. Vamos tasquinhando o nosso car- 
neiro cozido com alcaparras, e mandamos á tabúa os rábanos 
em podendo apanhar carne de vacca. 

— Ah! disse o homemsinho, vossc a modo que é tro- 
cista, hein ': 

— O meu irmão mais velho padecia d'essa moléstia, re- 
torquiu Sam; coroo eu dormia com elle, pode ser que se pe- 
gasse. 

— Esta sua velha casa é curiosa, disse o homemsinho, re- 
lanceando a vista em torno de si. 

— Se o senhor mandasse prevenir que vinha, deixe estar 
que a mandávamos concertar, disse o imperturbável Sam. 

O homemsinho pareceu ficar um pouco atrapalhado com 
o pouco amigável acolhimento. 

Houve uma rápida consulta entre elle e os dois sujeitos 
gordos. E finda ella, o sujeito magro tomou uma pitada n'uma 
caixa oblonga de prata, e parecia disposto a reatar a conver- 
sação, quando interveiu um dos sujeitos gordos, que á bonho 
mia do rosto juntava uns óculos e umas polainas pretas. 

— E' preciso que saiba, disse elle, apontando para o ou 
tro sujeito gordo, que aqui este meu amigo dá-lhe meio gui- 
néo, se vosse quizer responder a uma ou duas. . . 

— Espere, meu caro senhor, espere ! atalhou o homemsi- 
nho, com sua licença — meu caro senhor, o primeiro princi- 
pio a observar em casos como este é o seguinte : se confia o 
negocio nas mãos de um profissional, não tem que intervir 
no andamento d'elle ; tem que depositar n'esse homem im- 
plicita confiança. Realmente, senhor... proseguiu elle vol- 
tando-se para o outro sujeito — esqueci-me do nome do seu 
amigo. 

— Pickwick, disse o sr. Wardle, porque não era outro se- 
não este jovial personagem. 



\DO AS AVENTURAS 



— Ah I Pickwick ! — Realmente, sr. Pickwick, meu caro se- 
nhor, desculpe dizer-lhe — estimarei immenso receber quaes- 
quer conselhos seus, como particular, como amiciis ciiricp, 
mas deve perceber a inconveniência de intervir no meu pro- 
cedimento n'um caso como este, e com um argumento ad 
Ciiptaudum, tal como a offerta de meio guinéo. Realmente, 
meu caro senhor, realmente . . . 

E o homemsmho tomou um ar solemne e uma pitada de 
rapé argumentativa. 

— O meu único desejo, senhor, disse o sr. Pickwick, era 
levar a cabo, tão depressa quanto fosse possivel, este des- 
agradabilissimo negocio. 

— Tem rasão — tem rasão, disse o homemsinho. 

— Foi n'essa intenção, proseguiu o sr. Pickwick, que eu 
Hz uso do argumento que a minha experiência dos homens 
me tem ensinado como o de êxito mais provável, qualquer que 
seja o caso. 

— Sim, sim, disse o homemsinho, diz muito bem, é ver- 
dade ; mas a mim é que' o senhor devia ter lembrado isso. 
Meu caro senhor, estou certissimo que não pode ignorar a 
extensão da confiança que se deve depositar n'um homem 
proiissional. Se fosse necessário uma auctoridade n"este pon- 
to, permitta, meu caro senhor, que lhe repita o bem conhe- 
cido caso de Barnwell e. . . 

— Ora cale -se com George Barnwell 1 interrompeu Sam, 
que assistia muito pasmado a este curto colloquio, não ha 
ninguém que não saiba como foi essa historia, e cá a minha 
opinião foi sempre, veja lá, que a rapariga merecia mais a 
forca do que elle. Mas isto não vem para o caso. O senhor o 
que quer é que eu aceite meio guinéo. Pois vá lá isso ! eu cá 
estou de accôrdo : mais claro do que isto não sei fallar, 
não acha o senhor? (O sr. Pickwick sorriu;. Ora agora o que 
é preciso saber é o que os senhores me querem, como dis- 
se o outro quando lhe appareceu a alma do outro mundo ': 

— Nós queremos saber. . . disse o sr. Wardle. 

— Então, meu caro senhor, então ! interrompeu o homem- 
sinho azafamado. 

O sr. Wardle encolheu os hombros e calou-se. 

— Nós queremos saber, disse o homemsinho solemne- 
mente, e a vossemecê é que fazemos esta pergunta para não 



DO SR. PICKWICK 



despertar suspeitas lá dentro — queremos saber quem é que 
teem agora na hospedaria, 

— Quem temos ! disse Sam, em cujo espirito os hospedes 
eram sempre representados pelos objectos de uso que cabiam 
sob a sua immediata superintendência. Uma perna de pau no 
numero seis, um par de botas altas no numero treze, dois pa- 
res de botins na secção dos negociantes, estas duas de canhão 
por detraz da loja, e outras cinco no cate, 

— E mais nada ? perguntou o homemsinho. 

— Espere lá ! replicou Sam, recordando-se de súbito. Ha, 
sim : ha um par de botas á Wellington, já usaditas, e uns sa- 
patos de senhora, no numero cinco. 

— Que espécie de sapatos? interrogou com alvoroço 
Wardle, o qual, assim como o sr, l^ickwick, ficara assara- 
pantado com este singular catalogo dos hospedes, 

— Feitos na provincia, respondeu Sam. 

— Tem o nome do sapateiro ^ 

— Brown. 

— D'onde ? 

— De Muggleton, 

— São eiies, exclamou Wardle. Eouvado seja Deus ! de- 
mos com elles, 

— Schiu ! disse Sam, As botas á Wellington foram aos 
Doctor's Commons. 

— Não foram, disse o homemsinho, 

— Foram, buscar uma licença. 

— Chegámos a tempo, exclamou Wardle, Leve-nos ao 
quarto; não se pode perder um momento. 

— Por favor, meu caro senhor, peço-lhe, disse o homem- 
sinho ; cautela, muita cautela. 

'l'irou da algibeira uma bolsa de seda encarnada, e olhou 
muito fito para Sam, emquanto sacava um soberano, 
Sam sorriu com muita expressão, 

— Leve-nos ao quarto, já, sem nos annunciar, disse o ho- 
memsinho, e o soberano é seu, 

Sam atirou com as botas de canhão para um canto, e 
guiou-os por um corredor escuro e uma escada espaçosa, 
Deteve-se ao fundo de um segundo corredor, e estendeu a mão, 

— Aqui tem, segredou o procurador, mettendo o dinheiro 
na mão do guia. 



1^2 AS AVENTURAS 



Sam deu mais alguns passos, seguido pelos tres, e parou 
a uma porta. 

— E' aqui o quarto ? murmurou o homemsinho. 
Sam ítz um gesto de assentimento. 

O velho Wardle abriu a porta ; e os tres entraram pelo 
quarto, exactamente na occasião em que o sr. Jingle, já de 
volta, apresentava a licença á tia solteirona. 

Esta soltou um grito penetrante, e, atirando-se para cima 
de uma cadeira, cobriu o rosto com as mãos. 

O sr. Jingle amarrotou a licença e metieu-a precipitada- 
mente na algibeira da casaca. 

Os importunos visitantes avançaram até meio do apo- 
sento. 

— Vossè — vossc é um patife de marca, não acha? excla- 
mou Wardle, a quem a cólera tirava a respiração. 

— Meu caro senhor, meu caro senhor, acudiu o homem- 
sinho, pondo o chapéo em cima da mesa. Faça obsequio de 
reflectir — veja lá. Scandalum magnatum, diffamação de ca- 
racter, acção de perdas e damnos. Tranquillise-se, meu caro 
senhor, por obsequio. . . 

— Pois atreve-se a roubar minha irmã de minha casa ? 
disse o velho. 

— Isso — isso — muito bem, disse o homemsinho, isso 
pode o senhor perguntar. Pois atreve-se — hein, senhor? 

— Quem demónio é o senhor ? perguntou o sr. Jingle, com 
expressão tão feroz, que o sujeitinho recuou involuntaria- 
mente um ou dois passos. 

— Quem é elle ? Descarado I interrompeu Wardle. E' o 
meu procurador, o sr. Perker, de Gray's Inn. Perker, eu o que 
quero é que me persigam este tvpo — que o mettam em pro- 
cesso. — O que eu quero ... o que eu quero é . . . diabos me 
levem, pól-o á dependura. E a senhora, continuou Wardle, 
virando-se bruscamente para a irmã, a senhora, n'uma idade 
em que devia ter juizo, que doidice foi essa de se safar com 
um vagabundo, deshonrando a sua família, infelicitando- se a 
si própria ? Ponha o chapéo, e venha comigo. Chame cá uma 
carruagem, depressa, e traga a conta d'esta senhora, ouviu — 
ouviu ? 

— Prompto, senhor, replicou Sam, que respondera á vio- 
lenta campainhada de Wardle com uma presteza que parece- 



1)0 SR. PICKWICK 



ria admirável a quem não soubesse que elle tivera durante 
toda a entrevista um dos olhos applicado ao buraco da fe- 
chadura. 

— Ponha o chapéo, ande, repetiu Wardle. 

— Isso é que não ! disse Jingle. Saia o senhor d'este quarto 
— não tem aqui que cheirar — senhora com liberdade de fa- 
zer o que quizer — passa dos vinte e um annos. 

— Passa dos vinte e um 1 exclamou desdenhosamente 
Wardle. Passa até dos quarenta e um I 

— Não passo tal, disse a donzellona, cuja indignação le- 
vou de vencida a resolução de desmaiar. 

— Passa tal, replicou Wardle. Tem cincoenta e um bem 
puxados. 

N'isto a solteirona deu um grande grito e cahiu sem sen- 
tidos. 

— Um copo de agua, gritou o caritativo Pickwick, cha- 
mando a estalajadeira. 

— Um copo de a^^ua ! disse Wardle cheio de cólera. 
Traga, mas é um balde para lhe despejar na cabeça ; ha de 
fazer-lhe bem, e é o que ella merece a valer. 

— Safa! que bruto! exclamou a compassiva estalajadeira. 
Coitadinha! — então, minha rica senhora — vamos — beba 
uma pinguinha — ha de fazer-lhe bem — não esmoreça — 
pobre senhora ! 

E com estas e outras exclamações do mesmo jaez, a es- 
talajadeira, ajudada por uma criada, tratou de humedecer 
com vinagre a testa, de dar palmadas nas mãos, de fazer có- 
cegas no nariz e de desapertar o corpete da solteirona, e de 
lhe administrar outros que taes restaurativos usualmente ap 
plicados pelas mulheres sensíveis ás damas que se empenham 
em arranjar um ataque de nervos. 

— A carruagem está prompta, senhor, disse Sam appare- 
cendo á porta. 

— Venham d'ahi, gritou Wardle. Eu carrego com ella pela 
escada abaixo. 

A esta proposta, começou outro ataque de nervos com 
duplicada violência. A estalajadeira dispunha-se a formular 
um enérgico protesto contra tal procedimento, e já desaba- 
fara perguntando irritado se o sr. Wardle se suppunha o rei 
da creação, quando sr. Jingle interveiu, 



1^4 ^^S AVENTURAS 



— Rapaz, disse elle, vá-me chamar um policia. 

— Esperei espere! disse o sr. Perker. Pense bem, senhor, 
pense bem. 

— Não tenho que pensar, repHcou Jingle, eila é senhora 
das suas acções — ver quem é que se atreve a leval-a — sem 
ella querer. ' 

— Não quero que me levem, murmurou a solteirona, não 
consinto 

Os nervos tiveram uma recahida medonha. 

— Meu caro senhor, disse o homemsinho em voz baixa, 
tomando de parte os srs. Wardle e Pickwick. Nós estamos 
n'uma situação muito embaraçosa, muito. E' um caso afflicti- 
vo; mais afflictivo do que isto nunca vi; mas, realmente, meu 
caro senhor, realmente nós não temos voz activa sobre os 
actos d'esta senhora. Eu preveni o antes de virmos, meu caro 
senhor, que nãx> ha nada a fazer senão uma composição. 

Houve um curto silencio. 

— Que espécie de composição recommendaria o senhor? 
interrogou o sr. Pickwick^ 

— Eu lhe digo, meu caro senhor, aqui o nosso amigo está 
n'uma posição desagradável — muitíssimo desagradável. Te- 
mos de nos resignar a alguma perda pecuniária. 

— Antes isso, do que sujeitar-me a uma deshonra e dei- 
xal-a a ella fazer-se infeliz por toda a vida, disse Wardle. 

— Quer-me p-arecer que tudo se ha de arranjar, disse o 
activo homemsinho. Sr. Jingle, quer dar-se ao incommodb de 
vir comnosco um momento aqui ao quarto contíguo ? 

O sr. Jingle accedeu, e o quartetto entrou n'um aposento 
vasio. 

— Ora, agora, diga-me o senhor, disse o homemsinho, de- 
pois de fechar cuidadosamente a porta, não haverá meio de 
compor este negocio — venha para aqui, senhor, venha um 
instante para o vão d'esta janella, onde podemos estar sós — 
exacto, aqui mesmo, tenha a bondade de se sentar. Agora, 
meu caro senhor, aqui para nós, estamos fartos de saber que 
o meu caro amigo se safou com aquella senhora por amor do 
dinheiro d'ella. Não franza a testa, homem de Deus; isto fica 
aqui entre nós. Ambos nós somos homens de boa sociedade, 
e sabemos perfeitamente que aqui os nossos amigos não são. . . 
hein ? 



DO SR. PICKWICK l55 



A physionomia do sr. Jingle foi-se illuminando pouco a 
pouco; e o olho esquerdo tremeu por um instante com o 
quer que era muito parecido com uma piscadella. 

— Muito bem, muito bem, disse o homemsinho percebendo 
a impressão que fizera. Ora o que c facto é que a dama nada 
ou pouco mais tem de um punhado de libras até á morte da 
mãe, uma senhora robusta, meu caro senhor. 

— Velha, disse o sr. Jingle, com laconismo, mas com ener- 

— Lá isso é, disse o procurador tossindo ligeiramente. O 
senhor tem rasão, ella já está velhita. Mas olhe que vem de 
uma velha familia, meu caro senhor; velha em toda a acce- 
pção da palavra. O fundador d'essa familia veiu para o con- 
dado de Kent, quando Júlio Gesar invadiu a Grã-Bretanha — 
e desde então, apenas um membro d'ella é que não viveu até 
aos oitenta e cinco annos, e é porque esse foi decapitado por 
um dos Henriques. A velha dama ainda não tem setenta e 
três, meu caro senhor. 

O homemsinho calou-se, e tomou uma pitada. 

— E então .'' exclamou o sr. Jingle. 

— Então, meu carç senhor — não toma rapé .'* — ah ! tanto 
melhor — é um vicio dispendioso. Então, meu caro senhor, o 
senhor é um bonito moço, muito bem educado — muito ca- 
paz de arranjar fortuna, se tivesse capital, hein ! 

— E então ? repetiu o sr. Jingle. 

— Não me comprehende ? 

— Nem por isso. 

— Não lhe parece — isto, meu caro senhor, é lembrança 
minha, não lhe parece — que cincoenta libras e mais a li- 
berdade seriam preferiveis a Miss Wardle com a especta- 
tiva ?. . . 

— Deixe-se d'isso ! — nem o dobro ! disse o sr. Jingle er- 
guendo-se. 

— Qual 1 meu caro senhor, teimou o procurador agarran- 
do-o por um botão. Olhe que é uma linda quantia — um ho- 
mem como o senhor é capaz de a triplicar emquanto o demo 
esfrega o olho — com cincoenta libras faz-se muita cousa, 
meu caro senhor. 

— Ainda mais se faz com cento e cincoenta, replicou o sr. 
Jingle. 



IDb AS AVENTURAS 



— Bem, meu caro senhor, não percamos tempo por dá cá 
aquella palha. Vá lá — vá lá — setenta. 

— Deixe-se d'isso ! 

— Não se vá embora, meu caro senhor — não esteja com 
pressa, disse o homemsinho. Oitenta ; venha cá ; vou-lhe já 
passar o cheque. 

— Deixe se d'isso I 

— Bem, meu caro senhor, bem, disse o procurador sem o 
largar. Diga então quanto quer. 

— Negocio dispendioso, disse o sr. Jingle. Muita maquia 
para tora da algibeira — nove libras de posta; três de licença 
— doze — cem de indemnisação — faz cento e doze. — Que- 
bra de honra — e perda de dama. . . 

— Sim, meu caro senhor, interrompeu o procurador com 
ar malicioso. Escusamos de fallar nos dois últimos artigos. 
São cento e doze — ponhamos cem — vá lá I 

— Cento e vinte, disse o sr. Jingle. 

— Vá lá I vou-lhe passar o cheque, disse o homemsinho, 
sentando-se á mesa para esse fim, e continuando com um 
olhar de intelligencia para o sr. Wardle. Pagável depois de 
amanhã ; e entretanto nós levamos a senhora. ' 

— O sr. Wardle fez com mau humor um signal de assen- 
timento. 

— Cem, disse o homemsinho. 

— E mais vinte, disse o sr. Jingle. 

— Meu caro senhor, objectou o sr. Perker, 

— Dê-lh'as, interveiu o sr. Wardle, e que se ponha a andar. 
O procurador passou o cheque e o sr. Jingle embol- 

sou-o. 

— Agora, saia immediatamente d'esta casa ; disse Wardle 
pondo-se em pé. 

— Meu caro senhor, acudiu o homemsinho. 

— E lembre-se, disse o sr. Wardle, que nada me teria in- 
duzido a fazer esta conciliação — nem mesmo a considera- 
ção pela minha familia — se eu não estivesse certo que, com 
esse dinheiro na algibeira, vossê vae para o diabo mais de- 
pressa, do que se o não tivesse. . . 

— Meu caro senhor, acudiu de novo o procurador. 

— Cale a bocca, Perker, continuou Wardle. E o senhor 
ponha-se no andar da rua I 



DO SR. PICKWICK 1^7 



— N'um rufo, disse Jingle, com imperturbável descara- 
mento. E adeusinho, Pickwick. 

Se qualquer espectador desinteressado podesse ter con- 
templado o semblante do homem illustre, cujo nome realça 
no titulo do presente livro, ficaria quasi espantado por o fogo 
de cólera que lhe lampejava nos olhos não lhe ter derretido 
os vidros dos óculos. 

Dilataram-se-lhe as ventas, cerraram-se-lhe involuntaria- 
mente os punhos, ao ouvir que o miserável lhe dirigia a pa- 
lavra. Mas conteve-se mais uma vez — não o reduziu a pó. 

— Aqui tem ! continuou o contumaz velhaco, atirando 
com a licença aos pés do sr. Pickwick. E' só mudar o nome 
— levar para casa a donzella — ainda serve para Tuppy. 

O sr. Pickwick era philosopho, mas os philosophos não 
passam afinal de contas de homens cobertos de uma arma- 
dura. 

Aquella setta alcançou-o, penetrou atravez do seu arnez 
philosophico, até chegar-lhe ao coração. 

No cumulo do furor, atirou á doida com o tinteiro para 
diante de si, e seguiu-o na mesma direcção. 

Mas o sr. Jingle sumira-se, e elle achou-se preso entre os 
braços de Sam. 

— Que é lá isso! bradou este excêntrico servo, lá na sua 
terra a mobilia é muito barata. A modo que esta tinta escreve 
por si. Deixou-lhe a firma ali na parede, meu velho. Deixe-se 
estar, senhor : para que diacho serve correr atraz de um su- 
jeito que vae contente como um rato, e que a estas horas já 
está lá no fim do Borough ? 

O espirito do sr. Pickwick, como. o de todos os homens 
verdadeiramente grandes, era accessivel á persuasão. Elle era 
um argumentador rápido e poderoso ; e um momento de re- 
flexão lhe bastou para perceber a impotência do seu furor. 
Por isso abrandou tão depressa como se exaltara. Arquejou, 
e lançou um olhar benévolo aos seus amigos que o cerca- 
vam. 

Será necessário contar os lamentos de Miss Wardle, 
quando se viu desamparada pelo pérfido Jingle ? summariar 
a primorosa descripção, feita pelo sr. Pickwick, d'esta scena 
dilacerante í 

Temos aberto diante de nós o seu livro de notas, man- 



AS AVENTURAS 



chado com as lagrimas da mais humana commiseração. Uma 
palavra só, e essas notas irão para as mãos do impressor I 
Mas não I teremos força de vontade ! Não torturemos o cora- 
ção do publico com a pintura de tamanho sofFrimento ! 

Devagar e tristemente voltaram no dia seguinte os dois 
amigos e a desamparada dama na pesada diligencia de Mug- 
gleton. 

Negras e melancólicas cahiam sobre a natureza as som- 
bras de uma noite estival, quando elles chegaram finalmente 
a Dingley Dell, e se apeiaram á entrada de Manor Farm. ^ 



CAPITULO XI 

Contendo uma outra jornada, e uma descoberta 
archeologíca; exarando a resolução do sr. Píck- 
^^ick de assistir a uma eleição; e inserindo um 
manuscripto do velho vigário. 

Uma noite de repouso no profundo silencio de Dingley 
Deil e o respirar durante uma hora da manha seguinte aquelle 
ar fresco e perfumado, restauraram completamente o sr. Pick- 
Avick dos eífeitos da fadiga corporal e da anciedade espiri- 
tual. 

Dois dias inteiros tinha aquelle homem eminente estado 
separado dos seus amigos e discípulos ; e foi com um rego- 
sijo, que a imaginação humana mal pode devidamente con- 
ceber, que elle correu a saudar os srs. Winkle e Snodgrass, 
ao encontrai- os na volta do seu passeio matutino. 

Esse regosijo era mutuo; pois quem poderia sequer fitar 
a radiante physionomia do sr. Pickwick sem experimentar 
um tal sentimento .^ 

Uma nuvem, porém, parecia ainda empanar o rosto dos 
seus companheiros, a qual não podia passar desapercebida ao 
grande homem, embora se perdessem em conjecturas para 
lhe adivinhar o motivo. 

Ambos elles tinham um aspecto mysterioso, tão extraor- 
dinário como assustador. 

— E então, disse o sr. Pickwick, depois de apertar as mãos 



no SR. pi(:kwi(:k idq 



dos discípulos, e trocado eííusivas saudações, como vae Tup- 
man ? 

O sr. Winkle, a quem mais particularmente se diriííia a 
pergunta, não deu resposta. Voltou a cabeça para o lado, e 
pareceu embebido em retiexóes melancólicas. 

— Snodgrass, disse o sr. Pickwick anciosamtinte, como 
está o nosso amigo. Dar-se-ha o caso que esteja doente ? 

— Não, replicou o sr. Snodgrass ; e uma lagrima lhe tre- 
meluzia na pálpebra sentimental, como uma gotta de chuva 
no caixilho de uma janella. Não; não está doente. 

O sr. Pickwick estacou, olhando alternadamente para cada 
um dos amigos. 

— Winkle — Snodgrass, disse o sr. Pickwick, que signi- 
fica isto ? Onde está o nosso amigo ? Que succedeu r Falle — 
rogo-lhes, imploro-lhes — por outra, ordeno-lhes que fallem. 

Havia uma tal magestade nos modos do sr. Pickwick, que 
não se lhe podia resistir. 

— Foi-se embora, disse o sr. Snodgrass. 

— Foi-se I exclamou o sr. Pickwick, foi-se ! 

— Foi-se, repetiu o sr. Snodgrass. 

— Para onde ? exclamou o sr. Pickwick. 

— Apenas o podemos conjecturar, por esta communica- 
ção, replicou o sr. Snodgrass tirando uma carta da algibeira 
e passando- a ás mãos do amigo. Hontem de manhã, quando 
se recebeu uma carta do sr. Wardle, participando que á noite 
estariam de regresso com a irmã d'elle, reparámos que a me- 
lancolia que pairara sobre o nosso amigo durante todo o dia 
precedente parecia crescer ainda. Pouco depois elle desappa- 
receu ; durante o dia inteiro ninguém lhe poz a vista em cima, 
e á noitinha chegou esta carta trazida pelo moço da Coroa, 
de Muggleton. Tinham-lh'a deixado nas mãos, pela manhã, 
com ordem terminante de não ser entregue antes da noite. 

O sr. Pickwick abriu a epistola. Era da letra do seu amigo, 
e era o seguinte o conteúdo : 

«Meu caro Pickwick. 

<'0 meu bom amigo está collocado muito acima do al- 
cance de muitas fragilidades e fraquezas humanas que aos 
entes vulgares não é dado vencer. 

"Não sabe que profundo golpe é o ser abandonado por 



lOO AS AVENTURAS 



uma creatura seductora e adorável, e ao mesmo tempo ser 
victima de um miserável que occultava as suas artimanhas 
velhacas sob a mascara da amisade. Que o não saiba nunca, 
é o que eu lhe desejo. 

"(2hegar-me-ha ás mãos qualquer carta endereçada á Bo- 
tija de couro, em Cobham, Kent — caso eu ainda exijta. 

«Afasto-me de uma parte do mundo que se me tornou 
odiosa. 

«Se de todo o abandonar, lastime-me — perdôe-me. A 
vida, meu caro Pickwick, tornou-se-me insupportavel. O es- 
pirito que dentro em nós fiammeja é como as cordas de um 
carregador, nas quaes descançamos o peso enorme dos cui- 
dados e dos desgostos d'este mundo; quando esse espirito 
nos falta, o fardo é em demasia pesado. Succumbimos de- 
baixo d'elle. Pôde dizer a Rachel... Ah! este nome! este 
nome ! 

«Tract/ Tupman.» 

— Temos de partir immediatamente, disse o sr. Pickwick 
dobrando a carta. Não seria decente ficarmos aqui, em caso 
algum, depois do que aconteceu ; e agora temos obrigação 
de ir em cata do nosso amigo. 

E dizendo isto, tomou o caminho da casa. 

As suas intenções foram depressa communicadas. Vehe- 
mentes foram as instancias para que ficassem, mas o sr. Pick- 
wick foi inflexível. Os negócios, disse elle, exigiam a sua pre- 
sença immediata. O velho vigário estava presente. 

~ Deveras, vae-se embora ? disse elle, tomando de parte 
o sr. Pickwick, o qual reiterou a sua resolução. 

— Então, disse o velho, aqui tem um pequeno manuscri- 
pto, que eu esperava ter o prazer de lhe ler eu próprio. 
Achei-o por morte de um amigo meu — medico no hospital 
dos doidos aqui do condado — entre um grande numero de 
papeis, que eu tinha a faculdade de destruir ou de guardar, 
conforme entendesse. Custa-me a crer que elle seja authen- 
tico, comquanto a letra não seja com certeza do meu amigo. 
Gomtudo, quer seja realmente obra de um maniaco, quer 
seja fundado sobre os desvarios de qualquer desgraçado, o 
que me parece mais provável, leia- o sempre e ajuíze por si 
próprio. 



J 



IK) -^R. PICKWICK l6l 



O sr. Pickwick recebeu o manuscripto, e apartou-se do 
bondoso ancião com muitas expressões de estima e de afFe- 
cto. 

Mais dirticil tarefa foi o despedir-se da gente de Manor 
Farm, de quem elles haviam recebido uma tão franca e amá- 
vel hospitalidade. 

O sr. Pickwick beijou as meninas — iamos dizer, como se 
fossem suas próprias filhas, somente não seria de todo apro- 
priada a comparação, visto que as eftlisões talvez tivessem 
sido um pouco mais calorosas do que seriam n'aquelle caso. 

Abraçou a velha dama com cordialidade filial, acariciou 
as bochechas róseas das criadas de uma maneira bem pa- 
triarchal, dei.\ando-lhes nas mãos algumas provas substan- 
ciaes do seu reconhecimento. 

Mais cordial ainda e mais prolongada foi a troca de pro- 
testos com o velho e excellente hospedeiro e com o sr, Trun- 
dle ; chamou-se repetidas vezes pelo sr. Snodgrass, o qual 
surgiu afinal de um corredor escuro, seguido logo por Emilv 
(cujos olhos haviam perdido o brilho habitual), e só depois 
d'isso é que os três amigos conseguiram arrancar-se d"entre 
os braços que tão amavelmente os haviam acolhido. 

Ao afastarem-se lentamente, não faltaram olhares saudo- 
sos lançados sobre Manor Farm ; nem beijos atirados ao ar- 
pelo sr. Snodgrass, correspondendo a qualquer cousa muito 
parecida com um lenço de senhora, que íiuctuava em uma 
das janellas de cima, até que a velha casa se perdeu de vista, 
a uma volta da estrada. 

Em Muggleton arranjaram transporte para Rochester. Ao 
chegarem a esta povoação, abrandára-lhes o desgosto ao 
ponto de não lhes tirar o appetite para um excellente jan- 
tar. E, informados convenientemente sobre o caminho, os três 
amigos seguiram á tarde, a pé, até Cobham. 

Foi um lindo passeio : porque estava uma tarde magnifica 
de junho, e a estrada cortava atravez de um bosque cerrado 
e sombrio, refrescado pela aragem que rumorejava na copada 
folhagem, e animado pelo gorgear dos pássaros pousados nos 
ramos. 

A hera e o musgo trepavam em massas densas pelas ve • 
lhas arvores, e a relva macia alastrava-se pelo chão como um 
tapete de seda verde. 

I I 



02 AS AVENTURAS 



D'ahi sahiram para um parque aberto, com um solar an- 
tigo, ostentando a architectura orÍL;inal e pittoresca do tempo 
de Izabel. 

Desenrolavam-se para todos os lados longas perspectivas 
de magníficos carvalhos e olmeiros : grandes rebanhos de 
gamos anda\am a pastar a herva fresca; e uma vez por ou 
tra uma lebre assustada abalava pelo campo com a veloci- 
dade das sombras projectadas pelas nuvens ligeiras que se 
escoam atravez de uma paisagem cheia de sol, como um há- 
lito passageiro do verão. 

— Se fosse este, disse o sr. Pickwick olhando em redor, 
se fosse este o sitio para onde se retirassem todos os que pa- 
decem da moléstia do nosso commum amigo, affigura-se-me 
que lhes havia de voltar bem depressa o seu antigo apego ao 
mundo. 

— Também me parece, disse o sr. Winkle. 

— E realmente, ajuntou o sr. Pickwick, ao chegar á al- 
deia, depois de meia hora de passeio, realmente, para um mi- 
santhropo, é este um dos sitios mais lindos e mais appeteci- 
veis para habitar que tenho visto na minha vida. 

Os srs. Winkle e Snodgrass concordaram com esta opi- 
nião ; guiados que foram para a Botija de couro, estalagem 
de aldeia commoda e limpa, os três viajantes entraram e per- 
guntaram logo por um sujeito de nome Tupman. 

— Tom, leve estes senhores á sala, disse a estalajadeira. 
Um robusto camponez abriu uma porta no extremo do 

corredor, e os três amigos entraram n'um aposento sobre o 
comprido, de tectos baixos, mobilado com um grande numero 
de cadeiras de couro, de costas altas, de formas phantasticas, 
e ornamentado com uma extrema variedade de retratos ve- 
lhos e de estampas grosseiramente coloridas de tempos idos. 

No extremo da sala estava uma meza posta, com uma toa- 
lha branca, e sobre ella uma ave assada, presunto, cerveja, 
etc, etc. •, e á mesa estava sentado o sr. Tupman, parecendo 
o menos possivei um homem que se tinha despedido d'este 
mundo. 

A' entrada dos amigos, pousou o garfo e a faca, e foi ao 
seu encontro com aspecto tristonho. 

— Não esperava vêl-os aqui, disse elle, apertando a mão 
do sr. Picl-wick. Que bondade a sua I 



DO SR. PICKVVICK l63 



— Ah ! disse o sr. Pickwick sentando-se, e enxugando a 
transpiração que o passeio lhe trouxera á testa. Acabe de 
jantar, e venha dar um passeio comigo Desejo fallar-lhe a 
sós. 

O sr. Tupman assim fez ; e o sr. Pickwick, tendo-se re- 
frescado com uma copiosa golada de cerveja, esperou pelo 
amigo. O jantar concluiu-se n'um prompto, e elles sahiram 
juntos. 

Durante meia hora se poderiam ter divisado os seus vul- 
tos, medindo a passos lentos o cemitério, emquanto o sr. 
Pickwick se empenhava em combater a resolução do amigo. 
Seria inútil qualquer repetição dos seus argumentos ; pois em 
que linguagem se poderiam transplantar a energia e a força 
communicada pelos eminentes lábios que as pronunciavam 1 
Pouco importa saber se o sr. Tupman já estava aborrecido 
da solidão, ou se foi de todo incapaz de resistir ao eloquente 
appello que lhe era feito : o que é facto é que não resistiu. 

Pouco lhe miportava, dizia elle, onde havia de arrastar os 
míseros restos dos seus dias : e desde que o seu amigo tanto 
interesse mostrava pela sua humilde companhia, de boa von- 
tade tomaria parte nas suas aventuras. 

O sr. Pickwick sorriu, apertaram-se as mãos, e ambos vol- 
taram para junto dos companheiros. 

Foi n'essa occasião que o sr. Pickwick fez aquella desco- 
berta immortal, que constituiu o orgulho e a gloria dos seus 
amigos, e a inveja de todos os archeologos do paiz e do es- 
trangeiro. 

Tinham passado além da porta da estalagem e já não se 
recordavam bem onde ella ficava, perdidos nas ruas da al- 
deia.* 

Ao voltarem para traz, o olhar do sr. Pickwick cahiu so- 
bre uma pequena pedra partida, meio enterrada, defronte de 
uma choupana. 

Parou. 

— E' extraordinário! exclamou elle. 

— Extraordinário, o que ? perguntou o sr. Tupman, de 
olhos abertos para todos os objectos pioximos, excepto para 
aquelle a que se alludia. Ora essa! o que vem a ser isso? 

Esta ultima exclamação de irresistível surpreza foi produ- 
zida pelo facto de ver o sr. Pickwick, no seu enthusiasmo 



164 AS AVENTURAS 



por descobertas, cahir de joelhos diante da pedra, e come- 
çar a sacudir-lhe o pó com o seu lenço. 

— Aqui ha uma inscripçáo, disse elle. 

— E' possivel ? 

— Posso distinguir, continuou o sr. Pickwick esfregando 
com toda a força e esgazeando a vista atravez dos óculos, 
posso distinguir uma cruz, e um B, e um T. Isto é muito im- 
portante, proseguiu elle erguendo-se. E' alguma inscripção 
antiquissima, que existia porventura muito antes dos anti- 
gos albergues ^ aqui do sitio. Não se pode perder. 

Bateu á porta da choupana. Abriu-lh'a um trabalhador. 

— Sabe £omo veiu aqui parar esta pedra, meu amigo ? 
perguntou o sr. Pickwick com affabilidade. 

— Eu sei lá, senhor! replicou delicadamente o homem. 
Ella já estava aqui antes de eu ser nascido ou qualquer ou- 
tro aqui da aldeia. 

O sr. Pickwick relanceou um olhar triumphante para o 
companheiro. 

— Vossemecê — vossemecê — não lhe tem grande apego, 
supponho, eu, disse o sr. Pickwick, tremulo de anciedade. 
Não se lhe dava vender isto, hein .'' 

— Ora! quem é que a quer comprar? perguntou o ho- 
mem com uma expressão que elle provavelmente tinha na 
ideia fazer muito sagaz. 

— Eu dou-lhe já dez shillings por ella, disse o sr. Pick- 
wick, se vossemecê a quizer desenterrar para mim. 

Arrancada a pedra com umaenxadada, facilmente se pôde 
imaginar o espanto de toda a aldeia, ao verem o sr. Pick- 
wick, á custa de um grande esforço, leval-a por suas próprias 
mãos para a estalagem e collocal-a sobre a mesa, depois de 
a ter lavado cuidadosamente. 

O jubilo dos pickwickanos não teve limites, quando a sua 
paciência e a sua assiduidade, as suas lavagens e as suas ras- 
pagens foram coroadas de êxito. 

A pedra era áspera e quebrada, e os caracteres desalinha- 



' Altns-hoiises, albergues para velhos pobres em muitas povoações da 
Inglaterra. 



DO SR. PICKWICK l65 



dos e irregulares, mas decifrava se claramente o seguinte 
fragmento de uma inscripção: 



T 

B I L S T 

U M 

P S S U 

A F 
IRMA 

Os olhos do sr. Pickwick lampejavam de alegria, quando 
se sentou a rever-se no thesouro que descobrira. 

Tinha conseguido um dos máximos objectos da sua am- 
bição. 

*N'uma provincia conhecida por abundar em restos de 
tempos primitivos, numa aldeia onde existiam ainda algu- 
mas memorias das épocas passadas, elle — elle, o presidente 
do Club Pickwick — -descobrira uma inscripção estranha e 
curiosa, de incontestável antiguidade, a qual escapara com- 
pletamente á observação dos muitos sábios que o haviam 
precedido. Custava-lhê a crer no testemunho dos seus pró- 
prios sentidos. 

— Isto, disse elle, resolve-me. A'manhã voltamos para a 
cidade. 

— A'manhã! exclamaram os seus discipulos e admirado- 
res. 

— A'manhã, disse o sr. Pickwick. Este thesouro tem de 
ser immediatamente depositado em sitio onde o examinem 
detidamente e o interpretem como convém. Tenho ainda ou- 
tro motivo para dar este passo. D'aqui a poucos dias, reali- 
sam-se as eleições pelo burgo de Eatanswill, onde o sr. Per- 
ker, um sujeito com quem ultimamente me relacionei, é agen- 
te de um dos candidatos. Iremos observar e examinar por 
meudos uma scena tão interessante para todo o inglez. 

— Iremos, foi o grito enthusiasta de três vozes. 
O sr. Pickwick olhou em volta de si. 

A dedicação e o fervor dos seus apaniguados accendeu 



[ÒO AS AVENTURAS 



dentro d'elle uma chamma de enthusiasmo. Por seu chefe o 
tinham ; bem o sentia elle. 

— Celebremos este alegre encontro com uma libação cheia 
de affecto, disse elle. 

Como a primeira proposta, foi esta acolhida com applau- 
sos unanimes. 

E tendo em pessoa depositado a importante pedra n'um 
pequeno caixote de pinho, propositadamente comprado á es- 
talajadeira, sentou-se á cabeceira da meza n'uma cadeira de 
braços ; e consagrou-se a noite á alegria e á conversa- 
ção.* 

Eram mais de onze horas, alta noite na pequena aldeia de 
Cobham, quando o sr. Pickwick se recolheu ao quarto que 
fora preparado para a sua recepção. 

Escancarou as gelosias, e pondo a luz em cima da meza, 
cahiu em fundas cogitações sobre os acontecimentos que se 
haviam precipitado durante os dois dias precedentes 

Tanto a hora como o logar eram favoráveis á medita 
cão ; o sr. Pickwick foi arrancado a ella pelo relógio da egre- 
ja que dava meia noite. 

A primeira badalada resoou-lhe solemnemente nos ouvi 
dos, mas quando o sino se calou, pareceu-lhe insupportavel 
o silencio ; — apertou se-lhe o coração, como se houvesse 
perdido um companheiro. 

Estava nervoso e excitado ; e despindo-se á pressa, e col- 
locando a luz no fogão, metteu-se na cama. 

Não ha ninguém que não tenha experimentado o es- 
tado desagradável de espirito, em que uma sensação de can- 
saço corporal luta debalde contra a insomnia. 

Tal era n'esse momento a situação do sr. Pickwick: vi- 
rou-se primeiro para um lado, depois para outro; e teimou 
em fechar os olhos como para chamar o somno. 

Debalde. 

Quer fosse o exercicio desacostumado a que se entregara, 
quer o calor, ou o grog, ou o estranhar a cama — fosse o que 
fosse, voltavam-lhe desagradavelmente os pensamentos para 
as pinturas tristonhas que vira no pavimento térreo, e para 
as velhas his'orias a que ellas haviam dado origem na con- 
versação da noite. 

Depois de se revolver meia hora na cama, chegou á pouco 



no SR. piCKWiCK 1G7 



satisfactoria conclusão de que era escusado tentar adorme- 
cer; portanto levantou-se e vestiu-se á ligeira. 

Tudo era preferível, pensava elle, a estar ali deitado a 
imaginar toda a espécie de horrores. 

Olhou para fora — estava escuríssimo. Passeou pelo quarto 
— tudo silencio e isolamento. 

Dera alguns passeios da janella para a porta, e da porta 
para a janella, quando lhe occorreu pela primeira vez o ma- 
nuscripto do vigário. 

Relia ideia ! Se não conseguisse interessal-o, pode ser que 
o adormecesse, 

Tirou-o da algibeira, e puxando uma mezita para junto 
da cama, espevitou a luz, poz os óculos, e dispoz-se para a 
leitura. 

A letra era singular, e o papel muito enxovalhado e man- 
chado. 

O titulo também lhe produziu um sobresalto de arrípio ; 
e não pôde eximir-se a lançar um olhar inquieto pelo quarto. 
Comtudo, reflectindo no disparate de ceder a táes sentimen- 
tos, tornou a espevitar a luz, e leu o seguinte : 



"Sim, de um doido 1 • 

"Como esta palavra me teria dado terríveis rebates no co- 
ração, aqui ha muitos annos ! 

"Como teria excitado o pavor que ás vezes costum.ava as- 
saltar-me fazendo-me latejar e silvar o sangue pelas veias fora 
até que o orvalho gelado do medo me cobrisse a pelle em 
grossas gotas e os meus joelhos batessem um no outro de 
terror 1 

"E agora apraz-me essa palavra! E'um bellonome ! Mos- 
trem-me lá um mon?rcha, cujo sobrecenho de cólera seja te- 
mido como o lampejar dos olhos de um doido ; cuja forca e 
cujo machado tenham metade da certeza que possuem as 
garras de um doido ! Oh ! oh ! grande cousa é ser doido ! ser 
espreitado á laia de leão feroz atravez de umas grades de 
ferro — ranger os dentes e ulular durante a noite silenciosa e 



id8 as aventuras 



longa, ao retinido alegre de uma pesada cadeia — rolar-se e 
enroscar-se por entre a palha, nos transportes causados por 
essa estrepitosa musica ! Viva o hospital dos doidos ! Oh ! 
que deliciosa mansão que elle é I 

"Recordo-me do tempo em que eu tinha receio de endoi- 
decer; quando eu acordava em sobresalto, e cahia de joe- 
lhos, e rezava para ser poupado ao flagello da minha raça; 
quando eu me arrancava do espectáculo da alegria ou da fe- 
licidade, para me occultar n'algum sitio isolado, e gastar as 
horas de tédio a espreitar os progressos da febre que me de- 
via consumir o cérebro. 

«Eu bem sabia que a loucura me estava misturada no san- 
gue, e na medulla dos ossos ; que passara uma geração isenta 
da medonha praga, e que eu era o primeiro em quem ella 
devia reviver. 

«Eu bem sabia que tal devia succeder : que sempre assim 
fora, e que assim devia continuar para sempre; e quando eu 
me agachava n'algum canto obscuro de uma casa cheia de 
gente, e via as pessoas a segredarem, e a apontarem, e a vol- 
tarem os olhos para mim, eu sabia que ellas estavam a fallar 
umas ás outras do doido predestinado; e de novo me sumia 
para o isolamento, a parafusar tristemente. 

«Assim fiz durante annos seguidos, longos, longos annos. 
As noites aqui são ás vezes longas - - longas em extremo ; mas 
nada são comparadas com as noites de desassocego e de pe- 
sadelos terríveis que eu tj^iha então. 

«Gela-me todo o lembrar-me d'ellas. 

«Pelos cantos do quarto rojavam-se uns vultos enormes e 
torvos, que vinham curvar-se de novo sobre o meu leito, a 
tentarem me para a loucura. 

«Diziam-me baixinho, muito baixinho, que o chão da ve- 
lha casa, em que morrera o pae de meu pae, estava manchado 
com o sangue d'elle, derramado pelas próprias mãos n'um 
accesso furioso de loucura. 

"Eu mettia os dedos pelos ouvidos, mas os seus gritos en- 
travam- me na cabeça, até que o quarto tremia á força d'elles, 
dizendo- me que a loucura estivera incubada na geração ante- 
rior á de meu avô, mas que o avô d'elle vivera annos e annos 
com as mãos agrilhoadas ao chão, para evitar que se dilace- 
rasse. 



DO SR. PICKWICK lb() 



«Hu sabia que aquellas vozes fallavam verdade — demais 
o sabia. 

«Annos antes o descobrira, embora procurassem todos oc- 
cultar-m'o. 

«Ah ! ah ! eu tinha astúcia de sobejo para elles, apesar de 
me julgarem doido. 

"Ahnal desabou sobre mim o tlagello, e eu pasmei dos 
meus passados terrores. 

«Agora já podia andar por toda a parte, e rir e berrar 
com os melhores d"entre elles. 

«Que estava doido sabia eu, mas elles é que nem sequer 
o suspeitavam. 

"Com que delicias eu Iblgava de pensar na bella peça que 
eu lhes estava pregando, depois de elles andarem que tempos 
a apontar-me e a olhar- me de esguelha, quando eu não es- 
tava doido, mas apenas com medo de endoidecer um dia ! 

"E como eu ria de contentamento, quando estava sósi- 
nho, ao pensar que guardava tão bem o meu segredo e na 
rapidez com que os meus bons amigos deitariam a fugir de 
mim, caso soubessem a verdade ! 

«Quando eu jantava a sós com algum bom patusco amigo 
da frescata, sentia-me capaz de uivar de jubilo, ao pensar 
como elle ficaria pallido e com que promptidão se safaria, sa 
soubesse que o caro amigo, sentado ao pé d'elle, a afiar ume 
faca reluzente, era um doido com todo o poder e com von- 
tade vae não vae de lh'a cravar no coração. Oh ! que alegre 
era aquella vida ! 

"Enriqueci, jorrou sobre mim a opulência, e eu entreguei- 
me a prazeres mil vezes accrescidos pela convicção de que 
guardava bem o meu segredo. 

"Herdei uma propriedade. 

«A lei, de olhos de águia, a própria lei fora illudida, arre- 
messando uma enorme fortuna contestada para as mãos de 
um doido. 

«Onde estava pois o juizo dos homens de entendimento 
são e perspicaz ? 

«Onde estava a habilidade dos legislas, ávidos de desco- 
brir uma incorrecção ? 

«A astúcia de' um louco levara de vencida a todos el- 
les. 



170 AS AVENTURAS 



«'Tinha dinheiro. Como eu era adulado ! Dispendi-o ás 
mãos hirgas. Como eu era elogiado ! Como aquelles tres ir- 
mãos orgulhosos e aucioritarios se humilharam perante mim I 

«Até o velho pae encanecido — que deferência! — que 
respeito ! — que delicada amizade ! — era uma verdadeira ido- 
latria I 

"O velho tinha uma filha, e os rapazes uma irmã ; e todos 
os cinco eram pobres. 

'■Eu era rico; e quando eu casei com a rapariga, vi um 
sorriso de triumpho a brincar nos rostos dos mais necessita- 
dos parentes, ao pensarem no seu bem succedido plano, e na 
bella preza que haviam colhido. 

«Eu é que devia sorrir. Sorrir ! Rir a bandeiras desprega- 
das, e ariancar os cabellos, e rebolar pelo chão com uivos de 
alegria. 

«Mal pensavam elles que a tinham casado com um doido. 

«Esperem. 

«Se o tives5em sabido, acaso a teriam salvado? A felici- 
dade de uma irmã pelo oiro do marido. A mais leve penna 
que eu assopro para o ar pela deslumbrante cadeia que me 
adorna o corpo! N'uma cousa fui eu illudido, apesar de toda 
a minha astúcia. 

«Se eu não estivesse doido — porque nós os doidos, com- 
quanto perspicazes, ficamos às vezes logrados — eu teria 
percebido que a rapariga preferiria ter sido collocada, rigida 
e fria, dentro de um lúgubre caixão de chumbo, a entrar como 
noiva invejada na minha rica e pomposa mansão. Teria per- 
cebido que o coração d'ella pertencia ao mancebo de olhos 
negros, cujo nome eu lhe ouvira uma vez ciciar no seu somno 
inquieto ; e que ella me fora sacrificada, para alliviar a po- 
breza do pae encanecido e dos altivos irmãos. 

«Eu agora não me recordo de figuras nem de semblantes, 
mas o que sei é que ella era linda. 

"Sei que o era; porque nas noites de luar claro, quando 
eu desperto em sobresaho, e tudo é silencio em torno de 
mim, eu vejo, erecto e impassível a um canto d'esta cellula, 
um vulto delicado e macilento de longos cabellos negros, os 
quaes, espadanando-lhe pelas costas abaixo, nem são agita- 
dos por um vento da terra, e de olhos que, fitos em mim, 
nem pestanejam nem se fecham nunca. 



DO SR. PICKWICK 17 



«Schiu! gela-se-me o sangue no coração ao escrever isto 
— aqtielle vulto é o d'e]la ; o rosto é muito pallido, e os olhos 
estão envidraçados ; mas eu bem os conheço. 

"Aquella Hgura nunca se move ; não franze os sobrolhos, 
nem abre a bocca, como outras que ás vezes se agglomeram 
n'este aposento ; mas parece-me muito mais medonha, mesmo 
do que os espiritos que ha muitos annos me tentavam — é 
recem-vinda do tumulo e por isso é tão similhante á morte. 

«Durante quasi um anno vi eu aquelle rosto empallidecer 
cada vez mais; durante quasi um anno, vi as lagrimas desli- 
sarem por aquellas faces tristonhas, e nunca soube o mo- 
tivo, 

«Até que afinal o descobri. Não poderam occultar-m'o 
muito tempo. 

«Ella nunca me tivera amor; eu nunca cuidara que eUa 
m'o tivesse : ella desprezava a minha riqueza, e detestava o 
esplendor em que vivia; — isso é que eu não tinha espe- 
rado. 

"Ella amava outro. Isso é que nunca me havia occorrido. 

«Acudiram-me ao espirito sentimentos estranhos ; e pen- 
samentos incutidos por algum poder secreto me redemoi- 
nharam no cérebro. 

«Eu não a odiava, embora odiasse o homem por quem ella 
chorava ainda. 

«Eu tinha dó — sim, tinha deveras dó — da miseranda vida 
a que a linha condemnado a sua egoista e descaroavel famí- 
lia. 

«Eu sabia que ella não podia viver muito tempo, mas o 
que me determinou foi o pensar que antes de morrer ella 
podia dar á luz algum malfadado ente, destinado a transmit- 
tir a loucura á sua descendência. 

«Resolvi matal-a. 

"Semanas e semanas andei a pensar, primeiro em veneno, 
depois em afogal-a, por fim no fogo. 

«Que soberbo espectáculo, a sumptuosa casa em labare- 
das, e a mulher do doido reduzida a cinzas ! 

«Que bella peça, prometter uma grande recompensa, e 
ver um homem de juizo a bambalear ao vento por um crima 
que não commettera, e tudo isto pela astúcia de um doido! 
Quantas vezes tal pensei ! Mas afinal renunciei á ideia. 



AS AVENTURAS 



"Oh ! que prazer o de amolar dia a dia a navalha, de lhe 
experimentar o gume cortante, e de pensar no golpe aberto 
por essa lamina afiada e brilhante ! 

"Afinal, os espirites, que tantas vezes tinham estado já 
comigo, segredaram-me aos ouvidos que chegara a occasião 
própria e metteram-me na mão a navalha aberta. 

«Empunhei-a com firmeza, ergui-me devagarinho da cama, 
e debrucei-me sobre a minha mulher adormecida. 

«Tinha o rosto escondido nas mãos. 

«Afastei-as de vagar, e ellas recahiram-lhe negligentemente 
sobre o seio. 

«Ella tinha estado a chorar; porque os vestígios das la- 
grimas ainda se lhe viam húmidos nas faces. 

«Tinha o rosto sereno e plácido; e até, quando olhei para 
ella, um sorriso tranquillo illuminou-lhe as pallidas feições. 

«Puz-lhe muito ao de leve a mão no hombro. Ella sobre- 
saltou-se — foi apenas um sonho passageiro. Inclinei-me de 
novo sobre ella. Acordou com um grito. 

«Um movimento da minha mão, e ella nunca mais teria 
soltado um grito, um som apenas. Mas eu assustei-me e re- 
cuei. 

"Ella tinha os olhos fitos nos meus. 

«Não sei como isto era, mas é certo que elles me apavo- 
ravam : sentia-me subjugado por elles. 

«Ella ergueu-se da cama, continuando a encarar-me com 
fixidez e energia. 

«Eu tremia, com a navalha na mão, mas sem me poder 
mover. 

"Ella dirigiu-se para a porta. 

"Ao aproximar-se da sabida, voltou-se e retirou os olhos 
do meu rosto. 

"Quebrára-se o encanto. 

«Dei um pulo, e agarrei-lhe o braço. Ella cahiu no chão, 
soltando clamores agudos. 

«Eu poderia tel-a assassinado então sem luta; mas a casa 
estava em alvoroço. Ouvi o ruido de passos na escada. Tor- 
nei a metter a navalha na gaveta, abri a porta e chamei por 
soccorro em altas vezes. 

«Acudiu gente, levaram-n'a e deitaram-n'a na cama. Es- 
teve horas sem sentidos ; e quando lhe voltou a vida, o olhar 



DO SR. PICKWICK 17:» 



e a falia, tinha-lhe fugido a rasão, e ella desvairava em trans- 
portes de fúria. 

"Chamaram-se médicos — homens eminentes que rola- 
vam até á minha porta em bellas equipagens, com soberbas 
parelhas e criados de librés vistosas. 

"Durante semanas estiveram á cabeceira d'ella. Tiveram 
uma grande conferencia, com falias solemnes, no quarto con- 
tíguo. 

"Um d'elles, o mais hábil e celebre de todos, chamou-me 
de parte, aconselhou-me que me preparasse para a peior das 
noticias, e participou-me — a mim, o doido! — que minha 
mulher estava doida. 

«Estava em pé, mesmo chegado a mim, junto de uma ja- 
nella aberta, com os olhos sobre o meu rosto e a mão no 
meu braço. 

«Com leve esforço poderia tel-o precipitado á rua. 

«Seria uma partida de primeira ordem; mas o meu se- 
gredo estava em risco, e eu deixei- o ir. 

.«Poucos dias depois, disseram-me que devia submettel-a 
a vigilância activa : devia-lhe arranjar um enfermeiro. Eu ! 
eu ! Sahi para o meio do campo, onde ninguém podesse ou- 
vir-me, e ri perdidamente até cansar os echos com as minhas 
gargalhadas 1 

«Ella morreu no dia seguinte. 

«O velho encanecido acompanhou o féretro, e os orgu- 
lhosos irmãos derramaram uma lagrima sobre o cadáver d'a- 
quella, cujos soffrimentos elles tinham contemplado em vida 
com músculos de ferro. 

«Tudo isto foi alimento para os meus júbilos secretos, e 
eu farlei-me de rir por detraz do lenço branco com que co- 
bria o rosto, ao voltarmos para casa, até que as lagrimas me 
chegaram aos olhos, á força de rir. 

«Mas comquanto eu ti^ve^e alcançado o meu fim e a ti- 
vesse matado, fiquei inquieto e agitado, e percebi que dentro 
em pouco o meu segredo seria descoberto. 

«Não conseguia occultar a alegria feroz que fervia dentro 
em mim e me fazia, quando estava sósinho em casa, dar pu- 
los e palmadas, e dansar vertiginosamente, e rugir estrondo- 
samente. 

«Quando eu sabia e via a turba activa a acotovelar-se pe- 



174 -"^S AVENTURAS 



las ruas, ou á porta dos theatros, e ouvia o som da musica, 
e observava gente a dansar, tamanho jubilo sentia, que tinha 
ganas de me precipitar no meio d"elles, e de os lacerar mem- 
bro a membro, e de ulular de extasi. 

«Mas rangia os dentes, batia com os pés no chão, e cra- 
vava nas mãos as unhas atiladas. 

«Dominava-me, e ninguém sabia ainda que eu estava 
doido. 

<'Lembro-me — apesar de ser uma das ultimas cousas de 
que posso lembrar me ; porque eu agora misturo as reali- 
dades com os meus sonhos, e tenho tanto que fazer, e estou 
sempre aqui tão occupado, que não tenho tempo de separar 
as duas cousas, na estranha confusão em que andam envol- 
tas — lembro-me como afinal eu deixei á solta a minha lou- 
cura. 

'f Ah I ah 1 Parece-me ainda ver os olhos espavoridos 
d'aquella gente, e sentir a facilidade com que os afugentei, e 
lhes arrojei o punho cerrado contra os rostos pallidos, e como 
em seguida desatei a correr como o vento, e os deixei atraz 
de mim a clamar, a gritar. 

«Ao lembrar-me d'isto, sinto em mim a força de um gi- 
gante. 

«Olhem — vejam lá como este varão de ferro se curva 
sob um furioso arranco meu. 

"Era capaz de o despedaçar como a um vime, se não hou- 
vesse aqui compridas galerias com muitas portas — não creio 
que podesse dar com o caminho por meio d'ellas : e mesmo 
quando o conseguisse, sei que ha lá em baixo portões de ferro 
que elles teem aferrolhados e trancados. 

«Sabem de sobra que doido astuto eu tenho sido, e sen- 
tem-se vaidosos por me ter aqui em exposição. 

«Deixem- me ver ; — sim, é isto, eu tinha sabido. Era noite 
velha quando eu voltei para casa, e encontrei o mais orgu- 
lhoso dos três orgulhosos irmãos a minha espera — negocio 
urgente, disse elle : récordo-me perfeitamente. 

«Eu odiava aqueile homem com todo o ódio de um 
doido. 

«Quantas e quanias vezes os m.eus dedos tinham anciado 
por o fazer em pedaços 1 

"Disseram-me que elle me esperava. 



no SR. IMCKWICK 1-5 



«Galguei a escada n'um instante. Elle tinha uma palavra a 
dizer-me. 

«Mandei embora os criados. 

«P>a tarde, e nós estávamos os dois juntos — pela pri- 
meira vez. 

"Ao principio desviei d'elle os olhos cautelosamente, por- 
que eu sabia o que elle mal sonhava — e vangloriava-me por 
o saber — que a loucura irradiava d'elles como uma laba- 
reda. 

«Sentámo-nos em silencio durante alguns minutos. Elle 
fallou por fim. 

"As mmhas dissipações recentes e umas observações es- 
tranhas, feitas logo em seguida á morte da irmã, eram um 
insulto á memoria d'ella. 

«Reunindo muitas circumstancias que de começo nao ha- 
via notado, elle pensava que eu não a tratara bem. 

"Desejava saber se elle tinha razão em inferir que eu ti- 
nha na mente lançar um labéo sobre a sua memoria e des- 
considerar-lhe a familia. Devia ao uniforme que usava o pe- 
dir-me esta explicação. 

«Este homem tinha um emprego no exercito — emprego 
comprado com o meu dinheiro e com a desgraça da irmã. 
Era este o homem que maior parte tomara no conluio para 
me illaquearem e lançarem a mão á minha fortuna. 

"Kra este o homem que fora o principal instrumento para 
obrigar sua irmã a desposar-me; sabendo de sobra que o co- 
ração d'ella estava dado áquelle rapazote enfermiço. 

«Devia! devia ao seu uniforme! A libré da sua degrada- 
ção ! 

«Voltei os olhos para elle —não pude resistir — mas não 
dei palavra. 

«Vi a súbita alteração que elle experimentou sob o meu 
olhar. 

«Era um homem arrojado, mas a cor fugiu-lhe das fa- 
ces. 

«Recuou a cadeira, eu arrastei a minha para junto d'elle ; 
e como eu estava a rir — muito alegre estava eu n'esse nio- 
mento ! — vi-o estremecer todo. 

«Senti a loucura a erguer-se dentro em mim. Metti-lhe 
medo a elle. 



176 AS AVENTURAS 



« — O senhor era muito amigo de sua irmã emquanto foi 
viva, disse eu. Muito amigo. 

«Elle olhou com inquietação em roda de si, e eu vi-lhe a 
mão a apertar as costas da cadeira ; mas não disse nada. 

" — Miserável ! exclamei eu, adivinhei-te ; descobri os teus 
conluios diabólicos contra mim ; sei que o coração d'ella era 
de outro, já antes de a teres obrigado a casar comigo. Sei 
tudo, tudo I 

"Elle ergueu-se de chofre, agarrou na cadeira, brandiu-a 
no ar, e ordenou-me que recuasse — porque eu tivera o cui- 
dado de me aproximar d'elle, emquanto fallava. 

«Rugi em vez de fallar, porque sentia a referverem nas 
veias paixões tumultuosas, e o antigo segredar dos espiritos 
a incitarem-me que lhe arrancasse o coração. 

" — Com mil raios ! bradei eu precipitando-me sobre elle ; 
matei-a eu. Estou doido ! Morre ! Sangue, sangue, quero o 
teu sangue I 

«Desviei violentamente a cadeira que elle me arrojava no 
seu terror, agarrei-me a elle, e, com um estrondo medonho, 
rolámos ambos pelo chão. 

"Soberba luta foi essa, pois que elle era alto e robusto, e 
defendia a própria vida ; e eu, um doido valente, sedento por 
dar cabo d'elle. 

«Eu tinha a convicção de que não havia força que á mi- 
nha podesse igualar-se, e tinha rasão. 

«Mais uma vez tinha rasão, apesar de doido ! 

«A sua resistência enfraqueceu gradualmente. Ajoelhei em 
cima do seu peito, e apertei-lhe vigorosamente o pescoço 
musculoso com ambas as mãos. 

"Arroxeou-se-lhe o rosto, os olhos quasi lhe saltaram das 
orbitas, e com a lingua de fora parecia escarnecer-me. Eu 
apertei mais ainda o torniquete. 

«Abriu-se de súbito a porta ruidosamente, e precipitou-se 
no aposento uma mó de gente, com grande alarido para se- 
gurarem o doido. Descobrira-se o meu segredo ; e agora, só 
tinha que lutar pela liberdade. 

«Puz-me em pé antes que me lançassem a mão, atirei-me 
para o meio dos assaltantes, e abri caminho com o meu braço 
valente como se estivesse armado de um machado, e fui-os 
derrubando adiante de mim. 



1)0 SR. HCKWICK 177 



"Cheguei á porta, saltei por cima da rampa, e n'um mo- 
mento achei-me na rua. 

«Fui correndo velozmente, sempre a direito, e ninguém 
se atrevia a agarrar- me. 

«Ouvia atraz de mim o ruido dos passos, e redobrava de 
velocidade. 

«Enfraqueceu pouco a pouco esse ruido, á medida que eu 
me afastava, até que afinal se extinguiu de todo. 

«Mas eu continuei a saltar regatos e paues, muros e val- 
lados, com gritos selvagens que eram acompanhados por en- 
tes estranhos que em volta de mim se agglomeravam e avolu- 
mados até ao ponto de rasgarem os ares. 

«Eu era levado nos braços de demónios que voavam nas 
azas do vento, e derribavam diante de si collinas e sebes, e 
me arrebatavam n'um turbilhão estrepitoso e rápido que me 
atordoava, até que afinal me atiraram para longe de si com 
um choque violento, e eu cahi pesadamente no chão. 

«Quando voltei a mim achei-me aqui — aqui n'esta ale- 
gre cellula onde raro entra a luz do sol, e os raios da lua ape- 
nas se escoam para mostrar as sombras negras que me ro- 
deiam, e aquella figura silenciosa, sempre ali no seu canto. 

«Quando estou desperto, chego ás vezes a ouvir guinchos 
e gritos, vindos dos recessos distantes d'este enorme edifí- 
cio. 

«O que sejam elles, i'gnoro ; mas nem elles provêem 
d'aquelle vulto livido, nem teem relação com elle. 

"Porque desde as primeiras sombras do entardecer até aos 
clarões da aurora, esse vulto permanece immovel no mesmo 
logar, de ouvido á escuta para a musica dos meus grilhões e 
de olhos fitos nos saltos que eu dou na minha cama de pa- 
lha.» 

No fim do manuscripto, estava escripta n'outra letra a 
nota seguinte : 

"O desventurado, cujos desvarios estão acima consigna- 
dos, foi um triste exemplo do funesto resultado de energias 
mal dirigidas desde a infância e de excessos prolongados até 
não se poder dar remédio ás consequências. 

«A dissipação, as orgias, o deboche da sua mocidade pro- 
duziram febre e delirio. 

«O primeiro eífeito d'este ultimo foi a estranha illusão, 

12 



AS AVENTURAS 



baseada n'uma bem conhecida theoria medica, fortemente 
defendida e com egual força contestada, de que na familia 
d'elle existia uma loucura hereditária. 

«Isto produziu n'elle uma melancolia de humor, que dege- 
nerou em insanidade mórbida e terminou emfim em loucura 
furiosa. 

«Ha todas as rasÕes para crer que os successos por elle 
narrados, embora desfigurados pela sua imaginação doentia, 
se deram realmente. 

«Aquelles que tiveram conhecimento dos vicios da sua 
juventude só teem que admirar se por as suas paixões, quando 
já tora do dominio da rasão, não o terem impellido a perpe- 
trar crimes mais medonhos ainda.» 

Estava mesmo a ponto de se acabar no castiçal a vela do 
sr. Pickwick, quando elle concluiu a leitura do manuscripto 
do velho ecclesiastico ; e quando a luz se apagou de súbito, 
sem um lampejo prévio de prevenção, impressionou forte- 
mente os seus nervos excitados. 

Atirando ao chão as peças de vestuário que elle pozera 
para se levantar, enfiou-se apressadamente entre os lençoes, 
e n'um momento adormeceu profundamente. 

Radiava o sol pelo quarto dentro quando elle acordou. Ia 
já alta a manha. 

A tristeza que o opprimira na noite anterior tinha desap- 
parecido com as sombras negras que anuviavam a paisagem, 
c as suas ideias e os seus sentimentos tão leves e alegres 
eram como a própria manhã. 

Depois de um almoço substancial, os quatro amigos fo- 
ram de passeio até Gravesend, seguidos por um homem que 
levava a pedra no seu caixote de pinho. 

Chegaram áquella povoação pela uma hora, tendo expe- 
dido de Rochester a sua bagagem para a cidade. 

Tiveram a fortuna de encontrar logares na imperial da 
diligencia, e a Londres chegaram bons de saúde e de espi- 
rito, n'aquella mesma tarde. 

Os três ou quatro dias que se seguiram foram emprega- 
dos nos preparativos necessários para a sua jornada a Eatans- 
will. 

Gomo esse importante emprehendimento exige um capi- 
tulo separado, consagraremos as poucas linhas que d'este nos 



no SR. PICKWICK 



79 



restam á narração, summaria quanto possível, da historia da 
descoberta archeolos;ica. 

Das actas do Club se deduz pois que o sr. Pickwick fez 
uma conferencia sobre a sua descoberta n'uma sessão geral 
do Club, convocada para o noite seguinte ao seu regresso, e 
se comprazeu n'uma variedade de especulações engenhosas 
e eruditas sobre a sua interpretação epigraphica. 

Parece também que um hábil artista executou um dese- 
nho fiel, que foi lithographado e apresentado á Real Socie- 
dade dos Antiquários e a outras corporações scientificas ; que 
das controvérsias a que o assumpto deu origem brotaram 
ódios e ciúmes innumeraveis ; e que o próprio sr. Pickwick 
escreveu um paamphleto, contendo noventa e seis paginas 
em typo miudissimo, e vinte e sete versões differentes da in- 
scripção ; que três sujeitos de idade privaram os seus primo- 
génitos de um shilling por cabeça por se atreveram a duvidar 
de tal monumento ; e que um individuo enthusiasta se privou 
a si próprio prematuramente da vida, desesperado por não po- 
der profundar-lhe a significação; que o sr. Pickwick foi eleito 
membro honorário de dezesete sociedades scientificas do 
paiz e do estrangeiro por causa da sua descoberta ; que ne- 
nhuma d'essas dezesete entendeu patavina d'ella, mas que 
todas as dezesete concordaram que era deveras extraordiná- 
ria. 

E' certo que o sr. Blotton — cujo nome será votado ao 
desprezo eterno d'aquelles que cultivam o mysterioso e o 
sublime — é certp que o sr. Blotton, com a duvida cavillosa, 
peculiar aos espíritos vulgares, pretendeu considerar o caso 
sob um ponto de vista, tão degradante como ridículo. 

Com o baixo desejo de empanar o lustre do nome immor- 
tal de Pickwick, o sr. Blotton intentou logo uma viagem a 
Cobham, e á sua volta, communicou sarcasticamente ao Club 
que elle fallára com o homem a quem a pedra fora com- 
prada ; que esse homem suppunha que ella era antiga, mas 
negava solemnemente a antiguidade da inscripção, visto como 
declarava tel-a elle próprio gravado grosseiramente, por des- 
fastio, e que as letras não tinham mais nem menos do que a 
significação de: Bill Stumps, sua firma; e que o sr. Stumps, 
pouco habituado a compor palavras, e mais costumado a 
guiar-se pelo som d'ellas do que pelas regras estrictas da or- 



l80 AS AVENTURAS 



thographia, tinha omittido o L final do seu nome de ba- 
ptismo. 

O Club Pickwick, como era de esperar de tão illustrada 
instituição, recebeu esta communicação com o desprezo que 
merecia, expulsou da sociedade o presumpçoso e mal inten 
cionado Blotton, o votou ao sr. Pickwick uns óculos de ouro, 
como prova de confiança e de applauso ; e em reconheci- 
mento d'isto, o sr. Pickwick mandou pintar o seu retrato e 
pendural-o na parede da sala das sessões. 

E já agora diremos que elle não permittiu a destruição 
d'esse retraio, quando mais tarde envelheceu. 

O sr. Blotton íoi expulso, mas não vencido. Escreveu tam- 
bém um pamphleio dirigido ás dezeseie sociedades sabias, 
repetindo a historia que já contara, c dando a eníender com 
mais que sufficiente nitidez que elle linha os membros das 
taes dezesete sociedades na conta de tanços. 

Tendo isto excitado a indignação das dezesete socieda- 
des, vários outros opúsculos sahiram á luz; as sociedades do 
estrangeiro corresponderam-se com as do paiz, e estas tra- 
duziram os pamphletos das sociedades estrangeiras em in- 
glez, ao passo que as sociedades estrangeiras traduziram em 
todas as linguas possíveis os pamphletos das sociedades do 
paiz : e assim t-^ve origem aquella celebre discussão scienti- 
fica, conhecida no mundo mteiro sob o titulo de Questão 
Pickwick. 

Mas esta vil tentativa para prejudicar o sr. Pickwick veiu 
a cahir na cabeça do próprio auctor da calumnia. 

As dezesete sociedades scieniificas votaram por unanimi- 
dade que o presumpçoso Blotton não passava de um bisbi- 
Ihoteiro ignorante; e deitaram-se mais do que nunca á pro- 
ducção de obras de sciencia. 

É até hoje a pedra conserva-se um monumento illegivel 
da grandeza do sr. Pickwick e um perdurável trophéo da pe- 
quenez dos seus inimigos. 



DO SR. PICKWICK l8l 



CAPITULO XII 

Em que se descreve um passo importante dado 
pelo sr. Pickwick, marcando época tanto na sua 
vida como n'esta historia. 



Os aposentos do sr. Pickwick em Goswell-street, embora 
pouco espaçosos, não só eram limpos e confortáveis, mas 
especialmente adaptados para a residência de um homem do 
seu génio e do seu talento observador. 

O seu gabinete ficava no primeiro andar, e o quarto de 
cama no segundo, ambos deitando para a rua; e assim, quer 
elle estivesse sentado á secretaria, quer em pé defronte do 
espelho de vestir, tinha sempre ensejo de contemplar a na- 
tureza humana em todas as numerosas phases por ella exhi- 
bidas, n'aquella rua tão populosa como popular. 

A sua hospedeira, Mistress Bardell — viuva e única her- 
deira de um guarda da alfandega — era uma mulher desen- 
xovalhada, de aspecto agradável e modos activos, dotada de 
ingenitas aptidões culinárias, as quaes, á força de estudo e 
de longa pratica, haviam attingido um desenvolvimento de- 
veras notável. 

Não havia na casa nem creanças de collo, nem criados, 
nem aves domesticas. 

Os únicos restantes moradores eram um homem taludo e 
um rapaz pequeno; o primeiro era um hospede, o segundo 
era producto de Mrs. Bardell. 

O homem taludo estava sempre em casa ás dez horas da 
noite em ponto, hora a que se encafuava regularmente den- 
tro dos limites de um leito francez de marca pequena, collo- 
cado n'um gabinete das trazeiras do edifício; e os brinque- 
dos infantis e os exercícios gymnasticos do pequeno Bar- 
dell estavam exclusivamente restrictos aos passeios e ás va- 
letas das ruas visinhas. 

Em toda a casa reinavam o asseio e a tranquilUdade ; e a 
vontade do sr. Pickwick era acatada como lei. 



l82 AS AVENTURAS 



A quem quer que estivesse a par d'estes pormenoros da 
economia domestica do estabelecimento e da admirável re- 
gularidade do espirito do sr. Pickwick, pareceriam em ex- 
tremo mysteriosos e inexplicáveis a apparencia e proceder 
d'este cavalheiro na véspera do dia prefixado para a partida 
para Eatanswill. 

Media o quarto a passos rápidos, estendia a cabeça pela 
janella fora de três em três minutos, consultava constante- 
mente o relógio, e patenteava muitos outros indicios de im- 
paciência, muito pouco habituaes n'elle. 

Era evidente que estava a parafusar n'algum caso de grande 
importância, mas o que fosse esse caso é que nem mesmo 
Mrs. Bardell estivera habilitada para descobrir. 

— Mrs. Bardell, disse afinal o sr. Pickwick, quando a amá- 
vel creatura estava quasi a terminar a prolongada limpeza do 
aposento. 

— Senhor, disse Mrs. Bardell. 

— O seu pequeno ha que tempos que anda por fora, 

— Então ! d'aqui ao Borough olhe que é uma boa estafa, 
objectou Mrs. Bardell. 

— Ah ! disse o sr. Pickwick, lá isso é verdade, é. 

E calou-se de novo, emquanto Mrs. Bardell continuava a 
sacudir o pó. 

— Mrs. Bardell, tornou o sr. Pickwick, passados alguns 
minutos. 

— Senhor - 

— Parece-lhe que será muito maior a despeza para duas 
pessoas do que para uma ? 

— Ora essa, sr. Pickwick I disse Mrs. Bardell, corando até 
á orla da sua touca, por imaginar que lobrigava uma espécie 
de piscadella matrimonial, ora essa, sr. Pickwick I sempre 
tem cada pergunta! 

— Pois sim, mas dig-a lá sempre. 

— Isso é conforme ! disse Mrs. Bardell, chegando com o 
espanador quasi ao cotovello do sr. Pickwick, que estava en- 
costado á meza. Depende muito da pessoa, percebe o sr. 
Pickwick? se fôr pessoa arranjada e cuidadosa. . . 

— Isso é verdade, mas a pessoa que eu tenho em vista, 
proseguiu elle olhando muito fito para Mrs. Bardell, cuido 
que possua essas qualidades, e além d'isso tem uma grande 



DO SR. PICKWICK l83 



experiência do mundo e uma grande somma de perspicácia, 
Mrs. Bardell ; o que me pôde ser de uma grandíssima utili- 
dade. 

— Ora, sr. Pickwick ! disse Mrs. Bardell, corando outra 
vez. 

— Estou convencido do que lhe digo, affirmou o sr. Pick- 
wick com energia crescente, como costumava ao fallar de 
assumptos que tinha a peito, estou; e se quer que lhe diga a 
verdade, Mrs. Bardell, estou resolvido de vez. 

— Pelo amor de Deus, senhor ! exclamou Mrs. Bardell. 

— Talvez lhe pareça agora extraordinário, disse o amável 
sr. Pickwick, com um benévolo relancear de olhos para a sua 
interlocutora, que eu nunca a tivesse consultado sobre este 
assumpto, e nem mesmo alludisse nunca a elle, até mandar 
o seu pequeno lá tora esta manhã, hein ? 

Mrs. Bardell só pôde responder por um olhar. 

Ha muito que ella adorava de longe o sr. Pickwick, e 
agora via-se de repente erguida a um pináculo ao qual nunca 
haviam ousado aspirar as suas mais extraordinárias e ambi 
ciosas esperanças. 

O sr. Pickwick ia fazer-lhe a sua proposta — era um plano 
deliberado — mandara o pequeno ao Borough, afim de o 
afastar — que premeditação ! — que finura ! 

— Bem, disse o sr. Pickwick, que diz a isto ? 

— Oh ! sr. Pickwick ! disse Mrs. Bardell, tremula de alvo- 
roço, que bondade a sua! 

— Ha de poupar lhe muito trabalho, não é verdade ? disse 
o sr. Pickwick. 

— Ora ! eu pensei lá nunca no trabalho, senhor ! replicou 
Mrs. Bardell, e está claro que menos pensarei no trabalho 
para lhe ser agradável, n'esse caso. Mas que bondade a sua, 
sr. Pickwick, em ter em tanta attenção o meu isolamento. 

— Ah ! sim ! é verdade ! N'isso nunca eu tinha pensado. 
Quando eu estiver fora de casa, sempre terá alguém para lhe 
fazer companhia. Com certeza. 

— Com certeza que vou ser felicissima, disse Mrs. Bar- 
dell. 

— E o seu pequenote. . . disse o sr. Pickwick. 

— Deus o abençoe, coitadinho ! atalhou Mrs. Bardell, com 
um suspiro maternal. 



■ 84 



AS AVENTURAS 



— Também elle ha de ter um companheiro, continuou o 
sr. Pickwick, sorrindo serenamente, um companheiro alegre 
que, tenho a certeza, lhe ha de ensinar mais brincadeiras 
n'uma semana, do que elle poderia aprender n'um anno. 

— Oh ! meu querido. . . disse Mrs. Bardell. 
O sr. Pickwick teve um sobresalto. 

— Oh! meu bom, meu querido, meu terno amigo! disse 
Mrs. Bardell, e sem mais tir'te nem guar'te, ievantou-se da 
cadeira, e deitou os braços á roda do pescoço do sr. Pick- 
Avick, com uma cataracta de lagrimas e um temporal de so- 
luços. 

— Valha-me Deus I bradou o sr. Pickwick attonito ; Mrs. 
Bardell, minha boa senhora — ora esta ! que situação ! — re- 
pare bem, Mrs. Bardell — deixe-me — se alguém viesse ahi . . . 

— Pois que venham ! exclamou Mrs. Bardei em delirio, 
eu nunca o largarei — querido, minha boa alminha ! 

E com estas palavras, cada vez o apertava mais. 

— Nossa senhora me acuda, disse o sr. Pickwick deba- 
tendo-se com violência ; ouço alguém a subir a escada. Dei- 
xe-me, senhora, pelo amor de Deus, deixe-me. 

Mas supplicas e argumentos, tudo era baldado ; porque 
Mrs. Bardell desfallecera nos braços do sr. Pickwick ; e antes 
que tivesse tempo de se sentar n'uma cadeira, o pequeno 
Bardell entrou no aposento, introduzindo os srs. Tupman, 
Winkle e Snodgrass. 

O sr. Pickwick ficou immovel e mudo. 

Estava em pé, com o seu fardo encantador nos braços, 
olhando com ar apalermado para as physionomias dos ami- 
gos, sem a mais ligeira tentativa de os receber ou de lhes dar 
uma explicação. 

Elles, por seu turno, estavam pasmados para elle; e o pe- 
queno, por seu turno, estava pasmado para todos. 

Tão absorvente era o espanto dos pickwickanos e tama- 
nha a perplexidade do sr. Pickwick, que todos poderiam ter 
ficado exactamente na mesma situação relativa até que a mu- 
Ihersinha houvesse voltado a si, se não fosse um accesso 
bello e tocante de amor filial que acommetteu o pequeno 
Bardell. 

Vestido com um traje justo de belbutina, decorado de 
enormes botões de cobre, elle a começo ficou extático e as- 



DO SR. PICKWICK l85 



saralhopado á porta, mas pouco a pouco o seu espirito in- 
completamente desenvolvido foi-se convencendo de que a 
mãe deveria ter soflVido algum damno pessoal. 

Considerando o sr. Pickwick como o aggressor, elle sol- 
tou uma espécie de uivo pavoroso e selvático, e, ás marra- 
das, começou a accommetter aquelle homem immortal pelas 
costas e pelas pernas, com murros e beliscões tamanhos 
quanto lh'os permittia a sua força e a violência da sua fúria. 

— Tirem d'aqui este demonico, bradou o sr. Pickwick af- 
flictissimo ; está maluco ! 

— Que foi isto ? perguntaram os três pickwickanos estu- 
pefactos. 

— Sei lá o que foi ! replicou o sr. Pickwick muito zan- 
gado. I irem-me d'aqui o petiz. . . 

N'is:o, o sr. Winkle levou para o extremo do aposento o 
interessante rapazinho, que foi a gritar e a debater-se. 

— Ora agora ajudem-me a levar esta mulher lá para 
baixo. 

— Ah ! agora estou melhorsinha ! disse Mrs. Bardell em 
voz débil. 

— Permitta-me que a acompanhe lá abaixo, disse o sr. 
Tupman, sempre cavalheiresco. 

— Muito obrigada, senhor — muito obrigada, exclamou 
Mrs. Bardell nervosamente. 

E lá foi conduzida para o rez-do-chão, acompanhada pelo 
seu aíTectuoso filho. 

— Não posso perceber, disse o sr. Pickwick quando o 
amigo voltou para cima. — Não posso perceber o que foi que 
aconteceu a esta creatura. Tinha -lhe annunciado simples- 
mente a minha intenção de tomar um criado, quando ella 
desatou n'aquelle disparatado ataque de nervos que viram. 
E' extraordinário ! 

— Muito, disseram os três amigos. 

— Poz-me n'uma situação deveras embaraçosa, continuou 
o sr. Pickwick. 

— Muito, repetiram os seus discípulos, tossindo ligeira- 
mente e olhando com ar de duvida uns para os outros. 

Este facto não passou despercebido ao sr. Pickwick. 
Notou a incredulidade dos amigos. Evidentemente suspeita- 
vam d'elle. 



S6 AS AVENTURAS 



— Está ahi um homem no corredor, disse o sr. Tup- 
man. 

— E' o homem de quem eu lhes estava fallando, disse o 
sr. Pickwick. Mandei-o esta manhã buscar ao Borough. Tem 
a bondade de o chamar para aqui, Snodgrass ? 

O sr. Snodgrass assim íez^ e logo se apresentou o sr. Sa- 
muel Weller. 

— Oh ! vossê lembra-se de mim, supponho eu f disse o sr. 
Pickwick. 

— Quero crer que sim, replicou Sam, com gesto prote- 
ctor. Um gajo de força, aquelle ; ia-lhes pondo o sal na mo- 
leira, hein ? 

— Deixem,o-nos d'isso agora, atalhou vivamente o sr. Pick- 
Avick. E' n'outro assumpto que lhe quero fallar. Sente-se. 

— Muito obrigado, senhor, disse Sam, sentando-se sem 
mais ceremonias, e tendo previamente depositado o velho 
chapéo branco no patamar fora da porta. Não se pôde dizer 
que seja lá muito bonito, continuou elle referindo-se ao cha- 
péo, e sorrindo prasenteiramente aos pickwickanos reunidos, 
mas é muitissimo commodo. E antes de perder as abas, era 
um chapéo catita a valer. Em todo o caso, ficou agora mais 
leve sem ellas, que é uma vantagem ; e depois entra-lhe o ar 
por todos os buracos, outra vantagem. Penante ventilador lhe 
chamo eu. 

— Ora agora tratemos do assumpto para que eu o man- 
dei chamar, de accordo com estes senhores, disse o sr. Pick- 
wick. 

— Jsso é que é, atalhou Sam ; fora com elle, como dizia o 
pae ao petiz que tinha engulido um farthing ^ 

— Em primeiro logar, disse o sr. Pickwick, desejamos sa 
ber se vossê tem algum motivo de estar pouco satisfeito com 
a sua presente situação. 

— Antes de eu dar uma resposta a essa pergunta, replicou 
o sr. Weller, não desgostava de saber se os senhores estão 
dispostos a darem-me outra melhor. 



' Fartlihig, a quarta parte de um peniiy. Anda por 5 réis da nossa 
moeda, ao cambio normal . . de outras eras. 



DO SR. HICKWiCK 187 

Nas feições do sr. Pickwick pairou um clarão de serena 
benevolência. 

— Estou meio resolvido, disse elle, a tomal-o a vosse ao 
meu serviço. 

— Deveras? perguntou Sam. 

O sr. Pickwick ajeitou a cabeça affirmativamente. 

— E ordenado? perguntou Sam. 

— Doze libras por anno. 

— Farpela ^ 

— Duas andainas. 

— Trabalho ? 

— Servir-me, e viajar comigo e com estes senhores. 

— Pôde tirar-me os escriptos, disse Sam com energia. Fico 
alugado a um cavalheiro só, e está feito o ajuste. 

— Aceita a proposta ? perguntou o sr. Pickwick. 

— Está claro que sim. A farpella escusa de me servir tão 
bem como o logar, para estar na conta. 

— Ha quem dê informações a seu respeito, está claro ? 

— Pergunte o senhor á estalajadeira do Veado branco. 

— Pôde vir hoje à tarde ? 

— Até podia enfiar agora mesmo a farpela, se ella aqui 
estivesse, exclamou Sam com grande vivacidade. 

— Venha esta tarde, em sendo oito horas, disse o sr. Pick- 
wick, e se as informações forem satisfactorias, o fato de- 
pressa se aprompta. 

Salvo a única excepção de uma indiscrição amável, de 
que fora também cúmplice uma das criadas da hospedaria, 
o comportamento do sr. Weller era tão intemerato, que o sr. 
Pickwick decidiu concluir o ajuste n'aquella mesma tarde. 

Com a promptidão e energia que caracterisava não sô os 
actos públicos, mas os particulares d'este homem extraordi- 
nário, elle levou immediatamente o seu novo criado a um 
d'aquelles commodos armazéns onde se fornecem fatos novos 
e em segunda mão, e se dispensa a massadora e inconve- 
niente formalidade de tomar medida. 

■ E antes de cerrar a noite, já o sr. Weller estava provido 
de uma casaca parda com os botões de P. C, um chapéo 
preto com cocarde, um collete vermelho de riscas, calções 
claros e polainas, e outros muitos artigos de vestuário, que 
é escusado recapitular. 



88 AS AVENTURAS 



— Sim, senhor! dizia na manhã seguinte o sujeito tão ra- 
pidamente transformado ao tomar assento no exterior da di- 
ligencia de Eatanswill. Não percebo lá muito bem se me des- 
tinava a lacaio, ou a groom, ou a couteiro, ou a criado de 
lavoura. Pareço assim uma espécie de mistiforio d'estas coi- 
sas todas. Deixal-o ! vou mudar de ares, ver terras, e traba- 
lhar pouco. E tudo isto é que está a calhar pVa minha doen- 
ça ; por isso viva o Pickwick, é o que eu digo ! 



CAPITULO XIII 

Algumas notícias sobre Eatanswill, sobre a situa- 
ção dos partidos n'essa terra, e sobre a eleição 
de um membro para representar no parlamento 
esse antigo, leal e patriótico burgo. 

Confessaremos com franqueza que até ao periodo em que 
immergimos nos volumosos papeis do Club Pickwick, nunca 
ouvíramos fallar de Eatanswill. 

Com igual candura admittiremos que debalde procurámos 
até hoje provas da existência actual d'esse sitio. 

Cônscios da profunda confiança que se devia depositar 
em todas os notas e informações do sr. Pickwick, e não tendo 
a pretensão de oppòr as nossas recordações ás declarações 
expressas do grande homem, consultamos todas as auctori- 
dades a que sobre o assumpto podemos recorrer. 

Vimos todos os nomes de terras contidas nas tabeliãs da 
lei eleitoral, sem encontrar o de Eatanswill ; examinamos mi- 
nuciosamente todos os cantos e recantos dos mappas portá- 
teis dos condados publicados para beneficio da sociedade 
pelos nossos illustres editores, e o mesmo resu tado se seguiu 
ás nossas investigações. 1 

Estamos por isso inclinados a suppôr que o sr. Pickwick, 
com a sua bem conhecida ambição de evitar a minima of- 
fensa pessoal e os sentimentos de delicadeza que sempre o 
distinguiram notavelmente, substituiu de propósito por uma 
designação fictícia o nome real do sitio onde foram feitas as 
suas observações. 



DO SR. HCKWICK i8q 



Esta presumpção nossa é corroborada por uma circum- 
stancia, á primeira vista ligeira e frivola em si, mas digna de 
mençiio, quando considerada sob este aspecto especial. 

No livro de notas do sr. Pickwick, podemos perceber o 
facto de que os logares d'elle e dos seus discipulos foram to- 
mados na diligencia de Norwick ; mas este apontamento foi 
mais tarde riscado, como no propósito de occultar a direc- 
ção em que era situado o logar do seu destino. E' por isso 
que não nos abalançaremos a qualquer hypothese a tal res- 
peito, mas proseguiremos desde já a nossa historia, conten- 
tando-nos com os subsidios que nos forneceram os seus per- 
sonagens. 

Parece pois que a população de Eatanswill. como a de 
muitas outras terras pequenas, se considerava da mais subida 
e mais colossal importância, e que não havia um só homem 
em Eatanswill, convicto do Aalor do próprio exemplo, que 
não se julgasse obrigado a ligar-se de corpo e alma a um dos 
dois grandes partidos que dividiam a população : os Azues e 
os Amarellos. 

Ora os Azues não perdiam ensejo de contrariar os Ama- 
rellos, nem os Amarellos de contrariar os Azues ; d'onde re- 
sultava que, sempre que os Azues e os Amarellos se encontra- 
vam em qualquer reunião publica, quer fosse na casa da ca- 
mará, ou na feira, ou no mercado, levantavam-se logo entre 
elles discussões e injurias. 

N'esies termos, é quasi supérfluo acrescentar que não ha- 
via coisa alguma em Eatanswill que não desse em questão 
de partido. 

Se os Amarellos propunham que se alpendrasse de novo 
a praça do mercado, os Azues convocavam comícios e ata- 
cavam' esta medida ; se os Azues propunham a erecção de 
uma bomba addiccional na rua direita, erguiam-se os Ama- 
rellos como um só homem a protestarem cheios de horror 
contra tamanho escândalo. 

Havia lojas azues e lojas amarellas, hospedarias azues e 
hospedarias amarellas : até na egreja havia a nave azul e a 
nave amarella. 

Está bem de ver que -era essencial e indispensável a cada 
um d'estes partidos o ter o seu órgão especial : havia por- 
tanto na terra dois jornaes — a Gazeia de Eatanswill e o In- 



IQO AS AVENTURAS 



dependente de Eãtanswill : o primeiro advogando os princi- 
pies azues e o segando gerido n'uma direcção resolutamente 
amarella. 

Eram jornaes magnificos. 

Cada artigo de fundo I cada artigo de espirituosa pole- 
mica ! — "O nosso abjecto collega da Gaveta. . . » — -Essa fo- 
lha cobarde e ignóbil, o Independente. .. >> — "Esse jornal 
mentiroso e nojento, o Independente . . .» — «O vil e escanda- 
loso calumniador da Gaveta...» — Estas e outras que taes 
excitantes recriminações juncavam á farta as columnas de 
cada um dos jornaes, em todos os números, e suscitavam no 
espirito dos habitantes da terra os mais fervorosos sentimen- 
tos de regosijo ou de indignação. 

O sr. Pickwick, com a sua previdência e sagacidade habi- 
tuaes, escolhera uma conjunctura especialmente favorável 
para a sua visita a este burgo. 

Nunca se vira uma lucta como esta. 

O Honourable Samuel Slumkey, do solar de Slumkey, era 
o candidato azul ; e Horatio Fizkm, Esquire, do casal de Fiz- 
kin, perto de Eatanswill, cedera aos rogos dos seus amigos 
para sustentar os interesses amarellos. 

A Gar^eta prevenia os eleitores de Eatanswill que os olhos 
não só da Inglaterra, como todo o mundo civilisado, estavam 
em cima d'elles ; e o Independente exigia imperativamente lhe 
dissessem se os constitumtes de Eatanswill eram ainda esses 
eminentes cidadãos que haviam merecido fama universal, ou 
abjectos e servis instrumentos, indignos do nome de inglezes 
e dos benefícios da liberdade. 

Nunca tamanha commoção agitara a cidade. 

Já era noite fechada quando o sr. Pickwick e os seus com- 
panheiros, acompanhados por Sam, se apelaram do tejadilho 
da diligencia. "* 

Na janella da hospedaria das Afmas da Cidade fluctua- 
vam enormes bandeiras de seda azul, e em cada vidraça es- 
tava um cartaz, annunciando em caracteres gigantescos que 
a commissão eleitoral do Honourabel Samuel Slumkey ali ti- 
nha sessões quotidianas. 

Uma turba de ociosos agrupava-se na rua, de bocca aberta 
para um homem rouco que estava na varanda, o qual pare- 
cia esfoguetear-se todo em defeza do sr. Slumkey ; mas a força 



DO SR. PICKWICK IQI 



e a subtileza dos seus argumentos eram um tanto ou quanto 
prejudicadas pelo rutar perpetuo de quatro immensos tambo- 
res que a commissão collocára na esquma próxima. Em todo 
o caso havia ao pé d'elle um homemsinho muito atrapalha- 
do, que tirava de quando em quando o chapéo e fazia um 
signa! á turba pnra applaudir; o que a turba fazia regular- 
mente, com o máximo enthusiasmo ; e como o homem esfo- 
gueteado continuava a orar até ficar mais esfogueteado do 
que nunca, parece que attingia o seu fim com tanta efficacia 
como se alguém o ouvisse. 

Mal os pickwickanos se apelaram, foram logo cercados 
por uma mó parcial dos honestos e independentes que os 
atordoaram com três estrondosos vivas, correspondidos pela 
multidão toda (porque não ha necessidade nenhuma que a 
multidão saiba a que é que se dão vivas) e entumecidos até 
chegarem a um rugido tremendo de triumpho, que até tapou 
a bocca ao homem esfogueteado da varanda. 

— Hurrah ! gritou a turba em conclusão. 

— Mais uma vez! guinchou o homemsinho fura-vidas da 
varanda. 

E a turba tornou a berrar, como se os pulmões fossem de 
ferro fundido, com articulações de aço. 

— Viva Slumkey ! rugiram os honestos e independentes. 

— Viva Slumkey! echoou o sr. Pickwick, tirando o cha- 
péo. 

— Abaixo Fizkin ! urrou a turba. 

— Abaixo está bem de ver ! gritou o sr. Pickwick. 

— Hurrah ! 

E seguiu se outro rugido, como o de uma méyiagerie, 
quando o elephante toca a sineta para a comida. 

— Quem é este Slmukey? segredou o sr. Tupman. 

— Eu sei lá ! replicou o sr. Pickwick no mesmo tom. 
Gale a bocca. Não faça perguntas. O melhor n'estas occasiões 
é fazer o mesmo que faz a turba. 

— Mas supponha que ha duas turbas ? suggeriu o sr. Snod- 
grass. 

— Grita a gente com a maior, replicou o sr. Pickwick. 
Mais do que isto nem volumes o poderiam dizer. 
Entraram na hospedaria, entre alas de populaça que ber 

rava descompassadamente. 



liyl AS AVENTTT}?AS 



O primeiro objecto a considerar era tomar aposentos para 
a noiíe. 

— Tem camas ? perguntou o sr. Pickwick ao criado. 

— Não sei dizer-lhe, respondeu o homem, desconlio que 
está tudo tomado. Eu vou perguntar. 

Sahiu e voltou logo, a perguntar aos cavalheiros se acaso 
eram «Azues" 

Como nem o sr. Pickwick nem os seus companheiros ti- 
nham um interesse vital na causa de qualquer dos candida- 
tos, a resposta tinha dente de coelho. N'este dilemma, o sr. 
Pickwick lembrou-se do seu amigo o sr. Perker. 

— Vossê conhece um sujeito chamado Perker? perguntou 
elle. 

— Não havia de conhecL-r 
Samuel Slumkey. 

— E' azul, creio eu ? 

— Está claro que sim. 

— bntão somos nós azues, disse o sr. Pickwick. 

Mas observando que o homem recebia com ar de duvida 
esta declaração accommodaticia, deu-lhe o seu bilhete de vi- 
sita dizendo-lhe que o entregasse ao sr. Perker caso clle es- 
tivesse na hospedaria. O criado sahiu; e reapparecendo quasi 
a seguir, trou.xe recado para que o sr. Pickwick fosse com 
elle, e conduziu-o a um grande aposento, onde estava o sr. 
Perker, sentado a uma mesa comprida, carregada de livros e 
de papeis. 

— Ah ! ah 1 meu caro senhor ! disse o homemsinho indo 
ao seu encontro ; tenho muito gosto em o ver, meu caro se- 
nhor, creia. Faça obsequio de se sentar. Com que então, sem- 
pre realisou o seu projecto ? Veiu cá para ver uma eleição — 
hein? 

O sr. Pickwick respondeu afirmativamente. 

— Uma luta renhida, meu caro senhor. 

— Ainda bem ! disse o sr. Pickwick esíregando as mãos. 
Gosto de ver o patriotismo exaltado, seja de que lado tor ; — 
com que então temos luta renhida ? 

— Ora, se temos! renhida a valer. Abrimos todas as ta- 
bernas do s'itio, e não deixamos ao adversário senão as cer- 
vejarias. E' um golpe de mestre, meu caro senhor, que lhe 
parece ? 



1>0 SR. PICKWICK H).*» 



E o sr. Perker sorriu com complacência, sorvendo uma 
grossa pitada. 

— E qual é o resultado provável da luta ? 

— Isso agora é duvidoso, meu caro senhor, por emquanio 
é duvidoso. A gente de Fizkin encatuou trinta e três eleitores 
na cocheira do Veado branco. 

— Na cocheira ! disse o sr. Pickwick muito espantado com 
este novo golpe politico. 

— Teem-nos lá fechados até precisarem d'e]les, prose- 
guiu o homemsinho. O hm d'elles, percebe o senhor? é evi- 
tarem que n(')S lh'os apanhemos, e mesmo que nós podesse- 
mos, não servia de nada, porque os conservam de propósito 
bêbados. E' um espertalhão o agente de Fizkin — fino como 
o coral. 

O sr. Pickwick estava pasmado, mas não abria bico. 

— Em todo o caso, disse o sr, Perker, baixando a voz, 
temos muita esperança. Na noite passada demos chá aqui na 
hospedaria — quarenta e cinco mulheres, meu caro senhor — 
e á sabida, demos a cada uma d'ellas uma sombrinha verde. 

— Uma sombrinha ! exclamou o sr. Pickwick. 

— Exacto, meu caro senhor, exacto. Quarenta e cinco 
sombrinhas verdes, a seis shillings e seis pence cada uma. 
Todas as mulheres gostam do luxo — extraordinário o effeito 
d'aquellas sombrinhas. Agarrados os maridos todos e metade 
dos irmãos — ficaram por baixo as meias, mais a fianella, e 
outras cousas que taes. Ideia minha, meu caro senhor, tudo 
ideia minha. Haja graniso, ou chuva, ou sol, o senhor não 
pode andar doze Jardas pela rua acima, sem encontrar meia 
dúzia de sombrinhas verdes. 

N'isto, o agente desatou ás gargalhadas, interrompidas s() 
pela chegada de um terceiro personagem. 

Era um homem alto e magro, de cabeça ruiva em come- 
ços de calvicie, e uma cara em que á importância solemnc 
se ajuntava um olhar de insondável profundidade. 

Trajava um comprido sobretudo escuro, com um collete 
preto e calças de panno. 

Sobre d collete balouçava uma luneta, e na cabeça tinha 
um chapéo de copa muito baixa e de abas largas. 

O recemvindo foi apresentado ao sr. Pickwick como sendo 
o sr. Pott, editor da Gaveta de Eatansyvill. 

i3 



194 AS AVENTURAS 

Depcw de varias observações preliminares, o sr. Pott vol- 
tOLi-se para o sr. Pickwick e disse com solemnidade : 

— Esta luta eleitoral excita um grande interesse na me- 
trópole, sr. Pickwick ? 

— Penso que sim, respondeu este. 

— Para o qual, disse Pott olhando para o sr. Perker, afim 
de que este o apoiasse, para o qual tenho razões para saber 
que bastante contribuiu o meu artigo de sabbado. 

— Não ha a menor duvida, disse o homemsinho. 

— A imprensa é uma machina poderosa, senhor, disse 
Pou. 

o sr. Pickwick acquiesceu cordealmente á proposição. 

— Mas gabo me, disse Pott, de que nunca abusei do 
enorme poder que manejo. Gabo-me, senhor, de nunca ha- 
ver apontado o nobre instrumento que tenho nas mãos, con- 
tra o santuário da vida privada, ou contra a fragilidade me- 
lindrosa da reputação individual; — gabo-me, senhor, de ter 
devotado toda a minha energia a tentativas — humildes pôde 
ser, humildes sei que são — para inocular aquelles princípios 
de. . . que. . . são. . . 

N'isto, como o editor da Gaveta parecesse atrapalhar-se, 
o sr. Pickwick veiu em seu auxilio, dizendo : 

— Decerto, decerto. 

— E, permitta-me que lhe pergunte como um homem i;:?v 
parcial, qual é o estado do espirito publico em Londres, com 
relação á minha polemica com o Independente? 

O sr. Perker inierveiu com um olhar malicioso que pro- 
vavelmente era accidentai. 

— iMuitissimo excitado, sem duvida, disse elle. 

— Esta contenda, disse Pott, ha de prolongar-se emquanto 
cu tiver saúde e forças, e o pequeno quinhão de talento de 
que sou dotado. Embora esta polemica venha a transtornar 
o espirito dos homens e a excitar-lhes os sentimentos, e a tor- 
nal-os incapazes para o desempenho das suas obrigações quo-' 
tidianas. nunca recuarei n'ella até que tenha assentado o 
tacão em cima do Independente de Eatanswill. Desejo que o 
povo de Londres e que o povo d'esta terra fiquem sabendo, 
senhor, que podem contar comigo; — que nunca os abando- 
narei, que estou resolvido a manter-me ao lado d'elles, se- 
nhor, até ao ultimo extremo. 



DO SR. PICKWICK IC)5 



— Esse procedimento é nobilíssimo, disse o sr. Pickwick, 
apertando a mão do magnânimo Pott. 

— Percebo, disse este todo oflegante com a vehemencia 
dos seus protestos patrióticos, que o senhor é homem de 
senso e de talento. Estimo immenso travar conhecimento 
com um homem assim. 

— E eu, disse o sr. Pickwick, sinto-me extremamente hon- 
rado com essa expressão da sua opinião. Permitta-me que o 
apresente aos meus companheiros de viagem, os outros mem- 
bros correspondentes do club que me orgulho de haver fun- 
dado. 

— Com o maior prazer, disse o sr. Pott. 

O sr. Pickwick foi buscar os três amigos e apresentou-os 
com as devidas formaHdades ao editor da Gazeia de Eatans- 
mll. • 

— Agora, meu caro Pott, disse o sr. Perker, a questão é 
saber o que havemos nós de fazer d'estes nossos amigos. 

— Podemos aqui ficar na hospedaria, creio eu, disse o sr. 
Pickwick. 

— Nem uma mofina cama ha aqui na casa, meu caro se- 
nhor, nem uma só. 

— Isso é que é uma da breca, exckimou o sr. Pickwick. 

— Pois é! exclamaram os companheiros de viagem. 

— A esse respeito tenho uma ideia, disse o sr. Pott, que 
me parece se pode adoptar com bom resultado. Lá no Pavão 
ha duas camas, e eu afouto-me a dizer, da parte de Mrs. Pott, 
que ella ficará encantada em dar pousada ao sr. Pickwick e 
qualquer dos seus amigos, se os outros dois cavalheiros não 
teem duvida em se accommodarem, o melhor que possam, 
no Pavão. 

Depois de repetidas instancias do sr. Pott, e repetidos 
protestos do sr. Pickwick de que se não podia resolver a dar 
incommodo á amável esposa do editor, decidiu-se que era 
esse o único expediente de que podiam lançar mão. Assim 
pois, foi posto em pratica; e depois de jantarem juntos nas 
Armas da Cidade, os amigos separaram-se, indo ossrs. Tup- 
man e Snodgrass para o Pavão, e dirigindo-se os srs. Pick- 
wick e Winkle para a residência do sr. Pott. 

Combinára-se previamente que se reuniriam todos na ma- 
nhã seguinte nas Anjías da Cidade, para acompanhcir o prés- 



iq6 AS AVENTURAS 



tito do Honourable Samuel Slumkey ao logar da eleição. 

O circulo domestico do sr. Pott limitava-se a elle e a sua 
mulher. 

Todos aquelles homens, a quem um poderoso génio tem 
erguido ás altivas summidades do mundo, teem de ordinário 
alguma pequena fraqueza que mais notável se torna pelo con- 
traste que apresenta com o seu caracter geral. 

Se o sr. Pott tinha uma fraqueza, era ella porventura o 
ser demasiado submisso ao dominio um tanto desdenhoso de 
sua esposa. 

Não nos julgamos auctorisados a dar a este facto um va- 
lor especial, por isso que na presente conjunctura, todas as 
maneiras mais insinuantes de Mrs. Pott se pozeram em jogí> 
para acolher os seus dois hospedes. 

— Minha querida, disse o sr. Pott, o sr. Pickwick — o sr. 
Pickwick, de Londres. 

Mrs. Pott recebeu com encantadora doçura o paternal 
aperto de mão do sr. Pickwick ; e o sr. Winkle, que não fora 
annunciado por forma alguma, inclinou-se e escoou-se á sur- 
relfa para um canto obscuro. 

— Pott, meu querido. . . disse Mrs. Pott. 

— Meu anjo ? perguntou o sr. Pott. 

— Tenha a bondade de apresentar o outro cavalheiro. 

— Peço mil perdoes, disse o sr. Pott. Dê me licença — 
Mrs. Pott, o senhor. . . 

— Winkle, disse o sr. Pickwick. 

— Winkle, echoou o sr. Pott, completando a ceremonia 
da apresentação. 

— Temos' a pedir lhe milhões de desculpas, minha se- 
nhora, disse o sr. Pickwick, por virmos sem mais nem menos 
transtornar os seus arranjos domésticos. 

— Peço-lhe que não falle em tal, replicou com vivacidade 
a metade feminina do casal. E' um regabofe para mim, creia, 
o ver caras novas ; vivendo como eu vivo, dias e dias, sema- 
nas e semanas, n'este aborrecido sitio, sem ver ninguém. 

— Ninguém, minha querida! exclamou o sr. Pott com ar 
espirituoso. 

— Ninguém a não ser o senhor I replicou asperamente 
Mrs. Pott. 

— O sr. Pickwick bem vê, disse o dono da casa para ex- 



DO SR. PICKWICK 197 



plicar as lamentações da esposa, que nós estamos até certo 
ponto privados dos gozos e prazeres que n'ouiras condições 
parlilhariamos. A minha posição como editor da Gajeta de 
Eatanswill, o logar que esta folha occupa aqui n'esta região, 
a minha immersão constante no vórtice da poHtica. . . 

— Pott, meu querido. . . atalhou Mrs. Pott. 

— Meu anjo, disse o editor. 

— Desejo, meu querido, que procure qualquer assumpto 
de conversação em que estes senhores possam tomar algum 
interesse. 

— Mas, meu amor, disse Pott com grande humildade, o 
sr. Pickwick interessa-se muito por este. 

— Tanto melhor para elle ! disse com energia Mrs. Pott. 
£u é que estou maçada a mais não poder com a sua poli- 
tica, mais as questões com o Independente, e outros que taes 
disparates. Admira-me deveras, Pott, que o senhor faça as- 
sim gala da sua tolice. 

— Mas, minha querida. . . 

— Sucia de disparates ! não me falle n'isso ! O senhor 
joga o écarté? 

— Terei o maior gosto em o aprender nas suas lições, re- 
plicou o sr. Winkle. 

— Bem ! então puxe essa mezinha para ao pé da janella, 
e deixe-nos em paz com a sua prosaica politica. 

— Jane, disse o sr. Pott á criada que trazia luz, vá lá 
abaixo ao escriptorio, e traga me a collecção das Gavetas do 
anno de 1828. Vou ler- lhe, acrescentou o editor, virando-se 
para o sr. Pickwick, vou lêr-lhe uns poucos de artigos de 
fundo que eu escrevi n'essa época, sobre a intrigalhada dos 
Azues para nomearem um novo guarda para a barreira aqui 
do sitio ; estou em crer que o hão de divertir. 

— Gostaria immenso de os ouvir, por certo, disse o sr. 
Pickwick. 

Veiu a collecção, e o editor sentou-se, com o sr Pickwick 
ao lado. 

Debalde investigamos as folhas do livro de notas do sr. 
Pickwick, na esperança de encontrarmos um summario geral 
d'aquellas magnificas composições. 

Temos rasão para crer que elle ficou perfeitamente arre- 
batado com o vigor e expontaneidade do estylo ; com effeito 



iq8 as aventuras 



o sr. WinJde assignala o facto de lhe ter visto os olhos fecha- 
dos, como no excesso do arroubamento, durante todo o 
tempo que durou a leitura. 

O annuncio da ceia póz ponto tanto ao jogo do ecarte, 
como á lecapitulação das bellezas da Gaveta de Eatanswill. 

Mrs. Pott estava de um humor adorável. 

O sr. Winkle já fizera progressos consideráveis na sua boa 
opinião, e ella não hesitara em informal-o confidencialmente 
que o sr. Pickwick era um velhote muitíssimo agradável. 

Estes termos envolvem uma familiaridade de expressão, 
á qual se abalançariam poucos d'aquelles que mais intima- 
mente conheciam aquelle colossal espirito. 

Conservámol-os comtudo, por fornecerem uma prova to- 
cante e convincente da estima em que elle era tido em todas 
as classes sociaes, e da facilidade com que conquistava todos 
os corações. Era já noite alta — ha muito que os srs. Tup- 
man e Snodgrass dormiam nos Íntimos recessos do Pavão 
— quando os dois amigos se recolheram aos seus quartos. 

O somno dentro em pouco se apossou dos sentidos do 
sr. Winkle, mas os seus sentimentos estavam excitados e a 
sua admiração despertada ; e muitas horas depois de o somno 
o haver tornado insensível aos objectos terrenos, ainda o 
rosto e o vulto da amável Mrs. Pott se apresentavam repeti- 
das vezes á sua imaginação vagabunda. 

O reboliço e o movimento que annunciaram a manhã 
eram sufficientes para expulsar do espirito mais romanesco 
quaesquer ideias que não fossem immediatamente relacio- 
nadas com a eleição próxima. 

O rufar de tambores, o clangor das cornetas e das trom- 
betas, a gritaria da gente, o escarvar dos cavallos, echoavam 
pelas ruas fora desde os primeiros alvores da madrugada; e 
uma que outra escaramuça incidental entre os exploradores 
dos dois partidos dava animação aos preparativos e varie- 
dade ao caracter do dia. 

— Então, Sam ! disse o sr. Pickwick, quando o criado ap- 
pareceu á porta do quarto, exactamente no momento em que 
elle acaba de vesiir-se, tudo anda em alvoroço, creio eu? 

— Isto vae menos mal, senhor, replicou o sr. Weller. A 
nossa gente lá está a reunir-se nas Atnnas da Cidade, e já 
andam roucos de tanta berrata. 



DO SR. PICKWICK 199 



— Ah! e que tal? parecem dedicados ao seu partido, 
Sam! 

— Ora! <íu cá nunca na minha vida vi dedicação assim. 

— Enérgica, hein? 

— Sé é! Eu cá nunca vi gente que comesse e bebesse 
tanto. Parece incrivel que não tenham medo dê rebentar. 

— Isso vém da mal entendida generosidade dos magnates 
cá da terra. 

— Deve ser isso, replicou laconicamente Sam. 

— Parece boa gente, robustos, frescos, disse o sr. Pick- 
wick, olhando para a rua. 

— Lá frescos estão elles, replicou Sam. Eu cá mais os 
dois criados do Pavão fomos para a bomba esguichar para 
cima dos eleitores independentes que lá ceiavam hontem á 
noite. 

— A esguichar os eleitores independentes ! 

— Sim, senhor ! cada um ficou a dormir no sitio onde 
cahiu ; nós, esta manhã, acarretamos com elles cá para fora, 
pespegamos com elles debaixo da bomba, e elles lá ficaram 
asseiados que foi um gosto. A commissão pagou nos esta fai- 
na a shilling por cabeça. 

— Pois isso é possível ! exclamou o sr. Pickwick atto- 
nito. 

— Então que tem isso, senhor ? E' um baptismosinho, não 
vale de nada. 

— Não vale de nada. 

— Claro que não, senhor. Na véspera do ultimo dia da 
ultima eleição aqui, o outo partido pagou á criada do balcão 
das Armas da Cidade para ella fazer um arranjmho á aguar- 
dente e agua que se serviu a quatorze eleitores que lá esta- 
vam alojados. 

— Que arranjinho era esse ? 

— Deitar lhe laudano para dentro. Não lhe digo nada! 
ferrou com elles a dormir a somno solto até doze horas de- 
pois da eleição. Ainda acarretaram com um n'uma padiola, 
meio a dormir, assim á laia de experimentação, mas qual ! 
— não quizeram aceitar-lhe o voto ; e vae trouxeram-no e 
metteram-no outra vez na cama. 

— Que extraordinários expedientes ! disse o sr. Pickwick, 
meio a fallar comsigo, meio a dirigir- se a Sam. 



200 AS AVENTURAS 



— Ora ! isso ainda não é nada, ao pé de um caso mila- 
groso que aconteceu ao meu pae, por occasião de uma elei- 
ção, aqui mesmo n'este sitio. 

— Então o que foi ? 

— Eu lhe digo. Uma vez, andava elle a guiar uma carriola 
para aqui. Chega o tempo das eleições, e vae um dos parti- 
dos toma-o por conta para trazer 'eleitores de Londres. Na 
véspera do dia em que elle ia para lá, a commissão do outro 
partido manda-o chamar com todo o socego. E elle lá vae 
com o individuo que lhe trouxe o recado, e vae manda-o en- 
trar para uma casa muito grande — uma data de sujeitos — 
montes de papel, pennas e tinta e o mais que sp segue : 

— «Olá, sr. Weller ! diz o sujeito que estava a presidir, 
estimo vGl-o por aqui ; então como vae isso ?« 

— «Bem, muito obrigado ! diz o meu velho, o senhor pa- 
cere que não está mais magro. :»j 

— «Vae-se andando, obrigado! diz o sujeito, sente-se, sr. 
Weller; faça favor de se sentar.» 

«Vae o meu pae sentou- se, e elle mais o tal sujeito co- 
meçam a olhar muito íitos um para o outro. 

— «Vossê não se lembra de mim :» diz o sujeito. 

— "A fallar a verdade, não senhor,» diz o rneu velho. 

— "Pois eu conheço-o», diz o sujeito. «Conheci-o era vosse 
uma creança ! » 

— «Pois olhe! eu cá não me lembro,» diz o meu pae. 

— «E' exquisito,» diz o sujeito. 

— 'Pois é, é,» diz o meu pae. 

— «A modo que vossê não tem boa memoria, sr. Weller,» 
diz o sujeito. 

— «Não é lá muito boa, não ! » diz o meu velho. 

— «Lá me parecia !» diz o sujeito. 

«E vae bota-lhe um copo de vinho, e desata a elogial-o 
por guiar bem, e põe-o macio que nem um velludo, e por 
fim mette-lhe á cara uma nota de vinte libras. 

— «E' muito mau o caminho d'aqui até Londres,» diz o 
sujeito. 

— «Tem pedaços levados do diabo, lá isso tem,» diz o 
meu pae. 

— «Principalmente ao pé do canal, parece-me a mim, diz 
o sujeito. 



no SK. pickwick: 201 



— «Ah ! esse pedaço é de respeito, diz o meu velho. 

— «Pois olhe, sr. Weller I diz o sujeito, vossê é uma mão 
de rédea de primeira ordem ; nós bem sabemos que vosse faz 
o que quer com os cavallos Todos nós gostamos muito do 
sr. Weller. Por isso, se por acaso lhe succedesse um accidente 
quando trouxesse para cá aquelles eleitores, e que vossê fer- 
rasse com elles no canal sem lhes fazer mal nenhum, isto é 
para vossê, diz o sujeito. 

— «O senhor é muito boa pessoa,» diz o meu pae, «e eu 
quero beber um copo á sua saúde.» 

«E assim fez, e guardou a maquia, e fez um cumprimento 
e foi-se. 

«Talvez o senhor não acredite, continuou Sam olhando 
para o amo com uma inexprimiveí impudência, que exacta- 
mente no dia em que elle veiu para cá com os taes eleitores, 
virou-se-lhe a carriola mesmo n'aquelle sitio, e todos os pas- 
sageiros foram parar ao canal. 

— E tiraram-os de lá ? perguntou o sr. Pickwick com vi- 
vacidade. 

— Eu lhe digo, replicou Sam lentamente, quer-me pare- 
cer que faltou um sujeito idoso ; lá o chapéo sei eu que lhe 
acharam, mas não estou bem certo se trazia dentro a cabeça* 
ou não. Mas ao que eu faço reparo é na extraordinária, na 
espantosa coincidência, virar-se a carriola de meu pae, de- 
pois da conversa com o tal sujeito, n'aquelle mesmíssimo si- 
tio e n'aquelle mesmíssimo dia. 

— E' realmente um caso muito extraordinário, sem duvida ! 
disse o sr. Pickwick. Mas escove-me o chapéo, Sam, porque 
estou a ouvir o sr. Winkle a chamar-me para o almoço. 

E o sr. Pickwick desceu para a casa de jantar, onde achou 
o almoço na mesa e a familia já reunida. 

A refeição correu rápida; cada um dos chapéos dos ca- 
valheiros estava decorado com um enorme laço azul, feito 
pelas lindas mãos da própria Mrs. Pott ; e como o sr. Winkle 
se offerecera para acompanhar esta dama ao telhado de uma 
casa mesmo pegada com o tablado onde se realisavam as 
eleições, o sr. Pickwick, mais o sr. Pott dirigiram -se ás Ar- 
mas da Cidade. 

Um dos membros da commissão do sr. Slumkey estava 
na janella das trazeiras a perorar a seis garotos e a uma pe- 



202 AS AVENTURAS 



quena, aos quaes a cada instante condecorava com o titulo 
de "homens de Eatanswill", ao passo que os sobreditos garo- 
tetes applaudiam prodigiosamente. 

O pateo da cavallariça otferecia symptomas inequivocos 
da gloria e da força dos Azues de Eatanswill. 

Lá estava um exercito regular de bandeiras azues, umas 
de uma haste, outras de duas, exhibindo divisas apropriadas, 
em caracteres de oiro de quatro pés de altura e de largura 
em proporção. 

Lá estava uma grande banda de trombetas, fagotes e tam- 
bores, formados a quatro e quatro, e ganhando com a má- 
xima consciência o seu dinheiro, sobretudo os tambores, que 
eram musculosos a valer. 

Viam-se legiões de esbirros com varas azues, vinte mem- 
bros da commissão com faxas azues, e uma turbamulta de 
eleitores com laços azues nos chapéos. 

Havia eleitores a cavallo e eleitores a pé. Havia uma car- 
ruagem descoberta, tireda a quatro para b Honourable Sa- 
muel Slumkey ; e quatro carruagens a uma parelha, para os 
seus amigos e apaniguados. 

E as bandeiras fluctuavam, e a banda tocava, e os esbir- 
ros praguejavam e os vinte da commissão altercavam, e a 
turbamulta berrava, e os cavallos recuavam, e os postilhões 
fartavam-se de suar. 

E todos, e tudo que ali então se reunia, era exclusiva- 
mente para uso, proveito, honra e renome do Honourable Sa- 
muel Slumkey, do solar de Slumkey, um dos candidatos á 
representação do burgo de Eatanswill, na camará dos Com- 
muns do Parlamento do Reino Unido. 

Clamorosos e prolongados foram os applausos, e ruidoso 
o pannejar de uma das bandeiras com a inscripção: «Liber- 
dade de imprensa,» quando a turba distinguiu n'uma das janel- 
las a cabeça ruiva do sr. Pott ; e foi tremendo o enthusiasmo 
quando o Honourable Samuel Slumkey em pessoa, com bo- 
tas de canhão e gravata azul, se adiantou e apertou a mão 
do dito Pott, e testemunhou á multidão, com gestos melo- 
dramáticos, o seu inextinguível reconhecimento á Gaveta de 
Eatanswill. 

— Está tudo prompto '' disse o Honourable Slumkey ao 
sr. Perker. 



DO SR. PICKWIGK 2o3 



— Tudo, meu caro senhor, respondeu o homemsinho. 

— Espero que não se esquecessem de cousa alguma. 

— Tudo se tez, meu caro senhor — tudo absolutamente. 
A' porta da rua estão vinte homens bem lavados para lhe 
apertarem a mão ; e seis nenés de collo para lhes atiagar a 
cabeça e perguntar que idade teem. Muita attençáo com as 
creanças, meu caro senhor — cousas d'estas fazem sempre 
um efteito de arromba. 

— Deixe estar, disse o Honourable Samuel Slumkey. 

— E talvez, meu caro senhor, disse o previdente homem- 
sinho, talvez que se podesse — não digo que seja uma cousa 
indispensável — mas se podesse conduzir as cousas de forma 
a beijar um d'elles, isso era de um effeitarrão para a turba. 

— O effeito não seria o mesmo se o meu apresentante o 
fizesse ? 

— Nada, receio que não. Sendo feito pela sua pessoa, meu 
caro senhor, é caso para lhe dar grande popularidade. 

— Pois vá lá ! disse o Honourable Samuel Slumkey com 
ar resignado. Faça-se isso. Assim seja. 

— Formem o préstito ! gritaram os vinte membros da 
commissão. 

No meio das acclamações da turba, tomaram os seus Io ' 
gares a banda, mais os esbirros, mais os membros da com- 
missão, mais os eleitores, mais os cavalheiros, mais as car- 
ruagens. 

Cada uma das carruagens de uma só parelha levava em- 
pilhados tantos sujeitos em pé quantos lá cabiam; e a desti- 
nada ao sr. Perker continha os srs. Pickwick, Tupmann, 
Snodgrass e além d'isso cerca de meia dúzia dos da commis- 
são. 

Houve um momento de suspensão tremenda quando o 
préstito aguardou que o Honourable Samuel Slumkey se met- 
tesse na sua carruagem. 

De repente a multidão rompeu n'uma acclamação estron- 
dosa. 

— Lá sahiu elle, disse o pequeno sr. Perker, cheio de al- 
voroço, tanto mais quanto a sua posição não lhe permittia 
ver o que ia succedendo. 

Outra acclamação, ainda mais estrondosa. 

— Apertou as mãos aos homens, bradou o agente. 



;04 AS AVENTURAS 



Outra acclamação, mais vehemente ainda. 

— Acariciou a cabeça aos nenés I disse o sr. Perker, tre- 
mulo de anciedade. 

Uma trovoada de applausos que rasgou os ares. 

— Lá beijou um d'elles! disse o homemsinho, cheio de 
gáudio. 

Segunda trovoada. 

— Lá beijou outro ! balbuciou o agente excitado. 
Terceira trovoada. 

— Beijou os a todos! guinchou o homemsinho enthusias- 
mado ! 

E o préstito poz-se a caminho, saudado pela berraria en- 
surdecedora da multidão. 

Como e por que meios elle veiu a misturar-se com o ou- 
tro préstito e porque forma se desenvencilhou da confusão 
que se seguiu, é isso o que nem tentaremos descrever ; tanto 
mais que logo no começo da desordem o chapéo do sr. Pick- 
Avick foi-lhe enterrado para cima dos olhos, do nariz e da 
bocca, por impulso de uma haste de bandeira amarella. 

Conta elle como. no momento em que lhe foi possivel 
dar um relance de olhos pela scena, se viu cercado por todos 
os lados por semblantes carrancudos e ferozes, por uma nu- 
vem colossal de poeira, e por uma turba densa de comba- 
tentes ; como se viu arrebatado de dentro da carruagem por 
qualquer potencia invisível, e pessoalmente empenhado em 
exercícios de pugilato, mas o com quem, ou o como, ou o 
porque, é o que lhe é completamente impossível determi- 
nar. 

Depois sentiu se empurrado para cima de uns degraus de 
madeira por gente que estava atraz d'elle ; e ao tirar o cha- 
péo, achou-se rodeado pelos seus amigos, mesmo na primeira 
fila do lado esquerdo do estrado. 

A direita era reservaoa ao partido amarello, e o centro 
para o inaire e os seus funccionarios ; um dos quaes — o 
gordo pregoeiro de Eatanswill — estava a tocar uma enorme 
sineta, no intento de reclamar silencio. 

Entretanto, o sr. Horatio Fizkin, e o Honourable Samuel 
Slumkey, com a mão sobre o coração, estavam a cumpri- 
mentar com grande affabilidade o borrascsoo mar de cabe- 
ças que inundava a praça e do qual se levantava uma tem- 



no SR. PICKWICK 20^ 



pestade de gemidos, de applausos, de uivos, de vaias, capazes 
de fazer honra a um terremoto. 

— Lá está Winkle, disse o sr. Tupman, puxando pela 
manga do amigo. 

— Onde? perguntou o sr. Pickwick, pondo os óculos que 
até então, por fortuna, guardara na algibeira. 

— Além, disse o sr. Tupman, no telhado d'aquella casa. 
E com eíTeto, na goteira de chumbo de um telhado, lá 

estavam o sr. Winkle e Mrs. Pott, commodamente sentados 
em duas cadeiras, acenando com os lenços em signal de re- 
conhecimento — saudação a que o sr. Pickwick correspon- 
deu, mandando um beijo á illustre dama. A.inda não haviam 
começado os trabalhos eleitoraes ; e como uma turba ociosa 
é geralmente propensa á troça, bastou esta innocentissima 
acção para lhe despertar as facécias. 

' — Ora o maganão do velho ! gritou uma voz. Então vossG 
vae-se atirando ás pequenas, hein ? 

— Olha o venerável peccador, bradou outro. 

— A pôr os óculos para namoriscar uma mulher casada, 
clamou um terceiro. 

— Lá está elle a catrapiscal-a, com o olhar abrejeirado, 
raio do velho ! berrou um quarto. 

— Toma conta na tua mulher, Pott ! vociferou um quinto. 

E n'isto rebentou um coro estrondoso de gargalhadas. 

Como estas chufas fossem acompanhadas por compara- 
ções revoltantes entre o sr. Pickwick e um bode velho, e va- 
rias facécias do mesmo jaez, e como além d'isso tendessem 
a formar juizos temerários sobre a honra de uma damainno- 
cente, era excessiva a indignação do sr. Pickwick. 

Mas como n'esse momento se impunha silencio, elle con- 
tentou-se em fulminar a populaça com um olhar* de com- 
miseração por aquelles espiritos transviados, o que augmen- 
tou mais do que nunca a hilaridade. 

— Silencio! rugiram os sequazes do maire. 

— Whiffin, reclame silencio 1 disse o maire com o ar ma- 
gestoso adequado á sua posição eminente. 

Obedecendo a esta ordem, o pregoeiro executou outro 
concerto de sineta, o que fez com que um sujeito da turba 
soltasse o grito de «Farelorio I» que foi coberto de novas 
gargalhadas. 



2o6 AS AVENTURAS 



— Meus senhores, disse o maire no tom mais elevado a 
que lhe foi possível erguer a voz, meus senhores, coeleitores 
do burgo de Katanswill, aqui nos reunimos hoje afim de ele- 
ger um representante para o logar vago que era do nosso fal- 
lecido. . . 

N'isto, o maire foi interrompido por uma voz d'entre a 
turba. 

— Muita fortuna ao maire': e que elle nunca largue o ne- 
gocio dos pregos e das caçarolas que lhe deu a maquia I 

Esta allusão ás occupaçóes profissionaes do orador foi 
acolhida com um vendaval de jubilo, o qual, junto ao acom- 
panhamento da sineta, tornou inaudível o resto do discurso, 
á excepção da ultima phrase, na qual elle agradeceu á assem- 
bléa a paciente attenção que lhe havia prestado — expres- 
são de reconhecimento que produziu uma nova explosão de 
alegria, que durou cerca de um quarto de hora. 

Em seguida, um sujeito alto e magro, com uma gravata 
branca muito rigida, depois de repetidas intimações da turba 
para «que mandasse um moço a casa a saber se elle teria 
deixado a voz debaixo do travesseiro», pediu que nomeassem 
uma pessoa apropriada e conveniente pc.ra os representar no 
Parlamento. 

E quando elle declarou que essa pessoa era Horatio Fiz- 
kin, Esquire, do. Casal de Fizkin, perto de Eatanswill, os Fiz- 
kinistas applaudiram, e os Slumkeystas rosnaram tanto e tão 
de rijo, que tanto elle como o apresentante poderia ter cantado 
canções cómicas em logar de orar, sem ninguém dar por 
isso* 

Tendo os amigos de Horatio Fizkin, Esquire, gozado das 
suas primícias, adiantou-se um homem de cara de poucos 
amigos e bochechas côr de tijolo, para propor outra pessoa 
apropriada e conveniente para representar no Parlamento os 
eleitores de Eatans\vill ; e sem tropeço faria o seu discurso, 
se não fosse o seu temperamento em demasia colérico, que 
o impedia de ter uma percepção bastante niiida da troça do 
povoléo. 

Mas depois de meia dúzia de phrases de eloquência figu- 
rativa, o homem das bochechas encarnadas desatou a accu- 
sar os que o interrompiam e a desafiar os cavalheiros que 
estavam no tablado. 



DO SR. PICKWICK 207 



Isto excitou uma algazarra tamanha, que elle viu-se obri- 
gado a exprimir os seus sentimentos por mimica, finda a qual 
cedeu o logar ao defensor da sua proposta. 

Este pronunciou um discurso escripto de meia hora, e 
ninguém foi capaz de o fazer parar ; por isso que o tinha 
mandado para a Gaveta de Eatansnnll, a qual o imprimira, 
palavra por palavra. 

Foi então que se apresentou Horatio Fizkin, Esquire, do 
Casal de Fizkin, perto de Eatanswill, afim de fallar aos elei- 
tores. 

Mas apenas tal fez, a banda que estava por conta do Ho- 
nourable Samuel Slumkey, começou a tocar com um vigor, 
ao pé do qual era bagatella o que ella mostrara de ma- 
nhã. 

Para corresponder, a multidão amarella desatou á panca- 
daria nas cabeças e nos hombros da multidão azul ; esta pro- 
curou desenvencilhar-se da incommoda visinhança da mul- 
tidão amarella ; e o resultado foi uma scena de luctas, de em- 
purrões, de combates, á qual nos é tão difficil acudir com a 
descripção como o maire com a justiça. 

Este* debalde deu ordens imperativas a doze esbirros para 
prender os cabeças de motim, que poderiam ascender ao 
numero de duzentos e cincoenta, ou coisa parecida. 

Durante a desordem, Horatio Fizkin, Esquire, do Casal de 
Fizkin, mais os seus amigos, estavam cada vez mais furiosos 
e ferozes, até que por fim Horatio Fizkin perguntou ao seu 
adversário, o Honourable Samuel Slumkey, do solar de Slum- 
key, se aquella banda tocava por ordem sua. 

Como o Honourable Samuel Slumkey se recusasse a res- 
ponder, Horatio Fizkin, Esquire, ameaçou com o punho fe- 
chado o Honourable Samuel Slumkey; ao que este, sentindo 
o sangue subir-lhe ás orelhas, desafiou Horatio Fizkin, Es- 
quire, para um combate mortal. 

A esta violação de todas as regras e de todos os prece- 
dentes conhecidos, o maire deu ordem para outra phantasia 
de sineta : e declarou que elle mandaria chamar á sua pre- 
sença tanto Horatio Fizkin, Esquire, do Casal de Fizkin, co- 
mo o Honourable Samuel Slumke>', do solar de Slumkey, 
afim de os obrigar a metterem-se nas encolhas. 

A esta terrivel ameaça, os amigos dos dois candidatos in- 



208 AS AVENTURAS 



tervieram, e depois de terem questionado, dois a dois, du- 
rante três quartos de hora, Horatio Fizkin, Esquire, levou a 
mão ao chapéo diante do Honourable Samuel Slumkey, o 
qual fez o mesmo diante de Horatio Fizkin. A banda calou- 
se, a multidão aquietou-se em parte, e Horatio Fizkin, Es- 
quire, conseguiu proseguir no seu discurso. 

Os discursos dos dois candidatos, embora diversos a to- 
dos os outros respeitos, prestavam uma brilhante homena- 
gem aos méritos e ás altas virtudes dos eleitores de Eatans- 

AVill. 

Cada um d'elles exprimiu a opinião de que nunca existira no 
mundo uma reunião de homens mais independentes, mais il- 
lustrados. mais patrióticos, mais magnânimos, do que aquel- 
les que lhe haviam promettido os seus votos; cada um d'el- 
les insinuou escusamente a suspeita de que os eleitores da 
parte adversa tinham certos achaques de intelligencia e de 
costumes immundos, que os inhabilitavam para o exercício 
dos importantes deveres que eram chamados a desempe- 
nhar. 

Fizkin exprimiu a sua promptidão em satisfazer qualquer 
pedido que lhe fosse feito : Slumkey, a sua resolução de nada 
fazer do que lhe pedissem. 

Ambos elles disseram que o trafico, a industria, o com- 
mercio, a prosperidade de Éatanswill seriam de todos os ob- 
jectos terrenos os mais caros aos seus corações ; e cada um 
d"elles se julgava auctorisado a acreditar confiadamente que 
elle seria o eleito. 

Levantaram-se as mãos para votar. 

O maire decidiu em favor do Honourable Samuel Slum- 
key, do solar de Slumkey. 

Horatio Fizkin, Esquire, do Casal de Fizkin, requereu um 
escrutínio, e portanto ordenou se o escrutínio. 

Em seguida, votou-se um agradecimento ao maire pela 
maneira hábil porque occupára a cadeira da presidência ; e 
o mait-e agradeceu cordialmente, fazendo votos por que ti- 
vesse havido uma cadeira a valer para elle expandir melhor 
a sua habilidade, por isso que estivera em pé durante todos 
os trabalhos. 

Tornaram a formar-sc os préstitos, as carruagens rodaram 
vagarosamente por meio da multidão, e d'esta sahiram accla- 



DO SR. PICKWICK '20g 



mações ou apupos, conforme a maneira de sentir ou o ca- 
pricho de cada um. 

Durante os trabalhos eleitoraes, a cidade estivera n'uma 
tebre perpetua de excitação. 

Tudo foi conduzido pela forma mais liberal e mais apra- 
zivel. 

Os géneros alimentícios eram notavelmente baratos em 
todas as tabernas. 

Pelas ruas andavam padiolas para transporte dos votan- 
tes atacados de vertigens temporárias — epidemia que se 
desenvolveu assustadoramente pelos eleitores durante a con- 
tenda, e sob cuja influencia não era raro ver alguns d'elles 
estendidos pelas ruas, n'um estado de insensibilidade abso- 
luta. 

Mesmo no ultimo dia, houve um pequeno numero d'elles 
que ainda não tinham votado. 

Eram pessoas reflectidas e calculistas, que ainda não ti- 
nham sido convencidas pelos argumentos de nenhum dos par- 
tidos, apesar de terem tido frequentes conferencias com cada 
um d'elles. 

Uma hora antes do fim do escrutínio, o sr. Perker solici- 
tou a honra de uma entrevista particular com esses intelli- 
gentes, esses nobres, esses patrióticos cidadãos. 

Foi-lhe concedida essa honra. 

Os argumentos foram breves, mas satisfatórios. 

Os retardatários foram em magote ao escrutínio ; e quando 
sahiram de lá, também sahira deputado o Honourable Samuel 
Slumkey, do solar de Slumkey. 



CAPITULO XIV 

Contendo uma rápida dcscrípção da sociedade ^^- 
unída no (cPavâO'>, e uma historia contada per 
um bufarinheiro. 

Agradável é desviar os olhos dos motins e das barafundas 
da vida politica para a pacifica tranquillidade da existência 
privada. 

H 



210 AS AVENTURAS 



Embora não fosse na realidade um ferrenho partidário de 
qualquer das facções, o sr. Pickwick estava sufficientemente 
inflammado com o enthusiasmo do sr. Pott para applicar 
todo o seu tempo e toda a sua attençáo ás operações das 
quaes extraliimos das suas notas a descripção que faz o obje- 
cto do capitulo anterior. 

Emquanto elle estava assim occupado, também o sr.-Win- 
kle não estava ocioso, visto que dedicava completamente o 
seu tempo a passeios aprazíveis e curtas excursões pelo campo 
com Mrs. Pott, que nunca perdia o ensejo que se lhe depa- 
rava para procurar algum allivio á fastidiosa monotonia de 
que se queixava a cada instante. 

Assim de todo fnmiliarisados os dois cavalheiros em casa 
do editor, os srs. Tupman e Snodgrass acharam-se em grande 
parte reduzidos aos seus próprios recursos. 

Interessando-se pouco pelos negócios públicos, iam gas- 
tando o tempo sobretudo com os divertimentos que lhes 
proporcionava o Pavão, e os quaes se limitavam a um jogo 
de bagatelia no primeiro andar e um chinquilho apartado no 
quintal das trazeiras. 

Na sciencia e na belleza de taes recreios, muito mais com- 
plicados do que suppõe o vulgo, foram, elles gradualmente 
iniciados pelo sr. Weller, que possuía conhecimentos per- 
feitos d'esses passatempos. 

Assim, não obstante verem-se em grande parte privados 
da vantajosa companhia do sr. Pickwick, lá iam preenchendo 
o seu tempo, sem maior aborrecimento. 

Eta á noite, comtudo, que o Pavão offerecia aos dois ami- 
gos attractivos que os levavam a resistir até aos convites do 
talentoso, se bem que um pouco massador do sr. Pott. 

A' noite é que o botequim se enchia de uma sociedade, 
cujos caracteres e maneiras forneciam um pasto delicioso ás 
observações do sr. Tupman, e cujas falias e actos o sr. Snod- 
grass se pozera no habito de notar. 

A maioria da gente sabe que espécie de estabelecimentos 
são em gera! os botequins onde se reúnem os commercian- 
tes. 

O do Pavão não sahia da regra geral ; quer dizer, era um 
vasto aposento muito simples, cuja mobilia fora indubitavel- 
mente melhor quando mais nova, com uma espaçosa meza 



hO SK. PICKWICK 2 l I 



no centro, e varias outras pequenas pelos cantos ; um larj^o 
sortimento de cadeiras de variados feitios, e um velho tapete 
turco, tendo pouco mais ou menos em relação ao tamanho 
do aposento as mesmas proporções que um lencinho de se- 
nhora tem para o chão de uma guarita. 

As paredes estavam decoradas comum ou dois grandes 
mappas; c a um canto, pendiam de uma extensa fila de ca- 
bides diversos casacões grossos e coçados. 

A chaminé estava ornamentada com um tinteiro de ma- 
deira, contendo um coto de caneta e meio pau de lacre, uma 
historia do condado, já sem a encadernação e os restos mor- 
taes de uma truta n"um esquite de vidro. 

A aihmosphera estava saturada de fumo de tabaco, o qual 
havia communicado um tom escuro a todo o aposento, e mais 
especialmente ás cortinas vermelhas e empoeiradas que de- 
coravam as janellas. 

No aparador, agglomerava-se uma variedade de objectos 
heterogéneos, os mais conspícuos dos quaes eram um galhe- 
teiro de vidros nebulosos, dois ou três chicotes, outras tantas 
mantas de viagem, um taboleiro com garfos e facas, e a mos- 
tarda. 

Era aqui que estavam sentados os srs. Tupman e Snod- 
grass, na noite seguinte á eleição, com vários outros hospe- 
des da casa, a fumarem e a beberem 

— Vamos lá, meus senhores, disse um personagem cor- 
pulento e alentado, de uns quarenta annos e com um olho só 
— um olho preto muito brilhante, que pestanejava com uma 
expressão de troça magana e de bom humor. A' nossa rica 
saúde ! Eu cá levanto sempre uni brinde á sociedade, mas cá 
de mim para mim bebo á saúde de Mar\ . ()ue dizes a isto, 
Marv > 

— Ora deixe-me com essas, pedaço de brejeiro, disse a ra- 
pariga, que em lodo o caso não se mostrava muito descon- 
tente com o cumprimente. 

— Não te ponhas na pireza, Mary, disse o homem do olho 
pre'o. 

— Não me masse. carraça. 

- Não te rales, disse o zarolho, gritando para a rapariga 
que ia a sahir da sala. Eu já me vou embora, cachopa. Ale- 
gra essa alminha, meu anjo. 



212 AS AVENTURAS 



E n'isto piscou com toda a facilidade o olho solitário a 
toda a geme, com enthusiasrico prazer de um personagem 
idoso de cara suja e de cachimbo de barro. 

— As mulheres são umas creaturas muito esquisitas, disse 
este ultimo depois de um silencio. 

— Ah ! lá isso é que é verdade ! disse um homem de rosto 
muito vermelho, por detraz de um charuto. 

Depois d'este pedacito de philosophia, houve outra pausa. 

— Em todo o caso, acreditem que ha no mundo cousas 
ainda mais exquisitas do que as mulheres, disse o homem do 
olho preto, enchendo lentamente um cachimbo hollandez de 
colossaes dimensões. 

— O senhor é casado? perguntou o homem de cara suja. 

— Que eu saiba, não. 

— Lá me parecia. 

E o homem da carn suja desatou a rir convulsivamente 
com a sua piada, acompanhado no riso por um homem de 
falias mansas e semblante sereno, que tinha por systema es- 
tar sempre de accordo com toda a gente. 

— As mulheres, afinal de contas, disse o enthusiastico sr. 
Snodgrass, Scão os grandes arrimos e confortos da nossa exis- 
tência. 

— Lá isso são, disse o sujeito sereno. 

— Quando estão de bom humor, acudiu o da cara suja. 

— Isso é que é verdade, disse o das falas mansas. 

— Por mim repillo a restricção, exclamou o sr. Snodgrass, 
cujos pensamentos revertiam rapidamente para Emily War- 
dle. Repillo-a com desprezo — com indignação. Mostrem-me 
o homem que diga seja o que fôr contra as mulheres, e eu 
declaro lhe na cara que não é um homem. 

E o sr. Snodgrass tirou o charuto da bocca, e bateu vio- 
lentamente na mesa com o punho fechado. 

— Esse argumento é de força, disse o homem sereno. 

— Contendo uma affirmação que eu nego, interrompeu o 
da cara suja. 

— E com certeza que ha muita verdade também n'isso 
que o senhor observa, disse o das falias mansas. 

— Lá vae á sua ! disse o bufarinheiro zarolho com um 
aceno approvador para o sr. Snodgrass, o qual agradeceu o 
cumprimento. 



DO SR. PICKWÍCK 2l3 



— Eu cá gosto sempre de ouvir um bom argumento, con- 
tinuou o bufarinheiro, um argumento de força como esse 
seu. E' uma coisa que instrue muito. Mas esse argumentosi- 
nho a respeito das mulheres trouxe me á lembrança uma his- 
toria que eu ouvi contar a um velho tio meu ; e foi por me 
lembrar d'isso que eu disse ha bocadinho que se encontra- 
vam ás vezes coisas mais exquisitas do que as mulheres. 

— Não desgostava de ouvir essa historia, disse o homem 
da cara vermelha e do charuto. 

— Deveras? foi a única replica do bufarinheiro, que con- 
tinuou a fumar com grande vehemencia. 

— E eu também, disse o sr. Tupman, que fallava pela pri- 
meira vez, e que tinha sempre uma grande anciã de acres- 
centar a sua provisão de experiência. 

— Deveras? Pois então vou contal-a. E d'ahi é melhor 
não contar. Eu sei que os senhores não acreditam, disse o 
homem do olho trocista, dando-lhe uma expressão mais tro- 
cista do que nunca. 

— Se o senhor diz que é verdade, eu acredito, disse o sr. 
Tupman. 

— Bem ! Em vista disso, vou contar a historia I replicou 
o viajante. Os senhores já ouviram alguma vez fallar na 
grande casa commercial Bilson e Slum ? Isso também pouco 
faz ao caso, quer ouvissem quer não, porque elles ha que 
lempos que largaram os negócios. Foi ha oitenta annos que 
este caso aconteceu a um caixeiro viajante d'essa casa : era 
elle amigo intimo de meu tio, que foi quem me contou a 
historia a mim. Contava- a elle pouco mais ou menos como 
eu a vou contar, e dava-lhe um nome patusco : costumava 
elle chamar-lhe 



A. HISTORIA r>0 RTTjPAKTIXHEIRO 

"N'uma tarde de inverno, ahi pelas cinco horas, ao lusque- 
fusque, podia vêr-se um homem n'uma caleça, a apertar com 
o cavai lo fatigado, pela estrada fora que atravessa a baixa de 
Malborough em direcção a Bristol. Eu digo que podia vcr-se, 
e sem duvida o teria visto quem passasse por aquelle cami- 
nho, a não ser que fosse cego ; mas o tempo estava tão mau. 



2 14 AS AVENTURAS 



e a noite tão fria e chuvosa, que não se via cá por fóra senão 
agua que Deus a dava, e por isso o viajante lá ia aos sola- 
vancos pela estrada adiante, que estava solitária e medonha 
a valer. 

"Se algum bufarinheiro d'esses tempos podesse ter um vis- 
lumbre d^aqueiia caranguejola de caixa còr de greda e de ro- 
das vermelhas, e d"aquella mula baia, manhosa c andadeira, 
que parecia cruzada de um cavallo de magarefe e de uma 
poldra de posta rural, teria percebido immediatamente que 
esse viajante não podia ser senão Tom Smart, da grande casa 
de Bilson c Slum, Cateaton-street, na City '. Mas como não 
havia bufarinheiro que o visse, ninguém sábia nada do caso ; 
e Tom Smart lá ia andando com o seu segredo muito bem 
guardado, mais a sua caleça còr de greda e a sua mula ma- 
nhosa e andadeira. 

«Mesmo n'este valle de lagrimas, ha sitios á farta muito 
mais bonitos do que a baixa de Marlborough quando o vento 
é rijo; ora agora, se lhe juntarem uma noite de inverno, uma 
estrada lamacenta, e umas valentes bátegas de agua, e se fize- 
rem a experiência nas suas pessoas, então é que hão de per- 
ceber bem a força da minha observação. 

"O vento soprava, não pela estrada acima, nem pela es- 
trada abaixo, o que já não c nada mau. mas mesmo pelo tra- 
vez, atirando a chuva de esguelha, á laia d'aquellas linhas 
que se costumavam traçar nos cadernos de escola, para ha- 
bituarem os rapazes a inclinar a letra. 

í<Uma vez por outra estiava, e o viajante começava a ter 
esperança de que o temporal, cansado já de tanta furia, se 
tinha afinal deitado a dormir. 

«Isso sim I Zt ! começava outra vez a ouvil-o a roncar e 
a assobiar ao longe, e lá vinha elle a galgar as collinas, e a 
varrer a pianicie. crescendo de som e de força á proporção 
que se aproximava, até que se arrojava n'uma rajada violenta 
de encontro ao homem e ao cavallo, açoutando-lhe os ouvi- 
dos com as bátegas cortantes, e infiuindo-lhe o sopro húmido 
e frio até á medulla dos ossos; e depois de passar por el- 
les, ia abalando para longe, para muito longe, com urros de 



' CJly. a cidiíde por o\ce]!e!icia. é o bairro commcrcial de Londre: 



i 



hO SR. IMCKWICK 2 l5 



ensurdecer, como se estivesse a troçar da sua fraqueza e a 
triumphar pela consciência do seu poder. 

<<A mula baia ia a chafurdar por ali fora, por cima do la- 
maçal, de orelhas cahidas, sacudindo de vez em quando a ca- 
beça como a expressar o seu descontentamento por este pro- 
ceder muito pouco delicado dos elementos. 

«PLntretanto, seguia a passo regular, até que uma rabanada 
de vento, mais furiosa do que todas as que lhes tinham ca- 
bido em cima, a íez parar de repente, e firmar as patas com 
força no chão para não se ir abaixo. 

"Foi por Deus que assim fez, porque, se tivesse cabido, era 
tão leve a mula, tão leve a caleça, e Tom Smart para mais 
ajuda tão leve também, que elles infallivelmente teriam ido 
todos a rebolar por ali fora até aos confins da terra ou até o 
vento abrandar. 

«Em qualquer dos casos, o mais provável é que nem a 
mula manhosa, nem a caleça còr de greda, nem Tom Smart, 
ficassem outra vez em estado de servirem. 

« — Pelas minhas presilhas e pelas minhas suissas ! excla- 
mou Tom Smart que linha ás vezes a manha ruim de pra- 
guejar. Assoprado seja eu se isto não é divertido. 

«Talvez que os senhores me perguntem porque é que 
Tom Smart, depois de já ter sido tão assoprado, ainda fi- 
cava com desejo de ser submettido ao mesmo processo. Isso 
é que eu não sei dizer — o que sei é que Tom Smart disse 
isto — ou pelo menos contou a meu tio que o tinha dito, o 
que vem a dar na mesma. 

. « — Assoprado seja eu I disse Tom Smart: e a mula rin- 
chou como se fosse precisamente da mesma opinião, 

« — Cobra animo, velhota ! proseguiu Tom Smart, acari- 
ciando o pescoço da mula baia com o extremo do chicote. 
Não ha meio de romper avante, com uma noite d'estas. Na 
primeira casa que encontrarmos, faremos alto; por isso, 
quanto mais depressa andares, mais depressa descanças. Eh! 
velhota! meche-te I mecbe-te ! 

«Lá se a mula manhosa estava tão habituada á voz do 
dono que percebia o que elle queria dizer, ou se achou que 
sentia mais frio parada do que a andar, isso lá é que eu não 
posso dizer. 

«O que é fora de duvida é que apenas Tom se calou, ella 



2l6 AS AVENTURAS 



espivitou as orelhas e seguiu avante n'um passo tal que a ca- 
leça cór de greda chocalhava toda, a ponto de parecer que 
os' raios vermelhos das rodas estavam a pique de ir a voar 
pela planicie fora. 

«O próprio Tom, apesar de ter boa mão de rédea, não foi 
capaz de lhe minguar a andadura, até que a mula parou, de 
seu motu próprio, defronte de uma estalagem á direita da 
estrada, a cerca de meio quarto de milha do extremo da 
baixa. 

«Tom relanceou um olhar rápido á parte superior do edi- 
fício, entregando as rédeas ao moço e espetando o chicote 
na caleça. 

«Era um casarão velho e extraordinário, construído com 
uma espécie de embreixado embutido entre ripas cruzadas, 
com janellas que se debréçavam todas sobre a estrada, e uma 
porta baixa com um alpendre escuro e uns dois degraus Ín- 
gremes por onde se descia para dentro da casa, em vez da 
nova moda de meia dúzia de degraus baixos por onde se sobe 
para ella. 

«Tinha em todo o caso um ar confortável, por isso que 
pela janella da sala da venda sabia uma luz forte e alegre que 
se espalhava pela estrada e chegava até a illuminer a sebe 
fronteira ; e na janella opposta havia uma luz vermelha e tre- 
mula, ora tão fraca que mal se via, ora muito forte, a bri- 
lhar atravez das cortinas cerradas, o que indicava que lá den- 
tro ardia um fogo valente. 

«Notando estes pormenores com o olhar de um viajante 
pratico. Tom apeiou-se com a agilidade que lhe pormittiam 
os membros meio enregelados, e entrou na estalagem. 

'Em menos de cinco minutos, estava Tom Smart agaza- 
Ihado na sala fronteira ao balcão — exactamente onde elle 
calculara que havia lume — diante de um fogo a valer, sub- 
stancial e roncador, composto de guasi uma ranga de carvão 
e lenha bastante para formar meia dúzia de montes decen- 
tes, tudo empilhado até meia altura do fogão, e roncando e 
estalando com uma bulha capaz de aquecer, só por si, o co- 
ração de qualquer homem razoável. 

«Já isto era confortável, mas ainda não era tuao ; porque 
uma moçoila muito asseiada, de olhos brilhantes e modos 
desembaraçados, estava a estender uma toalha muito branqui- 



DO SR. PICKWICK 217 



nha em cima da meza ; e Tom que estava sentado com os 
pés no guarda-fogo e com as costas para a porta aberta, via 
no espelho do fogão o reflexo encantador da casa de venda, 
com as suas appetilosas fileiras de garrafas verdes e rótulos 
dourados, junto com os frascos de escabeches e de conser 
vas, e queijos, e presuntos cozidos, e lombos de vacca, tudo 
formado em prateleiras pela maneira mais tentadora e delei- 
tosa. 

«Isto, sim ! isto era confortável deveras ; mas ainda aqui 
não ficava — porque na casa de venda, a tomar chá n'uma 
mezinha que era de appetite, diante de um lumesinho que 
era um primor, sentava-se uma viuva rechonchuda dos seus 
quarenta e oito annos ou cousa assim, com uma cara tão con- 
fortável como a casa, a qual era evidentemente a estalaja- 
deira e a dominadora suprema d'estas agradáveis posses- 
sões. 

«Havia apenas uma sombra na belleza de todo o quadro: 
era um homem alto, mesmo muito alto, de casaco côr de 
castanha e botões de latão, suissas pretas e cabello ondeado, 
que estava sentado a tomar chá com a viuva, e que sem 
grande esperteza se adivinhava estar a bom caminho de a 
persuadir a não continuar na viuvez e a conceder-lhe o pri- 
vilegio de ficar ali sentado ao balcão durante o resto da 
vida. 

«fTom Smart não tinha por forma alguma um caracter ir- 
ritável ou invejoso, mas, seja como fôr, o caso é que o ho- 
mem do casaco acastanhado excitou-lhe a pequena dose de 
bilis que entrava na sua constituição e revoltou-o a valer, 
sobretudo por observar de quando em quando certas peque- 
nas familiaridades aftectuosas entre o tal homem e a viuva, 
sufficientes para indicar que o homem era tão alto no corpo 
como nas boas graças d'ella. 

«Tom gostava de ponche quente — abalanço-me até a di- 
zer que morria pelo ponche quente — e depois de ter visto 
a mula manhosa de barriga cheia e com boa cama e de ter 
saboreado todos os bons bocados do jantarzinho quente que 
a viuva lhe preparara com as suas próprias mãos, pediu um 
copo d'elle, só para provar. 

«Ora se havia cousa em todas as especialidades culinárias 
eip Gue a viuva fosse primorosa, era exactamente o ponche. 



•2 1c:> AS AVENTURAS 



"O primeiro copo tão bellamente se adaptou ao paladar 
de Tom Smart, que elle pediu immediatemenie segando. 

"O ponche quente e uma bebida aj^radavel, meus senho- 
res — uma bebida extremamente agradável em todas as cir- 
cumstancias — mas n'aquella sala agasalhada, diante do fogo 
a roncar, com o vento a rugir lá por fora a ponto de fazer 
ranger todo o vigamenlo do velho casarão, Tom Smart 
achou o positivamente uma delicia. 

"Mandou vir outro copo, e em seguida outro — não es- 
tou bem certo se ainda depois doeste mandou vir mais algum 
— mas quanto mais ponche quente bebia, mais pensava no 
homem alto. 

« — Raios partam o desavergonhado I disse Tom Smart 
com os seus botões, que diabo tem elle que cheirar aqui 
n'esta casa tão agasalhada : Um maroto feio como um bode I 
Se a viuva tivesse um pedacito de bom gosto, semp/e podia 
pescar um sujeito mais geitoso ! 

«N'isto, os olhes de Tom vaguearam do espelho do fogão 
para o copo que tinha diante de si, e, seniindo-se cada vez 
mais sentimental, despejou-o de um trago, e mandou-o sub- 
stituir por outro cheio. 

«Tom Smart, meus senhores, tinha tido sempre a tineta 
de servir o publico. 

«■Durante muito tempo ambicionara estar ao balcão, em 
casa sua própria, de casaco verde, calções de veludo e botas 
de canhão. 

«Parecia-lhe cousa de maior o presidir a um banquete, e 
imaginava que n'essa posição faria uma bella figura, n'unia 
casa sua, dando o tom á conversação, e que daria um magni- 
fico exemplo aos freguezes no que tocava á bebida. 

«Tudo isro passava rapidamente pelo espirito de Tom 
Smart emquanto ia beberricando o seu ponche e sentia os 
estalidos do lumaréo ; sentia-se justamente indignado contra 
o homem alto, ao vêl-o a bom caminho de governar uma 
casa excellente como aquella, ao passo que elle Tom Smart, 
estava mais longe d'isso do que nunca, 

«Por isso, depois de ter deliberado sobre os dois últimos 
copos se acaso lhe cabia pleno direito de armar desordem 
com o homem alto por ter conseguido cahir nas boas graças 
da rechonchuda viuva, Tom Sma^t chegou por fim á satiefa- 



DO SR. PU.KWICK IK) 



toria conclusão tle que elle era um pobre diabo mal apreciado 
e perseguido, e que o melhor era meiter-se na cama. 

«Pela escada acima, escada espaçosa c antiga, a lesta mo- 
çoila foi precedendo Tom, abrigando a palmatória com a 
mão, atim de a defender das correntes de ar que n'um casa- 
rão irregular como aquelle encontrariam campo á farta para 
se expandirem sem apagar a vela. 

"Mas apagaram-na, apesar d'isso, dando assim aos inimi- 
gos de Tom o ensejo de affiançar que fora elle, e não o vento, 
quem apagara a vela, e que emquanto elle pretendia asso- 
pral-a para a accender outra vez, o que elle estava era a dar 
beijos á rapariga. 

«Fosse como fosse, veiu outra luz, e Tom foi conduzido 
por uma enfiada de casas e um labyrintho de corredores ao 
quarto que lhe estava preparado, onde a cachopa lhe deu as 
boas noites e o deixou sósinho. 

«Estava n'um bello e espaçoso quarto, com grandes alco- 
vas, e um leito que poderia servir para um collegio inteiro, 
para não fallar dos dois armários de carvalho, capazes de 
guardar as bagagens de um pequeno exercito. 

«Mas o que impressionou sobretudo a imaginação de Tom 
foi uma poltrona extraordinária, ue costas altas, de ar carran- 
cudo, com entalhes sobremaneira phantasticos, com uma al- 
mofada de damasco de ramagens, e com os pés arredonda- 
dos cuidadosamente envoltos em panninho vermelho, como 
se padecessem de gota. 

•<De qualquer outra poltrona exquisita. Tom pensaria ape- 
nas que era uma cadeira exquisita, e mais nada; mas havia 
o quer que fosse n'aquella tal poltrona, não poderia dizer o 
que, tão estranho e tão dissimilhante de todos os moveis que 
tinha visto até então, que o demónio da poltrona parecia fas- 
cinai o. 

«Sentou se diante do fogão c ficou meia hora pasmado 
para ella. 

"Raio da poltrona 1 era uma velharia tão exquisita que não 
podia tirar os olhos d'ella. 

« — E' boa! disse Tom despindo-se vagarosamente, sem 
largar nunca os olhos da poltrona que estava com um ar 
mysterioso ao pé da cama. Nunca na minha vida vi cousa 
tão pjndega ! K' exquisito, proscguiu Tom, que tinha ficado 



220 AS AVENTURAS 



um pouco pensador com o ponche, é exquisiio a valer ! 

"Tom sacudiu a cabeç.i com um ar de profunda sabedo- 
ria e tornou a olhar para a cadeira. 

«Mas, como isso não lhe servia de nada, metteu-se na ca- 
ma, conchegou a roupa e ado'-meceu. 

«D'ahi a cousa de meia hora. Tom acordou sobresaltado 
de um pesadelo confuso de homens altos e copos de ponche ; 
e o primeiro objecto que se deparou á sua imaginação extre- 
munhada foi a extraordinária poltrona. v 

« — Não quero olhar mais para ella, disse comsigo Tom, 
cerrando com força as pálpebras, e tentando persuadir-se que 
ia tornar a dormir. 

"Mas qual historia I não lhe dançavam diante dos olhos 
senão poltronas exquisitas, atirando os pés para o ar, pu- 
lando umas por cima das outras e fazendo toda a espécie de 
peloticas. 

« — Tanto me faz ver uma poltrona verdadeira, como duas 
ou três dúzias d"ellas fingidas, disse Tom, deitando a cabeça 
fora da roupa. 

«Là estava ella, perfeitamente discernivel á claridade do 
fogão, sempre com o mesmo aspecto provocante. 

"Tom olhou fito para a poltrona; e de repente viu ope- 
rar-se n'ella uma transformação prodigiosa. 

"Os entalhes das costas assumiram gradualmente as fei- 
ções e a expressão de uma cara, velha e encarquilhada; a al- 
mofada de damasco tornou-se n'um c^llete antigo e flam- 
mante ; os pés transformaram-se em pés de gente, calçados 
de chinelas vermelhas; e a poltrona toda tomou o aspecto de 
um velho muito feio, do século passado, com as mãos na 
cintura. 

"Tom sentou-se na cama e esfregou os olhos para desfa- 
zer a illusão. 

"Isso sim I 

"A poltrona era deveras um velho feio; e o peior é que 
estava a piscar o olho a Tom Smart. 

«Tom. era naturalmente um patusco destemido e valente, 
e para mais ajuda tinha no bucho cinco copos de ponche 
quente. 

«Por isso, apesar de se assustar um pouco a começo, foi- 
Ihe chegando a mostarda ao nariz quando viu o velho a pis- 



DO SR. PICKWICK 22 



car-lhe o olho c a olhal-o de rcvez com aquclle ar inso- 
lente. 

«Atinai perdeu a paciência ; e como a cara encarquilhada 
continuava cada vez mais depressa na mesma piscadella, Tom 
disse em tom de zanga : 

'■ — Que diabo está vossê a fazer- me caretas ? 

« — Porque tenho muito gosto n'isso, Tom Smart, disse a 
poltrona, ou o velho, como os senhores queiram. 

«Mas parou com o piscar de olhos, quando Tom fallou, 
e começou a arreganhar a dentuça como um macaco de- 
crépito.' 

« — Gomo c que vossê sabe o meu nome, sua cara velha 
de quebra-nozes ? perguntou Tom Smart um pouco atrapa- 
lhado, apesar do seu desejo de não perder as estribeiras. 

« — Então, Tom ! isso não são maneiras de fallar a bom 
mogno massiço. Co'a breca ! com tão pouco respeito nem a 
casquinha se trata ! 

«Quando o velho disse isto, teve uma expressão tão feroz 
que Tom começou a sentir se aterrado. 

« — Eu cá não tinha na ideia faltar-lhe ao respeito, se- 
nhor, disse elle n'um tom muito mais humilde. 

« — Bem, bem. Quero crer que não — quero crer que não. 
Tom. . . 

« — Senhor. . . 

" — Sei a tua historia toda, Tom; de fio a pavio. Tu és 
muito pobre. Tom. 

«—Está bem de ver que sou. Mas como é que o senhor 
veiu a saber isso ? 

« — Que te importa ? Tu morres por ponche. Tom. 

«Tom Smart esteve vae não vae para protestar que desde 
o dia dos seus annos que não bebera pinga de ponche ; mas 
quando o seu olhar encontrou o do velho, este tinha um ar 
tão espertalhão que Tom corou e embatucou. 

« — Tom, disse o velho, a viuva é uma boa mulher — uma 
mulher de estalo — hein. Tom ? 

«N'isto o velho envesgou os olhos, levantou uma das per- 
ninhas magrizelas, e tomou um ar tão maganamente amo- 
roso, que Tom teve nojo d'aquelle proceder abrejeirado ; de- 
mais a mais, n'aquella idade 1 

« — Eu sou tutor d'ella, Tom. 



2*2 AS iWENTURAS 



(( — Ah ! sim ? perguntou Tom Smart. 

"—Conheci a mãe d'ella, Tom, e mais a avó. Era doida 
por mim — por signal que me fez este coileie, Tom. 

" — Deveras ? 

•' — E mais estes sapatos, disse o velho levantando para o 
ar uma das palhetas vermelhas, mas não digas nada. Tom. 
Eu não gostava que se soubesse conio ella morria por mim. 
Podia causar algum desgosto na familia. 

"Quando o ladrão disse isto, linha um ar tão impertinen- 
te, que Tom, conforme depois declarou, teve ganas de se as- 
sentar em cima d'elle. 

« — Eu cá, no meu tempo, fui o menino bonito das mu- 
lheres, Tom, disse o velho devasso. Foram aos centos as lin- 
das mulheres que se me sentaram no regaço, horas a fio. Que 
dizes tu a isto, maganão, hein ? 

«O velho ia continuar a contar algumas outras proezas 
dos seus tempos de rapaz, quando o atacou tamanho accesso 
de tosse que se viu obrigado a calar. 

"—Muito bem feito, meu ginja, pensou de si para com- 
sigo Tom Smart ; mas não disse palavra. 

«—Ah! proseguiu o \elho, isto agora é que me apo- 
quenta muito. Vou-me fazendo velho, Tom, estou qiiasi a ca- 
hir da tripeça. Demais a mais. fizeram-me uma operação. 
Tom, metteram-me não sei o quê pelas costas dentro —isso 
é que foi levado do diabo. Tom. 

« — Devia ser, devia. 

«' — Mas não se trata disso, Tom. eu quero que tu cases 
com a viuva. 

« — Eu, senhor? 

" — Tu, sim. 

'< — Bemdiías sejam as .Nuas veneráveis guedelhas I disse 
Tom, porque a poltrona ainda tinha umas poucas de crinas 
aqui e ali. Ella quer lá nada comigo I 

"E Tom suspirou involuntariamente, ao pensar na venda. 

" — Qual não quer r disse o velho com segurança. 

" — N<ão quer, não ! D'oLJra banda é que sopra o vento. Um 
malandrão alto — alto como uma torre — de suissas pretas. 

« — Tom com esse não casará nunca a viuva I 

"—Deveras? Oral se o senhor estivesse lá na venda, já o 
senhor não fallava assim. 



DO ^R. PICKWICK 223 



"—Ora, adeus! estou farto de saber essa historia toda. 

« — Qual historia ? 

' — As beijocas atraz da porta, e todas as cousas do mesmo 
jaez, Tom, disse o velho, com outro olhar abrejeirado que 
fez ferver o sangue de Tom ; porque, como os senhores sabem 
todos, isto de oiívir um velho, que devia ter juizo, a fallar de 
cousas assim, não ha cousa mais desagradável. 

« — Essa historia toda sei eu. Tom. Fartei-m** de ver cou- 
sas d'essas no meu tempo, Tom, e entre que gente ! ora ! 
mais do que eu gostaria de mencionar! mas afinal tudo isso 
deu em nada. 

« - O senhor havia de ter visto muita cousa patusca, disse 
Tom com um olhar inierrogador. 

« — Ora, se vi. Tom I replicou o velho com uma careta 
muito complicada. Sou o ultimo da minha familia, Tom, 
acrescentou elle com um suspiro melancólico. 

« — Era grande a sua familia ? 

« — Éramos doze ; uns rapagões direitos como um fuso, 
guapos que era um gosto ver-nos. Não era lá nenhum d'esses 
taes abortos modernos! e então com um polimento — sei 
que não me cabia a mim dizel-o — com um polimento, que 
era mesmo de consolar a alma. 

« — E o que foi feito dos outros? 

«O velho levou o cotovello ao olho e respondeu : 

« — Foram-se, Tom, foram-se todos. Tivemos um serviço 
duro. Tom, e nem todos elles tinham a mmha constituição. 
Apanharam rheumatico nas pernas e nos braços, e foram pa- 
rar ás cosinhas e a outros hospitaes ; e um d'elles carregado 
de serviços e de maus tratos, esse íicou tão desengonçado e 
ião decrépito que se viram obrigados a atirar com elle ao 
iume. Triste cousa. Tom ! 

« — De arripiar ! disse Tom Smart, 

"O velho calou-se durante poucos minutos, lutando appa- 
rentemente contra a própria commoção, e depois continuou : 

•' Mas Tornando á vacca fria, Tom. Esse homem alto é 
um patife d"um aventureiro. Apenas casasse com a viuva, 
vendia logo a mobília, e punha-se a andar. As consequências 
quaes seriam ? Ella ficava desamparada e arruinada, e eu ia 
apanhar uma constipeira mortal e esticar para a loja de qual 
quer ferro ^■elho. 



124 AS AVENTtJPAS 



«' — Sim, mas. . 

" — Não me interrompas, homem. De ti. Tom, tenho eu 
uma opinião bem differenie ; sei perfeitamente que se tu uma 
vez te estabelecesses n'uma venda, nunca a largarias, em 
quanto houvesse lá dentro uma pinga para beber. 

« — Muito obrigado pela sua boa opinião, senhor. 

« — Por isso, concluiu o velho, n*um tom dictatorial, tu é 
que has de casar com ella, e elle não. 

« — Que empecilho se lhe ha de pôr? perguntou Tom 
Smart anciosamente, 

« — Este apenas : elle é já casado. 

'< — Como hei de eu provar isso ? exclamou Tom com um 
pulo que o deitou a meio fora da cama. 

«O velho soltou o braço da cintura, e, tendo apontado 
para um dos armários de carvalho, tornou immediatamente 
a pôl-o no mesmo sitio. 

« — Mal imagina elle que na algibeira direita de umas cal- 
ças que estão ali n'aquelle armário, elle deixou uma carta, 
s'upplicando-lhe que voltasse para junto da desventurada mu- 
lher, com seis — note bem. Tom I — seis filhos, e todos elles 
pequerruchos. 

«Ao pronunciar solemnemente estas palavras, as feições 
do velho foram-se cada vez tornando menos distinctas, e a 
sua figura mais nebulosa. 

«Cahiu um veu sobre os olhos de Tom Smart. 

«O velho foi-se gradualmente confundindo com a poltrona, 
o coliete de damasco a resolver-se n'uma almofada, as chi- 
nellas vermelhas a encolherem-se até ficarem saquinhos de 
panninho. 

«A luz apagou-se pouco a pouco, e Tom Smart cahiu 
para cima do travesseiro, e ferrou logo no somno. 

"A manhã despertou Tom do torpor lethargico em que 
cahira depois de desapparecer o velho. 

"Sentou-se na cama, e durante alguns minutos tentou de- 
balde recordar-se dos successos da noite precedente. 

<'De súbito occorreram-lhe ao espirito. 

«Olhou para a poltrona; era com efíeito um movei phan- 
tastico e severo, mas só uma imaginação extraordinariamente 
esquentada e engenhosa poderia ter descoberto qualquer si- 
milhanca entre elle e um velho. 



DO SR. PICKWICK 2 2D 



« — Como vae isso, meu velhote? disse Tom. 

"Era mais destemido com a luz do dia — quasi todos os 
homens assim são. 

"A poltrona hcou-se immovel, e não abriu bico. 

"—Está uma manhã feiissima ! disse Tom. 

«Moita. A poltrona não estava para conversas. 

<< — Para qual dos armários apontou vossê ^ Diga lá I disse 
Tom. 

«Na mesma. A cadeira não tugiu nem mugiu. 

« — Já agora não é cousa que me custe muito, ir abril-o ! 
disse Tom, saltando resolutamente para fora de cama. 

«Dirigiu-se para um dos armários. 

"A chave estava na fechadura; deu volta a ella e abriu a 
porta. 

"Lá estava um par de calças. 

«Metteu a mão na algibeira e tirou uma carta, tal e qual 
como o velho a descrevera. 

" — E' boa, esta ! disse Tom Smart olhando primeiro para 
a poltrona e em seguida para o armário, e depois para a car- 
ta, e afinal outra vez para a poltrona. E' mesmo muito ex- 
traordinário ! 

«Mas como em nenhum dos objectos para que elle olhava 
havia nada que lhe explicasse o extraordinário do caso, Tom 
pensou que o melhor que tinha a fazer era vestir-se, e acabar 
de vez com o homem alto — mesmo para se livrar d"aquelle 
pezadelo. 

«Tom foi examinando as casas por onde ia passando, ao 
encaminhar-se para baixo, com o olhar investigador do dono; 
pensando que não era impossivel que dentro em pouco todas 
ellas, com o seu recheio, fossem d"elle. 

«O homem alto lá estava em pé na casa de venda, de 
mãos atraz das costas, como se já fosse de casa. Sorriu-se 
distrahidamente para Tom. 

«Quem por acaso o visse era capaz de suppôr que isto 
era só para mostrar a dentuça branca; mas Tom pensou que 
estava passando uma ideia de triumpho pelo sitio onde de- 
viam ficar os miolos do homem alto, se é que elle os ti- 
nha. 

"Tom deu-lhe uma gargalhada na cara, e chamou a esta- 
lajadeira. 

i5 



226 AS AVENTURAS 



" — Bons dias, patroa, disse Tom Smart, fechando a porta 
da saleta logo que a viuva entrou. 

« — Muito bons dias, disse esta. Que quer o senhor para o 
almoço ? 

"Tom estava a pensar como havia de entrar em maté- 
ria, por isso não deu resposta. 

« — Tenho ahi um presunto magnifico, continuou a viuva, 
e uma ave lardeada, fria, que é uma delicia. Quer que lhe 
mande buscar tudo isso ? 

"Estas palavras arrancaram Tom ás suas cogitações. A 
sua admiração pela viuva crescia á proporção que ella fal- 
lava. Que creatura tão previdente! tão cuidadosa! tão amiga 
do conforto ! 

« — Quem é aquelle sujeito que está na casa da venda? 

« — Chama-se Jinkins, disse elle corando ao de leve. 

« — E' muitc alto. 

« — iMuito boa pessoa, e muito bem educado. 

" — Ah ! sim ? 

« — O senhor precisa de mais alguma cousa? perguntou a 
viuva, um pouco embaraçada com os modos de Tom. 

" — Preciso, preciso, exclamou Tom. Minha querida senho- 
ra, quer ter a bondade de se sentar um instantinho? 

«A viuva pareceu ficar muito espantada, mas sentou-se, e 
Tom também, mesmo ao pé d'ella. 

«Não sei como aquillo foi, meus senhores — até o meu tio 
contava que nem o próprio Tom dera por isso — mas o caso 
c que a palma da mão de Tom cahiu nas costas da mão da 
viuva, e lá ficou emquanto elle deu o seu recado. 

« — Minha querida senhora, disse Tom Smart — elle sem- 
pre tinha tido a tineta de se fazer amável — minha querida 
senhora, a senhora merece um marido excellente, merece, 
por certo. 

« — Ora essa, senhor! exclamou a viuva, como era natu- 
ra! ; visto que o modo de Tom encetar a conversação era um 
tanto ou quanto extraordinário, para não dizer espantoso, 
lo ,0 que se tome em attenção o facto de elle nunca ter le- 
vantado na véspera os olhos para ella. Ora essa! 

" — Eu cá não sou homem de lisonjas, minha querida se- 
nhora, disse Tom Smart. A senhora merece um marido de 
primeira ordem, e seja quem fôr, feliz homem ! 



no SR. PICKWICK 



«E os olhos de Tom involuntariamente relancearam da 
cara da viuva para o conforto que o cercava. 

"A viuva estava mais atrapalhada do que nunca. Fez um 
movimento para se levantar. Tom apertou-lhe brandamente a 
mão, como para a deter, e ella deixou-se ficar sentada. 

«As viuvas, meus senhores, em geral não são muito timi- 
das, costumava dizer o meu tio. 

«— Estou-lhe deveras agradecidíssima pela boa opinião 
em que me tem, disse ella, meio a rir; e se eu tornar alguma 
vez a casar. . . 

« — Se ? disse Tom Smart olhando com muita malícia com 
o canto direito do olho esquerdo. Se ?. . . 

" — Bem ! disse a viuva, rindo d'esta feita a valer. Quando 
cu casar, espero ler um marido tão bom como o senhor me 
deseja. 

« — .linkins, já se vê. 

« — Ora essa, senhor 1 

<< — Escusa de dizer nada ! Eu bem o conheço. 

« — Estou certa que ninguém que o conheça sabe nada 
mau a seu respeito, disse a viuva repontando com os ares 
mysteriosos de Tom. 

tt — Hum ! fez Tom Smart. 

<< A viuva principiou a crer que era a occasião própria para 
desatar a chorar. 

"Tirou pois o lenço da algibeira, e perguntou a Tom se 
desejava insultal-a, s-^ julgava próprio de um cavalheiro o 
dizer mal de outro cavalheiro, nas costas d'este ; porque 
rasão, se alguma cousa tinha a dizer, não o dizia antes ao 
homem, como um homem, em logar de vir d'esta maneira 
pregar sustos a uma pobre mulher fraca ; e assim por diante. 

"— Não tarda que eu lh'o diga a elle, replicou Tom, mas 
desejo primeiro que a senhora ouça. 

« — O que? perguntou a viuva, encarando curiosamente 
Tom 

« — Vae ficar espantada, disse Tom, metíendo a mão na 
algibeira. 

« — Se é lá o elle precisar de dinheiro, isso já eu sei, es- 
cusa de se dar a esse incommodo. 

" — Ora, adeus ! que disparate ! isso não vale de nada ! 
Dinheiro também eu preciso. Não é nada d'isso. 



228 AS AVENTURAS 



« — Valha-me Deus! então o que é? exclamou a pobre 
viuva. 

„ — >i5o se assuste, disse Tom Smart, sacando lentamente 
a carta e desdobrando a. Veja lá, promette não chiar? 

« — Não chio, não, deixe cá ver. 

u — Nem faniquitos, nem faz outras tolices que taes ? 

« — Não, não, retorquiu ella vivamente. 

« — E não desata a correr por ahi fora para lhe saltar em 
cima ? Para isso cá estou eu ; não precisa a senhora incom- 
modar-se. 

« — Bem, bem! dt-ixe cá ver. 

„ — Ahi tem ! replicou Tom Smart, collocando a carta nas 
mãos da viuva. 

"Ouvi contar a meu tio que Tom Smart contava que as 
lastimas da viuva, ao ter conhecimento d^aquella revelação, 
eram capazes de traspassar um coração de pedra. Ora o co- 
ração de Tom era terno a valer; não admira que ficasse trás 
passado até ao intimo. 

«A viuva agitava-se de um lado para o outro, torcendo as 
mãos. 

„ — Oh ! que traição I que infâmia de homem ! bradava 
ella. 

<( — E' de tremer, minha querida senhora ; mas soce- 
gue ! 

„ — Eu posso lá socegar! guinchou a viuva. Nunca encon- 
trarei homem por quem eu tenha tanta estima como por 
elle! 

u — Ora ! se encontra ! encontra com certeza, minha jóia ! 
disse Tom Smart, deixando cahir um chuveiro das mais u;ros- 
sas lagrimas sobre as desgraças da viuva. 

«Tom Smart, na energia da sua compaixão, tinha pas- 
sado o braço á roda da cinta da viuva; e a viuva na força do 
desgosto, tinha agarrado com anciã a mão de Tom. 

"Ella levantou os olhos para a cara d'elle, e sorriu atra- 
vez das lagrimas; elle baixou os olhos para a cara d'ella, e 
sorriu da mesma forma. 

"Nunca pude descobrir, meus senhores, se Tom n'aquelle 
momento ferrou ou não ferrou uma beijoca na viuva, 

"Elle costumava dizer ao meu lio que não, mas eu cá te- 
nho as minhas duvidas a esse respeito. 



DO SR. PICKWICK 229 

"Aqui para nós, que ninguém nos ouve, tenho suspeitas 
que sim. 

"O que é certo é que uma hora depois Tom deitou o ho- 
mem alto aos pontapés pela porta fora, e passado um mez 
casava com a viuva. 

"E costumava andar por aquelies contornos na cale ca 
còr de greda com rodas vermelhas, guiando a mula manhosa 
*í andadeira. Ate que muitos annos depois, largou o negocio 
e foi para França e mais a mulher. E então deitaram abai.^:o 
o velho casarão.') 



— Dá-me licença que lhe faça uma pergunta? disse o ve- 
lho curioso, que foi feito da poltrona ? 

-— Ora ! replicou o bufarinheiro zarolho ; sentiram-na aos 
estalidos no dia das bodas ; mas Tom Smart não podia afian- 
çar se era de regosijo se de doença. Pareceu-lhe mais que 
fosse d'este ultimo motivo, porque ella nunca mais fallou. 

— Toda a gente acreditou na historia, hein ? perguntou o 
homem da cara suja, tornando a encher o cachimbo. 

— Excepto os inimigos de Tom. Uns disseram que era 
patranha inventada toda por elle ; e outros que elle estava 
torto, e que sonhou tudo aquillo, e que por engano agarrara 
nas calças que não eram d'elle antes de se metter na cama. 
Mas nunca ninguém fez caso do que elles diziam. 

— Tom Smart affirmava que era tudo verdade ? 

— Palavra por palavra. 

— E o seu tio ? 

— Letra por letra. 

— Haviam de ser uns pândegos, tanto um como o outro, 
disse o homem da cara suja. 

— Pois eram ! redarguiu o bufarinheiro ; dois pândegos de 
estalo ! 



23o AS AVENTURAS 



CAPITULO XV 

No qual se dá um retrato fiel de duas pessoas il- 
lustres; e uma descrlpção exacta de um grande 
almoço na casa e nas terras d^ellas; o qual al- 
moço leva ao encontro de um velho conheci- 
mento, e ao começo de novo capitulo. 

A consciência do sr. Pickwick remordia-o um pouco pelo 
recente abandono em que tivera os seus amigos do Pavão; 
e na terceira manha depois da eleição ia elle justamente sa- 
hir para os ir ver, quando o seu fiel servo lhe depôz na mão 
um bilhete de visita, no qual estava gravada a seguinte in- 
scripçáo ' : 



O Antro. Ea/ausjpill. 



— A pessoa está á espera, disse Sam com modo epigram- 
matico. 

— Por mim e que ella perguntou, Sam? interrogou o sr. 
Pickwick. 

— Foi pelo sr. Pickwick mesmo que elle perguntou, e por 
mais ninguém, como dizia o secretario particular do diabo 
quando veiu buscar o dr. Fausto. 

— Elle ? Então é um sujeito ? 

— Se não é, imita perfeitamente. 



' Ha aqui um trocadilho intraduzivel. Huuter signitíca cavador, Leo é 
a forma latina de leáo. Caçador de Leões ou Leão Caçador é o nome do 
marido, adoptado pela mulher segundo o uso inglez e francez. Não admira 
pois que dêem a sua residência o titulo emphatico de antro. 



DO SR. PICKWICK 20 1 



— Mas este bilhete é de uma senhora ? 

— E quem m'o deu foi um sujeito, ora ahi está ! e lá ficou 
á espera na sala — e diz que antes quer esperar todo o dia 
do que deixar de o ver. 

O sr. Pickwick, ao ouvir tal determinação, desceu á sala. 
Kstava lá sentado um homem grave, que se levantou apenas 
o viu entrar, com ar de profundo respeito. 

— O sr. Pickwick, creio eu ? 

— Em pessoa. 

— Conceda-me a honra de lhe apertar a mão. Permitta- 
me que lh'a aperte cordialmente. 

— Pois não í 

O desconhecido apertou a mão que lhe estendiam e em 
seguida proseguiu : 

— A sua fama é-nos conhecida, senhor. Os echos da sua 
discussão archeologica chegaram aos ouvidos de Mrs. Leo 
Hunter — miríVia mulher, sr. Pickwick ; eu sou o sr. Leo Hun- 
ter. 

O desconhecido calou-se, como se estivesse a espera que 
o sr. Pickwick ficasse succumbido com tal revelação ; mas 
vendo que elle permanecia perfeitamente sereno, conti- 
nuou : 

— Minha mulher — Mrs. Leo Hunter — tem orgulho em 
contar entre os seus conhecimentos todas as pessoas que se 
teem tornado celebres pelas suas obras e pelos seus talentos. 
Permitta-me que colloque n'um logar conspícuo d'essa lista 
o nome do sr. Pickwick e dos seus consócios no club que 
d'elle deriva o seu nome. 

— Terei o máximo prazer em travar conhecimento com 
uma senhora tão distincta. 

— Ha de travar. A'manhã de manha damos nós um gran- 
de almoço, um festim campestre a um numero c'onsideravel 
d'aquelles que se teem tornado celebres pelas suas obras e 
pelos seus talentos. Digne-se o sr. Pickwick conceder a Mrs. 
Leo Hunter a satisfação de o ver no Antro, 

— Com todo o gosto. 

— Mrs. Leo Hunter dá muitos almoços d'estes. "Banque- 
tes da razão e da alma effluvios,» como observou com senti- 
mento e originalidade alguém que escreveu um soneto a Mrs. 
Leo Hunter a propósito dos seus almoços. 



232 AS AVENTURAS 



— Kra pessoa celebre pelas suas obras e pelos seus talen- 
tos ? 

— K' claro que era ; todos os conhecimentos de Mrs. Leo 
Hunter o são; a ambição de minha esposa é não ter conhe- 
cimentos de outra espécie. 

— Nobilissima ambição essa! 

— Quando eu informar Mrs. Leo Hunter que cahiu dos 
seus lábios simiihante observação, bem orgulhosa ficará por 
certo. Ouvi dizer que entre os senhores havia um cavalheiro 
que tem produzido poesias lindíssimas .'' 

— O meu amigo, o sr. Snodgrass, tem muito gosto para a 
poesia, 

— E' como Mrs. Leo Hunter. Morre pela poesia; posso 
dizer que tem a alma e o espirito enlaçados, entretecidos 
com a poesia. Tem produzido até alguns trechos deliciosos. 
Ao sr. Pickv/ick já se deve ter deparado a sua Ode a uma rã 
moribunda. 

— Não tenho ideia. 

— Pois olhe que isso espanta-me. Essa ode fez uma sensa- 
ção extraordinária. Era assignada com um L e oito estrellas, 
é appareceu originalmente n'um semanário de senhoras. Co- 
meçava assim : 



"Quanto me custa o vêr-te, assim cabida 
De ventre para baixo, succumbida, 
Arquejante, a perder a força e a vida, 

Sobre uma táboa chã, 

O' moribunda rã ! » 



— Magnifico I disse o sr. Pickwick. 

— Bello, disse o sr. Leo Hunter, tão simples I 

— Muito I 

— A estrophe seguinte ainda é mais commovente. Quer 
que lh'a recite ? 

— Tem a bondade I 

— E' assim, continuou o homem grave, com mais gravidade 
ainda : 



DO SF. PICKWICK 233 



Demónios, em rapazes disfarçados, 
(]om bulicio e com gritos desalmados. 
Atiraram-le um cao aos descampados 

Da lagoa louçã, 

O' moribunda rã l» 



— Que belleza de expressão! disse o sr. Pickwick. 

— Se é ! mas o que queria era que o senhor ouvisse Mrs. 
Leo Hunter a recital-a. Só ella é que lhe pôde dar todo o va- 
lor. Ha de recital-a a caracter, amanhã de manhã. 

— A caracter ? 

— Vestida de Minerva. Já me esquecia de lhe dizer — o 
nosso almoço é costume. 

— Valha-me Deus ! disse o sr. Pickwick, com um relance 
de olhos para a sua própria figura — eu posso lá. . . 

— Qual não pode I exclamou o sr. Leo Hunter. Salomon 
Lucas, o judeu da rua direita, tem fatos de mascaras aos mi- 
lheiros. Ora repare o sr. Pickwick na quantidade de vestuá- 
rios convenientes entre os quaes pode escolher. Platão, Ze- 
non, Epicuro, Pythagoras — todos elles são fundadores de 
clubs. 

— Isso sei eu, mas como eu não posso pór-me em parallelo 
com esses grandes homens, não quero ter o arrojo de me 
vestir como elles. 

O homem grave reflectiu alguns minutos profundamente, 
e disse logo : 

— Pensand© rr.elhor, sr. Pickwick, não sei se Mrs. Leo 
FKinter ficará mais contente, se os seus convivas virem um 
homem da sua reputação com o seu fato próprio, em logar 
de um disfarce de convenção. Abalanço-me a tomar sobre 
mim a responsabilidade d'esta excepção — sim, estou certis- 
simo que a posso tomar da parte de Mrs. Leo Hunter. 

— N'esse caso, terei um grande prazer em acceitar o seu 
convite. 

— Mas estou-lhe a fazer perder tempo, disse o homem 
grave, como se de repente lhe occorresse aquella ideia. Sei 
quanto elle lhe é precioso. Não quero demoral-o. Posso en- 
tão dizer a Mrs. Leo Hunter que pôde esperal-o confiada- 
mente, assim como aos seus illustres amigos ? Adeus, sr. Pick- 



•34 AS AVENTURAS 



wick, orgulho-me por ter contemplado um personagem tão 
eminente. Não se incommode ; não se mexa ; não falle. 

E sem dar tempo ao sr. Hick\vick de lhe offerecer uma 
observação ou uma escusa, o sr. Leo Hunter sahiu a passos 
graves e compassados. O sr. Pickwick pegou no chapéo e 
dirigiu-se para o Pavão; mas o sr. Winkle já lá tinha levado 
antes d"elle noticias do baile costume. 

— Mrs. Pott vae lá, foram as primeiras palavras com que 
elle saudou o seu chefe. 

— Ah I vae .'' disse o sr. Pickwick. 

— Vae vestida de Apollo, replicou o sr. Winkle. Pott só 
faz objecções á túnica. 

— É tem razão. Tem carradas de razão, disse o sr. Pick- 
wick com energia. 

— Sim ; por isso ella leva um vestido de setim branco com 
lantejoulas de oiro. 

— Não ha de ser muito fácil perceber de que ella vae ves- 
tida ; não acham r perguntou o sr. Snodgrass. 

— Ora adeus! se se percebe! replicou o sr. Winkle com 
indignação. Então não lhe vêem a lyra? 

— E' verdade : esquecia me d'isso, disse o sr. Snodgrass. 

— Eu cá vou de bandido, accudiu o sr. Tupman. 

— De que ? disse o sr. Pickwick com um sobresalto. 

— De bandido, repetiu o sr. Tupman com voz melliflua. 

— Não tenciona decerto, disse o sr. Pickwick encarando 
o amigo com severidade solemne, não tenciona decerto, sr. 
Tupman, vestir-se com uma jaqueta de veludo verde, com 
dois dedos de abas ? 

— E' essa a minha intenção, sr. Pickwick, replicou calo- 
rosamente o sr. Tupman. Que tem a dizer .'' 

— Tenho a dizer, exclamou o sr. Pickwick muito excitado, 
que o senhor já está velho demais para isso ! 

— Velho demais ! bradou o sr. Tupman. 

— E se ainda precisa d'outro motivo, porque é muito gordo. 

— Senhor, disse o sr. Tupman com a cara purpúrea, isso 
é um insulto. 

— Senhor, redarguiu o sr. Pickwick no mesmo tom, nem 
metade é do insulto que seria para mim, se o senhor appare- 
cesse diante da minha vista com uma jaqueta de veludo verde 
e dois dedos de abas. 



DO SR. PICKWICK 235 



— O senhor é um safardana ! 

— E o senhor outro ! 

O sr. Tupman avançou um ou dois passos, e olhou em 
cheio para o sr. Pickwick. Kste deitou-lhe um olhar idêntico, 
concentrado n'um foco por meio dos óculos, e articulou um 
desafio audaz. Os srs. Snodgrass e Winkle olhavam para tudo 
isto, petrificados por presenciarem uma scena tal entre ho- 
mens taes. 

— Senhor, disse o sr. Tupman, depois de um curto silen- 
cio, fallando em voz cava, o senhor chamou-me velho ! 

— Chamei, 

— E gordo. 

— Repito. 

— E safardana. 

— Assim é. 

Houve uma pausa aterradora. 

— A minha dedicação á sua pessoa, disse o sr. Tupman 
em voz tremula de commoção, arregaçando os punhos da 
camisa, é grande — é enorme — mas d'essa pessoa tenho eu 
que tirar vingança summaria. 

— Venha d'ahi ! replicou o sr. Pickwick. 

Estimulado pela natureza excitante d'este dialogo, o he- 
róico personagem assumiu uma attitude de paralytico, que os 
dois espectadores d'esta scena suppozeram ser intencionada 
por posição de defeza. 

— Que é isto ? exclamou o sr. Snodgrass, recuperando de 
súbito o uso da falia que lhe- tirara a intensidade do seu 
pasmo, e precipitando-se entre os dois, com risco imminente 
de apanhar um soco em cada uma das fontes. Que é isto ! O 
sr. Pickwick, em quem se fixam os olhos do mundo inteiro! 
O sr. Tupman que comnosco partilha os resplendores jorra- 
dos do seu nome immortal ! Que vergonha, senhores, que 
vergonha ! 

As rugas deshabituaes que uma cólera momentânea ca- 
vara no semblante límpido e aberto do sr. Pickwick foram-se 
desvanecendo pouco a pouco á proporção que fallava o seu 
ioven amigo, como os traços da plombagina sob a suavisante 
impressão da borracha. 

Antes de elle acabar já o rosto do sábio readquirira a sua 
usual expressão de benignidade. 



2?6 AS AVENTURAS 



— Fui precipitado, disse o sr. Pickwick, fui muito preci- 
pitado, Tupman, de cá a sua mão. 

A sombra negra dissipou-se no rosto do sr. Tupman, que 
apertou calorosamente a mão do amigo. 

— Também eu fui precipitado, disse elle. 

— Não, não, interrompeu o sr. Pickwick. A culpa foi mi- 
nha. Vossè serr^pre veste a jaqueta de veludo verde í 

— Não. não, respondeu o sr. Tupman. 

— Ha-de vestil-a, para me obsequiar. 

— Bem ! bem ! então visto. 

Combinou-se pois que os srs. Tupman, Winkle e Snod- 
grass fossem todos com fatos de phantasia. 

Assim foi o sr. Pickwick induzido pelo fervor dos seus 
bons sentimentos h consentir n'um projecto de que o des- 
viaria o seu excellente juizo — difficilmenie se conceberia 
mais frisante demonstração do seu caracter bondoso, mesmo 
que fossem completamente imaginários os successos narra 
dos nas presenres paginas. 

O sr. Leo Hunter não tinha e.vagerado os recursos de Sa- 
lomon Lucas. O seu guarda-roupa era copioso — extrema- 
mente copioso — talvez que não esirictamente clássico, nem 
novo em folha, nem contendo nenhum traje feito rigorosa- 
mente segundo a moda de qualquer época ou paiz, mas tudo 
era mais ou menos enfeitado de lantejoulas, e que cousi 
pôde haver mais lindo que as lantejoulas? 

Póde-se objectar que ellas não são adaptadas á luz do 
dia, mas toda a gente sabe que ellas lampejariam se a luz 
fosse artificial ; e se os bailes costumes se dão de dia e os tra- 
jes não brilham tanto como brilhariam de noite, é claro que 
a culpa é so de quem dá esses bailes, e por forma nenhuma 
se deve attribuir ás lantejoulas. 

Tal era a convincente argumentação do sr. Salomon Lu- 
cas ; e sob a sua influencia é que os srs. Tupman, Winkle e 
Snodgrass se decidiram a trajar os fatos que o seu gosto e 
a sua experiência lhes aconselhavam como admiravelmente 
apropriados ao caso. 

Alugou -se um caleche nas Armjs da Cidade para accom- 
modar os pickwickanos, e da mesma cocheira sahiu um coupé 
destinado ao transporte do sr. Poit e de sua esposa aos do- 
minios de Mrs. Leo Hunter. 



DO SR. PICKWICK 2.->7 

Como delicado reconhecimento pelo convite, já o sr. Pott 
predissera confiadamente na Gaveta de Eatanswill que esses 
domínios «apresentariam um espectáculo de maravilhas va- 
rias e deliciosas — uma scintillação deslumbrante de belleza 
c de talento — uma profusa expansão de S'íntimentos hospi- 
taleiros — por cima de tudo, um grau de esplendor, instigado 
pelo gosto mais refinado ; e decoraç()es arranjadas com per- 
feita harmonia e a mais aristocrática sobriedade — compa- 
rada com as quaes a fabulosa sumptuosidade das Mil e uma 
noites pareceria revestida de tão sombrias e tenebrosas cores, 
como deveria ser o espirito do misanthropo atrabiliário que 
se atrevesse a macular com a peçonha da sua inveja os pre- 
parativos feitos pela eminente e virtuosa dama, a cujas aras 
era otfertado este humilde tributo de admiração. 

Esta ultima phrase era um mordente sarcasmo contra o 
Independente, que em consequência de não ter sido convida- 
do, tinha afl;ectado nos últimos quatro números metter a festa 
a ridículo, no seu typo mais avantajado, com todos os adje- 
ctivos em maiúsculas. 

Chegou a manhã. Agradável espectáculo proporcionava o 
sr. Tupman em traje completo de bandoleiro, com uma ja- 
queta muito apertada, assentando como uma almofada de 
alfinetes nas costas e nos hombros ; a parte superior das per- 
nas estava comprimida n'uns calções de veludo, e a parte in- 
ferior envolta nas complicadas faxas pelas quaes os bandolei- 
ros teem um gosto particular. 

Divertido era ver-lhe a physionomía aberta e ingénua, 
adornada de uma grande bigodeira e com traços ferozes de 
cortiça queimada, sahindo de um collarínho aberto ; contem- 
plar o chapéo afunilado, decorado de fitas de todas as cores, 
que elle era obrigado a trazer sobre o joelho, visto que nin- 
guém conseguiria encaixal-o entre a cabeça e o tecto do ca- 
leche. 

Egualmente divertido e agradável era o aspecto do sr. 
Snodgrass, de calções e capa de seiim azul, com sapato e 
meia de seda, e capacete grego, que era, como toda a gen'e 
sabe (pelo menos, sabia-o o sr. Salomon Lucas), o vestuário 
regular, authentico, quotidiano, de um trovador, desde os 
tempos primitivos até á época do seu desapparecimento final 
da superfície da terra. * 



238 AS AVENTURAS 



Tudo isto era encantador, mas nada chegava ás acclama- 
çôes da jlopulaça* quando o caleche parou á porta do sr. Poit, 
atraz do coupé d'este ultimo, e quando a porta se abriu, os- 
tentando o grande Pott enfardalhado de official de justiça 
russo, com um tremendo knout na mão — symbolo delicado 
do terrivcl poder da Gazeia de EatansM'ilL e das medonhas 
azorragadas que elle iníligia aos réos de publicas affron- 
las. 

— Bravo I gritaram os srs. Tupman e Snodgrass apenas 
viram a allegoria ambulante. 

— Bravo : ouviu-se o sr. Pickwick repetir no corredor. 
— -Lh.I Pott I uh I Pott I bradou a populaça. 

\o meio d'estas saudações, o sr. Pott entrou para o cou- 
pé. sorrindo com aquella espécie de benévola dignidade que 
assaz testemunhava a consciência do próprio poder. 

Então surgiu da casa Mrs. Pott, que se pareceria muito 
com Apollo se não fosse o vestido : conduzida pelo sr. Win- 
kle, o qual, com a sua casaca vermelha, logo seria tomado 
pqr um sporiman, se não se assimilhasse também a um cor- 
reio. 

No fim de todos, appareceu o sr. Pickwick, a quem os ga- 
rotos applaudiram com egual barulho, provavelmente sob a 
impressão de que os seus calções e as suas polainas eram al- 
guns restos dos tempos obscuros. Depois, os dois vehiculos 
pozeramse a caminho da mansão de Mrs. Leo Hunter, indo 
na almofada do caleche o sr. Weller, que devia ajudar o ser- 
viço. 

Todos os homens, mulheres, garotos, raparigas e nenés 
que estavam agglomerados para vêr os visitantes nos seus 
trajes de phantasia, desataram a berrar com enthusiasmo ex- 
tático, quando o sr. Pickwick, dando um dos braços ao ban- 
dido e o outro ao trovador, entrou solemnemente no jar- 
dim. Mas nunca se ouviram gritos como os que acolheram os 
esforços do sr. Tupman para fixar na cabeça o chapéo em 
pão de assucar, afim de fazer devidamente a sua eotrada. 

Os preparativos eram magnificos. 

Justificavam de sobra as previsões de Pott sobre a sum- 
ptuosvdade das Mil e uma noites e davam ao mesmo tempo 
um desmentido efficaz ás malignas considerações do peço- 
nhento Independente. 



t)Ô SR. PICKWICK 239 



O fccinto, com mais de geira e quarto de extensão, estava 
^ ompletamente cheio de gente ! 

Nunca se vira um esplendor assim de belleza, de luxo e 
de litteratura. 

Ali se achava a jovefi dama que tinha a seu cargo a poe- 
sia na Gaveta dú Ê^uitanswill^ vestindo de sultana, apoiada ao 
bra«ço do juvenil cavalheiro encarregado da parte critica, o 
qual trajava com toda a propriedade um uniforme de mare- 
chal de campo, menos as botas. 

Havia legiões de génios de egual jaez e toda a gente de 
juizo se julgaria bastante honrado em se encontrar com el- 
íes. 

Mas, melhor ainda, havia uma meia dúzia de leões de 
Londres — auctores, auctores a valer, que tinhafti escripto li- 
vros inteiros e que os tinham feito imprimir — e aqui se po- 
deriam ver, a passear como homens vulgares, a sorrir, e a 
conversar — sim, senhor! a conversar com as suas asneiras 
ú mistura, sem duvida com o benigno intento de se tornarem 
intelligiveis para o vulgo que os cercava. 

Além d'isso, lá estava unia banda de musica com barreti- 
nas de papelão; quatro cantores de algures nos seus trajes 
nacionaes, e uma dúzia de criados alugados em trajes também 
nacionaes — por signal que muito sujos. 

E acima de tudo, pairava Mrs. Leo Hunter, vestida de Mi- 
nerva, recebendo os convivas, e exuberante de orgulho e de 
satisfação por ter ali reunido tão distinctas personalidades. 

— Ò sr. Pickwick, minha senhora, disse um criado, qug^fido 
este cavalheiro se aproximou da deusa suprema, de chapéo 
na mão, e o bandido e o trovador por cada um dos bra- 
ços. 

— Como ! onde ? exclamou Mrs. Leo Hunter estremecendo 
n'um affectado arroubamento de surpreza. 

— Aqui, disse o sr. Pickwick. 

— E' possivel que eu tenha realmente a satisfação de con- 
templar o sr. Pickwick ? 

— Em carne e osso, minha senhora, replicou o sr. Pick- 
wick, inclinando-se muito. Permitta-me que apresente os 
meus amigos — o sr. Tupman — o sr. Winkle — o sr. Snod- 
grass — á auctora da Rã moribunda. 

Quasi que ?ó quem j:i o tenha experimentado conhece as 



240 AS AVENTURAS 



diíTiculdades de uma pessoa se curvar com calções justos de 
veludo verde, e uma jaqueta apertada, e um chiapéo de copa 
alta ; ou entcão com um justilho de setim azul e meias de seda ; 
ou ainda com ligas e botas altas de canhão, cousas que não 
tbram feitas para quem as usa e foram dispostaá n'aquelle 
corpo sem a mais remota attenção ás dimensões comparati- 
vas entre o vestuário e a pessoa vestida. 

Nunca se viram coniorsões como as que soffreu o corpo 
do sr, Tupman nos seus esforços para apparentar de elegante 
e de á vontade — nunca se \iram posições tão engenhosas 
como as exhibidas pelos seus disfarçados amigos. 

— Sr. Pickwick, disse Mrs. Leo Hunter, tem que me pro- 
metter que não se afasia da minha ilharga durante o dia in- 
teiro. Ha aqui centenas de pessoas, que eu preciso forçosa- 
mente apresentar-lhe. 

— Que bondade a sua, minha senhora ! 

— Em primeiro logar, aqui tem as minhas pequenitas; 
quasi que me tinha esquecido d'ellas, disse Minerva, apon- 
tando negligentemente para duas meninas já crescidotas, uma 
das quaes devia andar pelos vinte, e outra teria mais um ou 
dois annos, mas que estavam ambas com trajes extremamente 
juvenis — se era para ellas parecerem novas, ou para a mamã 
parecer mais nova, eis o que o sr. Pickwick não nos soube 
dizer ao certo. 

— São muito lindas, disse elle, quando as meninas se afas- 
taram depois da apresentação. 

— Parecem-se immenso com a mamã, disse magestosa- 
men%e o sr. Pott. 

— Ah ! mausão I exclamou Mrs. Leo Hunter, batendo jo- 
cosamente com o leque no braço do editor. (Minerva de le- 
que!; 

— Ora essa, minha querida Mrs. Hunter! replicou o sr. 
Pott que era o trombeta em exercício no Antro. Bem sabe 
que no anno passado, quando esteve o seu retrato na Expo- 
sição da Real Academia, não havia ninguém que não pergun- 
tasse se elle era seu, se era de sua filha mais nova; porque 
as duas eram tão parecidas que não podia perceber-se a dif- 
ferença. 

— ^"Pois sim ! mesmo quando assim fosse, que precisão tem 
o senhor de o repetir diante de pessoas estranhas ? disse Mrs. 



DO SR. HICKWÍCK 241 

Leo Hunter, lisonjeeando com outra pancada de leque o leão 
entorpecido da Gaveta de Eatansnnll. Conde, conde, gritou 
ella para um sujeito de bellas suissas, com untorme estran- 
i;eiro, que ia passando. 

— Ah ! chamou-me ? disse o conde, voltando atraz. 

— Quero apresentar dois homens de espirito um ao ou- 
tro. Sr. Pickwick, tenho grande prazer em o apresentar ao 
conde Smorltork. 

E acrescentou segredando precipitadamente para o sr. 
Pickwick : 

— O famoso estrangeiro — anda a colher subsídios para 
a sua grande obra sobre a Inglaterra, hein ? .. — O conde 
Smorltork, sr. Pickwick. 

O sr. Pickwick saudou o conde com toda a reverencia 
devida a tão grande homem, e o conde sacou logo do seu li- 
vro de lembranças. 

— Que diz, Mrs. Hunt ? perguntou elle, sorrindo graciosa- 
mente para a dama. Pig Vig ou Big Vig — como é isso ^ — 
jurisconsulto, não é ? — percebo — cá está — Big Vig ^ 

E o conde ia tomar nota do sr. Pickwick como um ma- 
gistrado, que derivava o nome da profissão, quando Mrs. Leo 
Hunter atalhou : 

— Não é isso, conde. Pick — wick. 

— Ah ! sim ! já percebo ! replicou o conde. Peek — nome 
de baptismo; Weeks — appellido ; bem, muito bem. Peek 
Weeks. Como vae isso, Weeks ^ 

— Bem, muito obrigado, respondeu o sr. Pickwick com 
toda a sua atfabilidade usual. Ha muito que está em Ingla- 
terra ? 

— Muito — muito tempo — quinze dias — mais. 

— Ainda se demora muito. 

— Uma semana. 

— Ha de trabalhar deveras, disse o sr. Piei- wick sorrindo, 



' São intraduzíveis estas jocosidades. O conde, como estrangeiro,- in;TÍ 
percebe e pronuncia rnal o ingiez. Wig, que elle diz vig, sieninca cabci- 
leira; pis wig, cabelleira de porco; btg wig, cabelleira 'grande. Como us 
magistrados usam de cabelleira em Inglaterra, explica-se o equivoco du 
conde, suppondo o nome Big Wig alcunha dada a um jurisconsulto. 

16 



242 AS AVENTURAS 



para colher todos os subsídios de que carece em tão pouco 
tempo. 

— Ora ! colhidos já elles estão I 

— Deveras ! 

— Estão aqui, njuntou o conde batendo na testa com ar 
significativo. Grande livro minha terra — cheio de notas — 
musica, pintura, sciencia, poesia, politica, tudo. 

— A palavra politica comprehende em si um estudo diffi- 
cil e de uma considerável extensão. 

— Ah ! disse o conde, sacando outra vez o livro de notas, 
muito bem — bellas palavras para encetar capitulo. Capitulo 
quarenta e sete. Politica. A palavra politica surprehende 
em si. . . 

E lá ficou marcada a observação do sr. Pickwick no livro 
de notas do conde Smorltork, com as variações e as addic- 
çóes suggeridas pela exhuberante phantasia d'este, ou occa- 
sionadas pelo seu imperfeito conhecimento da lingua '. 

— Conde, disse Mrs. Leo Hunter. 

— Mrs. Hunt, replicou o conde. 

— Este é o sr. Snodgrass, amigo do sr. Pickwick e poeta. 

— Espere! exclamou o conde, sacando mais uma vez o 
seu livro. Titulo, poesia — capitulo, amigos litterarios — nome 
Snowgrass ; muito bem. Apresentado a Snowgrass — grande 
poeta, amigo de Peek Weeks — por Mrs. Hunt, que escreveu 
outra Imda poesia — como se chama '■: — Rã — Rã furibunda 
• — muito bem — bellissimo. 

E o conde guardou as suas notas, e afastou-se com muitas 
reverencias e agradecimentos, completamente convencido de 
que fizera as mais importantes e valiosas addicções á sua 
provisão de conhecimentos sobre a Inglaterra. 

— E' um homem admirável, o conde Smorltork ! excla- 
mou Mrs. Leo Hunter. 

— Um philosopho profundo! acrescentou Pott. 

— Uma cabeça desempoeirada e um espirito forte, conti- 
nuou o sr. Snodgrass. 



' As plirases do conde Smorltork teem no original uma feição extre- 
mamente cómica, pelos atropellos que softre na sua bocca a lingiia e pelos 
equivocos intraduzíveis a que isso dá logar. 



DO SR. PICKWICK 243 



Um coro de convivas associou-se aos applausos do conde 
Smorltork, sacudindo gravemente as cabeças e clamando una- 
nimemente : 

— Muitissimo ! 

Como o enthusiasmo pelo conde Smorltork ia chegando 
ao seu auge, pôde ser que até ao fim da festa se cantassem os 
seus louvores, se não fosse os quatro cantores de algures 
irem formar-se defronte de uma pequena macieira, com a 
mira no pittoresco, e começarem a entoar os seus cantos 
nacionaes, que não pareciam mesmo nada difficeis de execu- 
tar, visto que o grande segredo parecia consistir em três d'el- 
les grunhirem, ao passo que o quarto uivava. 

Tendo concluido este interessante numero do programma 
entre os ruidosos applausos de toda a sociedade, começou 
um rapazote e ennovelar-se pelas travessas de uma cadeira, e 
a pular para cima d'ella, e a andar de rastos por baixo, e a 
dar trambulhões com ella, e a fazer com ella tudo, menos 
sentar-se-lhe em cima. 

E depois fez uma gravata com os pés da cadeira, e atou-a 
á roda do pescoço, e em seguida mostrou a facilidade com 
que um ser humano pôde tomar a apparencia de um sapo em 
ponto grande. 

E todas estas façanhas proporcionaram grandes delicias e 
júbilos aos espectadores. 

Depois, ouviu-se chilrear debilmente a voz de Mrs. Pott, 
uma cousa que a cortezia interpretou por canção, a qual era 
toda ella muito clássica e perfeitamente a caracter, visto que 
Apollo era compositor, e são raros os compositores que po- 
dem cantar a sua própria musica ou mesmo as dos outros. 

Seguiu-se a isto a recitação feita por Mrs. Hunter da sua 
afamada ode A uma rã moribunda, que foi bisada, e que ou- 
tra vez seria repetida, se a maioria dos convidados, pensando 
que era tempo de comer alguma cousa, não tivesse dito que 
era uma verdadeira vergonha abusar da benevolência de Mrs. 
Hunter. 

Por isso, comquanto Mrs. Leo Hunter manifestasse a sua 
boa vontade para tornar a recitar a ode, os seus amáveis e il- 
lustres amigos não quizeram por caso algum ouvil a ; e sendo 
aberto o bufete, toda a gente que já tinha estado n'aquella 
casa precipitou-se para ali com grande alvoroço. 



244 ^^ AVENTURAS 



Sabiam que o costume de Mrs. Leo Hunter era expedir 
convites a cem pessoas, e ter almoço para cincoenta, ou por 
outras palavras, dar apenas alimento em especial aos leões, 
e deixar os animaes mais pequenos arranjarem-se como po- 
dessem. 

— Onde está o sr. Pott ? perguntou Mrs. Leo Hunter, ao 
collocar em volta de si os supracitados leões. 

— Cá estou I respondeu o editor do extremo do aposento, 
muito fora de qualquer esperança de alimento, a não ser que 
a dona da casa fizesse alguma cousa èm seu favor. 

— Não quer vir para aqui? 

— Ora ! não se incommode por causa d'elle, disse Mrs. 
Pott com a sua voz mais affectuosa. Está realmente a ter um 
incommodo inútil, Mrs. Hunter. Não é verdade, meu querido, 
que está ahi muito bem. ? 

— Certamente, meu amor, replicou o infeliz Pott, com um 
sorriso amarello. 

Coitado do knout 1 O braço nervoso, que o brandia com 
tão gigantesca força sobre os homens públicos, estava para- 
Ivsado sob um olhar da imperiosa Mrs. Pott. 

Mrs. Leo Hunter olhou em volta de si com ar de trium- 
pho. 

O conde Smorltork estava activamente occupado em to- 
mar nota das iguarias ; o sr. Tupman estava fazendo as hon- 
ras da salada de lagosta a vários leões com uma graça nunca 
exhibida anteriormente por nenhum bandido ; o sr. Snod- 
grass, tendo posto á raza o mancebo que arrazava os livros 
na Ga:^etã de Eatanswilly estava embrenhado n'um discussão 
apaixonada com a juvenil dama encarregada da poesia ; e o 
sr. Pickwick estava-se fazendo universalmente agradável. 

Nada podia faltar para complemento d'aquelle circulo se- 
lecto, quando o sr. Leo Hunter — cujo encargo, n'estas occa- 
sióes, era andar pelas portas, a conversar com as pessoas de 
somenos importância — bradou de repente : 

— Minha querida, aqui vem o sr. Charles Fitz-Marshall. 

— Ora esta ! exclamou Mrs. Leo Hunter, com que ancie- 
dade eu tenho estado á espera d'élle. Peço lhes que abram 
caminho ao sr. Fitz Marshall. Meu amigo, diga ao sr. Fitz- 
Marshall que venha já, já, aqui, para eu ralhar com elle por 
ter vindo tão tarde. 



DO SR. PICKWICK 245 



— Ahi vou, minha querida senhora, gritou uma voz, o 
mais depressa que pqssa — gente basta — casa a deitar por 
íbra — difficil — muito difficil. 

O garfo e a faca do sr. Pickwick cahiram-lhe da mão. 

Olhou atravez da mesa para o sr. Tupman, que tinha tam- 
bém deixado cahir garfo e faca, e que parecia vae não vae a 
s imir-se pelo chão abaixo. 

— Ah ! bradou a voz, emquanto o seu possuidor ia abrindo 
caminho atravez dos últimos vinte e cinco turcos, officiaes, 
cavalleiros e Carlos Segundos, que ainda restavam entre elle 
e a meza. Menos má, esta prensa — privilegiado — nem uma 
prega na minha casaca, depois d'esta calandragem — já ago- 
ra, podia ter engommado a roupa — ah ! ah ! bella ideia esta ! 
— patusco, isto de engommar a roupa em cima do corpo — 
mas moe — moe deveras. 

Com estas phrases cortadas, um mancebo vestido de offi- 
cial de marinha abriu caminho até á meza, e apresentou aos 
pickwickanos attonitos a figura e as feições idênticas do sr. 
Alfred Jingle. 

Mal tinha tido tempo de tocar na mão que lhe estendia 
Mrs. Leo Hunter, quando os seus olhos encontraram as orbi- 
tas indignadas do sr. Pickwick. 

— Co'a breca! disse Jingle. Esqueceu-me de todo — não 
dei ordens ao cocheiro — vou dal-as agora — não tenho um 
momento. 

— O criado, ou o sr. Hunter se encarregam d'isso, sr. Fitz- 
Marshall, disse Mrs. Leo Hunter. 

— Nada, nada — vou eu mesmo — não me demoro — volto 
n'um abrir e fechar d'olhos, replicou Jingle. 

E com estas palavras, desappareceu entre a turba. 

— Permitte-me que lhe pergunte, minha senhora, disse o 
sr. Pickwick erguendo-se com alvoroço, quem é este sujeito 
e onde é que mora ? 

— E' um cavalheiro de grande fortuna, sr. Pickwick, disse 
Mrs. Leo Hunter, a quem eu desejo immenso apresental-o. O 
conde hade ficar encantado com elle. 

— Sim, sim, disse o sr. Pickwick com precipitação. E 
mora? 

— Agora está no hotel do Anjo, em Bury. 

— Em Bury? 



246 AS AVENTURAS 



— Em Bury St. Edmunds, a poucas milhas d'aqui. Mas, 
valha-me Deus, sr. Pickwick ! não vae decerto deixar-nos : 
com certeza não pensa em se ir embora tão cedo. 

Mas muito antes que Mrs. Leo Hunter tivesse acabado de 
lallar, já o sr. Pick^vick tinha immergido na multidão e che- 
gado ao jardim onde fora logo ter com elle o sr. Tupman, 
que lhe seguira na piugada. 

— E' escusado, disse o sr. Tupman, o homem esguei- 
rou-se. 

— Isso sei eu, mas quero seguil o. 
' — Seguil-o ! Para onde ? 

— Para o hotel do Anjo, em Bury, replicou o sr. Pickwick 
fallando muito depressa. Nós sabemos lá quem é que elle está 
a intrujar aqui ! Já uma vez enganou um homem honrado, e 
por nossa involuntária culpa. Não torno a fazer outra, se eu 
poder evitar. Hei de desmascarai o. Sam ! Onde está o meu 
•riado ? 

— Aqui está o meu patrão, disse o sr. Weller, sahindo de 
um recanto, onde estivera occupado no exame de uma gar- 
rafa da Madeira, por elle furtada da meza, uma ou duas ho- 
ras antes. Aqui tem o seu criado, senhor. E gabo-me do ti- 
tulo, como dizia o Esqueleto Vivo, quando o pozeram em ex- 
posição. 

— Siga-me immediatamente, disse o sr. Pickwick. Tup 
man, se eu me demorar em Bury, podem lá ir ter comigo, em 
eu escrevendo. Até então, adeus. 

Foram inúteis as observações. 

O sr. Pickwick estava excitado, e a sua tenção estava for- 
mada. 

O sr. Tupman voltou para junto dos companheiros; e 
d'ahi a uma hora tinha afogado todas as recordações do sr. 
Alfred Jingle ou do sr. Charles Fitz-Marshall, n'uma animada 
quadrilha e n'uma garrafa de Champagne. 

Entrementes, o sr. Pickwick e Sam Weller, encarrapita- 
dos na imperial de uma diligencia, iam de minuto em minuto 
diminuindo a distancia que os separava da boa e velha po- 
voação de Burv Saint Edmunds. 



DO SR. PICKVVICK 247 



CAPITULO XVI 

Tâo cheio de aventuras que se náo pôde descrever 
summariamente 

Não ha mez no anno em que a natureza assuma um as- 
pecto mais bello do que no mez de agosto. 

A primavera tem encantos de sobra, e maio é um mez 
fresco e florescente, mas as suas bellezas são realçadas pelo 
contraste com a estação de inverno. 

Agosto não tem esta vantagem. 

Chega quando só nos lembramos de céos puros, de cam- 
pos verdes, e de liores perfumadas — quando a recordação 
da neve, e do gelo, e das ventanias ríspidas, se desvaneceu do 
nosso espirito tão completamente como desappareceram 
da terra — e no entanto que aprazivel quadra é essa 1 

Pomares e searas resõam com o borborinho do labor ; as 
arvores, carregadas de fructos opulentos, curvam para o chão 
os seus ramos; e o trigo empilhado em graciosas medas, ou 
ondulando a cada ligeira brisa, como a desafiar a fouce, tinge 
a paisagem de cores douradas. 

Sobre a terra inteira parece que paira uma doce langui- 
dez ; a influencia da estação até parece estender-se aos pró- 
prios carros, cuja andadura lenta atravez dos campos ceifa- 
dos é apenas perceptível aos olhos, sem ferir os ouvidos com 
sons estridentes. 

A' proporção que a diligencia roda rapidamente atravez 
dos campos ê dos pomares que orlam a estrada, grupos de 
mulheres e creanças, empilhando a fructa em cestos, ou co- 
lhendo as espigas dispersas, suspendem um instante o seu 
trabalho, e, abrigando o rosto queimado do sol com a mão 
ainda mais tisnada, olham curiosamente para os passageiros, 
ao passo que algum fedelho robusto, pequeno demais para 
trabalhar, mas tão travesso que não se pôde deixar em casa, 
trepa para a borda do cesto em que o aprisionaram por se- 
gurança, e esperneia e berra com delicia. 

O ceifeiro pára na sua tarefa, e cruza os braços, a olhar 
para o vehiculo que passa como um turbilhão ; e os pesados 



248 AS AVENTURAS 



cavallos dos carros relanceam um olhar estremunhado para 
a parelha esperta da diligencia, o qual diz tão claro quanto 
podem lallar os olhos de um cavallo : 

"Tudo isso é muito bonito para se ver, mas andar de va- 
gar pelas terras duras é melhor do que uma galopada d'essas 
pela estrada poeirenta, afinal de contas !« 

E se n'uma volta da estrada o viajante olhar para traz, vê 
as mulheres e as creanças a continuar no seu trabalho, o cei- 
feiro outra vez curvado na sua tarefa, os cavallos dos carros 
a proseguir no seu caminho, e tudo outra vez em movi- 
mento. 

A inlluencia de uma scena como esta não deixou de se 
sentir sobre o ponderado espirito do sr. Pickwick. Preoccu- 
pado com a resolução que formara, de desmascarar o verda- 
deiro cara:ter do nefando Jingle, onde quer que elle estivesse 
a realisar os seus fraudulentos desígnios, o sr. Pickwick sen- 
tava-se a começo taciturno e contemplativo, a reflectir nos 
meios que devia empregar para melhor conseguir os seus fins. 

Pouco a pouco a sua attenção foi sendo attrahida pelos 
objectos que o cercavam ; e afinal sentia tanto prazer na via- 
gem, como se a houvesse emprehendido pelas mais agradá- 
veis razões d'este mundo. 

— Lindíssima vista, Sam I disse elle. 

— Mette n'um chinello as chaminés da cidade ! replicou o 
sr. Weller, levando a mão ao chapéo. 

— Creio que vossê, em toda a sua vida, quasi que não tem 
visto senão chaminés, e tijolos, e argamassa, disse o sr. Pick- 
wick sorrindo. 

— Eu cá nem sempre fui criado engraxador, disse o sr. 
Weller sacudindo a cabeça. Já fui também moço de carro- 
ceiro. 

— Quando foi isso ? 

— Foi logo que me atiraram de focinho para o mundo, 
para eu jogar o eixo com os trabalhos d'este valle de lagri- 
mas. Para estreia fui moço de arrieiro, depois moço de car- 
roceiro, depois moço de recados, e por fim criado de estala- 
gem. Agora sou criado de um cavalheiro. D'aqui a dias tal- 
vez que eu venha a ser também um cavalheiro, de cachimbo na 
bocca e com um caramanchão no jardim. Quem sabe lá ? Eu 
cá não ficava espantado, se assim fosse. 



DO SR. ͻICKWICK 249 



— Vossè é um philosopho completo, Sam. 

— Isto é de família, creio eu. O meu velho também segue 
agora esse caminho. Em a minha madrasta o atazanando, 
póe-se a assobiar. EUa leva se dos diabos, e zás ! quebra-lhe 
o cachimbo : vae elle, sahe por ali tora, e vae buscar outro. 
Então ella desata a berrar como uma damnada, e cahe com 
um faniquito; e elle vae fumando com toda a pachorra 
até ella voltar a si. Isto é que é philosophia, senhor; é ou 
não é? 

— Pelo menos, substitue bem., replicou o sr. Pickwick 
rindo. Deve ter-lhe feito excellente serviço no decurso da 
sua vida errante, San:). 

— Ora se fez! tenho a certeza que sim. Depois de me ler 
raspado do arrieiro e antes de me ter mettido com o carro- 
ceiro, tive quinze dias um quarto desmobilado. 

— Um quarto desmobilado ? 

— Sim — as arcadas enxutas da ponte de Waterloo. Bello 
sitio para pernoitar — a dez minutos de distancia de todas as 
repartições publicas — se ha qualquer objecção a fazer-lhe, é 
só ser um pouco arejado demais. Olhe que presenciei ali cou- 
sas muito extraordinárias! 

— Ah ! isso creio eu ! disse o sr. Pickwick, com ar cheio 
de interesse. 

— Cousas, senhor, capazes de lhe traspassar o coração 
compassivo e sahirem pelo outro lado. Ali não se encontram 
vadios de profissão ; isso sim ! esses teem lume no olho ! 
Quem se aloja ali uma vez por outra, são os mendigos novos, 
machos e fêmeas, que ainda são peixotes no officio ; mas em 
geral quem se vê por lá são as creaturas sem casa, magrizel- 
las, esfomeadas, que andam aos baldões pelos recantos escu- 
sos d'aquelles sitios isolados ; pobres creaturas que nem ao 
menos chegam á corda de dois pence. 

— Diga-me lá, Sam, que é isso de corda de dois pence? 

— A corda de dois pence, senhor, é como quem diz uma 
hospedaria barata, onde as camas custam dois pence por 
noite. 

— Mas porque é que chamam corda á cama ? 

— Abençoada innocencia a sua, senhor ! Eu lhe digo. 
Quando a patroa e o patrão da hospedaria começaram com 
aquelle modo de vida, costumavam fazer as camas no chão; 



2 DO AS AVENTURAS 



mas aquillo não lhes fazia conta nenhuma, porque os hospedes, 
em vez de se contentarem com dois pence de soneca, ficavam 
ah estatelados metade do dia. Vae agora, arranjaram duas cor- 
das, apartadas uns seis pés uma da outra, e a três pés de altura 
do chão, que se estendem pela casa fora; e as camas são fei- 
tas de tiras de serapilheira, estendidas ao travez das cor- 
das. 

— E então ? 

— E então, a vantagem do plano é clara como agua. To- 
das as manhãs, em sendo seis horas, soltam as cordas de um 
dos lados, e zás! os hospeaes ferram com os costados no 
chão. O resultado é elles despertarem n'um prompto, levan- 
tarem-se muito socegados, e girarem logo para o olho da 
rua... Com perdão do senhor, acrescentou Sam, cortando 
de súbito o seu loquaz discurso. Não é aqui Bury Saint 
Edmunds ? 

— E', respondeu o sr. Pickwick. 

A diligencia rodou pelas ruas bem calçadas de uma linda 
terriola, de aspecto asseiado e prospero, e parou defronte 
de uma grande estalagem situada n'uma rua larga e desafo- 
gada, quasi em frente da velha abbadia. 

— E' aqui, disse o sr. Pickwick olhando para a taboleta, 
é a hospedaria do Anjo. Aqui é que nos apeiamos, Sam. Mas 
é necessário uma certa cautela. Mande arranjar um gabinete 
particular e não mencione o meu nome. Percebe ? 

— Como um alho, replicou o sr. Welier, com um piscar 
de olhos sagaz. 

E, lendo tirado a mala do sr. Pickwick das trazeiras da 
diligencia, para onde fora atirada á pressa ao sahirem de 
Eatanswill, o sr. Welier foi desempenhar-se do encargo. 

Promptamente se tomou um gabinete particular e n'e]le 
se metteu sem demora o sr. Pickwick. 

— Agora, Sam, a primeira cousa a fazer é. . . 

— Mandar arranjar o jantar, atalhou Sam. E' tarde como 
a breca, senhor. 

— Isso é, disse o sr. Pickwick consultando o seu relógio. 
Tem razão, Sam. 

— E se o senhor me dá licença que lhe de um conselho, 
o melhor é dormir uma noite descançadinho e só de manha 
começar a tirar informações do tal intrujão. Não ha nada que 



DO SR. PICKWICK 25 I 



refresque a gente como uma boa soneca, como dizia a criada 
antes de engulir o seu copito de laudano. 

— Parece-me que vossê tem razão, Sam. Mas primeiro te- 
nho que certificar-me se elle está aqui na hospedaria e se 
não é provável que se safe. 

— Deixe isso por minha conta, senhor. Eu cá vou dar or- 
dem para um jantarinho de chupeta, e emquanto elle se 
aprompta, vou fazendo as minhas investigações. Em cinco 
minutos sou capaz de pescar todos os segredos ao criado que 
engraxa as botas. 

— Trate d'isso, disse o sr. Pickwick ; e Sam retirou-se. 
D'ahi a meia hora, estava o sr. Pickwick abancado diante 

de um jantar muito razoável ; e dentro de três quartos de 
hora voltava o sr. Weller com a noticia de que o sr. Charles 
Pitz-Marshall tomara um quarto, até nova ordem. 

Fora passar a noite a uma casa particular das visinhan- 
ças, dera ordem ao moço da hospedaria que ficasse de vela 
á espera d'elle, e levara comsigo o seu criado. 

— E agora, senhor, discorreu Sam, depois de concluir o 
seu relatório, se eu poder ter de manhã uma palestrasita com 
o tal criado, elle põe-me em dia com todos os negócios do 
patrão. 

— Como é que vossê sabe isso ? 

— Ora valha-o Deus, senhor! é o que fazem todos os 
criados. 

— Oh ! oh ! tinha-me passado isso de idéa. Bem, bem. 

— Depois veremos o que ha de melhor a fazer. 

Como esta combinação parecia ser a preferível, n'ella se 
ficou. 

O sr. Weller, com licença do patrão, foi passar a noite 
conforme lhe pareceu. E não tardou a ser eleito por unani- 
midade presidente da sociedade reunida no botequim, e d'esse 
honroso cargo se desempenhou tanto a contento dos frequen- 
tadores, que as suas gargalhadas e os seus ruidosos applau- 
sos chegaram até ao quarto do sr. Pickwick, e encurtaram 
pelo menos três horas o prazo natural do seu somno. 

Logo pela manhã cedo, Sam traiou de dissipar uns restos 
de febre que lhe haviam ficado do pagode da véspera, por 
meio de um duche que lhe custou meio penny. 

Isto é, persuadiu um joven cavalheiro da repartição das 



252 AS AVENTURAS 



cavallariças, mediante a ofterta d'aquella moeda, a esguichar- 
Ihe á bomba a cabeça e a cara, até ficar perfeitamente senhor 
de si. 

N'essa occasião, foi attrahido, pela apparição de um rapa- 
zote de libré côr de amora, que estava sentado n'um banco 
do paieo, lendo com ar de profunda absorpção um livro que 
parecia de hymnos, mas deitando de quando em quando um 
olhar de revez para o sujeito que estava debaixo da bomba, 
como se apesar de tudo tomasse grande interesse na opera- 
ção a que elle se sujeitava. 

— Que grande ratão ! pensou o sr. Weller a primeira vez 
que os seus olhos encontraram os do sujeito de fato côr de 
amora, o qual tinha uma cara larga, pallida e feia, olhos 
muito encovados e uma cabeça colossal de onde pendiam 
uns cabellos lisos e pretos. Que grande ratão ! pensou o sr. 
Weller ; e em seguida continuou a lavar-se sem pensar mais 
n'isso. 

O homem continuava a olhar ora para o livro ora para Sam, 
como se desejasse travar conversação. Até que afinal, Sam, 
para lhe dar pé de conversa, disse com um gesto familiar : 

— Como vae isso, ó amigo ? 

— Estimo dizer que vae bem, disse o homem fallando 
com grande ponderação e fechando o livro. Desejo que outro 
tanto lhe succeda. 

— Eu lhe digo : eu cá estava mais firme nas pernas, se me 
sentisse menos parecido com uma garrafa de aguardente am- 
bulante. Então vossê está cá na casa, ó amigo ?_ 

O homem côr de amora respondeu affirmativamente. 

— Porque diabo é que vossê não foi dos nossos hontem á 
noite ? perguntou Sam esfregando a cara com a toalha. Vossê 
tem ar de pandego — esperto como uma truta viva n'um cesto 
de cal, accrescentou o sr. Weller em tom mais baixo. 

— Sahi a noite passada, mais o meu patrão. 

— Como se chama elle .'* perguntou Sam, corando intensa- 
mente pelo effeito combinado do alvoroço e da fricção da 
toalha. 

— Fitz-Marshall. 

— Dê cá a mão, disse o sr. Weller adiantando-se. Tenho 
o maior prazer em o conhecer. Sympathiso com a sua cara, 
%eu patusco. 



DO SR. PICKWICK 253 



— Ora ! vejam lá que cousa exquisita ! disse o homem côr 
de amora, com grande simplicidade de maneiras. Eu cá tam- 
bém sympathiso tanto com a sua, que fiquei com ganas de 
fallar com vossê, apenas o vi debaixo da bomba. 

— Deveras ? 

— Palavrinha ! Não é curioso isto, hein ? 

— E' muito curioso, disse Sam, congratulando-se no seu 
intimo com a aíTabilidade do sujeito. Como se chama, meu 
patriarcha ? 

— Job. 

— E é um bello nome, isso é; é o único que eu saiba, 
que não tem abreviatura. E o appellido ? 

— Trotter. E o seu ? 

Sam lembrou-se da prevenção do amo, e disse : 

— Eu cá chamo-me Walkêr ; e o meu patrão chama-se 
Wilkins. Vossê quer tomar esta manhã uma pinga de qual- 
quer cousa, sr. Trotter ? 

O sr. Trotter acquiesceu a tão agradável proposta : e tendo 
depositado o seu livro na algibeira do casaco, acompanhou o 
sr. Weller ao botequim, onde d'ali a nada estavam a discutir 
uma vivificante composição, formada misturando n'uma ti- 
gella de estanho uma certa quantidade de genebra e a fra- 
grante essência do cravo. 

— E que tal se dá vóssê com o seu logar de criado .'' per- 
guntou Sam, enchendo pela segunda vez o copo do compa- 
nheiro. 

— Mal, disse Job lambendo os beiços, muito mal. 

— Serio ? 

— Deveras. E o peior é que o meu patrão vae casar. 

— Ora essa! 

— Vae ; e o peior ainda é que elle vae fugir com uma her- 
deira muitissimo rica, que está n'um coUegio. 

— Que maganão ! disse Sam, tornando a encher o copo 
do companheiro. E' algum collegio aqui da terra, não é as- 
sim ? 

Ora, comquanto esta pergunta fosse feita com o ar mais 
negligente que imaginar se pode, o sr. Job Trotter manifes- 
tou claramente por gestos que percebia a anciedade com que 
o seu novo amigo lhe queria sacar a resposta. 

Despejou o copo, olhou mysteriosamente para o compa- 



2^4 AS AVENTUPA.S 



nheiro, piscou ambos os pequeninos olhos, um depois do ou- 
tro, e finalmente fez um movimento com o braço, como se 
estivesse a dar a uma bomba imaginaria : dando a entender 
que o companheiro dava á bomba para lhe esvasiar es se- 
gredos. 

— Nada, nada, disse o sr. Trotter para concluir. Isto não 
é cousa que se diga a toda a gente. E' segredo — um grande 
segredo, sr. Walker. 

Ao dizer isto, o homem còr de amora virou o copo com 
o fundo para cima, afim de recordar ao companheiro que não 
lhe tinha ficado nada com que matasse a sede. Sam percebeu 
a intenção ; e apreciando a delicada forma por que ella se 
revelara, mandou encher de novo a tigela de estanho, o que 
fez scintillar os olhos do homem côr de amora. 

— Com que então é segredo ? disse Sam. 

— Assim me quer parecer, disse o sr. Trotter, saboreando 
o licor com muito agrado. 

— Creio que o seu patrão é muito rico ? perguntou Sam. 

O sr. Trotter sorriu, e pegando no copo com a mão es- 
querda, bateu quatro vezes com a mão direita na algibeira 
dos calções côr de amora, como para dar a entender que o 
seu patrão poderia ter feito o mesmo sem assustar ninguém 
com o tinir do dinheiro. 

— Ah 1 disse Sam, então elle é isso ? 

O homem côr de amora acenou significativamente. 

— E então, não lhe parece, meu velho, observou o sr. 
Weller, que se vossê deixar o seu patrão roubar a tal pe- 
quena, fica vossê sendo um patife de marca? 

— Isso sei eu, disse Job Trotter, virando para o compa- 
nheiro uma cara de profunda contricção e suspirando baixi- 
nho, isso sei eu, e isso é que anda cá a fazer-me macaqui- 
nhos. Mas Que lhe hei de eu fazer ? 

— Que ha de fazer ? E' denunciar tudo á mestra, e man- 
dar o seu patrão á tabúa. 

— Quem é que me havia de acreditar? A pequena, todos 
a teem por um exemplar de innocencia e de juizo. Havia de 
negar, ella e mais o patrão. Quem é que se fiava em mim ? 
Perdia o meu logar, e ainda em cima ficava com um processo 
ás costas, por calumniador ou cousa parecida. Era o que eu 
tinha a ganhar se assim fizesse. 



DO SR. PICKWICK 255 



— Isso em parte é verdade, disse Sam ruminando, vossc 
tem alguma razão. 

— Se eu conhecesse algum sujeito respeitável que tratasse 
d'este negocio, pôde ser que tivesse alguma esperança de 
evitar o rapto; mas ahi temos nós a mesma difficuldade, sr. 
Walker, exactamente a mesma. Não conheço nenhum sujeito 
serio aqui na terra ; e mesmo que conhecesse, aposto dez 
contra um que não acreditava a historia. 

— Venha cá ! disse Sam, saltando de repente e agarrando 
o outro pelo braço. O meu patrão é que é o homem de que 
vossé precisa. 

K depois de ligeira resistência da parte de Job Trotter, 
Sam guiou o seu novo amigo ao quarto do sr. Pickwick, a 
quem o apresentou, com um breve summario do dialogo que 
acabamos de referir. 

— Tenho muita pena de atraiçoar o meu patrão, senhor, 
disse Job Trotter, esfregando os olhos com um lenço encar- 
nado de umas três polegadas quadradas. 

— Esses sentimentos fazem-lhe muita honra, replicou o 
sr. Pickwick, mas no entanto é esse o seu dever. 

— Eu bem sei que é o meu dever, redarguiu Job muito 
commovido. Toda a gente deve tratar de desempenhar os 
seus deveres, e eu cá faço humildes esforços para me desem- 
penhar dos meus ; mas custa deveras a atraiçoar um patrão, 
senhor, que nos dá fato para vestir e pão para comer, mesmo 
que seja um desavergonhado, senhor. 

— Vossc c boa pessoa, disse o sr. Pickwick, muito pun- 
gido, é um homem honrado. 

— Adeus ! adeus ! atalhou Sam, que presenciara com muita 
impaciência a chorata do sr. Trotter. Veja lá se fecha o 
regador. Isso não serve de nada. 

— Sam, disse o sr. Pickwick reprehensivamente, peza-me 
de ver que vossc tem tão pouco respeito pelos sentimentos 
d'este bom rapaz. 

— Lá sentimentos bonitos tem elle, replicou Sam; e tão 
lindos que era mesmo uma pena perdel-os, e por isso acho 
melhor guardal-os muito bem guardadinhos nas entranhas, 
em vez de os deixar evaporar em agua normal, especialmente 
quando isso não serve de nada. Os choros nunca serviram 
para dar corda a um relógio, nem para fazerem andar uma 



256 AS AVENTURAS 



machina a vapor. A primeira vez que vossê for a alguma re- 
união onde se fume, homemsinho, encha o cachimbo com 
esta reflexão; e por agora metta-me esse pedaço de guingão 
encarnado no bolso. Não é tão lindo que vossê precise de 
andar a acenar com elle, como se fosse um dançador de 
corda. 

— O meu criado tem razão, disse o sr. Pickwick aproxi- 
mando-se de Job, comquanto o seu modo de se expressar 
seja um tanto ou quanto vulgar, e uma que outra vez incom- 
prehensivel. 

— Elle tem toda a razão, disse o sr. Trotter, e eu não 
torno a cahir mais n'essa. 

— Muito bem, disse o sr. Pickwick. E agora diga-me lá : 
onde fica o tal collegio ? 

— E' uma casa grande, antiga, de tijolo vermelho, mesmo 
fora da povoação. 

— E quando se deve pôr em execução esse infame plano? 
quando se deve realisar o rapto ? 

— Esta noite, senhor. 

— Esta noite ! 

— Esta noite mesmo, senhor. E' isso que me assusta 
tanto. 

— Devem-se tomar medidas urgentes. Quero fallar com a 
directora do estabelecimento, immediatamente. 

— Com perdão do senhor, mas isso não serve de nada. 

— Porque ? 

— O meu patrão é muito ladino. 

— I$so sei eu. 

— E por tal forma se enredou no coração da velha, que 
ella não era capaz de acreditar fosse o que fosse em pre- 
juízo d'elle, mesmo que o senhor lá chegasse de joelhos a fa- 
zer juramentos. Sobretudo o senhor não tem outra prova a 
não ser a palavra de um criado; e esse, o meu patrão ha de 
metter-lhe na cabeça que foi posto na rua por qualquer falta 
e que diz isso para se vingar. 

— Então o que havemos nós de fazer? 

— A velha só se convence, se elle fôr apanhado com a 
bocca na botija. 

— As velhas são teimosas como mulas de physico, obser- 
vou o sr. Weller entre parenthesis. 



DO SR. PICKWICK 2D7 



— Mas isso de o apanhar com a bocca no botija receio 
que seja difficillimo, disse o sr. Pickwick. 

— Isso é que eu não sei, disse Job depois de um momento 
de reflexão; palpita-me que se pôde fazer com facilidade. 

— Gomo ? 

— Eu lhe digo ao senhor : o meu patrão e mais eu esta- 
mos combinados com as duas criadas, e ellas em sendo dez 
horas encafuam-nos na cozinha. Quando a familia estiver re- 
colhida, nós sahimos da cosinha e a menina sabe do quarto. 
Temos já uma seje de posta á espera, e ala que se faz 
tarde ! 

— Bem ! e depois ? 

— E depois, tenho estado a pensar que se o senhor esti- 
vesse de atalaya no jardim, sósinho. . . 

— Sósinho, para que ? 

— Pareceu-me que a velha não havia de gostar que uma 
cousa d'estas se descobrisse diante de muita gente. E a pe- 
quena também — veja lá como ella ha de ficar! 

— Tem vosse muita razão. Essa reflexão demonstra grande 
delicadeza de sentimentos. Continue ; tem razão ás carra- 
das. 

— Dizia eu então que se o senhor ficasse á espera no jar- 
dim das trazeiras, sósinho, eu cá podia mettel-o em casa pela 
porta que fica no extremo do corredor, em sendo onze e meia 
em ponto. E assim estaria o senhor lá mesmo a tempo para 
me ajudar a desmanchar os planos d'esse maroto que por 
desgraça me enleiou nas suas redes. 

E o sr. Trotter suspirou profundamente. 

— Não se apoquente por causa d'isso, disse o sr. Pickwick. 
Se elle tivesse uma partícula da delicadeza de sentimentos 
que o distinguem a vossê, humilde como é, não perderia eu 
as esperanças com elle. 

Job Trotter inclinou-se com muita reverencia ; e apesar 
das observações anteriores do sr. Weller, chegaram-lhe ou- 
tra vez as lagrimas aos olhos. 

— Nunca vi um chorão d'este calibre! disse Sam. Demó- 
nios me levem se elle não tem na cabeça uma torneira sem- 
pre aberta. 

— Sam, disse o sr. Pickwick com grande severidade, cale 
a bocca. 

17 



258 AS AVENTURAS 



— Não me agrada esse plano, continuou o sr. Pickwick, 
depois de profunda meditação. Porque é que eu não posso 
communicar com os amigos d'essa menina ? 

— Porque elles moram a cem milhas d'aqui, senhor. 

— E' tirar d'ahi o sentido, disse Sam aparte. 

— Então esse jardim, nroseguiu o sr. Pickwick, como hei 
de eu lá entrar ? 

— O muro é muito baixo, e o seu criado pôde ajudal-o a 
trepar. 

— O meu criado pôde ajudar-me a trepar, repetiu o sr. 
Pickwick mechanicamente. E vossê está com certeza ao pé 
da porta de que me fallou ? 

— Não ha que errar ; é a única que dá para o jardim. 
Bata a ella, logo que ouvir o relógio dar horas, e eu abro-lh'a 
n'um prompto. 

— Não me agrada o plano, mas como não vejo outro e 
como se trata da felicidade d'essa menina, adopto-o. Lá es- 
tarei com certeza. 

Assim, pela segunda vez, a innata bondade do sr. Pick- 
wick ia envolvel-o n'uma empreza, á qual da melhor vontade 
se eximiria. 

— Que nome tem a casa? perguntou elle. 

— Westgate-House, senhor. Quando chegar ao fim da 
villa, vire um pouco para a direita : ve-a logo isolada, a pe- 
quena distancia da estrada real. com o nome n'uma chapa de 
cobre, no portão. 

— Já a conheço: já a notei da outra vez que estive aqui 
na terra. Pôde contar comigo. 

O sr. Trotter fez outra reverencia, e voltou-se para sahir. 
O sr. Pickwick metteu-lhe um guinéo na mão. 

— Vossê é bom rapaz, disse elle, e cu admiro a bondade 
da sua alma. Nada de agradecimentos. Lembre-se bem — ás 
onze horas. ' 

— Não ha receio que eu me esqueça. 

E dizendo estas palavras, Job Trotter sahiu, seguido por 
Sam. 

— Olhe lá, disse este ultimo, não é má ideia essa de fazer 
choradeira. Por esse preço, chorava eu mais que uma bi- 
queira quando chove a cântaros. Como é que vossê arranja isso ? 



DO SR. PICKWICK , 2 DO 



— Vem do coração, sr. Walker, replicou Job com solem- 
nidade. Passe muiio bem. 

— Sahiu-se-me piegas, o patusco! pensou Sam quando 
Job se afastou. Deixal-o ! o que é certo é que lhe apanhámos 
o recheio todo ! 

Não nos é possivel determinar a natureza dos sentimen- 
tos que passavam pela mente do sr. Trotter, visto que igno- 
ramos quaes elles fossem. 

Decorreu o dia, chegou a noite, e pouco antes das dez ho- 
ras Sam Weller participou que o sr. Jingle e Job tinham sa- 
hido juntos, que tinham a bagagem arrumada, e que tinham 
alugado uma sege. 

Evidentemente o conluio estava em via de execução, con- 
forme previra o sr. Trotter. 

Chegaram as dez e meia : era a occasião de o sr. Pickwick 
partir pa^a a sua delicada empreza. 

Recusando levar sobretudo, afim de não ter estorvos para 
escalar o muro, sahiu seguido pelo criado. 

A lua estava enublada. 

Estava uma bella noite, secca mas extraordinariamente es- 
cura. 

Caminhos, sebes, campos, casas, tudo estava envolto em 
sombras densas. 

A atmosphera estava quente e suffocante ; na orla do ho- 
risonte lampejavam a espaço os relâmpagos estivaes, propor- 
cionando a única luz que rasgava a escuridão lobrega da 
noite. 

Sons não se ouviam, a não serem os latidos longinquos 
de algum cão inquieto. 

Deram com a casa, leram a chapa de cobre, contornaram 
o muro, e pararam no ponto em que este os dividia do ex- 
tremo do jardim. 

— Vossê volte para a estalagem, Sam, logo depois de me 
ajudar, disse o sr. Plck^vick. 

— Sim, senhor. 

— E fique alerta até eu voltar. 

— Está claro, senhor. 

— Segure-me na perna, e quando eu disser: Arriba! le- 
vante-me com cautela. 

— Fique descançado, senhor 



200 AS AVENTURAS 



Estabelecidos estes preliminares, o sr. Pickwick deitou as 
mãos ao cimo do muro, e soltou a ordem de «Arriba !« a qual 
foi mui litteralmente obedecida. 

Ou porque o seu corpo partilhasse até certo ponto da 
elasticidade do seu espirito, ou porque Sam tivesse acerca 
dos empurrões cautelosos uma ideia mais exaggerada do que 
a do amo, o effeito immediato do seu auxilio foi ferrar com o 
homem immortal para o outro lado do muro. 

Ahi, depois de amachucar três groselheiras e uma roseira, 
o sr. Pickwick estatelou-se ao comprido. 

— Não se magoou, senhor? disse Sam, ciciando alto, logo 
que se restabeleceu da surpreza causada pela súbita desap- 
parição do amo. 

— Com certeza que não me magoei a mim, replicou o sr. 
Pickwick do outro lado do muro, mas vossê é que me está 
a parecer que me magoou. 

— Espero que não, senhor. 

— Não quer dizer nada ! disse o sr. Pickwick levantando- 
se, umas arranhadurasilas. Vá-se embora, quando não ou- 
vem-nos. 

— Adeus, senhor. 

— Adeus. 

Sam Weller partiu a passos furtivos, deixando o sr. Pick- 
wick sósinho no jardim. 

Por vezes appareceram luzes nas diíferentes janellas, ou 
lampejaram nas escadas, como se as pessoas de casa se esti- 
vessem a recolher. 

Tendo cautela de não se aproximar demasiadamente da 
porta antes da hora marcada, o sr. Pickwick agachou-se n'um 
recanto do muro, á espera que ella chegasse. 

Situação era esta capaz de abater o espirito de muita 
gente. 

E comtudo o sr. Pickwick nem sentia abatimento nem te- 
mor. 

Sabia que o seu propósito era no fundo meritório, e de- 
positava implícita confiança no magnânimo Job. 

Era uma situação triste por certo, para não dizer medo- 
nha ; mas um espirito contemplativo pôde sempre gastar o 
tempo na meditação. 

O sr. Pickwick tinha meditado tanto, que acabara por dor- 



DO SR. PICKWICK 261 



mitar, quando foi despertado pelo sino da egreja próxima 
que dava a hora marcada — onze e meia. 

— E' a hora, pensou o sr. Pickwick, pondo-se cautelosa- 
mente em pé. 

Ergueu os olhos para a casa. 

As luzes haviam desapparecido, e as janellas estavam fe- 
chadas — tudo na cama, sem duvida. 

Dirigiu-se no bico dos pés para a porta, e bateu de man- 
sinho. 

Passados dois ou três minutos sem resposta, bateu outra 
vez com mais força, e depois terceira vez com mais força 
ainda. 

Afinal ouviu-se na escada um rumor de passos, e logo a 
luz de uma vela se coou pelo buraco da fechadura. 

Corridos os ferrolhos, destrancada a porta, esta abriu-se 
lentamente. 

Ora a porta abria-se para fora : e á proporção que ella se 
escancarava, o sr. Pickwick ia-se sumindo cada vez mais por 
detraz d'ella. 

Qual foi o seu espanto quando, ao espreitar por cautela, 
viu que a pessoa que abrira era — não Job Trotter, mas uma 
criada com um castiçal na mão ! 

O sr. Pickwick escondeu novamente a cabeça, com a ra- 
pidez desenvolvida por esse admirável actor de melodrama, 
Punch, quando está deitado á espreita do homem da cabeça 
achatada e da caixa de musica. 

— Havia de ser o gato, Sarah, disse a criada fallando a 
alguém para dentro. Bich, bich, bich — bichano, bichano ! 

Mas como nenhum animal fosse attrahido por estas cari- 
nhosas invocações, a rapariga fechou lentamente a porta, e 
tornou a aferrolhal-a ; deixando o sr. Pickwick estirado de 
encontro á parede. 

— Esta é muito curiosa, pensou o sr. Pickwick. Estão 
ainda a pé, pelo que vejo, além da sua hora habitual. E' in- 
felicidade minha, o terem ellas logo escolhido esta noite para 
estarem de vela — é uma dos diabos ! 

E com estes pensamentos, o sr. Pickwick alapardou-se 
cautelosamente no recanto do muro onde já estivera occulto, 
esperando cjue chegasse occasião em que lhe parecesse pru- 
dente repetir o signal. 



2b2 AS AVENTURAS 



Ainda não tinham passado cinco minutos, quando um re- 
lâmpago vivissimo foi seguido por um violento trovão que 
rugiu ao longe tremendamente — seguiu-se outro relâmpago, 
mais oífuscante do que o outro, e um segundo trovão mais 
forte do que o primeiro e depois uma carga de agua furiosa, 
varrendo tudo adiante de si. 

O sr. Pickwick estava farto de saber que uma arvore é 
um visinho perigosissimo durante uma trovoada. 

Ora elle tinha uma arvore á direita, outra á esquerda, uma 
terceira na frente, e uma quarta atraz de si. 

Se elle se deixasse ficar ali, corria o perigo de ser fulmi- 
nado ; se elle se mostrasse no meio do jardim, arriscava-se a 
cahir nas unhas da policia. 

Por uma ou duas vezes elle tentou escalar o muro, mas 
não tendo quem o ajudasse, a única consequência dos seus 
esforços foi esfolar os joelhos e as canellas e suar copiosa- 
mente. 

— Que terrivel situação ! disse o sr. Pickwick, parando 
para enxugar a testa depois d'este exercício. 

Ergueu os olhos para a casa — tudo ás escuras. Deviam 
estar 'mettidas na cama afinal. Convinha experimentar de 
novo o signal. 

Foi pizando com os bicos dos pés o cascalho húmido, e 
bateu á porta. 

Suspendeu o fôlego, e escutou pelo buraco da fechadura. 
Nem sombra de resposta. Que estranheza ! Outra argolada. 
Tornou a escutar. Ouviu-se dentro um ciciar de manso, e 
uma voz bradou : 

— Quem está ahi ? 

— Não é Job, pensou o sr. Pickwick cozendo- se precipi- 
tadamente com a parede. E' uma mulher. 

Mal tivera tempo para formular esta conclusão, quando 
se abriu por cima d'elle uma janella, e três ou quatro vozes 
femininas repetiram a pergunta : 

— Quem está ahi? 

O sr. Pickwick não ousava tugir nem mugir. Era claro 
que o collegio estava todo em alvoroço. Resolveu deixar-se 
ficar onde estava emquanto o susto não passasse; e depois 
fazer um esforço sobrenatural e saltar por cima do muro, ou 
então perecer n'essa tentativa. 



DO SR. PICKWICK 



263 



Como todas as determinações do sr. Pickwick, era esta 
a melhor que poderia tomar-se em taes circumstancias; mas 
por desgraça fundava-se na presumpção de que não se atre- 
veriam a abrir a porta outra vez. 

Qual foi o seu desapontamento, quando ouviu correr fer- 
rolhos e tranquetas, e viu a porta a abrir-se, a abrir-se lenta- 
mente ! 

Recolheu-se passo a passo para o seu recanto ; mas fizesse 
o que fizesse, a interposição do seu corpo impedia que ella 
se escancarasse de todo. 

— Quem está ahi ? guinchou da escada um coro de vozes 
de tiple, consistindo na solteirona, que era directora do col- 
legio, três professoras, cinco criadas e trinta pensionistas, to- 
das em trajes menores, e todas com a cabeça ornamentada 
com uma floresta de papelotes. 

Está bem de ver que o sr. Pickwick não disse quem es- 
tava ali ; e o estribilho do coro mudou então para : 

— Valha-me Deus ! que susto ! que medo ! 

— Cosinheira, disse a directora que tLvera o cuidado de 
ficar no cimo da escada, na cauda do grupo. Cosinheira, por- 
que não dá vossê uma volta pelo jardim ? 

— Perdão, minha senhora, n'essa não caio eu. 

— Oh ! senhores ! que estúpida que é esta cosinheira ! ex- 
clamaram as trinta pensionistas. 

— Cosinheira, disse a directora com grande dignidade, faça 
favor de não me responder. Dou-lhe ordem positiva para dar 
uma vista de olhos pelo jardim, immediatamente. 

N'isto a cosinheira desatou a chorar, e a criada de fora 
disse que aquillo era «uma vergonha!» : e por tomar o par- 
tido da cosinheira, foi logo despedida, sem mais nem menos. 

— Vossê ouve, cosinheira ? disse a directora, batendo o 
pé com impaciência. 

— Vosse não ouve a senhora, cosinheira? bradaram as 
três professoras. 

— Que insolente que é esta cosinheira ! bradaram as trinta 
pensionistas. 

A desventurada cosinheira, instada por tal forma, deu dois 
ou três passos, segurando o castiçal de modo que não podia 
ver bóia, e declarou que não estava lá cousa nenhuma, e que 
havia de ser o vento. 



2(34 AS AVENTURAS 



Ia por conseguinte fechar-se a porta, quando uma pensio- 
nista curiosa, que estivera a espreitar por entre os gonzos, 
soltou um guincho medonho, que fez voltar para traz, n'um 
abrir e fechar d'olhos, a cosinheira e a criada de fora e as 
mais destemidas. 

— Que foi que aconteceu a Miss Smithers ? perguntou a 
directora, ao ver a alludida Miss Smither cahir com um che- 
lique da força de quatro meninas. 

— Valha -me Deus ! Miss Smithers ! minha querida ! bra- 
daram as outras vinte e nove pensionistas. 

— Oh ! o homem ! o homem ! atraz da porta ! guinchou 
Miss Smithers. 

Apenas a directora escutou este grito aterrador, desatou 
a fugir para o seu quarto, deu duas voltas á chave, e cahiu 
em delíquio com toda a commodidade. 

As pensionistas, mais as professoras, mais as criadas, pre- 
cipitaram-se pela escada acima, umas por cima das outras ; 
e nunca se viram guinchos, nem desmaios, nem empurrões 
como então. 

Em pleno tumulto, o sr. Pickwick surdiu do seu esconde- 
rijo, e apresentou-se no meio d'ellas. 

— Senhoras, minhas queridas senhoras ! bradava elle. 
—-Oh! e elle chama-nos queridas! gritou a mais velha e 

a mais feia das professoras. Que miserável ! 

— Minhas senhoras, rugiu o sr. Pickwick, no auge do des- 
espero pelo perigo da situação. Ouçam-me. Não sou ladrão. 
O que eu quero aqui é a sr." directora. 

— Oh ! que monstro feroz ! berrou outra professora. O 
que elle quer é Miss Tomkins. 

Houve outra guinchadeira geral. 

— Toquem a sineta de alarme ! alguém que toque ! bra- 
daram uma dúzia de vozes. 

— Não toquem ! não toquem ! gritou o sr. Pickwick. Olhem 
para mim. Pareço acaso um ladrão ? Minhas queridas senho- 
ras — podem atar-me de pés e mãos, podem encerrar-me 
n'uma alcova, se quizerem. O que eu desejo só é que ouçam 
o que eu tenho a dizer — ouçam-me, pelo amor de Deus!* 

— Como é que entro\i no nosso jardim .'* balbuciou a criada 
de fora. 

— Chamem a dona da casa, e eu lhe conto tudo, tudo 1 



DO SR. PICKWICK 2ÒD 



continuou o sr. Pickwick, dando a máxima força aos pulmões. 
Chamem-na — vejam se socegam, e chamem-na, e já ficam 
sabendo tudo. 

Quer fosse pelo aspecto do sr. Pickwick, quer pelas suas 
maneiras, quer fosse pela tentação, tão irresistível para os es- 
piritos femininos, de saber alguma cousa até então envolta 
em mysterio, o caso é que a parte mais razoável do pessoal 
do collegio (umas quatro talvez) reduziu-se a um estado de 
quietação relativa. 

Por ellas foi proposto, afim de experimentar a sinceridade 
do sr. Pickwick, que elle se submettesse immediatamente ao 
encarceramento. 

E, tendo este cavalheiro consentido em ter uma confe- 
rencia com Miss Tomkins, do interior de uma alcova onde 
as alumnas externas guardavam os chapéos e os saccos do 
lanche, elle para lá se metteu espontaneamente e foi encer- 
rado com segurança. 

Isto deu animo* ás outras; e tendo Miss Tomkins voltado 
a si e voltado para baixo, a conferencia começou. 

— Que fazia vossemecê no meu jardim, homemsinho ? 
perguntou ella com voz débil. 

— Vinha prevenil a que uma das suas educandas tencio- 
nava fugir esta noite, respondeu o sr. Pickwick de dentro da 
alcova. 

— Fugir! exclamaram Miss Tomkins, as três professoras, 
as trinta pensionistas e as cinco criadas. Com quem .'' 

— Com o seu amigo, o sr. Charles Fitz Marshall. 

— Meu amigo! Eu conheço lá similhante sujeito I 

— Bem! então, com o sr. Jingle. 

— Nunca na minha vida ouvi esse nome. 

— Então fui eu illudido, e burlado. Fui victima de um con- 
luio — de um infame e abjecto conluio. Mande perguntará 
hospedaria do Anjo, se acaso me não acredita, minha que- 
rida senhora. Mande ao Anjo, chamar o criado do sr. Pick- 
wick, supplico-lhe, minha senhora. 

— Deve ser pessoa séria — tem um criado ! disse Miss 
Tomkins á mestra de escripta e de contas. 

— A minha opinião, Miss Tomkins, disse a mestra de es- 
cripta e de contas, é que o criado d'elle é, mas é enfermeiro. 
O que elle me parece é doido, Miss Tomkins. 



200 AS AVENTURAS 



— Creio que tem razão, Miss Gvvynn, replicou a directora, 
Mandem duas das criadas ao Anjo, e fiquem as outras para 
nos proteger. 

Expediram-se pois duas criadas para o Anjo, em cata do 
sr. Samuel Weller : e as três restantes ficaram a proteger 
Miss Tomkins, e as três mestras, mais as trinta educandas, E 
o sr. Pickwick sentou-se na alcova sob uma enfiada de sacos, 
aguardando o regresso das mensageiras com toda a philo- 
sophia e fortaleza de animo que lhe foi possível invocar. 

Hora e meia passou antes que ellas voltassem. 

Quando voltaram, o sr. Pickwick reconheceu, além da 
Yoz do sr. Samuel Weller, duas outras vozes, cujos timbres 
lhe feriram familiarmente os ouvidos ; mas não pôde por caso 
algum recordar-se a quem pertenciam. 

Seguiu-se um breve colloquio. 

Desaferrolhou-se a porta. 

O sr. Pickwick surdiu do seu escaninho, e achou-se em 
presença do collegio inteiro, de Samuel Weller e — do velho 
Wardle, mais do seu futuro genro, o sr. Trundle ! 

— Meu caro amigo, disse o sr. Pickwick precipitando-se 
para o sr. Wardle e agarrando-lhe na mão, pelo amor de 
Deus, veja se explica a esta senhora, a desgraçada e ter- 
rível situação em que estou mettido. O meu criado deve ter- 
Ihe contado já : diga em todo o caso, meu bom amigo, que 
eu não sou ladrão nem doido. 

— Isso disse eu, meu caro amigo, isso disse eu já, repli- 
cou o sr. Wardle, sacudindo a mão direita do sr. Pickwick, 
ao passo que o sr. Trundle lhe sacudia a esquerda. 

— E seja lá quem fôr que diga ou tiver já dito que elle é, 
interpoz o sr. Weller dando uns passos em frente, diz o que 
não é verdade, antes pelo contrario, porque é tal qual o con- 
trario. E se ha por ahi homens, sejam lá quantos forem, que 
digam isso, eu cá terei muito prazer em lhes dar uma prova 
convincente de que se enganaram, aqui mesmo n'esta casa, 
se estas muito respeitáveis damas quizerem ter a bondade de 
se retirar, ou de os mandar cá para cima, a um e um. 

Tendo pronunciado este desafio com grande volubilidade, 
o sr. Weller bateu energicamente com o punho cerrado na 
palma da mão aberta, e piscou jocosamente o olho para Miss 
Tomkins. 



DO SR. PICKWICK 267 



Mas não é fácil descrever a intensidade do horror que ac- 
commetteu a veneranda directora, ao ver que elle suppunha 
dentro dos limites do possivel o existirem alguns homens no 
recinto do Collegio de Meninas, de Westgate House. 

A justificação do sr. Pickwick depressa concluiu. Mas nem 
no decurso do seu regresso na companhia dos amigos, nem 
depois quando abancu defronte de um lume confortável e 
de uma ceia reconfortante, foi possivel arrancar-lhe uma pa- 
lavra. 

Parecia atordoado, assombrado. 

Só uma vez, voltando-se para o sr. Wardle, disse-lhe : 

— Como é que veiu aqui parar ? 

— Trundle e eu viemos aqíii para darmos uns tiros no 
primeiro dia de caça, replicou Wardle. Chegámos esta noite, 
e ficámos pasmados quando o seu criado nos disse que o 
amigo também estava por cá. Ainda bem ! disse o prasenteiro 
velhote batendo-lhe nas costas, ainda bem ! Havemos de ar- 
ranjar uma caçada soberba para o dia da abertura, e damos 
a Winkle occasião para se desforrar — hein ! que diz a isto, 
meu velhote ? 

O sr. Pickwick não abriu bico ; nem mesmo perguntou 
pelos seus amigos de Dingley Dell, e pouco depois recolheu 

f>ara o seu quarto, dando ordem a Sam para vir buscar-lhe a 
uz quando elle tocasse a campainha. 

A campainha tocou com eífeito no momento conveniente, 
e Sam apresentou-se. 

— Sam, disse o sr. Pickwick espreitando por cima dos 
lençoes. 

— Senhor, disse Sam. 

O sr. Pickwick fez uma pausa, e Sam espevitou a vela. 

— Sam, tornou a dizer o sr. Pickwick, parece que n'um 
esforço desesperado. 

— Senhor, repetiu o sr. Weller. 

— Onde está esse Trotter ? 

— Quem ? Job ? 

— Sim. 

— Tingou-se, senhor. 

— Mais o patrão, está bem de ver ? 

— Amigo ou patrão, ou seja lá o que fôr, tingou-se com 
elle. Olhe que aquillo é uma rica parelha. 



208 AS AVENTURAS 



— Jingle suspeitou da minha intenção, e mandou-lhe a 
vossê aquelle intrujão com a tal historia, não lhe parece ? 
disse o sr. Pickwick meio engasgado. 

— Foi isso mesmo, senhor. 

— E' claro que tudo aquillo era peta ? 

— Nem mais nem menos. Foi uma partida de estalo. 

— O ladrão é matreiro deveras, sim, senhor. 

— Para a outra vez, parece-me que elle não nos ha de es- 
capar com tanta facilidade, hein, Sam ? 

— Assim me parece, senhor. 

— Onde quer que eu encontre aquelle Jingle, seja em que 
occasião fôr, exclamou o sr. Pickwick sentando-se na cama, 
e amachucando o travesseiro com um murro tremendo, hei 
de infligir-lhe uma punição severa, isto além de o desmasca- 
rar, como elle tão ricamente merece. Olé se o faço ! tão certo 
como eu chamar-me Pickwick. 

— E onde quer que eu deite a unha ao tal choramigas da 
trunfa negra, se eu não lhe puxo agua a valer até ás vigias, 
então não me chame eu Weller. Muito boa noite, senhor. 



CAPITULO XVII 

Mo&trando como um ataque de rheumatíco pôde 
em certos casos actuar como estimulante do 
génio inventivo. 

A constituição do sr. Pickwick, embora capaz de aguentar 
uma somma considerável de trabalhos e de fadi^^as, não re- 
sistiu a uma combinação de assaltos, tal como sofFrera na me- 
morável noite, de que' trata o anterior capitulo. 

Este systema de apanhar um banho ao ar livre da noite 
e depois enxugar-se n'um cacifo todo fechado, é tão perigoso 
como original. 

O sr. Pickwick foi acommettido de um ataque de rheu- 
matico. 

Mas ao passo que assim eram deterioradas as forças phy- 
sicas do grande homem, a sua energia intellectual mantinha 



DO SR. nCKWICK 269 



o vigor antigo, o seu espirito e innata elasticidade, o seu 
temperamento e bom humor habitual. 

Mesmo o vexame que lhe causara a sua recente aventura 
ia-selhe apagando da mente; e elle fazia coro, sem cólera 
nem turbação, com o riso cordeal que qualquer allusão a ella 
excitava no sr. Wardle. 

Ainda mais. 

Durante os dois dias que o sr. Pickwick ficou de cama, 
foi Sam quem o tratou com toda a constância. 

No primeiro, tentou elle distrahir o amo com anecdotas 
e conversação ; no segundo, o sr. Pickwick pediu a bua es- 
crevaninha, penna e tinta, e esteve muito atarefado durante 
o dia inteiro. 

No terceiro, como já podesse ficar sentado no quarto, 
mandou Sam com um recado aos srs. Wardle e Trundle, pe- 
dindo-lhes que lhe dessem o gosto de vir aquella noite beber 
uma gota de vinho em sua companhia. 

O convite foi aceite da melhor vontade ; e quando elles 
estavam sentados, de copos na frente, o sr. Pickwick, corando 
por vezes, leu-lhes o seguinte conto, por elle redigido, du- 
rante a sua enfermidade, sobre as notas arrancadas á narra- 
tiva genuina e authentica de Sam Weller. 



O SACRISTÃO 

HISTORIA DE UM AMOR VERDADEIRO 

«N'uma pequena terriola de província, a grande distancia 
de Londres, vivia em tempos um homemsinho chamado Na- 
thaniel Pipkin, que era sacristão da parochia. 

«Morava n'uma pequena casa, situada na pequena rua di- 
reita, a dez minutos de caminho da pequena egreja, e todos 
os dias, entre as nove da manhã e as quatro da tarde, podia 
encontrar-se a ensinar uma pequena sciencia a rapazes pe- 
quenos. 

"Nathaniel Pipkin era um ente inoffensivo, bondoso, ami- 
gável, com um nariz torcido para cima e umas pernas um 
pouco torcidas para dentro, com um geito nos olhos e andar 
manquejante. 



270 AS AVENTURAS 



"Dividia o seu tempo entre a egreja e a escola, crendo 
piamente que não existia na superhcie da terra homem tão 
intelligente como o cura, uma sala tão imponente como a sa- 
cristia e uma escola tão bem dirigida como a sua. 

«Uma vez, uma única vez na sua vida, tinha Nathaniel 
Pipkin visto um bispo —um bispo a valer, com os braços 
mettidos em mangas de cambraia e a cabeça coberta com 
uma cabeileira. 

«Tinha-o visto a andar, ouvira-o fallar n'uma confirma- 
ção ; e n'e$sa conjuntura Nathaniel Pipkin de tal modo ficara 
varado de reverencia e de terror, quando o sobredito bispo 
lhe pozera a mão na cabeça, que perdera completamente os 
sentidos e fora levado para fora da egreja nos braços do be- 
del. 

«Foi esse um grande acontecimento, uma data tremenda, 
na vida de Nathaniel Pipkin, e fora esse o único que lograra 
encrespar a lisa corrente da sua plácida existência, quando 
uma bella tarde, estando elle a lucubrar n'um terrivel pro- 
blema de addicção composta que devia ser resolvido por um 
brejeirote travesso, succedeu erguer subitamente os olhos da 
ardósia para a florescente physionomia de Maria Lobbs, a 
única filha do velho Lobbs, o selleiro defronte. 

«Ora os olhos do sr. Pipkin, tinham-se já fitado vezes sem 
conto no lindo semblante de Maria Lobbs, quer na egreja, 
quer n'outros sitios. 

«Mas os olhos de Maria Lobbs nunca haviam tido tanto 
brilho, nem as faces de Maria Lobbs tão bonita côr, como 
n'aquella occasião. 

«Não admira pois que Nathaniel Pipkin não fosse capaz 
de tirar os olhos da physionomia de Miss Lobbs ; não admira 
que Miss Lobbs, vendo-se assim contemplada por um rapaz, 
se retirasse da janella, a fechasse e baixasse a cortina; não 
admira que Nathaniel Pipkin, logo em seguida cahisse em 
cima do brejeirote que fizera a travessura, e lhe ferrasse uma 
tareia para desafogar. 

«Tudo isto era muito natural, e não ha nada aqui digno 
de pasmo. 

"Mas o que é digno de pasmo, é que um homem de cara- 
cter concentrado, de temperamento nervoso, e de rendimento 
excessivamente exiguo, como Nathaniel Pipkin, se abalan- 



no SR. PICKWICK 271 



casse d'ali por diante a aspirar á mão e ao coração da única 
íilha do indomável Lobbs — do velho Lobbs, o grande sellei- 
ro, que podia comprar a aldeia em peso só com um traço de 
penna, sem lhe fazer differença nenhuma — o velho Lobbs, 
que toda a gente sabia possuir montões de libras, deposita- 
das no banco da cidade próxima — que constava ter thesou- 
ros innumeraveis c inexauriveis, accumulados no pequeno co- 
fre de ferro com uma enorme fechadura, collocado por cima 
da chaminé da sala trazeira — e o qual, era sabido, costumava 
em dias de festa guarnecer a meza com um bule, uma leiteira 
e um assucareiro de verdadeira prata, cousas que elle se ga- 
bava orgulhosamente, faziam parte do dote da filha, em ella 
topando noivo que lhe agradasse. 

«Repito, era caso para profundo pasmo e grande maravi- 
lha que Nathaniel Pipkin tivesse a temeridade de levantar os 
olhos n'aquelle sentido. 

«Mas o amor é cego, e Nathaniel tinha um geiío na vista : 
e talvez que estas duas circumstancias reunidas evitassem que 
elle visse as cousas á luz conveniente. 

«Ora, se o velho Lobb^ tivesse tido a mais remota sus- 
peita do que se passava no coração de Nathaniel Pipkin, ar- 
razaria logo a escola, ou exterminaria o mestre da superfície 
da terra, ou perpetraria qualquer outra atrociíiade da mesma 
laia; porque era um velho terrivel, o tal Lobbs, em sendo fe 
rido no seu orgulho, ou em lhe chegando a most rda ao na- 
riz. 

<^Isso é que era praguejar ! 

«Ribombava cada praga atravez da rua, quando elle estava 
a accusar a madracice do aprendiz de pernas finas, que os 
pés de Nathaniel Pipkin tremiam de horror dentro dos sapa- 
tos, e os cabellos dos discipulos punham-se em pé com pavor. 

«Pois bem ! todos os dias, em acabando a escola e em 
sahindo os discipulos, sentava-se Nathaniel Pipkin á janella, 
fingindo que lia n'um livro, e deitava catrapiscadellas de es- 
guelha em cata dos olhos brilhantes de Maria Lobbs. 

«E poucos dias eram passados, quando os olhos brilhan- 
tes appareceram na janella do andar de cima, apparentemente 
absorvidos também na leitura. 

«Que delicia, que contentamento, para o coração de Na- 
thaniel Pipkin ! 



272 AS AVENTUR.\S 



«Já não era nada mau estar ali sentado horas e horas, a 
olhar para aquelle lindo rosto quando os olhos d'ella estavam 
voltados para baixo. 

«Mas quando Maria Lobbs começou a erguer os olhos de 
cima do livro, e a dardejar os seus raios na direcção de Na- 
thaniel Pipkin, a delicia e a admiração d'este não tiveram li- 
mites. 

«Afinal, um dia em que elle sabia que Lobbs andava por 
fora, Nathaniel Pipkin levou a audácia a ponto de atirar um 
beijo a Maria Lobbs ; e esta, em vez de lhe fechar a janella 
na cara e de baixar a cortina, reenviou-lhe o beijo e sor- 
riu. 

«Depois d'isto, Nathaniel Pipkin resolveu, succedèsse o 
que succedèsse, desabafar sem mais demora o estado dos seus 
sentimentos. 

«Nunca sobre a terra passaram pés mais lindos, semblante 
mais risonho, figura mais esbelta, do que os de Maria Lobbs, 
a filha do velho selleiro. _ _ . 

«Havia uma chispa de gaiatice nos seus olhos scintillan- 
tes, capaz de abrir caminho para .corações muito menos sus- 
ceptiveis do que o de Nathaniel Pipkin ; e tanta alegria havia 
nas suas gargalhadas, que o mais carrancudo dos misantro- 
pos teria sorrido ao ouvil-as. 

«Até o próprio Lobbs, mesmo no ápice da ferocidade, não 
podia resistir aos gatimanhos da encantadora filha ; e quando 
esta, mais a sua prima Kate — uma creaturinha maliciosa, 
descaradota, fascinante, assaltavam juntas o velhote, como, 
a dizer a verdade, faziam vezes sem conto, elle não era capaz 
de lhes recusar cousa alguma, mesmo que ellas lhe pedissem 
uma porção dos innumeraveis e inexauriveis thesouros, es- 
condidos no cofresito de ferro. 

«O coração de Nathaniel pulsou com força, quando, n'uma 
noite de verão, elle viu esse par feiticeiro umas cem jardas 
adiante d'elle, mesmo no campo onde elle tanta vez andara 
a passeiar até se cerrar a noite, scismando na belleza de Ma- 
ria Lóbbs. 

^<Mas comquanto muitas vezes pensasse com que desem- 
baraço elle correria para Maria Lobbs a declarar-lhe a sua 
paixão, caso podesse sequer ao menos encontral-a, elle sen- 
tia, agora que ella inesperadamente se achava diante d'elle, 



DO SR. PICKWÍCK 273 



todo o sangue do corpo subir-lhe á cabeça, com grande pre- 
juízo das pernas, as quaes, privadas do seu quinhão habitual, 
tremiam sob elle. 

«Quando ellas paravam a apanhar uma flor na sebe ou a 
ouvir um pássaro, Naihaniel Pipkin parava também, e hngia- 
se absorto em meditação. 

"E estava-o mesmo realmente, porque pensava no que 
havia de fazer, quando ellas voltassem para traz, como in- 
evitavelmente fariam mais tarde ou mais cedo, e o encon- 
trassem cara a cara. 

«Mas apesar de ter medo de as defrontar, não podia per- 
del-as de vista ; por isso, quando ellas andavam mais depres- 
sa, andava elle mais depressa ; quando ellas diminuiam o passo 
abrandava elle o seu; quando ellas paravam, parava elle ; e as- 
sim teriam continuado por ali fora, até que anoitcesse, se 
Kate não tivesse olhado surrateiramente para traz e feito a 
Nathaniel um aceno de animação para ir ter com ellas. 

«Havia o quer que era de irresistível nos modos de Kate, 
e por isso Nathaniel accedeu ao convite ; e depois de muito 
corar por parte d'elle e de gargalhadas descompassadas da 
maliciosa priminha, Nathaniel Pipkin cahiu de joelhos em cima 
da relva húmida, e declarou a resolução em que estava de 
ali ficar para todo o sempre, se Maria Lobbs não lhe permit- 
tisse erguer-se como seu namorado aceito. 

«A estas palavras, o riso alegre de Maria Lobbs retiniu 
pelo ar sereno da noite — sem o turvar comtudo, tão melo- 
dioso era — e a maliciosa priminha r^iu mais descompassada- 
mente do que antes, e Nathaniel Pipkin corou mais do que 
nunca. 

«Afinal, como Maria Lobbs fosse vehementemente instada 
pelo apaixonado homemsinho, desviou a cabeça, e segredou 
á prima que dissesse, ou disse-o a prima por conta própria, 
que se sentia muito honrada com a declaração do sr. Pipkin, 
que a sua mão e o seu coração estavam á mercê da vontade 
paterna, mas que ninguém podia ser insensível aos mereci- 
mentos do sr. Pipkin. 

«Como tudo isto foi dito com muita gravidade, e como 
Nathaniel Pipkin acompanhou a casa Maria Lobbs, e fez es- 
forços para lhe roubar um beijo á despedida, metteu-se na 
cama felicíssimo, e sonhou a noite inteira em abrandar o ve- 

18 



74 AS AVENTURAS 



lho Lobbs, em lhe abrir a cofre, e em casar com Maria. 

"No dia seguinte, Naihaniel Pipkin viu o velho Lobbs sa- 
hir na sua velha égua parda, e depois de um grande numero 
de acenos feitos á janella pela priminha travessa, acenos cuja 
significação não foi capaz de decifrar, o aprendiz magrizella 
das pernas finas atravessou a rua para lhe dizer que o patrão 
não ficava aquella noite em casa, e que as senhoras espera- 
vam o sr. Pipkin para o chá ás seis em ponto. 

"Como as lições se deram pelo dia adiante, nem Naiha- 
niel Pipkin, nem os seus discípulos, o sabem melhor do que 
os leitores; mas ellas lá se foram esbrugando conforme foi 
possivel, e, depois de sahir a rapaziada, Nathaniel Pipkin le- 
vou até ás seis horas a vestir se a seu gosto ; não que lhe le- 
vasse muito tempo a escolha do fato que devia vestir, visto 
que não tinha por onde escolher, mas a tarefa difficil era pre- 
paral-o e dispôl-o da forma mais vantajosa. 

"Em casa do selleiro estava um ranchino delicioso, for- 
mado por Maria Lobbs, sua prima Kate, e mais três ou qua- 
tro cachopas bnncalhonas. folgazãs e rosadas. 

"Nathaniel Pipkin teve demonstração ocular de que não 
eram exagerados os boatos referentes aos thesouros do velho 
Lobbs. 

«Lá estavam em cima da meza o bule, a leiteira e o assu- 
careiro de prata macissa, e colheres de prata verdadeira para 
mexer o chá, e chávenas de verdadeira porcelana para o be- 
ber, e pratos da mesma para os bolos e para as torradas. 

«O único desmancha-prazeres era um primo de Maria 
Lobbs, irmão de Kate, a quem Maria Lobbs chamava Henry, 
e que parecia guardar Maria Lobbs só para si, n'um dos ex- 
tremos da meza. 

"E' muito aprazivel ver affeição nas familias, mas essa af- 
feição pôde ir demasiado longe, e Nathaniel Pipkin não po- 
dia* eximir-se a pensar que Maria Lobbs devia fser muito 
amiga dos parentes, se é que os tratava a todos com as mes- 
mas attençóes que dedicava áquelle primo. 

"Também depois do chá, quando a priminha travessa 
propôz que jogassem a cabra cega, succedia, fosse como fos- 
se, que Nathaniel Pipkin estava quasi sempre de olhos tapa- 
dos, e todas as vezes que punha as mãos no primo, era certo 
encontrar perto a linda Maria Lobbs. 



DO SR. PICKWICK 275 



«E por mais que a priminha das travessuras e as outras 
cachopas o beliscassem, e lhe puxassem os cabellos, e o fi- 
zessem tropeçar em cadeiras, e executassem outras que taes 
judiarias, Maria Lobbs é que nunca parecia aproximar- se 
d'elle. 

"Uma vez até, Nathaniel Pipkin ia Jurar que ouvira o ci- 
ciciar de um beijo, seguido por uns débeis ralhos de Maria 
Lobbs e pelo riso meio abafado das amigas 

«Tudo isto era exquisito — mesmo muito exquisito — e 
ninguém pôde saber o que Nathaniel teria feito ou teria dei- 
xado de fazer em consequência, se os seus pensamentos não 
tivessem de súbito sido desviados n'outra direcção. 

«A circumstancia que produziu este eífeito foi uma serie 
de pancadas violentas á porta da rua, e a pessoa que assim 
balia tão de rijo não era outra senão o próprio Lobbs, que 
voltara inesperadamente, e que estava ali a martelar, a mar- 
telar, que nem um carpinteiro de caixões; porque queria 
ceiar. 

«Apenas a terrivel noticia foi communicada pelo apren- 
diz magrizella das pernas finas, logo as raparigas galgaram 
pela escada acima p)ara o quarto de Maria Lobbs, e o primo 
mais Nathaniel Pipkin foram encafuados em duas alcovas da 
sala, á falta de melhor esconderijo ; e quando Maria Lobbs e 
a maliciosa priminha os fecharam muito bem fechados e po- 
zeram a sala em ordem, foram abrir a porta ao velho Lobbs, 
que não tinha cessado de martellar nem um instante. 

«Ora, por maior desgraça, acontecia que o velho Lobbs, 
em tendo muita fome, era levado de mil demónios. 

«Nathaniel Pipkin podia ouvil-o a rosnar como um cão de 
fila velho e rouco ; e sempre que o desventurado aprendiz 
das pernas finas entrava na sala, era certo o velho Lobbs 
desatar a praguejar para elle como um sarraceno ferocíssimo, 
ainda que apparenteniente sem outro fim ou objectivo que 
não fosse desafogar o interior de algumas pragas a mais. 

«Emfim, pôz-se na meza a ceia que estivera a aquecer, e 
o velho Lobbs cahiu-lhe em cima como qualquer simples 
mortal ; e tendo linppado tudo n'um abrir e fechar d'olhos, 
beijou a filha, e pediu o seu cachimbo. 

"A natureza coUocára os joelhos de Nathaniel Pipkin 
muito chegados um ao outro ; mas quando ouviu o velho 



27O AS AVENTURAS 



Lobbs pedir o cachimbo, elles chocaram-se com tanta força 
como se fossem reduzir-se a pó. 

"Porque, pendente de duas escapulas, mesmo na alcova 
onde o tinham fechado, estava um cachimbo de haste escura 
e fornilho de prata, o qual elle ha cinco annos estava farto 
de ver todas as tardes e todas as noites, regularmente, na 
bocca do velho Lobbs. 

"As duas raparigas subiram ao andar de cima em cata do 
cachimbo, e procuraram por todos os cantos, menos no sitio 
onde sabiam que elle estava, e o velho Lobbs bramava entre- 
mentes por forma tremebunda. 

"Afinal lembrou-se da alcova, e dirigiu-se para ella. 

«De nada serviu que um fracalhão como Nathaniel Pip- 
kin puxasse a porta para dentro, quando um homemzarrão 
como o velho Lobbs a puxava para fora. 

«Bastou um puxão d'este para ella se escancarar, paten- 
teando Nathaniel Pipkin lá dentro, direito como um fuso e 
tremendo de medo da cabeça aos pés. 

«Jesus ! que apavorante olhar lhe deitou o velho Lobbs, 
ao agarral-o pela gola e ao segural-o com o braço esten- 
dido ! 

— Então que diabo quer você aqui? perguntou elle com 
voz tremula. 

"Nathaniel Pipkin não pôde dar resposta ; por isso o ve- 
lho Lobbs sacudiu-o de traz para diante durante dois ou três 
minutos, assim como quem queria arrumar-Ihe as ideias. 

« — Que vem vossê cheirar aqui .'* rugiu Lobbs. Pelo que 
vejo, vossê veiu por causa da minha filha. 

«O velho Lobbs disse isto apenas por ironia; porque elle 
não podia crer que a vaidade humana a taes extremos hou- 
vesse levado Nathaniel Pipkin. 

«Qual foi a sua indignação, quando o pobre diabo repli- 
cou : 

«— E' verdade, sr. Lobbs — venho cá por causa de sua fi- 
lha. Tenho-lhe muito amor, sr. Lobbs. 

« — Que é isso, desavergonhado, cara de saguim, ranhoso ? 
resfolegou o velho Lobbs, paralysado pela atroz confissão. 
Que diabo queres tu dizer com isso ? Uma cousa d'estas na 
minha cara ! Espera ahi ! Raios me partam, se não te vou es- 
ganar! 



DO SR. HCKWICK 277 



«Não é nada improvável que o velho Lobbs, no excesso 
da raiva, pozesse em obra a ameaça, se não lhe immobilisasse 
o braço uma apparição deveras inesperada : foi o primo que, 
sahindo do seu esconderijo e aproximando-se do velho 
Lobbs, exclamou : 

« — Não posso permittir que esta innocente creatura, que 
foi convidada a vir aqui, por uma brincadeira de raparigas, 
assuma tão nobremente a responsabilidade da culpa (se culpa 
ha) de que eu me accuso sem hesitar. Amo sua filha, sr. 
Lobbs : e vim aqui no propósito de me encontrar com ella. 

«O velho Lobbs abriu muito os olhos, mas não mais do 
que Nathaniel Pipkin, e disse por fim, quando achou alento 
bastante para fallar: 

« — Ah ! veiu ? 

« — Vim. 

« — E eu ha que tempos lhe prohibi que pozesse os pés 
n'esta casa. 

« — E' verdade que prohibiu : se não fosse isso, escusava 
eu de vir cá esta noite ás escondidas. 

«Peza-me ter de contar isto do velho Lobbs, mas parece- 
me que elle teria desatado á pancadaria ao tal primo, se a 
sua linda filha, com os olhos brilhantes lavados em lagrimas, 
não se lhe tivesse agarrado ao braço. 

« — Não o agarres, Maria ! disse o rapaz. Se elle tem von- 
tade de me bater, que o faça embora. Eu cá é que nem por 
todas as riquezas do mundo era capaz de levantar a mão para 
um d'esses cabellos brancos. 

«Os olhos do velho baixaram a esta censura, e encontra- 
ram os da filha. 

«Já por duas ou três vezes eu tenho dado a entender que 
estes eram muito brilhantes, e, apesar de estarem razos de 
lagrimas, nem por isso diminuirá nada a sua influencia. 

«O velho Lobbs desviou a cabeça, como para evitar que 
elles o persuadissem ; mas n'esse momento quiz a fortuna 
que elle olhasse para a cara da priminha travessa, a qual, por 
um lado assustada por causa do irmão, e por outro trocista 
por causa de Nathaniel Pipkin, apresentou uma expressão por 
tal forma feiticeira, com uns longes de malicia, que nem ve- 
lhos nem moços seriam capazes de lhe resistir. 

«Ella metteu carinhosamente o braço pelo braço do ve- 



278 AS AVENTURAS 



lho, e disse-lhe um segredinho ; e por mais que fizesse, o ve- 
lho Lobbs não pôde esquivar-se a sorrir, ao passo que uma 
lagrima lhe escorria pela cara abaixo. 

«Cinco minutos depois, as raparigas foram tiradas do 
quarto de Maria, todas ellas vergonhas e risadinhas ; e em- 
quanto os novos estavam tratando de se fazer felizes, o velho 
Lobbs tratava de encher o cachimbo e de o fumar : e é digna 
de reparo a circumstancia de elle nunca ter sentido tanto 
prazer e tanto consolo em fumar no seu cachimbo, como 
d'aquella vez. 

«Nathaniel Pipkin pensou que era melhor fechar-se em 
copas, e por isso foi gradualmente conquistando as boas gra- 
ças do velho Lobbs, que o ensinou a fumar a compasso. 

"Durante muitos annos, costumaram-se elles a sentar-se no 
jardim, em sendo noites bonitas, fumando e bebendo á ufa. 

«A paixão de Nathaniel depressa se curou, porque acha- 
mos o nome d'elle nos registos da parochia, como testemu- 
nha do casamento de Maria Lobbs com o primo ; e pela con- 
sulta de outros documentos, parece também que na noite das 
bodas elle foi parar á cadeia da villa, por ter apanhado uma 
tremenda bebedeira e commettido vários excessos nas ruas, 
em todos os quaes teve como ajudante e cúmplice o apren- 
diz magrizella das pernas finas.» 



CAPITULO XVIII 

Que serve para demonstrar resumidamente dois 
pontos : —primeiro, o poder dos faniquitos; se- 
gundo, a força das circumstancias. 

Durante os dois dias seguidos ao almoço de Mrs. Hunter, 
permaneceram os pickwickanos em Eatanswill, esperando 
anciosamente a chegada de alguma noticia do seu venerando 
mestre. 

Os srs. Tupman e Snodgrass estavam outra vez á mercê 
dos seus próprios recursos para se distrahirem ; porquê o sr. 
Winkle, obedecendo a amáveis instancias, continuava a ser 



DO SR. PICKWICK 279 



hospede do sr. Pott e a dedicar o seu tempo á companhia de 
sua amável esposa. 

Nem faltava uma vez por outra a presença do mesmo sr. 
Pott para complemento do seu bem estar. Profundamente 
absorvido nas suas profundas lucubrações em favor do inte- 
resse publico. e contra a existência do Independente, não ti- 
nha esse grande homem por costume baixar do acume do 
seu génio até ao nivel humilde das intelligencias vulgares. 

N'esta occasião, porém, como em homenagem propositada 
a um discipulo do sr. Pickwick, elle inclinou-se, cedeu, des- 
ceu do seu pedestal, e andou pelo chão, adaptando benigna- 
mente as suas observações ao entendimento do vulgo, e dei- 
xando que, senão em espirito, pelo menos nas exterioridades, 
o misturassem com a turba ignara. 

Tendo sido tal o proceder de tão celebre publicista para 
com o sr. Winkle, facilmente se pôde calcular a enormidade 
da surpreza pintada nas feições d'este ultimo, quando uma 
vez, estando sósinho sentado na casa de jantar, viu escanca- 
rar-se vivamente a porta e cerrar-se com egual vivacidade, 
dando entrada ao sr. Pott, o qual, avançando para elle ma- 
gestosamente e repellindo a mão que elle lhe estendia, ran- 
geu os dentes, como para tornar mais cortantes as phrases 
que ia pronunciar, e exclamou com uma voz parecida com o 
roçar de uma serra : 
' — Serpente ! 

— Senhor ! exclamou o sr. Winkle levantando- se de cho- 
fre. 

— Serpente, senhor ! repetiu o sr. Pott levantando a voz. 
E acrescentou logo, baixando-a de repente : 

— Serpente foi o que eu disse, senhor. Entenda isto como 
quizer. 

Ora quando uma pessoa se apartou de outro homem ás 
duas horas da manhã, nos mais amigáveis termos, e ás nove 
e meia elle vem ter com essa pessoa a tratal-a de serpente, 
não é desarrazoado concluir que alguma cousa desagradável 
succedeu entrementes. 

Foi isso o que pensou o sr. Winkle. 

Retribuiu o olhar duro do sr. Pott, e conformando-se ao 
desejo d'este, tratou de ver se entendia que demónio vinha 
ali fazer a «serpente». 



f8o AS AVENTURAS 



Mas o certo é que na mesma ficou ; por isso, depois de 
alguns minutos de silencio, exclamou : 

— Serpente, senhor ? Serpente, sr. Pott ? Que quer o se- 
nhor dizer com isso ? Por força que está a brincar. 

— A brincar! bradou Pott com um gesto da mão, indi- 
cando fortíssimas ganas de atirar com o bule de metal inglez 
á cabeça do hospede. A brincar, senhor!... Nada, nada, 
quero andar com serenidade, ouviu, senhor? 

E como prova de serenidade, o sr. Pott atirou comsigo 
para cima de uma cadeira, com a bocca espumante. 

— Meu caro senhor ! acudiu o sr. Winkle. 

— Caro senhor ! Pois ainda se atreve a chamar-me seu 
caro senhor, senhor ? Ainda se atreve a olhar me cara a cara, 
chamando-me caro ? 

— Pois então, se vamos a isso, o senhor atreve-se a olhar- 
me cara a cara, chamando-me serpente? 

— Porque o senhor e serpente. 

— Prove isso, senhor, disse o sr. Winkle calorosamente, 
prove-o lá. 

Uma nuvem minaz passou pelo rosto profundo do edi- 
tor. 

Tirou da algibeira o Independente d'aquelle dia, e pondo 
o dedo n'um paragrapho, estendeu o jornal por cima da mesa 
para o sr. Winkle. 

Este agarrou-o, e leu o que segue : 

«O nosso obscuro e abjecto competidor, em algumas as- 
querosas observações sobre a ultima eleição por este burgo, 
atreveu-se a violar o santuário venerando da vida privada, 
referindo-se, por forma que não soífre equivocos, aos negó- 
cios pessoaes do nosso ex-candidato — sim, acrescentaremos 
mesmo, não obstante a sua iniqua derrota, do nosso futuro 
deputado o sr. Fizkin. Aonde quer chegar o nosso cobarde 
competidor ? Que diria o rufião, se porventura, nós, não tendo 
em nenhuma conta, como elle, as conveniências sociaes, er- 
guêssemos o véo que felizmente dissimula a sua vida intima 
ao ridiculo geral, para não dizer á execração publica ? Que 
diria, se nós nos resolvêssemos a apontar e a commentar fa 
ctos e circumstancias pubHcas e notórias, observadas por to- 
dos, menos pelo nosso cego competidor? Se nós imprimís- 
semos o seguinte desabafo, que recebemos, emquanto escre- 



DO SR. PICKWICK 281 



viamos o começo do presente artigo, de um nosso talentoso 
patrício e correspondente : 



Versos a um !Pote cie col>re 

Oh ! Pott ! se soubesses 

Que ella era das refeces, 
Quando ouviste na boda os sinos tinkle, tinkle ; 

Farias com certeza 

O que hoje bem te peza 
De não poder fazer : dal-a em presente a W***** 

— Que me diz ? clamou o sr. Pott com solemnidade. Mi- 
serável ! O que é que rima com tinkle ? 

— O que rima com tinkle? disse Mrs. Pott, cuja entrada 
n'aquelle momento antecipou a resposta. O que rima com 
tinkle? Ora essa! Winkle, supponho eu. 

E dizendo isto, Mrs. Pott sorriu docemente para o atra- 
palhado pick-Avickano, e estendeu-lhe a mão. Na sua confu- 
são, o mancebo ia aceital-a, se Pott não se interpozesse, cheio 
de indignação. 

— Para traz, minha senhora! para traz! disse o editor. 
Apertar-lhe a mão mesmo na minha cara ! 

— Sr. Pott ! disse a dama attonita. 

— Miserável mulher, veja isto ! Veja isto, minha senhora ! 
Versos a iwi Pote de cobre, minha senhora. Pote de cobre, 
sou eu, minha senhora. Qiie ella era das refeces... isto é 
comsigo, minha senhora — comsigo ! 

Com esta ebullição de raiva, acompanhada por uma es- 
pécie de tremor, causado pela expressão do rosto de sua es- 
posa, o sr. Pott arremessou aos pés d'ella o numero do Inde- 
pendente. 

— Essa agora, senhor, exclamou Mrs. Pott espantadíssi- 
ma, curvando-se para apanhar o jornal. Essa agora, senhor ! 

O sr. Pott quiz reagir sob o olhar desdenhoso de sua es- 
posa. 

Fez um esforço desesperado para puxar acima toda a sua 
coragem, mas ella tornou a descahir n'um momento. 



282 AS AVENTURAS 



A' simples leitura, nada existe muito terrível n'esta pe- 
quena phrase : «Essa agora, senhor !» ; mas o tom de voz em 
que ella foi pronunciada, e o olhar que a acompanhou, pare- 
cendo um e outro presagiar alguma vingança imminente so- 
bre a cabeça de Pott, produziram sobre elle um effeito deci- 
sivo. 

O menos perspicaz dos observadores poderia ter lobri- 
gado no seu ar inquieto um desejo vehemente de arranjar de 
prompto um substituto para se metter dentro do seu fato. 

Mrs. Pott leu o artigo, soltou um grito dilacerante, e es- 
tiraçou-se ao comprido em cima do tapete do fogão, guin- 
chando e esperneando por forma que não deixava duvidas 
sobre a adaptação dos seus sentimentos ás circumstancias 
decorrentes. 

— Minha querida, bradou Pott aterrado — eu cá não disse 
que acreditava n'isso — eu. . . 

Mas a voz do desventurado afogava se nos guinchos da 
cara metade. 

— Mrs. Pott, disse o sr. Winkle, dê-me licença que lhe 
supplique, socegue, minha querida senhora. 

Mas o alarido e o bater de pés eram mais rijos e mais fre- 
quentes do que nunca. 

— Minha querida, disse o sr. Pott, crê que estou afflicto. 
Se não queres ter em conta a tua saúde, ao menos por atten- 
çáo a mim. . . Olha que vae juntar-se gente na rua. 

Mas quanto mais fortes eram as instancias do sr. Pott, 
mais vehemente era o jorrar dos guinchos. 

Por felicidade, comtudo, Mrs. Pott tinha uma espécie de 
guarda de corpo, uma menina cujo emprego ostensivo era 
presidir á toilette da ama, mas que se tornava útil por diffe- 
rentissimas formas, a mais importante das quaes era ajudar 
e animar a ama em todos os desejos e inclinações oppostos 
ás inclinações e aos desejos do mesquinho Pott. 

Os guinchos chegaram a ponto aos ouvidos d'esta menina, 
e attrahiram-na á casa de jantar com uma rapidez que amea- 
çava transtornar o requintado arranjo da sua touca e dos seus 
caracoes. 

— Oh! minha senhora! minha querida ama! exclamou 
elia ajoelhando desvairada ao lado de Mrs. Pott. Oh ! minha 
querida senhora ! que succedeu ? 



DO SR. PICWIKCK 283 



— E' o teu amo — o teu brutal amo, murmurou a en- 
ferma. 

Poit fraquejava evidentemente. 

— Que vergonha ! disse a aia com ar de censura. Estou 
certa que elle ha de causar-lhe a morte, minha senhora. Coi- 
tadinha ! 

Pott cada vez perdia mais terreno. O partido adverso pro- 
seguiu no ataque. 

— Oh! não me abandones — não me abandones, Good- 
M'in, murmurou Mrs Pott, aferrando-se aos pulsos d'esta com 
Ímpeto hysterico. Tu é que és a única pessoa que me tens 
atfeição, Godwin. 

A este terno appello, Goodwin montou logo por sua conta 
uma tragediasinha domestica, e desatou a chorar como uma 
perdida. 

— Nunca, minha senhora — isso nunca ! soluçou ella. Oh ! 
o senhor devia ter mais cuidado — devia com certeza ; não 
calcula o mal que pôde fazer á senhora ; ainda um dia se ha 
de arrepender, digo-lh'o eu — estou farta de o dizer. 

O desgraçado Pott olhou timidamente, mas não disse pa- 
lavra. 

— Goodwin, murmurou brandamente Mrs. Pott. 

— Minha senhora ? 

— Se soubesses o amor que eu tive a este homem. . . 

— Não se afflija com essas recordações, minha senhora. 
Pott parecia assustadíssimo. Era occasião de dar um golpe 

decisivo. 

— E agora, soluçou Mrs. Pott, agora no fim de tudo, ser 
tratada por esta forma ; ser reprehendida e insultada na pre- 
sença de um terceiro, demais a mais quasi um estranho. Mas 
a isto é que eu não quero sujeitar-me, Goodwin, continuou 
Mrs. Pott, levantando-se nos braços da aia. O mano tenente 
ha de intervir. Quero desquitar-me, Godwin. 

— Era o que clle merecia, com certeza, minha senhora. 
Fossem quaes fossem as ideias que a ameaça do desquite 

houvesse despertado no animo do sr. Pott, elle eximiu-se a 
expressal-as, e contentou-se com dizer muito humildemente : 

— Minha querida, queres ouvir-me t 

A única resposta foi uma nova descarga de soluços, em- 
quanto Mrs. Pott, cada vez mais nervosa, pediu que lhe ex- 



284 AS AVENTURAS 



plicassem porque motivo tinha ella nascido, e requisitou ou- 
tras varias informações do mesmo jaez. 

— Minha querida, objectou o sr. Pott, não te deixes le- 
var por esses sentimentos exahados. Eu nunca acreditei que 
o artigo tivesse o minimo fundamento, minha querida — isso 
era impossivel I O que eu estava era zangado — direi mesmo 
furioso — com o maldito Independente^ por se atreverem a 
inseril-o ; mais nada. 

E o sr. Pott deitou um olhar supplicante para a innocente 
causa d'esta semsaboria, como para lhe rogar que não abrisse 
bico a respeito da serpente. 

— E que passos tenciona o senhor dar para obter repara- 
ção ? interrogou o sr. Winkle, ganhando coragem á propor- 
ção que via Pott perder a sua. 

— Oh ! Goodwin, observou Mrs. Pott ; dar-se-ha caso que 
elle tencione chicotear o editor do Independente? é isso, God- 
Avin ? 

— Schiu ! minha senhora, socegue, replicou a rapariga. 
Estou certa que ha de chicoteal-o, o caso é a senhora que- 
rer. 

— Certamente, disse Pott, vendo a esposa manifestar sym- 
ptomas evidentes de novo faniquito. Está claro que sim. 

— Quando, Goodwin? quando ? perguntou Mrs. Pott, ainda 
hesitante sobre as vantagens do faniquito. 

— Immediatamente, está claro, disse o sr. Pott, antes do 
fim do dia. 

— Oh! Goodwin, proseguiu Mrs. Pott, é esse . o único 
meio de ir ao encontro do escândalo, e de me congraçar com 
a sociedade. 

— Decerto, minha senhora, replicou Goodwin. Não é ho- 
mem o homem que se recusar a isso, minha senhora. 

Como visse ainda os faniquitos imminentes, o sr. Pott 
prometteu outra vez que o faria ; mas Mrs. Pott tão oppressa 
estava com a simples ideia de ter sido suspeitada, que esteve 
meia dúzia de vezes a pique de recahir, e tal succederia sem 
duTJda, se não fossem os infatigáveis e assiduos esforços de 
Goodwin, e as repetidas supplicas de perdão, feitas pelo ven- 
cido Pott; e finalmente, quando este infeliz foi increpado e 
domado convenientemente, Mrs. Pott restabeleceu-se, e fo- 



ram todos almoçar. 



DO SR. PICKWICK 28: 



— O sr. Winkle não permittirá que as calumnias desse 
abjecto jornal encurtem a sua estada aqui ? disse Mrs. Potl, 
sorrindo atravez dos vestígios das lagrimas. 

— Espero que não, disse o sr. Poa, intimamente desejoso 
de que o seu hospede se engasgasse com o pedaço de tor- 
rada que n'esse momento aproximava dos lábios, e que por 
tal forma acabasse de vez com a sua visita. Espero que 
não. 

— Que bondade a sua I disse o sr. Winkle, mas recebeu-se 
uma carta do sr. Pickwick — tive essa noticia por um bilhete 
do sr. Tupman, que esta manhã me levaram ao quarto. — 
Pede-nos que vamos hoje ter com elle a Bury ; e devemos 
partir no carro do meio dia. 

— Mas volta? disse Mrs. Pott. 

— Oh ! com certeza ! 

— Está bem certo d'isso ? disse Mrs. Pott, relanceando um 
olhar terno para o hospede. 

— Gertissimo, respondeu o sr. Winkle. 

O almoço decorreu em silencio, porque cada um dos as- 
sistentes estava a parafusar sobre os seus desgostos pes- 
soaes. 

Mrs. Pott sentia-se angustiada pela perda do seu sigisbéo ; 
o sr. Pott pelo seu imprudente protesto de chicotear o Inde- 
pendente; e o sr. Wmkle por se ter collocado n'uma situação 
tão melindrosa. 

Era quasi meio dia, e depois de muitos adeuses e promes- 
sas de voltar, o sr. Winkle partiu por fim. 

— Se elle voltar alguma vez, enveneno-o ! pensou o sr. 
Pott, ao voltar para o pequeno escriptorio onde preparava 
os seus fulminantes coriscos. 

— Se eu cá voltar a metter-me outra vez de gorra com 
esta gente, pensou o sr. Winkle a caminho do Pavão, sou eu 
que mereço chicote ; essa é que é a cousa. 

Os amigos já estavam prompios, a diligencia quasi, e den- 
tro de meia hora iam elles a jornadear pela estrada que o sr. 
Pickwick e Sam haviam recentemente percorrido, e da qual, 
em vista do que já dissemos, julgamos desnecessário extra- 
ciar a formosa e poética descripção do sr. Snodgrass. 

O sr. Weller estava á espera d'elles á porta do Anjo, e 
por elle foram levados ao quarto do sr. Pickwick, onde, com 



286 AS AVENTURAS 



grande surpreza dos srs. Winkle e Snodgrass e não menor 
embaraço do sr. Tupman, elles deram de cara com o velho 
Wardie, mais o sr. Trundle. • 

— Gomo vae isso ? disse o velho apertando a mão de 
Tupman. Não se atrapalhe, nem se faça sentimental ; o que 
não tem remédio remediado está, meu velho. Por amor d'ella, 
bem desejava eu dar-lh'a por esposa; por interesse seu, folgo 
muito que assim não fosse. Um rapagão como vossê ha de 
ser mais feliz para outra vez, mais dia menos dia — hein ? 

Com esta consolação, o velho VVardle batia nas costas do 
sr. Tupman e ria cordialmente. 

— E aqui estes amigos, estes excellentes rapazes, como 
vão ? perguntou o velho, dando shake-hands ao mesmo tempo 
aos srs. Winkle e Snodgrass. Estava agora mesmo a dizer a 
Pickwick que os queremos lá todos para o Natal. Vamos ter 
por lá umas bodas — bodas a valer, d'esta feita. 

— Umas bodas ! exclamou o sr. Snodgrass empallide- 
cendo. 

— Sim, umas bodas. Mas não se assuste, disse o galho- 
feiro velho ; é só aqui Trundle, e mais Bella. 

— Ah ! é só isso ? disse o sr. Snodgrass, alliviado de uma 
penosa duvida que lhe cahiu pesadamente no peito. Muitos 
parabéns, sr. Wardie. Como está Joe ? 

— Ah ! esse, vae bem. Dorminhoco como sempre. 

— E sua mãe ? e o vigário ? e toda essa gente .'* 

— Tudo ás mil maravilhas. 

— Onde, perguntou o sr. Tupman com esforço, onde está 
ella ? 

E voltava a cabeça para o lado, cobrindo os olhos com a 
mão. 

— Ella! disse o velho com um aceno sagaz de cabeça. 
Quer fallar da minha irmã, hein ? 

O sr. Tupman indicou por acenos que a sua pergunta se 
referia á mofina Rachel. 

— Oh ! foi-se embora ; está em casa de uma parente nossa, 
lá muito longe. Custava-lhe immenso o ver as minhas peque- 
nas, por isso deixei-a ir. Mas venham cá, ahi temos o jantar. 
Devem estar com fome depois d'esta jornada. Eu cá, mesmo 
sem jornada, tenho bastante. Portanto vamos cahir lhe em 
cima ! 



DO SR. PICKWICK 287 



Fez-se ampla justiça á refeição. Acabada ella e ainda 
abancados os amigos, o sr. Pickwick, no meio do intenso hor- 
ror e indignação, contou a aventura em que fora victima e o 
êxito que coroara as artimanhas vis do diabólico Jingle. 

— E o ataque de rheumatismo que eu apanhei n'aquelle 
jardim, disse em conclusão o sr. Pickwick, ainda agora mesmo 
me faz coxear. 

— Também eu, disse o sr. Winkle sorrindo, tive ufis fumos 
de aventura. 

E a pedido do sr. Pickwick, elle contou por miúdos o li- 
bello maldoso do Independente de Eatanswill, e a irritação 
por elle produzida no animo do seu amigo, o editor da Ga- 

fC/c7. 

Annuviou-se durante a narrativa a fronte do sr, Pickwick. 

Deram por isso os amigos, e, quando o sr. Winkle con- 
cluiu, permaneceram em profundo silencio. 

O sr. Pickwick bateu energicamente na meza com o pu- 
nho fechado, e fez a seguinte falia : 

— Não é porventura caso de assombro que nós pareça- 
mos fadados para não entrar em casa alguma, sem envolver 
o dono d'ella em alguma complicação? Pergunto lhes : não 
denunciará este facto a indiscrição, ou, peior ainda, a per- 
versão — custa me a dizel-o — dos meus discipulos, que os 
induz, sob qualquer tecto que os abrigue, a perturbar a paz 
de espirito e a felicidade de alguma mulher ingénua .'' Não 
será, digo eu. . . 

O sr. Picl-Avick teria, segundo todas as probabilidades, 
continuado assim por algum tempo, se não fora a entrada de 
Sam, com uma carta, que o obrigou a interromper o seu elo- 
quente discurso. 

Passou o lenço pela testa, tirou os óculos, enxugou-os, e 
tornou a pôl-os ; e a sua voz recobrou a habitual brandura de 
tom, quando disse : 

— Que traz vossc, Sam ^ 

— Fui agora mesmo ao correio, e achei lá esta carta que 
estava lá ha dois dias. Está sellada com obreia, e tem o en- 
dereço em letra redonda. 

— Não conheço esta letra, disse o sr. Pickwick abrindo 
a carta. Valha-m Deus! que quer dizer isto ? Deve ser gra- 
cejo ; não — não pode ser verdade. 



l88 AS AVENTURAS 



— O que é ? perguntaram todos. 

— No morreu ninguém, decerto ? disse Wardle, assustado 
com o horror que se divisava no rosto do sr. Pickwick. 

O sr. Pickwick não deu resposta, mas, passando a carta 
por cima da meza e pedindo ao sr. Tupman que a lesse em 
voz alta, deixou-se cahir na cadeira com um olhar de vago 
espanto que fazia arripios. 

O sr. Tupman, com voz tremula, leu a carta cuja copia 
transcrevemos fielmente : 

c.Freeman's Court, Cornhill, 28 de agosto de 1827. 
«Bardell contra Pickwick. 
«Senhor. 

«Tendo recebido de Mrs. Martha Bardell o encargo de 
intentar uma acção contra o sr. Pickwick, por quebra 
de promessa de casamento, pela qual a queixosa fixa 
os seus damnos na importância de mil e quinhentas libras, 
tomamos a liberdade de o informar que foi citado perante o 
tribunal de Common pleas ; e rogamos-lhe nos faça saber, na 
volta do correio, o nome do seu advogado em Londres, en- 
carregado dos seus interesses. 
«Somos, senhor, 

«Seus obedientes servos, 
«Dodson e Fogg. 
«Ao sr. Samuel Pickwick." 

Algo de tão solemne havia no mudo espanto com que 
cada um olhava para o visinho e todos para o sr. Pickwick, 
que pareciam ter medo de fallar. 

O silencio foi por fim quebrado pelo sr. Tupman. 

— Dodson e Fogg, repetiu elle machinalmente. 

— Bardell e Pickwick, disse o sr. Snodgrass scismando, 

— Paz de espirito e felicidade de mulheres ingénuas, mur- 
murou o sr. Winkle com ar abstracto. 

— E' uma conspiração ! exclamou o Sr. Pickwick, recu- 
perando afinal a faculdade de fallar ; uma vil conspiração 
tramada por esses dois soíTregos procuradores, Dodson e Fogg. 
Mrs. Bardell não era capaz de tal; — não tem coração para 
isto ; — nem tem motivo para o fazer Ridículo ! ridiculo ! 

— Do coração d'ella, disse Wardie, sorrindo, deveria de- 



DO SR. PICKWICK 28q 



certo ser o amigo o melhor juiz. Não desejo dominal-o, mas 
quanto aos seus motivos, quer-me parecer que Dodson e Pogg 
são muito melhores juizes do que qualquer de nós. 

— FJ uma infame tentativa para me extorquirem di- 
nheiro. 

— Assim seja, redarguiu Wardle, com uma tosse secca e 
curta. 

— Quem é que me ouviu alguma vez dirigir-me a ella, 
por tbrma diversa da que tem um hospede dirigindo-se á 
dona da casa ? continuou o sr. Pickwick com grande vehe- 
mencia. Quem me viu nunca junto d'ella ? Nem mesmo os 
meus amigos aqui presentes. . . 

— A não ser uma occasião, atalhou o sr. Tupman. 
O sr. Pickwick mudou de côr. 

— Ah! disse Wardle. Isso agora tem importância. D'essa 
vez nada havia de suspeito, creio eu ? 

O sr. Tupman relanceou um olhar tímido para o seu mes- 
tre. 

— Eu lhe digo, disse elle. De suspeito nada havia : mas — 
não sei como isso foi, repare bem — o caso é que ella estava 
reclinada nos braços d'elle. 

— Nosso Senhor me acuda ! exclamou o sr. Pickwick, ao 
occorrer-lhe vivamente a recordação da scena alludida. Que 
medonho exemplo do poder das circumstàncias ! E' exacto 
— é exacto! 

— E o nosso amigo estava a alliviar-lhe as mágoas, disse 
o sr. Winkle com uns longes de malícia. 

— E estava, não o nego. Estava por certo. 

— Olá ! disse Wardle, para um caso em que não ha nada 
de suspeito, isso está-me a parecer exquisito — hein, Pick- 
wick — hein ? Ah ! brejeirote — brejeirote ! 

E desatou a rir com tanta força que os copos no apara- 
dor começaram a tinir. 

— Que terrivel concorrência de indícios! exclamou o sr. 
Pickwick descançando o queixo nas mãos. Winkle — Tup- 
man — peço-lhes perdão pelas observações que fiz ha pouco. 
Todos nós somos victimas das circumstàncias, e eu mais do 
que todos. 

Com esta justificação, escondeu o sr. Pickwick a cabeça 
entre as mãos e íicou a scismar, emquanto o sr. Wardle de- 

19 



:00 AS AVENTURAS 



senhavci um circulo de acenos e de caretas, dirigidas aos 
outros membros da companhia. 

— Seja como fôr, quero que isto se explique, disse o sr. 
IMckwick, erguendo a cabeça e martellando na meza. Vou 
ler com esses taes Dodson eFogg. Parto amanhã para Lon- 
dres. 

— A'manhã, não! disse Wardle, vossc ainda está muito 
coxo. 

— Pois então, depois de amanhã. 

— Depois de amanhã é o primeiro de setembro, e está 
compromettido a acompanhar-nos ás terras de Sir Geofifrey 
Manning, e a lanchar comnosco, a não ser que queira tam- 
isem caçar. 

— Pois então no dia seguinte, disse o sr. Pickwick. Quinta 
feira — Sam ! 

— Prompto, senhor! 

— Tome dois logares de imperial para Londres, pura 
<;iíinta-feira de manhã, para vossê e para mim. 

— Sim, senhor, 

() sr. Weller sahiu vagarosamente para se desempenhar 
do seu encargo, de mãos nas algibeiras e olhos no chão, e ia 
Id liando comsigo pela rua fora. 

— Que raio de homem, este meu patrão! Andar a arras- 
tar a aza á tal Mrs. Bardell — demais a mais com o contra- 
f>e7o do petiz ! Cahem sempre n'estas araras o diabo dos 
velhotes, com todas as suas apparencias de juizo. Pois eu, 
apesar de tudo, nunca pensaria que elle fizesse uma d'estas 
— nunca pensaria que elle fizesse uma d'estas. 

K moraHsando por este theor, Samuel Weller dirigiu os 
passos para o escriptono das diligencias. 



CAPITULO XIX 

U«:i dia agradável, com um fim desagradável 

O: pássaros que, felizo-enie para a sua paz de espirito e 

cnr.Ux o pessoal, estavam em abençoada ignorância dos pre- 

••■ s que se haviam feito para os encher de espanto. 



no SR. PICKWICK 2QI 



saiKlaram a manhã do primeiro de setembro como uma das 
mais apriiziveis que n'aquella estação tinham visto. 

Muito e muito nerdi.uoio que se pavoneiava complacente- 
mente pelo restolno com toda a lépida fatuidade da juven- 
tude, e muito perdigão velho que contemplava esta desen- 
voltura com os olhos redondos, desdenhoso como uni pas 
saro sizudo e experiente, todos egualmentJ inconscios da 
sentença imminente, aspiravam o ar fresco da manhã com 
contentamento e beaiitude. 

K poucas horas depois deviam hcar estendidos por terra. 

Mas bastai vamo-nos tornando sentimentaes : prosiga- 
mos. 

Em linguagem chã e positiva, estava pois uma bella ma- 
nhã — tão bella que custaria a acreditar terem-se \á escoado 
os poucos mezes do estio inglez. 

Sebes, campos e arvoredos, collinas e brejos, tudo apre- 
sentava aos olhos as sombras e cambiantes de um verde 
rico. 

Uma que outra folha cabida, uns leves raios de amarello 
sobre as cores vivas do verão, apenas denunciavam que co- 
meçara o outono. 

b eco estava desanuviado; o sol jorrava brilho e calor: 
o chilrear dos pássaros e o zumbido de myriades de insectos 
estivaes enchiam o ar ; e os jardins, repletos de flores varie- 
gadas, scintillavam com o orvalho, como estojos de jóias 
deslumbrantes. 

Tudo tinha o cunho do verão, e nenhuma das suas bri- 
lhantes cores havia desbotado. 

Tal era a manhã, quando uma carruagem aberta, com trcs 
dos pickwickanos (visto que o sr. Snodgrass preferira licar 
em casa) os srs. Wardle e Trundle, com Sam Weller na al- 
mofada ao lado do cocheiro, parou a um portão á beira da 
estrada, defronte do qual estavam um couteiro alto e os- 
sudo e um rapaz de botins e polainas de couro: cada um 
d'elles com uma enorme rede de caça e acompanhado por 
uma enorme parelha de perdigueiros. 

— Olhe lá I segredou o sr. Winkle para Wardle, emquanto 
o homem abaixava os degraus da carruagem, elles estarão 
persuadidos que nós vamos matar tanta caça que encha 
aquellas redes ? 



2C)2 AS AVENTURAS 



— Que as encha! exclamou o velho Wardie. Se Deus qui- 
zer ! Vossê enche uma, e eu outra; e quando estiverem a 
abarrotar, podemos ainda metter outra tanta nos bolsos das 
nossas vestias. 

O sr. Winkle apeiou-se sem dar resposta; mas pensou de 
si para comsigo que, se elles tencionavam ficar ao ar livre 
até que elle enchesse uma das redes, cornam sérios riscos de 
apanhar tremendas constipações. 

— Hi, Juno — hi, velhote ! Abaixo, Daph, abaixo ! disse 
Wardle acariciando os cães. Sir Geoffrey está ainda na Es- 
cócia, não é assim, Martin ? 

O couteiro alto respondeu affirmativamente, e relanceou 
os olhos, surprehendidos do sr. Winkle, que pegava na espin- 
garda como se desejasse que o bolso da vestia lhe tirasse o tra- 
balho de dar ao gatilho, para o sr. Tupman, que segurava 
a sua como se tivesse medo d'ella — e não ha razão para du- 
vidar que assim fosse na realidade. 

— Os meus amigos airkda não estão muito habituados a 
estas cousas, Martin, disse Wardle, notando o reparo do 
couteiro. Até morrer aprender, como diz lá o outro. Qual- 
quer dia estão ahi uns atiradores de mão cheia. Em todo o 
caso, peço perdão ao amigo Winkle ; esse já tem tido alguma 
pratica. 

O sr. Winkle correspondeu ao cumprimento com um sor- 
riso amarello por cima da gravata azul, e tão mysteriosa- 
mente se atrapalhou, modesto e confuso, com a sua espin- 
garda, que, se ella estivesse carregada, era caso para ir para 
o outro mundo n'um prompto. 

— O senhor não deve agarrar na arma d'esse feitio, em 
ella estando carregada, disse com aspereza o couteiro, quando 
não, diabos me levem se não atira com algum de nós de 



pernas para o ar ! 

Assim admoestado, o sr. Winkle mudou bruscamente de 
posição, e n'esta manobra ferrou o cano em intimo conta- 
cto com a cabeça de Sam. 

— Eh lá! bradou este apanhando o chapéo e esfregando 
as fontes. Eh lá, senhor ! se vae por esse andar, só com um 
tiro é capaz de encher uma das redes, e ainda lhe fica de so- 
brecelente. 

N'isto, o rapaz das polainas de couro desatou ás gargalha 



DO SR. PICKWICK 2()3 



das ; mas tratou logo de disfarçar, pois que o sr. VVinklc fran- 
zira majestosamente o sobr'olho. 

— Onde é que vosse mandou o rapaz ficar á nossa espera 
com o farnel, Martin ? perguntou Wardle. 

— No mouchão da Arvore, ao meio dia. 

— Isso já não lic;i nas terras de Sir GeofíVey, pois fica ? 

— Não, senhor ; mas fica mesmo pegado. E' nas terras do 
capitão B©ld\vig ; mas não ha lá ninguém que nos incom- 
n">ode, e é um pouso excellente, com bella relva. 

— Muito hem, disse o velho Wardle. Quanto mais de- 
pressa partirmos, melhor. Então o amigo Pickwick vae ter 
comnosco em sendo meio dia ? 

O sr. Pickwick tinha grande desejo de assistir á caçada, 
tanto mais que tinha umas leves apprehensões com respeito 
á vida e aos membros do sr. Winkle. 

Demais, n'uma manhã convidativa como aquella, era de- 
veras tantalisante o voltar para traz e deixar os amigos a di- 
vertirem-se. Foi poi? com ar tristonho que elle respondeu : 

— Sim, creio que lá irei ter. 

— Este senhor não é caçador? perguntou o couteiro. 

— Não, respondeu Wardle; e além d'isso está coxo. 

— Gostava immenso de ir também, disse o sr. Pickwick, 
immenso. 

Houve um curto silencio de commiseração. 

— Ha um carrinho de mão do outro lado da sebe, excla- 
mou o garoto. Se o criado d'este senhor quizer rodar com 
elle por esses atalhos, podia vir comnosco, e nós poderíamos 
levantal-o para passar por cima dos cercados, e outras que 
taes historias. 

— Isso mesmo! disse Sam que era interessado no assum- 
pto, pelo desejo ardente que linha de assistir á caçada. Isso 
mesmo I Diz muito bem o fedelho. Vou buscai- a, emquanto 
o diabo esfrega um olho. 

Mas n'isto levantou-se uma difficuldade. 

O couteiro alto protestou contra a introducção de um su- 
jeito em carrinho de mão no meio de um grupo de caçado- 
res, como uma tremenda violação de todas as regras estabe- 
lecidas e de todos os precedentes. 

A objecção era forte, mas não invencivel. Tratou- se de 
acarinhar e de untar as unhas ao couteiro, o qual além d'isso 



94 AS AVENTURAS 



alliviou o animo com uns sopapos na cabeça inventiva, que 
suggerira o uso da machina. 

Pozeram-se finalmente a caminho, Wardie e o couteiro 
na frente, como guias, e na rectaguarda osr. Pickwick no car- 
rinho, impellido por Sam. 

— Pare ahi, Sam I disse o sr. Pick^vick quando elles iam 
a meio do primeiro campo. 

— Que é isso agora ? perguntou Wardie. 

— Eu não consinto que o carrinho dê mais um passo, 
disse resolutamente o sr. Pickwick, se Winkle não levar 
aquella espingarda de outro feitio. 

— Como ^ que eu hei de leval-a ? disse o misero Win- 
kle. 

— Com a bocca virada para baixo. 

— Isso é contra todas as regras do sport, objectou Win- 
kle. 

— Quero lá saber se é contra as regras do sport, ou não 
é ! Eu o que não quero é que me fuzilem n'um carro de mão, 
por amor das apparencias e para agradar aos outros. 

— E' certo que este senhor ferra com a carga pelo corpo 
de alguém dentro, antes de querer disparar, rosnou o cou- 
teiro alto. 

— Bem, bem — não faço questão d'isso, disse o pobre 
Winkle, virando a coronha para cima. Aqui está. 

— Tudo pela paz, disse Sam. 
E continuou a andar. 

— Esperem ! disse o sr. Pickwick, depois de terem avan- 
çado umas poucas de jardas. 

— Que ha novo? perguntou Wardie. 

— Aquella espingarda de Tupman está perigosa ; está com 
certeza. 

— O que ? o que ? está perigosa ! disse o sr. Tupman com 
grande susto. 

— Está, se vossê lhe segura d'essa forma. Sinto muito fa- 
zer mais objecções, mas o que eu não posso é consentir em 
ir avante, se vossê não fizer como íez Winkle. 

— Quer-me parecer que é melhor, disse o couteiro, quando 
não arrisca-se a alojar a carga ou na sua vestia ou então na 
dos outros. 

O sr. Tupman, com a mais obsequiosa prompiidão, collo- 



no SR. HICKWICK 2cp 



cou a sua arma na posição requerida, e o rancho pòz-se de 
novo a caminho. 

Os dois amadores iam com as espingardas para baixo, co- 
mo uma patrulha em funeral. 

Os cães estacaram de repente, e o rancho deu um passi- 
nho furtivo e estacou também. 

— Que diabo teem os cães nas pernas ? segredou o sr. 
Winkle. Estão assim com um ai estrambótico ! 

— (]ale-se, homem, por favor! repHcou Wardle devaga- 
rinho. Vossè não vê que elles estão a repontar ! 

— A repontar I disse o sr. Winkle olhando para todos os 
lados, como se esperasse descobrir alguma belleza erpecial 
de paizagem, para a qual os intelligentes animaes estivessem 
chamando a attenção. A repontar! A repontar com que? 

— Abra bem esses olhos ! disse Wardle que não ouvira a 
pergunta na excitação do momento. Agora, agora ! 

Sentiu-se um esvoaçar ruidoso, que fez recuar brusca- 
mente o sr. Winkle como se tivesse apanhado, elle próprio 
imi tiro. 

Pan ! pan ! resoaram dois tiros ; — o fumo rolou pelo 
campo fora, ennovelando-se nos ares. 

— Onde estão ellas ^ disse o sr. Winkle no cumulo do en- 
thusiasmo, virando-se em todas as direcções. Onde estão el- 
las? Diga-me quando hei de fazer fogo. Onde estão ellas? 
onde estão ellas ^ 

— Onde estão ellas! disse Wardle apanhando duas per- 
dizes que os cães lhe tinham deposto aos pés. Onde estão el- 
las ! E' boa ! estão aqui ! 

— Não são essas ! estou fallando das outras ! disse Win- 
kle muito assarapantado. 

— Onde irão ellas a estas horas ! replicou Wardle, carre- 
gando friamente a espingarda. 

— E' provável que d'aqui a cinco minutos a gente esteja 
a contas com outra ninhada, disse o couteiro. Se este senhor 
começar agora a disparar, pôde ser que o chumbo esteja a 
sahir do cano quando ellas se levantarem. 

— Ah ! ah ! ah ! rugiu Sam Weller. 

— Sam ! disse o sr. Pickwick, compadecido da confusão 
e do embaraço do seu discipulo. 

— Senhor ! 



20t) AS AVENTURAS 



— Não se esteja a rir. 

— Não, senhor. 

Mas, para se inJemnisar, Sam poz-se a contorcer as fei- 
ções, por detraz do carro, para exclusivo divertimento do 
garoto das polainas. 

Este desatou ás gargalhadas ruidosas e foi summaria- 
mente tosado pelo couteiro, que precisava de um pretexto 
para se voltar e disfarçar as suas ganas de riso. 

— Bravo, meu velho I exclamou Wardle para o sr. Tup- 
man. Vossê ao menos d'esia vez fez fogo. 

— E' verdade que sim! replicou o sr. Tupman com or- 
gulho. Disparei o meu tiro. 

— Isso é que se quer. Para a outra vez acertará em alguma 
cousa, se tiver olho vivo. E' facilUmo, não é ? 

— E', é muito fácil. O diabo é que faz doer o hombro. 
la-me atirando de pernas para o ar. Nunca imaginei que es- 
tas armas, pequenas como são, dessem couces tão valen- 
tes. 

— Ahl disse o velho a sorrir. VossG se costumará, é ques- 
tão de tempo. E então agora — agora a postos — lá o carri- 
nho está em ordem ? 

— -Prompto, senhor, redarguiu Sam. 

— Então, ala I 

— Aguente-se bem, senhor, disse Sam levantando o carro. 

— Sim, sim, replicou o sr. Pickwick. 

E o rancho seguiu o mais depressa que pôde. 

— Ora agora, deixem ficar o carrinho ahi atraz, gritou o 
sr. Wardle, depois de se ter passado o carro por cima do 
cercado para outro campo, e de se ter de novo mettido n'elle 
o sr. Pickwick. 

— Está bem, senhor, disse Sam parando. 

— Agora, Winkle, siga-me devagarinho, e veja se d'esta 
vez anda mais vivo. 

— Não tenha medo, disse o sr. Winkle. Os cães estão a 
repontar ? 

— Não, por ora não estão. Silencio, agora, silencio 1 

E iam andando muito subtilmente, senão quando o sr. 
Winkle, ao executar com a espingarda varias evoluções muito 
intrincadas, disparou accidentalmente, mesmo no momento 
critico, passando a carga por cima da cabeça do garoto, no 



DO SR. PICKWICK 20' 



itio exacto onde estariam os miolos do couieiro alto, se elle 
estivesse no logar do rapaz. 

— Esta só pela breca! pVa que diabo disparou vossc ." 
perguntou o velho Wardle, emquanto as perdizes voavam in- 
cólumes para longe. 

— Nunca na minha vida vi uma espingarda assim, repli- 
cou o pobre Winkle, olhando para o gatilho, como se isso 
remediasse alguma cousa. Dispara por si, o diacho I Ella c 
que tem vontade de disparar. 

— Ah ! tem vontade ! disse Wardle, um pouco irritado, 
i^ois era bem bom que ella tivesse vontade de matar alguma 
cousa ! 

— Isso não tarda, senhor! observou o homem alto, com 
voz cava e prophetica. 

— Que quer vossè dizer com essa observação ? interrogou 
com aspereza o sr. Winkle. 

— Não se rale, não se rale. Eu cá por mim não tenho fa- 
mília; e quanto aqui a este petiz, a mãe sempre ha de apa- 
nhar alguma cousa a Sir Geoffrey, se o matarem nas suas 
terras. Torne a carregar, senhor — torne a carregar. 

— Tirem-lhe a espingarda, bradou do carrinho o sr. Pick- 
wick, horrorisado com as negras insinuações do couteiro. 
Tirem-lhe a espingarda I Ouviram ? Alguém ! 

Ninguém comtudo se resolveu a obedecer a esta ordem : 
e o sr. Winkle, depois de dardejar um olhar rebelde sobre o 
sr. Pickwick, carregou outra vez a espingarda e seguiu para 
a frente com os outros. 

Somos forçados a asseverar, fiados na auctoridade do sr. 
l"*ick\vick, que o procedimento do sr. Tupman demonstrou 
muito maior prudência e deliberação do que o adoptado pelo 
sr. Winkle. 

Em todo o caso, isto por modo algum deprime a grande 
auctoridade d'este ultimo em assumptos de sport: visto que, 
como bellamente observou o sr. Pickwick, tem succedido 
desde tempos immemoriaes que muitos dos melhores e mais 
hábeis philosophos, perfeitos luminares da sciencia em ma- 
téria theorica, teem sido absolutamente destituídos de habi- 
lidade precisa para a reduzir á pratica. 

O processo do sr. Tupman, como muitas das nossas mais 
sublimes descobertas, era extremamente simples. 



2()^ AS AVFNTURAS 



Com a rápida perspicácia de um homem de génio, elle 
percebeu logo á primeira que os dois grandes fins a attingir 
eram — primeiro, disparar a espingarda sem tazer damno a 
si próprio, e segundo, fazei o sem perigo para os assistentes ; 
— por conseguinte, a melhor cousa a fazer, vencida a diffi- 
culdade de fazer fogo, era fechar os olhos com iirmeza e ati- 
rar para o" ar. 

De uma vez, depois de ter executado esta façanha, o sr. 
Tupman, ao abrir os olhos, viu uma nédia perdiz mesmo no 
acto de se despenhar ferida. 

Dispunha se mesmo a ir congratular Wardle pelo seu 
êxito invariável, quando este se adiantou para elle e disse, 
apertando-lhe calorosamente a mcãc- : 

— Tupman, vossê ídvejou especialmente esta perdiz ? 

— Não I não ! 

— Alvejou tal, que eu bem vi — observei-o a extremal-a 
com a vista — reparei como vossê levantava a espingarda 
para fazer pontaria: e sempre direi que nem o melhor atira- 
dor d'este mundo poderia dar um tiro mais bonito. Vossê é 
menos peixote do que eu pensava, Tupman; — vossG já está 
farto de caçadas. 

Debalde o sr. Tupman protestou, com um sorriso modes- 
to, que nunca tinha caçado. 

Até o sorriso se lhe tomou como prova do contrario; e 
d'ahi por diante ficou estabelecida a sua reputação. 

Não é esta a única reputação que tão facilmente se tem 
adquirido, nem tão felizes circumstancias se limitam á caça 
das perdizes. 

Entrementes, o sr. Winkle fartava-se de produzir estam- 
pidos, e relâmpagos, e fumos, sem produzir resultados mate- 
riaes dignos de nota ; umas vezes perdendo a carga pelos 
ares, outras fazendo-a resvalar réz-véz com a terra e pondo 
em situação bastante incerta e precária as vidas dos dois 
cães. 

Como ostentação de phantasia, era isto em extremo va- 
riado e curioso ; como tiro a alvo definido era porventura, 
em summa, um fiasco. 

Ha um axioma, geralmente aceite, que «não ha balas sem 
iobrescripto." 

Applicada ctita regra aos tiros do sr. Winkle, [)odiam elles 



no SR. PiCKWicK H)q 



considerar se míseros ens^eitados, privadf)S de direitos natu- 
raes, abandonados aos vaevens do mundo, e sem destino de- 
terminado. 

— Kntão que n-ie diz? exclamou VVardle, aproximando-se 
do carrinho, e enxugando do rosto vermelho e galhofeiro as 
torrentes de suor. Um diasinho de fazer fumo, não acha ? 

— Se é ! replicou o sr. Pickwick. O sol está de queimar, 
até para mim. Nem calculo como os senhores o hão de sen 
tir. 

— Kstá quentinho, lá isso está. E já passa do meio dia. 
\'c além aquelle mouchão verde ? 

— l^erfeitamenie. 

— Ali é que nós havemos de lanchar; e olhe! lá está o 
rapaz com o cesto, pontual como um relógio. 

— K' verdade que sim! exclamou o sr. Pickwick, aclaran- 
do-se-lhe a physionomia. Excellente rapaz! Hei de dar-lhe 
um shilling. Ande lá, Sam, rode lá com isso ! 

— Segure-se bem, senhor! disse Sam, reanimado com a 
perspectiva da comezaina. Safii do caminho, petiz das polai- 
nas ! Se tem apreço pela minha preciosa vida, veja lá não 
ferre comigo no chão, como dizia o tal cavalheiro quando o 
levavam para a forca. 

K estugando o passo até ao galope, Sam acarretou n'um 
prompto o amo até ao mouchão verde, descarregou-o com 
dextreza mesmo ao lado do cesto, e começou a desenfardar 
este n'um abrir e fechar de olhos. 

— Pastelão de vitella, monologou elle, dispondo os co- 
mestíveis sobre a relva. E' de chupeta o pastelão de vitella, 
o caso é a gente conhecer a patroa que o amanhou e ter a 
certeza que o recheio não é de gatos. Que afinal de coiltas, 
que mal ha n'isso, se elles se parecem tanto com a vitella 
que até mesmo os pasteleiros não são capazes de dar pela 
ditferença. 

— VÔsse falia serio, Sam ? perguntou o sr. Pickwick^ 

— Não dão, não senhor, redarguiu Sam levando a mão ao 
chapéo. Eu cá já morei na mesma casa com um pasteleiro, e 
por signal que era um bello homem — e não tinha nada de 
tolo. F^azia pastelões e empadões com tudo que lhe cahia nas 
unhas. E vae eu uma vez, quando me relacionei mais com 
elle, perguntei- lhe : 



Soo AS AVENTURAS 



« — Que data de gatos que vossc tem, sr. Brook !" 

'■ — Ah I sim I disse ellc, tenho, tenho muitos.» 

'. — Vossè deve ser muito amigo de gatos, <> disse-lhe eu. 

« — Ha outra gente que gosta d'elles,» respondeu elle, pis- 
cando-me o olho. «Mas antes do inverno não estão de sa- 
zão.» 

« — Não estão de sazão!» disse eu. 

« — Não estão I» disse elle, «em começando os fructos 
acabam os gatos.» 

«' — Que diabo está vossc p'r'ahi a alanzoar ?» pergun- 
tei eu. 

« — í'A aianzoar.^» disse elle. «E' que eu cá não entro na 
combinação dos cortadores para augmentar o preço da car- 
ne. Olhe, sr. VVeller», disse elle ao depois, apertando-me a 
mão com muita gana e segredando-me ao ouvido, «não diga 
nada a ninguém, mas o tempero é que é tudo. Todos elles 
são feitos com esses nobres animaes,» disse elle apontando 
para um lindo bichano malhado. «E eu cá arranjo-os para 
bife de vacca, para vitella ou para rim, conforme os pedidos. 
E ainda mais ! posso fazer da vitella vacca, ou da vacca rim, 
ou de qualquer d'ellas carneiro, n'um abrir e fechar de olhos, 
conforme o preço do mercado ou as mudanças de appe- 
lite!» 

— Devia ser um rapaz muito engenhoso, Sam I disse o 
sr. Pickwick com um ligeiro arripio. 

— Se era I replicou Sam, continuando a despejar o cesto, 
e os pastelões eram umabellezal Lingua ; sim, senhor, cousa 
rica, quando não é de mulher. Pão — presunto, tem boa cara 
— carne fria em fatias, gosto. Que é que está dentro d'aquel- 
les cangirões, minha ceresma ? 

— Cerveja n'este, replicou o rapaz tirando dos hombros 
duas enormes botijas de grés, atadas uma á outra por uma 
correia, e ponche frio no outro. 

— E c que é um lanche de estalo, disse Sam, vigiando 
com grande satisfação os preparativos do repasto. Agora, 
meus senhores, avancem I como disseram os inglezes aos 
francezes armando baionetas. 

Não foi necessário segundo convite para induzir o rancho 
a fazer plena justiça ás victualhas; nem de maiores instan- 
cias precisavam Sam, o couteiro e os dois garotos, para se 



DO SR. PICKWICK .^Ol 



assenlareni na relva, a pouca distancia, e para darem cabo 
de uma proporção decente de viandas. 

Um velho carvalho fornecia aprazível sombra ao gropo, e 
abaixo d'elles estendia-se um bello panorama de prados e 
terras de semeadura, cortado por sebes luxuriantes e rica- 
mente decorado de arvoredos. 

— Isto é delicioso — delicioso a valer ! exclamou o sm\ 
Pickwick, a cujo rosto expressivo cahia rapidamente a pelle 
pela exposição aos ardores do sol. 

— Pois é, é, meu velho ! replicou Wardle. Tome lá um 
copo de ponche. 

— Com o maior prazer, disse o sr. Pickwick ; e a satisfa- 
ção que se lhe pintou no semblante depois de ter bebido tes- 
temunhava a sinceridade da replica. 

— Bem bom, continuou elle dando um estalo com os bei- 
ços. Bem bom. Dê cá outro. Frio, muito frio. Meus senhores, 
proseguiu ainda, sem largar a botija, um brinde. Aos nossos 
amigos de Dingley-Dell. 

Fez-se honra ao brinde entre ruidosas acclamaçÕes. 

— Eu lhes digo o que vou fazer para arranjar outra vez 
boa pontaria, disse o sr Winkle, que estava a comer pão e 
presunto com uma navalha. Ponho uma perdiz empalhada na 
ponta de um poste, e vou-me exercitando a atirar-lhe, come- 
çando de perto e augmentando gradualmente a distancia. E' 
um exercício de primeira ordem. 

— Conheço um sujeito que fez isso, acudiu Sam. Come- 
çou á distancia de duas jardas, mas não tornou a atirar. Eogo 
ao primeiro tiro escangalhou o pássaro de modo que nin- 
guém mais lhe poz a vista em cima de uma penna. 

— Sam, disse o sr. Pickwick. 

— Senhor ? 

— Tenha a bondade de guardar as suas anecdotas para 
quando lh'as pedirem. 

— Sim, senhor. 

E Sam piscou o olho que não estava occulto com a ca- 
neca de cerveja que elle erguia aos lábios, com tão requin- 
tada facécia, que os dois garotos desataram em convulsões 
espontâneas, e até o homem alto deu um ar da sua graça. 

— Sim, senhor ! isto é que é um ponche de estalo ! disse 
o sr. Pickwick, olhando com ternura para a botija. E o dia 



.-^02 • AS AVENTURA*^ 



eslá quente como o demónio, e. . . Tupoian, meu caro ami- 
^o, dá-me um copo de ponche? 

— l^ois não I replicou o sr, Tupman. 

E depois de beber este copo o sr. I^ickwick tomou outro, 
so para ver se elle tinha dentro alguma casca de laranja, por 
isso que embirrava muito com as cascas de laranja. 

E como não as achasse no ponche, o sr. Pickwick bebeu 
outro- copo á saúde do amigo ausente, e em seguida sentiu- 
se fortemente impulsionado a propor outro brinde em honra 
do incógnito fabricante de ponche. 

A successão constante de copos produziu um etíeito con- 
siderável no sr. Pickwick ; a sua physionomia illuminou-se 
dos mais caloros-s sorrisos, nos lábios d'elle pairavam gar- 
galhadas, e nos seus olhos faiscava uma alegria benévola. 
Cedendo gradualmente á intkiencia do excitante liquido, mais 
excitante ainda em virtude do calor, o sr. Pickwick expressou 
o desejo vehemente de se recordar de uma canção que ou- 
vira na infância, e, como a tentativa se mallograssc, procu- 
rou estimular a memoria com mais copos de ponche, os quaes 
pareceram exercer o etfeito absolutamente opposto ; porque, 
tendo se primeiro esquecido das palavras da canção, come- 
çou a esquecer- se da forma de articular fosse que palavra 
fosse; e depois de se por em pé para dirigir á sociedade um 
eloquente discurso, acabou por cahir dentro do carrinho e 
[legar no somno sem solução de continuidade. 

Arrumado novamente o cesto e reconhecida a completa 
impossibilidade de acordar o sr. PickM'icl<, levantou- se al- 
guma discussão sobre se seria preferível Sam acarretar out.''a 
ve/, o amo na direcção do ponto de partida, ou deixal-o ficar 
onde estava até todos se aprestarem para o regresso. 

Optou se por esta ultima ideia ; e como a sua expedição 
não poderia durar ainda mais de uma hora, e como Sam ins- 
tava muito para os acompanhar, decidiu-se deixarem o sr. 
Pickwick a dormir no carrinho e virem buscal-o quando re- 
tirassem. 

Afastaram-se pois, deixando o sr. Pickwirk a resonar pa- 
cificamente á sombra. 

Não ha motivo para duvidyr que o sr. Pickwick teria con- 
tinuado a resonar á sombra até que os amigos voltassem, ou, 
á falta d'elles, até que as sombras da noite obscurecessem ^ 



DO SR. l'l<:KWir.K ^ .-^o. 



paisdj^em, se acuso o dtixasscnj t:m'pa/. Mas nã^o deixaram, 
e.eis o que a isso deu causai. • • ' 

Ucapitão Boldwig era- vim flom*em baixo, de ar Ipro, gra- 
vata preta muito rigida e sobretudo azul. 

(guando se dignava passeiar pelas suas propriedades, fa- 
/ia-o em companhia de uma grossa bengala de cana da índia 
cf)m castão de cobre, e de um jardineiro e de um moco do 
jardineiro, ambos de caras risonhas, aos quaes o capitão Bald- 
wig dava ordens com a devida pompa e ferocidade : porque 
i irmã da mulher do capitão Boldwig era casada com um 
marquez, e a casa do capitão era uma villj, c a sua proprie- 
dade era apanágio, e tudo isso era muito alto, e muito pode- 
roso, e muito nobre. 

Ainda não haxia meia hora que o sr, Pickwiclv estava a 
dormir, quando o capitão Boldwig, seguido pelos dois jardi- 
neiros, chegou com tamanhas passadas quanto lhe permittia 
a estatura pequena e a importância grande. 

Ao aproximar-se do carvalho, o capitão Boldwig parou, 
tomou o fôlego, olhou para a paisagem, como se imaginasse 
que a paisagem lhe ficaria muito agradecida por elle se ter 
dignado fazer n'ella reparo. Depois bateu energicamente com 
a bengala no chão e chamou o mestre jardineiro. 

— Hunt I disse o capitão Boldwig. 

— Senhor c disse o jardineiro. 

— Veja se me cylindra amanhã de manhã este sitio ~ ou- 
viu, Hunt r 

— Sim, senhor. 

~ E tome cuidado, veja se me conserva isto limpo c ar- 
ranjado — ouviu, Hunt? 

— Sim, senhor. 

— E lembre me para pôr uma taboleta por causa dos in- 
vasores da propriedade alheia, e dos caçadores, e o mais que 
se segue, para não deixar entrar aqui gente somenos. Ou\ lu, 
Ihmt, ouviu í 

— Não me hei de esquecer, senhor. 

— Dá me licença, senhor? disse o outro homem adian- 
lando-se com a mão no chapéo. 

Que quer vossè, Wilkins ? 

— (^om sua licença, qucr-me parecer que entrou hoje 
aqui alguém. 



lo4 • • . Aa ;a<^entwras 



■^^ • • . ; . 

— Como»^ dijse d ca|>itS£), circumviígando, o olhar mi- 
naz. . *•»•',., 

— 'S>fn, senhor; estiveram a*qi^i a jantar, creio eu. 

— Ora esta ! que pouca vergonha ! é verdade, é, disse o 
capitão ao reparar nos pedaços de pão e fragmentos de co- 
mida que juncavam a relva. Estiveram effectivamente a de- 
vorar aqui o seu repasto. Sucia de vagabundos ! se eu os apa- 
nhasse aqui á mão ! disse o capitão agarrando com força a 
bengala, furioso. 

— Com sua licença ! disse Wilkins, mas. . . 

— Mas o que ? Hein ? rugiu o capitão ; e seguindo o li- 
mido olhar de Wilkins, os seus olhos deram no carrinho de 
mão, com o sr. Pickwick dentro. 

— Quem é vossê, seu patife .'' exclamou o capitão, admi- 
nistrando varias bengaladas no corpo do sr. Pickwick. Como 
se chama vossê .'' 

— Ponche frio. murmurou o sr. f^ickwick pegando outra 
vez no somno. 

— Como? 

Nada de resposta. 

— Que nome é que elle disse ? perguntou o tapitao. 

— Ponche, parece-me a mim, respondeu Wilkins '. 

— Isto é que é insolência, isto é que é patifaria. O que elle 
está é a fingir que dorme, disse o capitão no auge da cólera. 
Está bêbado ; é um plebeu bêbado. Rode com elle d'aqui, 
Wilkins, rode com elle, e quanto antes. 

— Para onde quer o senhor que eu rode com elle '^ per- 
guntou Wilkins com grande timidez. 

— Para o diabo que ò carregue. 

— Sim, senhor. 

— Espera ! 
Wilkins parou logo. 

— Roda com elle para o curral publico - ; e vamos a vcr 
se, elle ainda dá pelo nome dé Ponche, quando voltar a si. 
(Comigo não brinca elle, comigo não brinca. Roda com "*lle. 



Punch é o nome do popular polichinelo inglez. 

FounJ, c^pecie de, parque commum onde se mettcm os animaes vadios 



no SR. piCKWiCK 3o5 



Km obediência a esta imperiosa ordem, foi pois o sr. Pick- 
wick acarretado, e o grande capitão Boldwig, túmido de in- 
ilignação, proseguiu no seu giro. 

Inèxprimivel foi o espanto do pequeno grupo quando, ao 
voltar, deram por fiilta do sr. Pickwick e mais do seu vehi- 
culo. 

Era o caso mais mysterioso e inaudito que possivel 
era. 

Um homem coxo pôr-se sem mais nem mais em pé e sa- 
far-se, já era um caso extraordinarissimo ; mas lá carregar 
com um carrinho pesado, só por divertimento, isso é que 
chegava a ser positivamente milagroso. 

Procuraram por todos os cantos e recantos da visinhança, 
juntos e separados; gritaram, assobiaram, riram, chamaram 
— tudo com o mesmo resultado. 

Não houve maneira de pôr a vista em cima do sr. Pick- 
wick ; e depois de algumas horas de buscas infructuosas, che- 
garam á desagradável conclusão de que elle devia ter voltado 
para casa sósinho. 

Entrementes, o sr. Pickwick fora acarretado para o curral, 
e ahi depositado com toda a segurança, a dormir a somno 
solto no carrinho, o que causara um incommensuravel rego- 
sijò não só a todos os garotos da terra, mas a três quartas 
partes da população, apinhados em volta do curral á espera 
que elle acordasse. 

Se o jubilo geral se excitara por o verem a rodar no car- 
rinho de mão, centuplicou quando, depois de alguns gritos 
indistinctos de «Sam!», elle se sentou no carrinho e fitou 
pasmado e attonito as caras que o cercavam. 

E' claro que o seu despertar foi assignalado por uma as- 
suada geral; e outra mais rija ainda, se possivel é, acolheu a 
sua pergunta : 

— Que é isto ? 

— Que grande pagode ! rugiu a populaça. 

— Onde estou eu ? exclamou o sr. Pickwick. 

— No curral, replicou a turba. 

— Como é que eu vim aqui parar .'' Que estava eu a fazer ? 
D'onde é que me trouxeram ? 

— Boldwig ! o capitão Boldwig ! foi a única resposta, 

20 



3o6 AS AVENTURAS 



— Tirem-me d'aqui 1 Onde pára o meu criado ." Onde se 
metteram os meus amigos '■: 

— Vossê tem lá amigos I Hurrah ! 

E em cima do sr. Pickwick cahiu um nabo, em seguida 
uma batata, depois um ovo, e emtim varias outras manifesta- 
ções da propensão galhofeira da turba. 

Ninguém pode dizer quanto tempo duraria esta scena, ou 
quanto teria sotirido o sr. Pickwick, se não fosse a chegada 
súbita de uma carruagem, d'onde se apeiaram o velho War- 
dle e Sam Weller, o primeiro dos quaes, em muito menos 
tempo do que levamos a escrever estas linhas, abriu caminho 
para o lado do sr. Pickwick e pregou com elle dentro do ve- 
hiculo, no momento preciso em que o segundo concluia o 
terceiro e ultimo assalto, no combate singular que sustentara 
contra o bedel da terra. 

— Corram a casa do juiz, gritaram uma dúzia de vozes. 

— Pois simi corram lá! disse Sam, saltando para a almo- 
fada. E façam lhe os meus cumprimentos — cumprimentos 
do sr. Weiler. E digam-lhe que eu lhe escangalhei o bedel, 
e se elle arranjar outro novo, que eu cá volto amanha a es- 
cangalhal-o. Rode lá, velhote I 

— Apenas chegue a Londres, hei de dar instrucções ao 
advogado para intentar uma acção contra o capitão Boldwig, 
por prisão illegal, dr,se o sr. Pickwick apenas a carruagem 
sahiu do povoado. 

— Parece que nós lhe tínhamos invadido a propriedade, 
disse Wardle. 

— Não quero saber d'isso ! Hei de mover lhe um processo. 

— Isso é que vossè não move tal. 

— Ora se movo! tão certo. . 

Mas ao ver uma expressão de troça na cara de Wardle, o 
sr. Pickwick interrompeu-se e disse : 

— Porque não ? 

— Ora porque! respondeu o velho Wardle quasi a reben- 
tar com riso, porque pôde virar-se o feitiço contra o feiti- 
ceiro, se elles disserem que nós tínhamos no bucho ponche 
de mais. 

Por mais que fizesse, o sr. Pickwick não pôde suster um 
sorriso que lhe aclarou a phvsionomia : o sorriso converteu-. 



no SR. i'iCK\víCK 3o7 



se em gargalhada, e gargalhadas foram ellas que se comnui- 
nicaram a todos. 

No intento de manter este bom humor, pararam na pri- 
meira taverna que se lhes deparou á beira da estrada, e rega- 
laram- se com uma roda de aguardente e agua, contemplando 
Sam Weller coni um copazio de força máxima. 



FIM DO 1." VOI UME 



índice 



Pag. 

Capullo I — Os pickwickaiios 3 

Capitulo 11 — Jornad» do primeiro dia, c aventuras da primeira tarde, 

com as suas consequências (j 

Capitulo 111 — Um novo conhecimento. —A historia do actor ambu- 
lante. —Uma interrupção desagradável, e um encontro impor- 
tuno . . 4" 

Capitulo IV — Um dia n'um acampamento. - Mais amigos novos; e 

um convite para o campo ? l 

Capitulo V — Que é curto — mostrando entre outras cousas, como o 
sr. Pickwick se metteu a guiar um trem e o sr. Winkle a andar 
a cavalio; e como ambos se sahiram da empresa 6g 

Capitulo VI —Uma partida n'outros tempos. —Os versos do clérigo. 

— Uma historia : a volta do degredado 8o 

CAPrruLO VII — De como o sr. Winkle, em vez de atirar ao pombo 
c matar a gralha, atirou á gralha e acertou no pombo. — De como 
o club de cricket de Dingley Dell jogou contra o de Muggieton 
c de como Muggieton jantou a custa de Dingley Dell. — Com 
outras matérias interessantes e instructivas 98 

Capitulo VIII — No qual se prova que o verdadeiro amor nem tsem- 

pre anda .sobre carris 1 1 5 

Capitulo IX — Uma descoberta e uma perseguição i.w 

Capitulo X — Que dissipa todas as duvidas (se algumas existissem 

ainda) com respeito ao desinteresse do sr. Jingle Hi 



índice 



Pag. 

<^*i'irLLO XI — Comendo uma outra jornada, c uma descoberta ar- 
clieologica: exarando a resolução do sr. Pickwick de assistir a 
uma eleição; e inserindo um manuscripto do velho vigário i5s 

(Capitulo XIÍ — Km que se descreve um passo importante dado pelo 
sr. Pickwick. marcando época lanto na sua vida como nesta his- 
toria iKi 

Capitulo XIII — Algumas noticias sobre Eatanswill, sobre a situação 
dos partidos n'essa terra, e sobre a eleição de um membro para 
representar no parlamento esse antigo, leal e patriótico bur^ío. . . iS8 

Capitllo XIV— Contendo uma rápida descripçao da sociedade re- 
unida no 'Pavão*, e uma historia contada por um bufarinheiro. 2o<j 

Capitulo XV — No qual se dá um retrato fiel de duas pessoas illus- 
tres; e uma descripçao exacta de um grande almoço na casa e 
nas terras d'ellas ; o qual almoço leva ao encontro de um velho 
conhecimento, e ao começo de novo capitulo 23o 

Capitulo XVI — Tão cheio de aventuras que se não pôde descrever 

siimmariamente 2.\~ 

Capitulo XVII — Mostrando como um ataque de rheumatico pode 

em certos casos actuar como estimulante de génio inventivo.... 2(>.S 

Capitulo XVIII — Que serve para demonstrar resumidamente dois 
pontos: —primeiro, o poder dos faniquitos; segundo, a força das 
circumstancias 2/X 

Capitilo XIX — Um dia agradável, com um íim desaeradavcl 290 



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